A APAF defendeu no Parlamento um conjunto de medidas estruturais para travar o que descreve como a «normalização do conflito» no desporto.
A Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol (APAF) lançou esta terça-feira um alerta sobre o aumento da violência contra árbitros, num cenário que considera preocupante e em aceleração. Segundo a entidade, foram registadas 10 agressões a árbitros no último mês, um valor que representa cerca de 25% da média anual da última década.
«Em 10 anos, foram contabilizadas cerca de 400 agressões, o que corresponde a uma média de 40 por ano, mas só no último mês registaram-se 10 agressões», referiu o vice-presidente do contencioso da APAF, Sérgio Mendes, durante uma audição parlamentar.
O responsável alertou ainda para o perfil das vítimas e para a repetição de padrões de violência no futebol:
«A maioria dos casos envolve árbitros com menos de 25 anos e com apenas dois a três anos de experiência, sendo as agressões praticadas sobretudo por jogadores e elementos do público. Se eu tiver um incidente numa primeira divisão envolvendo árbitros, tenho a certeza que no fim de semana a seguir vou ter problemas», explicou.
Num segundo momento da audição, a direção da APAF reforçou a necessidade de mudanças mais profundas no sistema. O presidente da associação, José Borges, defendeu um pacote de medidas para travar a escalada de violência e garantir maior proteção aos árbitros:
«Assistimos com preocupação a uma escalada de comportamentos violentos, à normalização do conflito, à deterioração das condições de segurança, à persistência de condições laborais precárias e a um impacto negativo no sistema desportivo como um todo», afirmou.
Entre as propostas apresentadas, destaca-se a equiparação do árbitro a agente de autoridade para efeitos de proteção penal e a implementação obrigatória de videovigilância nos recintos desportivos:
«Não se trata de endurecer cegamente o sistema sancionatório, mas de clarificar o estatuto do árbitro e garantir o respeito institucional, criando condições para o exercício da função em segurança”», sublinhou José Borges.
Os dados apresentados mostram ainda que boa parte das agressões ocorrem em escalões jovens e em jogos sem policiamento obrigatório, com a associação a denunciar falhas graves na organização das competições.
«40% das associações permitem que sejam realizados jogos sem qualquer tipo de segurança. Estamos a falar de benjamins e infantis, onde os jogos normalmente são arbitrados por jovens de 14 anos. Não podemos ter alguém responsável por decisões que envolvem milhões de euros sem um enquadramento profissional digno», acrescentou.
Na mesma audição, vários partidos reconheceram a gravidade da situação e apontaram caminhos distintos. A deputada Liliana Sousa (PSD) defendeu o reforço da vertente educativa das sanções, enquanto Daniel Teixeira (Chega) sublinhou a necessidade de maior penalização. Já Dália Miranda (PS) destacou o impacto da violência na falta de árbitros, e Rodrigo Saraiva (IL) pediu uma melhor identificação das responsabilidades no discurso público e mediático.

