Rúben Amorim saiu do Manchester United, numa decisão que aparenta estar mais ligada a egos do que propriamente a resultados desportivos. Ainda que estes não fossem ideais, eram, nesta fase da época, ajustados ao contexto competitivo e, sobretudo, à qualidade do plantel disponível.
Do ponto de vista ofensivo, o rendimento da equipa era claramente positivo. O Manchester United apresentava o 3.º melhor ataque da liga, com 34 golos marcados, e era a 4.ª equipa com mais golos esperados (xG). Ainda assim, existiam problemas evidentes na concretização: apenas a 10.ª melhor equipa na conversão de remates (32%) e a 4.ª pior no diferencial entre golos marcados e golos esperados (-2.2). Ou seja, produzia-se bem, mas finalizava-se abaixo do expectável.
Defensivamente, porém, os problemas eram mais profundos e recorrentes, impedindo a equipa de ganhar consistência competitiva e séries de vitórias. Curiosamente, essas dificuldades não estão relacionadas com a quantidade de ações defensivas, mas sim com a sua qualidade. O United é a segunda equipa contra quem os adversários criam melhores oportunidades por remate (0.12 npxG por remate) e é também a 5.ª equipa contra quem os adversários mais superam os golos esperados (+3.6). Cada erro defensivo tende, assim, a ter um impacto elevado.
Apesar de apresentar uma média de 54% de posse de bola, a 5.ª mais alta da liga, o que por si só reduz o volume de remates sofridos, o tempo que a equipa passa sem bola é demasiado exigente. Sempre que perde a posse, o Manchester United revela grandes dificuldades em controlar o jogo sem bola e em proteger zonas críticas do campo.
Daqui surge a questão central: estamos perante problemas estruturais ou individuais?
Ao analisar o gráfico de PPDA versus percentagem de recuperações altas, percebe-se que o United é a 3.ª equipa com a pressão mais intensa da liga. No entanto, apenas 15% das recuperações são feitas em zonas altas, o que demonstra uma pressão pouco eficaz. A equipa pressiona muito, mas não recupera onde pretende recuperar.


Essa ineficácia na pressão alta desencadeia uma série de problemas em zonas mais recuadas. Quando uma ação defensiva falha, o jogador da cobertura entra num dilema constante: abandona o seu adversário direto para enfrentar o portador da bola ou mantém a posição e concede espaço para progressão. Qualquer uma das decisões beneficia o adversário, que ganha metros, fixa jogadores do United e encontra frequentemente o homem livre.
Esse homem livre surge, muitas vezes, no espaço entre a linha média e a linha defensiva. Isto acontece porque a linha média tende a subir, enquanto a linha defensiva mantém a sua posição. Mesmo quando um dos centrais salta para esse espaço intermédio, fá-lo sem conforto, expondo ainda mais a estrutura defensiva.
Quando comparamos estas métricas com a última época completa de Rúben Amorim no Sporting, torna-se evidente que os comportamentos defensivos são muito semelhantes aos observados no Manchester United. Isto confirma algo que sempre esteve à vista: não existiram alterações significativas no sistema para adaptação ao novo contexto, nem para o bem, nem para o mal.


As principais diferenças entre os dois contextos surgem no número de remates concedidos e nas conduções progressivas enfrentadas. Na Premier League, o ritmo, a intensidade e a qualidade individual dos adversários expõem de forma mais clara fragilidades que, noutro contexto competitivo, poderiam ser parcialmente camufladas.
Estas comparações permitem concluir que os problemas do Manchester United são simultaneamente estruturais e individuais. Estruturais, pela falta de adaptação do modelo a um novo contexto competitivo; individuais, porque o plantel não apresenta, no contexto da Premier League, uma superioridade física e técnica que permita atenuar esses problemas. Pelo contrário, a ausência dessa superioridade não só não disfarça as fragilidades como as amplifica, obrigando os jogadores a tomar mais decisões defensivas em menos tempo e sob maior pressão.

