1.000 jogos depois, continua a haver espaço para histórias inéditas como estas | Diário do Mundial 2026 #10

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Altas paradas dos Países Baixos | Países Baixos 5-1 Suécia

Cody Gakpo Países Baixos Suécia
Fonte: Federação Neerlandesa de Futebol

A primeira jornada do Mundial 2026 foi um erro na avaliação de Países Baixos e Suécia. Nem os neerlandeses deixaram tantas dúvidas como muitos quiseram ver, nem os suecos são tão fortes como a estreia aparentou. No embate entre os dois europeus, uma lição de capacidade de relativizar. Nem sempre são amores à primeira vista no futebol.

A goleada dos Países Baixos deixa uma garantia para os adversários da equipa de Ronald Koeman. Permitir espaço para os neerlandeses explorarem é um pedido para sofrer. Também deixou uma garantia a Ronald Koeman. Nestes contextos, Brian Brobbey é uma obrigatoriedade. A afirmação de Donyell Malen como avançado central dá ao timoneiro neerlandês várias opções para a posição, mas nestes cenários, o possante avançado que reergueu a carreira com Francesco Farioli e agora vai brilhando em Inglaterra é fundamental.

É difícil olhar para Brian Brobbey e associar o avançado à pausa, mas nesta função, é capaz de ser, pelo menos, um abrandar antes do acelerar. Com ele em campo, os Países Baixos deixam de ter de tentar procurar o espaço de forma direta e podem contar com o avançado para ganhar o primeiro duelo, aguentar a pressão e dar seguimento ao ataque, quer tocando para alguém que esteja de frente, quer rodando e dando velocidade ao jogo. Não será o melhor avançado neerlandês, mas será o que melhor proveito tirá dos melhores avançados neerlandeses. E isso diz muito.

Brian Brobbey Países Baixos 2
Fonte: Federação Neerlandesa de Futebol

Com Brobbey a enquadrar, os Países Baixos ganharam desequilíbrio exterior. À direita, Denzem Dumfries e Donyell Malen, à esquerda Cody Gakpo e Tijjani Reijnders, a criar constantes superioridades numéricas nos correores. Pelos perfis, não é de estranhar que o lado direito tenha concentrado a maior quantidade de cruzamentos e o esquerdo tenha sido, por excelência, o lado da chegada. Brian Brobbey, o próprio, tratou-se de marcar dois golos dentro da área. Também Cody Gakpo, quer a atacar o segundo poste, quer num movimento habitual, a procurar a entrada da área, conseguiu rubricar dois golos. O último, esse, chegou de Crysencio Summerville. Começou no banco, depois de ter sido titular, mas conseguirá sempre, de início ou não, acrescentar uma dimensão técnica importante para não afunilar demasiado o jogo num universo de transições ou de ataques ao espaço.

Quanto à Suécia, deixa muitas dúvidas relativamente a dois pontos que seriam sempre essenciais. O primeiro é a solidez defensiva. Desta feita, Isak Hien, o grande protetor da área e ponto forte nos duelos individuais, perdeu tudo para com Brian Brobbey e fez a defesa sueca tremer. O segundo está na capacidade de enquadrar da melhor maneira a dupla Alexander Isak e Viktor Gyokeres. Sem conseguir retirar o melhor rendimento dos dois, quer individualmente, quer no trabalho feito em conjunto, será mais complicado.

De nota positiva, para o futuro, a exibição de Yasin Ayari. Novamente mais longe da saída, no papel de interior esquerdo, acabou por ser decisivo na forma como, no melhor período da Suécia em campo, depois da pausa para a hidratação – que deveria ter outro nome, porque a hidratação, entre a publicidade e o dedo de treinador está em terceiro plano. Aí, chegou perto da área e aproveitou as atenções dos centrais neerlandeses em Isak e Gyokeres para surgir como elemento surpresa. Também Anthony Elanga, um jogador com um perfil distinto, capaz de explorar espaços, entrou e marcou um golo. Por mais insuficiente que tenha sido para o resultado, pode ter sido suficiente para a última jornada. 

A qualidade acima da teimosia | Alemanha 2-1 Costa do Marfim

Alemanha Jogadores
Fonte: Federação Alemã de Futebol

Em março, a Alemanha defrontou um Gana em ebulição na preparação para o Mundial 2026. A vitória foi mínima, um 2-1 surgido apenas aos 88 minutos com um golo de Deniz Undav, que tinha entrado ao intervalo. Há muito tempo que em terras alemãs, imprensa e público pediam mais minutos ao avançado, que se tornou num daqueles assuntos inquietantes e que sempre deixou Nagelsmann inquieto. 

Nessa altura, foram várias as perguntas feitas ao treinador da Alemanha sobre o golo de Deniz Undav, um jogador a quem todos menos Julian Nagelsmann viam como merecedor de mais minutos. As palavras do treinador foram, no mínimo, surpreendentes. 

«Ele não estava muito envolvido no jogo, não teve ações antes do golo. Não acho que a exibição dele tenha sido boa  Se ele tivesse corrido durante 70 minutos antes, não sei se ele teria conseguido fazer aquilo [marcar o longo]. Após 70 minutos, especialmente considerando o calor do verão e 42ºC, poderia ser difícil para ele», disse Julian Nagelsmann sobre o autor do golo decisivo para a vitória. O técnico retratou-se, assumiu que pediu desculpas ao jogador e que as palavras, mais duras do que queria, foram exacerbadas por uma irritação relativa ao excesso de perguntas sobre o tema. 

Alemanha Jogadores 2 Mundial 2026
Fonte: Federação Alemã de Futebol

Independentemente da força das palavras, é evidente que Julian Nagelsmann não tem em Deniz Undav o seu jogador favorito. Aliás, ainda neste sábado, depois do bis do avançado para selar a reviravolta contra a Costa do Marfim e o apuramento para os 16 avos de final, o treinador alemão voltou a ser algo evasivo. 

«Agora, de certeza que vão começar as perguntas sobre se ele vai entrar em campo e ser titular nalgum momento. Isso é perfeitamente possível, mas ele está a desempenhar o seu papel de forma incrível», destacou Julian Nagelsmann. Deniz Undav já fez o suficiente para merecer outro protagonismo, para lá do papel secundário de somar alguns minutos em segundas partes resolvidas, para ter a assinatura no papel, mas também quando a urgência impera por um avançado de área, diferente do perfil mais associativo de Kai Havertz. E, se é evidente para todos que Deniz Undav não é o sonho de Julian Nagelsmann, há cada vez menos razões para não ser a realidade.

A Alemanha foi inferior à Costa do Marfim durante grande parte do jogo e só melhorou quando Nagelsmann mexeu e foi ao banco mudar o perfil de três jogadores. À hora de jogo, Nadiem Amiri entrou para o lugar de Aleksandar Pavlovic, empurrou Felix Nmecha para a base das jogadas e ajudou o meio-campo alemão a ganhar imposição; Jamie Lewling entrou, para dar energia ao corredor direito, numa altura em que Leroy Sané sofre de cada vez mais contestação e mostra cada vez menos futebol; e Deniz Undav entrou para o lugar de Musiala, que até estava bem em jogo, permitindo a Kai Havertz jogar nas suas costas. 

Deniz Undav Alemanha
Fonte: FIFA

Nos golos da Alemanha, houve Felix Nmecha, um dos melhores alemães no Mundial, a lançar, houve Nadiem Amiri a cruzar, mas acima de tudo houve Deniz Undav a impôr-se como avançado de área. No primeiro golo, tem também participação na jogada antes de aparecer no espaço certo a cabecear. No segundo golo, mérito seja dado ao passe de Nmecha que rasga a defesa e descobre Deniz Undav, o avançado tem uma rotação destinada aos avançados de área, aqueles que ainda fazem do golo a sua maior força. E, nisso, o avançado ganha cada vez mais ímpeto. Até quando a teimosia se fará impor? 

Depois de marcar nos descontos, a Costa do Marfim sofre nos descontos. Mais do que justo ou injusto, um resultado penalizador para toda a capacidade que os africanos tiveram de competir. Num futebol continental cada vez mais competitivo e estratégico, a Costa do Marfim tem um lugar cada vez mais elevado. Depois do 4-4-2 na estreia, Emerse Faé regressou ao 4-3-3 mais comum nos marfinenses e a aposta impediu a Alemanha de jogar tranquilamente, ocupando a zona central, reduzindo a influência dos passadores alemães e evitando que o jogo entrasse naquele espaço fulcral, onde se juntam os principais criativos, levando a bola para a zona de Leroy Sané.

Aliado à estratégia, houve duas exibições individuais que fizeram a Costa do Marfim ser superior à Alemanha durante a primeira parte e, principalmente, até às substituições alemãs. Yan Diomande não fez um jogo tão vistoso como diante do Equador, mas foi um autêntico tormento para a cabeça de Joshua Kimmich, que, defensivamente, não é lateral nenhum, muito menos contra a irreverência e velocidade do extremo marfinense, destaque do torneio. Depois, o maior destaque dos africanos foi mesmo o menino Christ Inao Oulai. Tem 20 anos e joga no Trabzonspor, mas não deverá muito tempo a entrar no radar de clubes de outro patamar. À esquerda, até para tentar isolar Diomande contra Kimmich, Konan projetava por dentro e era Oulai quem procurava iniciar saídas e dar andamento à bola. Além do passe, é um médio completo, com capacidade de transporte e um sentido defensivo notável, sendo de todos os médios o menos fulgurante do ponto de vista físico. Para quem não o conhecia, disse Olá(i).

O milagre de Curaçau | Equador 0-0 Curaçau

Jurien Gaari Curaçau Jogadores
Fonte: FIFA

O futebol já nos habituou a ser imprevisível e a oferecer múltiplas possibilidades de contar uma história. Ainda assim, de todas as histórias e contos de fadas que um Mundial está carregado, muito poucos poderiam prever que Curaçau marcasse um golo, desde logo, como fez na primeira jornada diante da Alemanha. Ainda menos gente estava crente numa possibilidade do modesto país das Caraíbas, o mais pequeno do Mundial 2026 e com apenas Tahith Chong, curiosamente o mais popular da convocatória, nascido na ilha, conquistar pontos. Foi isso que aconteceu diante de uma das seleções com mais estatuto para fazer uma gracinha. O equivalente ao 0-0 seria um milagre em quase todas as áreas da vida. Como é futebol, talvez seja um bocadinho menos miraculoso. Afinal, será que tendo justificações, continuará a ser chamado milagre?

Curaçau nem nas Caraíbas é uma seleção demasiado confiável no processo defensivo, onde tem dificuldades claras na defesa da área e no foco extremo numa tarefa a que a maioria dos jogadores, perfilados para atacar, não estão destinados a cumprir. Foi essa versão, livre, leve e solta, que Curaçau presenteou a Alemanha, num jogo fiel à sua identidade, mas com zero senso competitivo. Afinal, estar no Mundial já era competitivo o suficiente, poderíamos pensar.

Contra o Equador, ainda assim, foi uma versão bem diferente de Curaçau. Dick Advocaat apostou no 5-4-1 que já havia testado umas quantas vezes e procurou garantir a defesa da área, evitar que a equipa se partisse e tentar frustrar o Equador que tem, naturalmente, muitas culpas no cartório. Ainda assim, e antes dos deméritos equatorianos, há quatro exibições na seleção das Caraíbas que merecem destaque. 

Eloy Room Curaçau
Fonte: FIFA

Eloy Room somou 15 defesas no mesmo jogo. Num Mundial, em qualquer um nos seus quase 100 anos de existência, só por uma vez alguém fez mais: Tim Howard, em 2014, fez 16 contra a Bélgica nos oitavos de final. Ainda assim, esse recorde teve um prolongamento e mais 30 minutos. Em 90 minutos, são 15 o recorde. Tudo dito sobre o impacto que o guarda-redes de 37 anos teve. À sua frente, exibição muito sóbria de Armando Obispo, o jogador a nível mais elevado da seleção, muito forte na defesa da área e nos duelos, e de Sherel Floranus, mais impulsivo nas ações, mas totalmente dominador. Por fim, Tahith Chong merece um destaque curtinho. Dá tempo de bola à seleção e guia ataques. Mesmo pecando na definição em quase todos os lances, só o manter para si a bola já ajudou uma equipa que passou a maioria do tempo a defender.

E, tendo em conta o adversário, a opção entende-se. O Equador é uma das seleções mais estáveis e seguras do ponto de vista defensivo, mas ofensivamente, quer individualmente, quer coletivamente, tem lacunas notórias. Por mais que a exibição de Curaçau tenha sido meritória, há muito a dizer sobre a exibição equatoriana. Dos elementos da frente, apenas Gonzalo Plata conseguiu fazer algo diferente, na base da vontade em ficar perto da bola para gerar combinações que saíram sempre melhores na cabeça que na prática.

De resto, um deserto, mais ou menos árido, de ideias. No Equador, reina a desconfiança a partir dos primeiros lances falhados, no caso bem cedo no jogo. O passar dos minutos é doloroso para os equatorianos, e ainda mais complicado se torna quando a responsabilidade da bola fica aí. Sebastian Beccacece faz um trabalho bem sólido do ponto de vista defensivo, mas a estratégia para o jogo confundiu a equipa. A aposta nos três centrais deu meia parte de avanço e permitiu a desconfiança assumir o protagonismo Ao intervalo, o treinador até tentou ajudar a equipa a fluir melhor, com Kevin Rodríguez a entrar para ser o avançado pela esquerda e metendo Pedro Vite mais vezes em contacto com a bola, mas há um défice criativo claro. Kendry Páez anda perdido, algures entre más escolhas da carreira e uma cabeça que teima em não acompanhar o desenvolvimento dos pés. Sem o nome que já foi a grande esperança do país, o ataque do Equador concentra não mais do que jogadores banais e sem diferenciação. Esta discrepância entre o nível ofensivo e defensivo justifica quase tudo o que aconteceu e uma possível surpresa positiva, do nada, está em risco de não passar sequer ao grupo dos melhores 32.

Números redondos, vitórias redondas | Tunísia 0-4 Japão

Daichi Kamada Japão Jogadores
Fonte: Federação Japonesa de Futebol

O Tunísia x Japão não será o mais memorável jogo do Mundial 2026, longe disso, mas vai ser um daqueles que, quando alguém quiser dados sobre a história dos Mundiais, se deparará inevitavelmente. Desde que em 1930 a bola começou a rolar em Montevideo, num França x México ganho pelos gauleses, já se realizaram 1.000 encontros a contar para a competição. No último, o mais redondo dos números, uma vitória também ela com contornos redondos: 4-0 a favor do Japão.

Mais do que o Japão, uma das equipas mais consagradas do futebol mundial desde que Hajime Moriyasu tornou mais séria uma das seleções mais divertidas do mundo, havia uma expectativa, mais ou menos curta dependendo da confiança de cada um, para ver como se comportaria uma seleção que despediu um treinador após um jogo no Mundial, depois de lhe ter dado a confiança necessária para fazer uma revolução no plantel. 

Sabi Lamouchi foi embora depois de uma derrota humilhante, por 5-1. Seguindo o mesmo princípio, Hervé Renard também já deverá estar a pensar no voo de regresso a casa. A Tunísia não só perdeu por 4-0, exatamente os mesmos golos de diferença, como foi eliminada do Mundial 2026. Se o objetivo for ver processos e não resultados, uma nuance bem menor em torneios como este, de tiro curto, a imagem deixada pelos tunisianos ainda conseguiu ser pior. Tudo o que está mau pode pior, basta continuar a fazer coisas erradas e esperar que, por milagre algum, passem a resultar.

Japão Jogadores
Fonte: Federação Japonesa de Futebol

Num Mundial 2026 que se tem afirmado como de ascensão geral do nível de futebol continental de África, as exibições da Tunísia roçam o constrangedor. O objetivo da renovação, empreendida primeiramente pela Federação local, era dar espaço a jovens e a uma ideia de jogo mais positiva, um pouco à semelhança do que Marrocos procurou fazer. No entanto, e ao contrário dos marroquinos, esta tentativa foi feita no vazio e ainda piorou o que já era mau. Tudo ao contrário.

180.º depois está a seleção japonesa, que teve uma espécie de passeio diante da Tunísia. Houve nomes em destaque – Ayase Ueda a liderar o ataque, Junya Ito por dentro, Ao Tanaka como médio dinâmico, Daichi Kamada de regresso ao trio da frente – mas o impressionante nos nipónicos é a regularidade atingida pelo trabalho. Hajime Moriyasu assumiu os destinos da seleção depois do Mundial 2018 e deu-lhe uma cara renovada, marcada pelo entretenimento inerente à capacidade técnica e habilidade com bola dos jogadores japoneses, mas também pela competitividade. 

Só assim o Japão conseguiria já ter o apuramento carimbado, ainda de forma oficiosa, mas certa, depois de tamanhas dificuldades. Fora do Mundial 2026 estão Wataru Endo, Kaoru Mitoma e Takumi Minamino. Lesionado na estreia, Takefusa Kubo também é carta fora do baralho durante a fase de grupos. Mesmo assim, o Japão continua a jogar como se nada se tivesse passado. Aí está a grande evolução no jogo nipónico.

Diogo Ribeiro
Diogo Ribeirohttp://www.bolanarede.pt
O Diogo tem formação em Ciências da Comunicação, Jornalismo e 4-4-2 losango. Acredita que nem tudo gira à volta do futebol, mas que o mundo fica muito mais bonito quando a bola começa a girar.

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