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A Suíça adormeceu e Lopetegui disse “Surpresa” | Suíça 1-1 Catar


Faltava apenas uma surpresa para o Mundial 2026 se poder considerar um Campeonato do Mundo na sua totalidade. Essa chegou num dos jogos mais improváveis, principalmente pelo cenário que se foi arrastando ao longo dos minutos. A Suíça foi consideravelmente superior ao Catar durante hora e tal, mas só marcou um golo. Livre de qualquer ameaça, para lá de dois lances ocasionais que Edmilson Júnior provocou, a equipa helvética controlou o jogo a seu belo favor. Mas não o resolveu, o cansaço e o calor acentuaram-se e houve espaço ao que ninguém foi capaz de prever.
Mahmoud Abunada foi herói. Se há reparo a fazer à Suíça, esse está relacionado com a eficácia, mas há uma razão bem forte para tal alheia à seleção europeia. À exceção de um penálti, no qual teve culpas no cartório, quando deixou o lado desenfreado superar o racional, Abunada não deixou entrar… nada. Além da surpresa, também fazia falta uma daquelas exibições impositivas do guarda-redes. Foi recompensado no fim, quando Boualem Khoukhi, já como central à direita, aproveitou o espaço criado e decidiu ser feliz numa aventura.
A seleção do Catar não tem grandes argumentos para ser competitiva de forma regular, mas Julen Lopetegui fez mudanças importantes ao intervalo. A gestão do ataque, onde Akram Afifi tem tanto de talentoso como de preguiçoso, é chave. Na primeira parte, o técnico espanhol tentou separar a equipa entre os três da frente e os outros e sofreu tanto que acabou, de forma bem desorganizada, com toda a equipa colocada de forma meio aleatória nas costas da bola. No segundo tempo, o 4-4-2 ganhou forma, com Edmilson Júnior e Jassem Gaber a fechar a segunda linha, e aumentou os níveis de organização e diminuiu os calafrios. A dificuldade em sair de forma curta continuará, a sair de forma longa também não há grandes argumentos – Almoez Ali continua em dúvida -, mas havendo o mínimo de organização, haverá espaço ao crescimento. Por agora, fica um dado histórico: foi o primeiro ponto do Catar na sua curta história nos Mundiais.


A Suíça termina o jogo recheada de dúvidas, num jogo que até parecia dar certezas. Há muito potencial na forma estratégica como Murat Yakin pode manobrar a equipa, algo refletido na forma como Michael Aebischer pode jogar por qualquer lado. Os canivetes são suíços por alguma razão. Desta vez, chegou a aparecer por fora, mas foi ficando cada vez mais dentro, dando aos laterais – Ricardo Rodríguez à esquerda e Denis Zakaria à direita – projeção. Com os extremos bem abertos e avançados, os interiores disponíveis e os laterais com liberdade maior, surgiram os triângulos capazes de incomodar o Catar e de gerar superioridades nos corredores para surgirem cruzamentos ou infiltrações (Remo Freuler em versão dominante no ataque ao espaço).
Outra eficácia teria resolvido o jogo. Há potencial na relação entre Breel Embolo, um avançado capaz de se oferecer no espaço, mas também cada vez mais influente a jogar em apoio e permitir as rupturas dos extremos. Quer Dan Ndoye, quer Ruben Vargas são jogadores com chegada e argumentos, na velocidade e condução e no drible, mas não tão limpos assim na definição. Entre tantos lances potenciais, não foram assim tantos os que resultaram em situação de remate ou de real perigo. O maior pecado que, nos minutos finais, pode ter visto já um vislumbre de resolução. Johan Manzambi entrou, no topo dos seus 20 anos, sem qualquer peso nos ombros. Estreia em grandes competições afirmativa, impositiva e sem medo de assumir responsabilidades. Quase como se a exigir mais minutos.
Era o prato forte do menu e teve os melhores ingredientes | Brasil 1-1 Marrocos


Não havia grandes dúvidas e, se as havia, foram dissipadas: o Brasil x Marrocos é o jogo grande da fase de grupos do Mundial 2026. Num cardápio com pratos de luxo, nenhum era tão grande quanto aquele que opôs um dos candidatos crónicos à vitória e o mais novo dos candidatos, que surpreendeu em 2022, tem todas as condições para encantar em 2026 e, se tudo correr como esperado, assumir a candidatura em 2030, em casa.
Marrocos foi melhor que o Brasil, principalmente na primeira meia hora de jogo. A avalanche em campo e o tamanho da diferença entre as duas equipas explica o crescimento marroquino, mas também a nova proposta de jogo para os mais desatentos. Depois de Walid Regragui, o selecionador do Mundial 2022, orientar os Leões do Atlas na CAN 2026, a Federação avançou com a mudança já há muito pretendida e promoveu Mohamed Ouahbi à seleção principal. Apesar desconhecimento do nome, foi valorizada a mudança em duas categorias: o rejuvenescimento do plantel – Marrocos foi campeão do Mundial Sub-20 e tem uma das gerações mais promissoras do futebol mundial a surgir – e a mudança na proposta de jogo. Marrocos já não vai ser a seleção que se vai fechar num bloco médio-baixo e procurar sair em transição. Vai sim procurar afirmar-se pela agressividade na pressão e pela habilidade técnica dos seus jogadores.
O início de Marrocos foi sufocante, limitando o Brasil no seu jogo e recuperando bolas no meio-campo adversário. Impediu os médios canarinhos de jogar, forçou erros, aproveitou os não provocados e soltou os talentos em catadupa na frente. Ismael Saibari é a imagem da vontade do novo treinador marroquino. Joga como elemento mais avançado, uma espécie de falso 9 que conjuga a facilidade nas associações com a capacidade de explorar espaços. Neste capítulo, aproveitou a bola perfeita de Brahim Díaz, a hesitação de Gabriel Magalhães e a saída atarantada de Alisson para marcar.


Nas suas costas, Bilal El Khannouss – a lesão de Abde Ezzalzouli levou a campo um perfil diferente -, Azzedine Ounahi e Brahim Díaz, o grande talento criativo da equipa, mas também Noussair Mazraoui, por dentro sobre a esquerda, e Achraf Hakimi a soltar-se. É muito fácil a Marrocos, quando com a bola nos pés, criar situações de perigo e superar marcações. Mais atrás, Neil El Aynaoui, mas, principalmente, Ayyoub Bouaddi, vão-se afirmando. O último, foi o melhor elemento em campo. Sem bola, venceu duelos, ganhou segundas bolas e cumpriu com elegância o papel que antes era destinado a Sofyan Amrabat, mais pela força física que pela leveza do posicionamento e da ação correta. Com bola, deu uma aula de tranquilidade e calma sob pressão, orientando a saída e gerindo o jogo. 18 anos de idade e toda a ideia de que sairá do Mundial 2026 para um dos maiores clubes do mundo.
O Brasil, mais do que tudo, conseguiu resistir. 90 minutos não são suficientes para qualquer julgamento com demasiada validade, mas não há como recordar como, depois da derrota contra a Arábia Saudita, na estreia há quatro anos, Lionel Scaloni mudou a Argentina de figura, deu protagonismo aos jovens e começou a campanha que só terminou com o título. Há no plantel do Brasil, jogadores a pedir a ultrapassagem pela direita, mas Rayan e Endrick, dois destes, nem saíram do banco. É certo que este Marrocos é bem superior à Arábia Saudita daqueles tempos, mas importa ao Brasil perceber o que correu mal.


A sensação que fica é de que o jogo só mudou pelo golo de Vinícius Júnior, que teria caído do céu não fosse o Céu, enquanto entidade religiosa responsável pela Criação, a pôr nos pés do brasileiro tamanho talento. Tão criticado pelo nível na Canarinha, Vini Jr chamou a si a responsabilidade e, com um momento de génio, mudou o jogo de figura e reduziu a distância entre equipas. Tem tudo para ser o seu torneio e o ponto de viragem na reputação que ainda procura conquistar.
A formação inicial não resultou. Ibañez pedia um extremo aberto, condição de que Danilo beneficiou, e Raphinha atuou por dentro, como uma espécie de pirilampo com mais apagões que brilhos. Partindo da esquerda, Lucas Paquetá também não apareceu e os médios cometeram demasiados erros. A ideia de lançar Igor Thiago assumia que o Brasil chegaria por alguma vez a ultrapassar a pressão alta de Marrocos. Só quando Lucas Paquetá se fixou no meio e o 4-3-3 foi assumido é que a canarinha conseguiu crescer, algo reforçado quando Fabinho rendeu Casemiro e deu alguma segurança na posse. Quando Ancelotti tentou voltar a juntar quatro avançados, mesmo deixando Matheus Cunha mais perto da base, o Brasil voltou a perder algum fio de jogo. O empate deixa questões, mas o futuro é mais importante que o passado.
(H)Ai de Ti que isto corresse mal… | Haiti 0-1 Escócia


A Escócia brincou com o fogo e correu riscos, mas não se queimou. Não se livrou de sustos, é certo, mas sobreviveu e venceu. Num Mundial em que os terceiros lugares têm nova vida, a despreocupação com o saldo de golos é estranha, mas três pontos são sempre três pontos.
Ter mais avançados nem sempre significa ter um futebol mais ofensivo. Sem Billy Gilmour, lesionado nos particulares antes do Mundial 2026, Steve Clarke perdeu o principal fator diferencial para jogos desta génese e decidiu apostar na ocupação da área, recuando Scott McTominay para posições mais perto da saída de bola e lançando dois pontas-de-lança.
Estrategicamente, a Escócia abdicou de ter a bola por mais tempo e focou-se no que poderia fazer de perigo quando a tivesse. Aí, Ben Gannon-Doak foi fator diferencial pela capacidade criativa e precisão técnica no cruzamento, e a Escócia conseguiu gerar superioridades na área, quer numéricas, quer dinâmicas (com jogadores a atacar a bola em movimento). Scott McTominay chegou a assustar, mas foi John McGinn, um dos heróis silenciosos do Aston Villa e da seleção, a marcar o golo que mudou, definitivamente, o perfil do jogo.


Já antes o Haiti vinha sido capaz de ameaçar a baliza adversária, com Wilson Isidor a oferecer-se por dentro e Louicius Don Deedson a acelerar por fora. No entanto, pouco se poderia prever relativamente à segunda parte. Não só a seleção das Caraíbas foi capaz de competir pelo jogo e pelo resultado, como foi amplamente superior, instalando-se no meio-campo adversário, conservando sobre si a bola e assinando as melhores ocasiões.
O domínio foi consentido, isso é evidente, mas a forma como o Haiti, dentro de todas as suas limitações, conseguiu colocar o resultado numa incerteza até ao final é assinalável. Na segunda etapa, Martin Expérience e Ruben Providence à esquerda aumentaram de rendimento, Josue Casimir entrou para acrescentar energia e Frantzdy Pierrot assumiu-se como referência na área, num trabalho sempre delicado diante de uma seleção com tantas mais-valias na defesa da área como a escocesa. Ricardo Adé, por exemplo, nome maior do futebol haitiano com uma carreira assinalável na América do Sul, foi mais visto como construtor, descobrindo passes, do que na defesa da área onde tem mais argumentos teóricos.
Faltou, para lá do mundo de diferenças de qualidade individual, outra capacidade de definição para transformar a energia em resultados. Nesse sentido, a exibição de Jean-Ricner Bellegarde, por dentro e não a partir do corredor como se antecipava, é algo agridoce. É a principal referência do Haiti, até por ter os anos de casa que Isidor não tem, e esteve envolvido em quase todos os lances. Ainda assim, faltou-lhe outro refino técnico no passe e outra consciência dos ritmos do jogo, numa partida onde ninguém esperaria que a seleção tivesse tanto tempo a bola nos pés. A Escócia pôs-se a jeito, mas sorriu e voltou a vencer num Mundial, depois de 26 anos. O Haiti ainda procura a primeira vitória na grande competição, mas pode sair satisfeito. A alegria nas bancadas acompanha a vontade em campo.
O salto competitivo dos Cangurus | Austrália 2-0 Turquia


Catar e Marrocos travaram os favoritos e o Haiti, não tendo pontuado, foi capaz de incomodar. Faltava uma grande surpresa na vitória e a Austrália assumiu esse protagonismo. Mais um jogo de evidente confronto de estilos no Mundial 2026, desta vez com um desfecho diferente na proposta, relativamente semelhante no continente. A beleza não se mede apenas pelo rendilhar dos lances, mas pelo balançar das redes. E, nisso, os Socceroos, cangurus do futebol, foram bem mais competentes.
Com Tony Popovic, a norma da seleção australiana está relacionada com a competitividade. Foram poucos os jogos em que a Austrália não foi competitiva, não lutou pelo resultado e não provocou problemas ao adversário. Desta feita, para lá do que a turma de amarelo e verde foi capaz de impedir, também se assinala o que conseguiu produzir. A Austrália será sempre uma seleção de choque, de capacidade de vencer duelos e de prioridade defensiva, mas o surgimento de novas referências ajudou a revolucionar as variáveis ofensivas.
O golo de Nestory Irankunda, a maior esperança do ataque australiano, comprova esta mudança. A Austrália sempre se fez valer pela capacidade física de ganhar duelos e enquadrar segundas bolas, mas já não precisa só dessa vertente. Agora também há capacidade de procurar diretamente o espaço. Nesse capítulo, ninguém com a mesma capacidade de Irankunda, um nome com claros argumentos na forma como perceciona o espaço e depois trabalha a bola. Tem em Mohamed Touré um companheiro com virtudes semelhantes, embora menos forte tecnicamente. Compensa-o com a tal vertente física, importante em alguns cenários.


Ainda assim, e por pensar em comparações, a seleção australiana ganhou também argumentos na maneira como faz a bola chegar à frente. Jordan Bos, lateral esquerdo de qualidade técnica, com chegada por fora e por dentro e capacidade para trabalhar a bola, e Paul Okon-Engstler, que surpreendentemente deixou Jackson Irvine no banco para desfilar com passes bem metidos, são duas das próximas referências. Lá atrás, e porque a solidez defensiva e a competitividade continuam a ser as prioridades, duas exibições de luxo. Patrick Beach esperava-se como o terceiro guarda-redes, foi titular e defendeu tudo com extrema segurança. À sua frente, recuperado de mais uma lesão bem prolongada, Harry Souttar chegou a todo o lado. É um defesa de Mundiais e um nome fundamental na estratégia defensiva australiana. Um autêntico muro contra quem a Turquia bateu e bateu vezes sem conta.
É quase inglório olhar para o jogo da Turquia. Para lá dos habituais espaços deixados com pouca ocupação e das dificuldades em transição defensiva, evidentes nos golos, há pouco que apontar à exibição de Vincenzo Montella. Não foi o jogo mais radiante dos grandes tecnicistas da equipa e coletivamente não foi uma exibição perfeita, mas os turcos apresentaram-se como sempre. No confronto de forças, esbarraram vezes e vezes contra o muro.
Há escolhas que acabaram por condicionar o jogo turco, num certo ponto demasiado focado no que Baris Alper Yilmaz conseguiria trazer no 1×1, numa tentativa de Kerem Akturkoglu funcionar como homem de área ou na capacidade de Zeki Çelik, um lateral de saída em posições mais baixas, ocupar todo o corredor. Mais tarde ou mais cedo, entraram os seus substitutos mais adequados, a Turquia chegou a juntar perto Hakan Çalhanoglu, Arda Guler e Kenan Yildiz, mas nada funcionou. As participações turcas em grandes competições têm tendência em ser de 8 ou 80. Hoje, algo no meio destes números foi insuficiente.

