«Eu quero que os meus jogadores tenham prazer no jogo que jogam» – Entrevista Bola na Rede a Rui Mota

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Rui Mota leva uma carreira de sucesso nos meandros do futebol europeu mais alternativo, com passagens pela Geórgia, Arménia e Hungria, antes de chegar à Alemanha. Antes disso, uma longa carreira como adjunto, desenvolvida entre a proximidade geográfica de Sporting e Braga e a página recheada de carimbos no passaporte. Entre as histórias e consequências da experiência e a forma de ver, tratar e falar do futebol, o treinador é a mais recente entrevista do Bola na Rede. A conversa deu-se, temporalmente, antes da assinatura pelo Waldhof Mannheim, o seu mais recente projeto.

Entrevista conduzida por Diogo Ribeiro e Ailton Pereira

«O plantel é quem me diz como é que havemos de abordar o nosso modelo de jogo». 

Rui Mota

Bola na Rede: Obrigado por ter aceitado o nosso convite. Ganhar por goleada ou ganhar o jogo no último minuto? 

Rui Mota: Bem, antes de mais, muito obrigado por me terem convidado. É sempre bom falar do futebol com quem sabe de futebol e, portanto, é com muito prazer que estou aqui. Ganhar é ganhar. Como é óbvio, são situações diferentes. Quando goleamos é porque muita coisa correu bem. Quando ganhamos no último minuto acaba também por ser um sabor muito gostoso, como costumamos dizer. Eu acho que ganhar é ganhar. E isso é o que me alimenta, é ganhar. 

Bola na Rede: Treinador principal ou treinador-adjunto? 

Rui Mota: Treinador principal.

Bola na Rede: Pep Guardiola ou José Mourinho?

Rui Mota: Ambos. 

Bola na Rede: Linha de 4 ou linha de 5? 

Rui Mota: Linha de 4. 

Bola na Rede: Jogo de transições ou privilégio à organização? 

Rui Mota: Organização.

Bola na Rede: Existem princípios básicos fundamentais para ti, que é obrigatório as tuas equipas terem, ou normalmente adaptas-te sempre à equipa e privilegias de acordo com o grupo de trabalho?

Rui Mota: Claramente. Tenho a minha ideia de jogo concebida ao longo dos vários anos, mas os jogadores são quem me diz a forma como irei jogar. Em função do grupo de jogadores que tenho à minha disposição, irei ter mais ou menos bola. Gosto muito de ter, gosto de assumir o jogo, gosto de dominar o jogo, mas para isso é preciso ter jogadores que tenham essas características para esse tipo de jogo. Portanto, é sempre feito uma análise da equipa, das suas capacidades e dos seus pontos fortes e acho que nós temos que ir ao encontro dos pontos fortes dos jogadores, de forma que o jogo saía com maior naturalidade e com mais eficiência. Claramente, o plantel é quem me diz, a mim e a quem trabalha comigo, como é que havemos de abordar o nosso modelo de jogo. 

Bola na Rede: Dentro de todas estas especificidades que são dependentes dos jogadores que têm, o que é que é inegociável na ideia de jogo? 

Rui Mota: Há muita coisa que é inegociável. Há critérios para mim que não são negociáveis. Ou seja, o compromisso, o empenho, o dar tudo aquilo que nós temos e dar o nosso máximo é algo que não é negociável. É algo que as minhas equipas têm que ter, os meus jogadores têm que ter, essa vontade de vencer. Em termos do nosso jogo propriamente dito, eu posso gostar de uma equipa que sai a jogar de trás, mas depois não tenho ferramentas para sair a jogar de trás… O treinador Rui Mota pode dizer que gosta e que sai a jogar de trás, mas depois perdemos a bola, levamos uma transição, cria insegurança para a equipa. Não estou a dizer que não trabalhemos essa capacidade e tentemos impor essa capacidade. Depois, mais à frente, aferimos se é possível ou não. Já aconteceu isso, pegar em equipas em que no ano anterior, pela filosofia do treinador, nós só víamos a bater e quando chegámos lá até reparámos que a equipa tinha qualidade para sair a jogar de trás. Há que experimentar, há que analisar, ver, sobretudo durante a fase de preparação, que é muito importante e depois, a partir daí, tomar as melhores decisões a equipa. Há uma coisa que é fundamental no futebol, que é ser competitivos e jogar para ganhar, seja lá qual for a forma.

«O jogo é dos jogadores. Eles são a peça mais importante. São eles que fazem com que as coisas aconteçam». 

Rui Mota
Rui Mota Waldhof Mannheim
Fonte: SV Waldhof Mannheim 07

Bola na Rede: Na construção do modelo de jogo, estiveste muitos anos como adjunto, agora como treinador principal. Quais é são as principais diferenças e encargos de responsabilidade entre um treinador-adjunto e um treinador principal?

Rui Mota: São grandes. Eu estou no futebol há muitos anos e o meu percurso foi todo ele uma preparação para chegar onde cheguei enquanto treinador principal. Tive o privilégio de trabalhar com grandes treinadores, com muitos jogadores de grande nível, e experienciar essa própria forma de estar no balneário, adaptações táticas, a forma de introdução dos modelos. Há uma panóplia de ferramentas que fui adquirindo enquanto adjunto, que me permitiram hoje em dia ter ferramentas para, enquanto treinador principal, tomar decisões e ser o melhor possível. Agora, como é óbvio, nós enquanto treinadores principais temos uma característica muito forte, que é a liderança, ou seja, temos uma característica mais de gestão, de gerir não só o nosso grupo, como a nossa equipa técnica, como tudo o que está à volta do clube, os próprios adeptos, a comunicação social. É um trabalho mais de gestão, embora, confesso que eu não consigo deixar de fazer tudo aquilo que já fazia anteriormente. Obviamente, tenho a minha equipa técnica que trabalha comigo, que me ajuda, sobretudo a tornar o método de trabalho mais eficaz e mais rápido, mas, pelo que tem sido o meu passado, é um bocadinho difícil de me desconectar dessas variáveis no dia-a-dia. Mas, claramente, enquanto treinador principal, mais da parte de gestão e liderança.

Bola na Rede: Quando tocaste na parte de liderança e no facto de teres sido adjunto e agora treinador principal, sentes que a tua equipa técnica deve ser grande, deve ser mais pequena, o papel que eles têm é mais de serem complementares à tua forma de ver ou devem ser como a tua segunda versão?

Rui Mota: Eu sou um líder que gosta de ouvir a opinião de quem trabalha comigo e é fundamental ouvir essa opinião porque nós não sabemos tudo, nós não ganhamos sozinhos. Toda essa discussão é muitíssimo importante. Quando eu comecei como treinador principal, não no primeiro projeto, mas depois no segundo e no terceiro projeto, tive a possibilidade de ter uma equipa vasta porque são cinco elementos. Neste momento tenho dois treinadores-adjuntos, um preparador físico, um analista e um treinador de guarda-redes. A questão, hoje em dia, também tem a ver com as estruturas, porque os clubes cada vez têm mais essas funções, sobretudo em termos de treinador guarda-redes, muitos deles até de preparação física também. É complexa esta gestão porque, se por um lado, os clubes estão preparados com essas ferramentas, nós temos uma forma e um método de trabalho, e como eu disse, ninguém ganha sozinho, portanto tudo aquilo que nós fomos alcançando, não se olha só para o meu trabalho, trata-se do trabalho de toda uma equipa técnica, e os êxitos estão adjacentes a isso. Não é fácil um número ideal. Agora, eu não tenho qualquer problema de trabalhar com clubes que têm essas pessoas e tento da mesma forma agregá-los para mim, tornando-os parte da minha família, do meu núcleo central. Claro que isto leva tempo e uma adaptação diferente a quando nós já estamos com uma equipa sistematizada, que já sabe, que já pensa como nós. Pegas também num aspeto muito importante. Obviamente quando eu não estou presente, eles têm que interpretar a ideia do treinador. Assim como quando eu era treinador adjunto, era essa a minha ideia. Às vezes temos discussões, e temos valências diferentes, e pontos de vista diferentes, mas quando chegava ao treino  e tudo o que fosse contato com os jogadores, tinha que interpretar o que o meu treinador queria. A partir daí era intocável e defendia-o como fosse eu a tomar essa decisão. Eu acho que isso é importante porque cria, do ponto de vista do jogador, assertividade na ideia. Não estamos ali e eu falo de uma coisa, depois vai outro e fala de outra. É aí que, às vezes, acho que quando nós temos pessoas de fora, dos clubes, que não estão tão inteirados na nossa forma de trabalhar, que pode haver esse risco porque não conhecem. Como não têm também um elo de ligação tão forte, acabam por falar um bocadinho aquilo que lhes vai na cabeça. O problema é que cria indefinições nos jogadores. Pela experiência que tive, e passei por inúmeros balneários, sei exatamente a importância de um adjunto dentro das conversas diárias, às vezes informais, que são muito importantes. Mesmo quando estamos nos exercícios, porque eu também gosto de sair e de ter um espectro mais amplificado, para perceber determinadas coisas. Quando estamos na gestão do exercício estamos ali um bocadinho mais fechados, embora hoje, filmando os treinos, depois acabamos sempre por pegar, mas há correções que já têm que ser no dia a seguir, a mensagem não é tão direta. 

Bola na Rede: E além das conversas e das possibilidades de crescimento e discórdia com a equipa técnica, onde é que os jogadores têm peso nesta discussão e nesta maneira de ver o jogo?

Rui Mota: Têm bastante. Primeiro pelas suas características, e foi como eu disse, gosto de ir ao encontro deles, tenho muitas conversas com os meus jogadores em função daquilo que é a sua posição, a sua ideia também de jogo. Agora, como é óbvio, nós temos que decifrar um caminho, porque temos um plantel de 25, 26, 27, às vezes até mais, jogadores, e tem que haver alguém que agarre em todas essas ideias e que comungue num grupo em que funcione e que eles consigam articular dentro do grupo e no jogo. Obviamente falamos e conversamos com eles, e tentarmos fazer-lhes perceber a nossa ideia e vender a nossa ideia, mas de uma forma verdadeira, porque o jogador sente. Se nós estamos a vender ali uma ideia e vacilamos, se não temos uma coisa muito concreta, eles sentem. São muito perspicazes nessa situação. É importante que nós tenhamos uma ideia definida. Não é a primeira nem a segunda vez que faço pequenas alterações da minha forma de jogar e do que acho que é o melhor para a equipa, em função do que vou vendo e vou sentindo o jogador.  O importante é nós, enquanto treinadores, possibilitarmos aos nossos jogadores chegar ao campo e pôr tudo aquilo que é deles em prática. Porque isto é um jogo dos jogadores. O jogo é dos jogadores. Eles são a peça mais importante. São eles que fazem com que as coisas aconteçam. Cabe-nos a nós ajudar a que esse grupo vá numa linha contínua e numa linha junta.

«Quando se perde e as coisas não correm bem, os jogadores sentem aquilo de uma forma que ninguém entende». 

Rui Mota
Rui Mota Waldhof Mannheim
Fonte: SV Waldhof Mannheim 07

Bola na Rede: No fundo, é uma maneira de ganhar o grupo e sentir que o grupo tem uma voz ativa na ideia do treinador. Há pouco, quando mencionaste as conversas são importantes a nível individual, é quase como fazer o papel do polícia bom e do polícia mau? O treinador principal, se calhar, num determinado momento, tem uma conversa um pouco mais pesada e o treinador adjunto vai dar o acompanhamento e dar a mão ao jogador para não o perder. Faz sentido essa ideia?

Rui Mota: Faz sentido, mas tem que ser uma coisa natural. Eu sei que há treinadores, e já assisti a treinadores, que têm esse tipo de estratégia. Dá uma dura e depois vai o adjunto e tal. Eu, pessoalmente, não sou assim, porque eu sou muito frontal no digo aos meus jogadores. Eu não minto aos meus jogadores. Tudo aquilo que eu lhes digo é de verdade, é transparência. É aquilo que eu sinto no momento e aquilo que eu acho no momento. Eu acho que tem que ser assim porque os próprios jogadores também sentem isso. Se nós não somos nós, se nós não somos verdadeiros, se nós não somos a nossa essência, mais cedo ou mais tarde, em momentos de stress, em dias em que podemos não estar na nossa plenitude, isso vai se passar para o jogador e o jogador vai entender isso e, como é óbvio, nenhum de nós gosta de lidar com pessoas que não são verdadeiras. Quando tenho que dar na cabeça, dou na cabeça, quando tenho que passar a mão pelo pelo, passo-lhes a mão pelo pelo. Pela minha formação, pela minha experiência, sou um treinador muito próximo dos meus jogadores. Tenho essa proximidade. Preocupo-me muito com eles enquanto homens naquilo que se passa, porque senti sempre, ao longo dos balneários onde passei, essa necessidade. Se eles não estiverem bem enquanto homens, eles não vão estar bem enquanto jogadores. Se eles precisam de uma palavra amiga, se eles precisam de um conselho, não interessa. Isso faz com que eles depois estejam melhor e possam interpretar, porque eles não são máquinas. Os jogadores não são máquinas. Eu sei que há um bocadinho a ideia das pessoas de procurarem o porquê da falha. Porque são humanos. Quando se perde e as coisas não correm bem, os jogadores sentem aquilo de uma forma que ninguém entende. Não é que eles não queiram. Às vezes, há questões à volta no seu dia-a-dia que acabam por fazer com que isso aconteça. São muito importantes essas conversas individuais e a forma como nós os conhecemos, até para saber onde é que também temos de carregar. Estamos com trinta e tal jogadores e eu tenho que os motivar e não é da mesma forma. Se eu vou motivá-los todos da mesma forma, estou lixado. Não tenho hipótese porque cada um deles reage de uma forma diferente. É importante o treinador perceber, não só as qualidades do seu jogador, do ponto de vista técnico-tático, mas também a pessoa em si. O que é que o motiva, o que é que ele quer alcançar. Falávamos aqui, por exemplo, de eles entrarem no modelo de jogo e participarem. Eu quero que os meus jogadores tenham prazer no jogo que jogam. Que vão lá para dentro com aquela vontade. Nós vamos jogar agora pelo prazer de jogar futebol, e obviamente aquilo é a profissão deles, mas se eles aportarem aquele prazer, aquele gosto em jogar aquele futebol, divertirem-se, sentirem que são fortes, que conseguem alcançar os objetivos, isso é a melhor coisa que temos. E são essas verdadeiramente as equipas que acabam sempre por ganhar. Hoje há um nível de competitividade muito grande. O treino está num ponto muitíssimo alto e, portanto, está toda a gente a trabalhar bem. Jogam bem, bons jogadores, boas condições e na minha opinião, o que está a fazer a diferença é esta vontade, é este gosto, é o acreditar.

Bola na Rede: Nos últimos anos, passagens pelo Dila, pelo Noah, agora pelo Ludogorets, em campeonatos mais periféricos no ponto de vista europeu, mas com as suas características. Estes campeonatos trazem a um treinador a possibilidade de disputar campeonatos, disputar títulos, disputar lideranças? O que a passagem por estes países lhe trouxe de uma maneira mais pessoal, mas também profissional no futebol?  

Rui Mota: Estes contextos permitiram-me pôr em prática todo um percurso que tive, desde o Sporting, ao Standard de Liège, ao Vasco da Gama, ao Braga, ao Esteghlal, entre outros. Foram tantos os clubes, clubes grandes, clubes que lutam para vencer. O meu objetivo foi, primeiramente, entrar no mercado, porque é difícil, não é fácil. Ainda por cima tenho um background de jogador, mas de um nível completamente diferente, e obviamente que isso mexe em muitas coisas, sobretudo no conhecimento da pessoa, como é natural. Primeiro, era a questão de entrar no mercado. Depois, eu queria ter equipas que se identificassem com  a minha ideia. A ideia de jogo é uma coisa importante, mas, sobretudo um clube que lute por aspetos positivos. Quando entrei no Dila, o clube andava sempre ali a disputar as idas às competições europeias. Não era uma equipa para ganhar, aliás, a essência do projeto era formar jovens jogadores para depois os vender, mas eu vi, porque estudei a equipa e o passado da equipa, e percebi têm a vertente de desenvolver jogadores para depois os vender, mas também têm conseguido chegar a fases de decisão e disputa. Foi por isso que eu acabei por ir para lá. Depois, obviamente, as coisas correram muitíssimo bem. Estávamos com uma boa vantagem na altura quando saio do Dila e saio para o Noah que já é um projeto diferente. É um projeto que assume, claramente, essa vontade de ganhar, de ser um clube grande, com um projeto muito bem definido pelo seu presidente, que está a crescer em termos de infraestruturas, em termos de criar um nome forte na região e de poder disputar competições europeias. E foi o que fizemos com um ano que foi fantástico, porque ganhámos tudo o que tínhamos a ganhar, entrámos nas competições europeias pela primeira vez na história do Noah, fizemos um percurso único na Conference League, desde a terceira fase de qualificação até à fase de grupos, e a equipa cresceu muito com isso também. Depois acabou por vir o Ludogorets, que é um clube que está no outro patamar, que me possibilitava também outro tipo de ambições, não só no campeonato interno, mas sobretudo na Europa. Eu acho que é por aí que eu tenho de mostrar ao mundo o futebol, para que as pessoas percebam. As pessoas não têm noção daquilo que foi a minha riqueza, e com todo o orgulho e com toda a humildade, a riqueza da minha passagem enquanto treinador adjunto. Não foram só as questões do balneário, de saber gerir com os jogadores, mas estive sempre em clubes altamente competitivos, com uma exigência de clubes grandes. Estando dentro desses contextos, que são riquíssimos, e aí muito me felicito de ter tido uma pessoa fundamental, o Ricardo [Sá Pinto]. Não é só o treinador-adjunto, mas é alguém que ele ouve, alguém que partilha, alguém que deixava meter a mão na massa, verdadeiramente, e isso preparou-me para depois ser treinador principal, porque era isso também a minha essência.

«Mais do que ter um jogador que seja realmente muito bom, eu prefiro ter dois com qualidade e que sei que vão rivalizar um com o outro».

Rui Mota
Rui Mota Waldhof Mannheim
Fonte: SV Waldhof Mannheim 07

Bola na Rede: A fasquia subiu agora com o Ludogorets, estando também na Liga Europa, com um formato novo, sem clubes que vêm da Liga dos Campeões e com uma fase de Liga que permite maiores ambições de qualificação para a próxima fase. A nível interno há regalias por parte do campeonato? São ligas que, por exemplo, protegem as equipas que estão numa fase mais adiantada da prova para terem uma forma de gerir melhor o calendário?

Rui Mota: Eu depois acabei por não disputar com o Dila a fase de acesso à Conferência, porque foi quando eu me mudei para o Noah. Eles ali [na Geórgia] param o campeonato, até fazem a Supertaça, feita com as melhores quatro equipas, para preparar a equipa para as competições europeias. Em vez de estar-se a fazer só jogos de treino, eles criaram esta forma para haver competitividade. É um troféu, portanto, toda a gente vai querer dar o máximo e o nível de exigência interna sobe e prepara-os bem para isso. Tanto no Noah como no Ludogorets já não é tão fácil. Há ali uma situação de poder adiar um jogo, mas não é o suficiente, como é óbvio. E aí nós temos de ter a habilidade de gerir o grupo, de gerir a competição de três em três, quatro em quatro dias, o que é extremamente interessante e desafiante, mas também penso que, como é numa fase inicial na época, acabamos por ter ali uma almofada para podermos estar mais confortáveis. No final da época temos o problema de estar com 50 e tal jogos, 60 jogos em cima, o que depois também pesa muito nas pernas dos jogadores e na fadiga.

Bola na Rede: E com jogos de três em três, quatro em quatro dias, o plantel tem de ser necessariamente mais composto. Para um treinador, quais são as maiores exigências e dificuldades em lidar com mais jogadores no treino, no dia-a-dia, no balneário? 

Rui Mota: Para mim é fundamental e nos meus projetos procuro sempre passar essa mensagem a quem tem de decidir, porque é importante que haja competitividade em cada uma das posições, ou seja, que ninguém sinta que o lugar é dele. Torna todo o processo muito mais fácil, os próprios exigem muito mais uns aos outros e acaba por haver com muita naturalidade essa competitividade. Depois, quando nós temos que fazer essa gestão, é importante para que a equipa não diminua a sua qualidade também. Para mim, mais do que ter um jogador que seja realmente muito bom, eu prefiro ter dois com qualidade e que sei que vão rivalizar um com o outro, que quando sai um e meto o outro a equipa não quebra. Como é óbvio, quanto mais jogadores nós temos no balneário, maior a insatisfação. O jogador quer jogar, e o jogador normalmente acredita nele, e acha sempre que é melhor que o outro. Nós temos que perceber isso. Normalmente, eu procuro sempre dar oportunidades a todos. Se eu tenho alguém no plantel com quem acho que não vou contar, normalmente procuro sempre arranjar uma solução para esse jogador. Às vezes não é possível, como é óbvio, mas procuro fazer isso para que sinta essa capacidade de resposta em todos os jogadores do plantel, e que eles realmente sintam que eu acredito neles. Mais uma vez vai bater na transparência máxima com quem está à nossa frente.

Bola na Rede: Há muitos treinadores portugueses e jogadores portugueses a dar cartas em qualquer lado do mundo. Para ti, é importante ter esse tipo de jogador no plantel, o típico português, que consegue adaptar-se a ligas diferentes, dá sempre a resposta, faz face aos desafios que tem para além da capacidade de ser um apoio, digamos assim na adaptação a uma cultura nova? Sentes que é algo importante para os teus grupos de trabalho?

Rui Mota: É algo que é importante, obviamente. A formação dos nossos jogadores, do jogador português, é muito rica. É notório. Nós trabalhamos muito bem desde a formação e acho que, muitas vezes, quem está na formação se calhar não é tão valorizado como deveria ser. Fazemos trabalhos incríveis. E depois o jogador português também tem outra coisa, tem uma capacidade de adaptação muito grande, assim como nós, como treinadores portugueses. Somos normalmente pessoas que cativam, que puxam pelos outros, que trazem energia positiva para o grupo. Gosto de contar com eles. Mas tem que caber depois no perfil do jogador, no perfil do clube e no perfil da cultura também. Obviamente que nós temos capacidade de adaptação, mas há sítios em que é francamente difícil. Faz parte e nós temos de estar preparados para isso. Estive agora no Noah com três portugueses que muito nos ajudaram: o Gonçalo [Silva], o Hélder [Ferreira] e o Bruno [Almeida]. Foram também marcos importantes, mas mais do que serem portugueses, foi pelo seu carácter, pelo seu profissionalismo e por aquilo que deram em termos de qualidade à equipa.

Bola na Rede: De que forma é que te aproximas de casa, nesse sentido? O que é que fazes para haver essa aproximação?

Rui Mota: Primeiro e mais importante, é o contacto diário com a família. Perceber como é que eles estão, como é que está o seu dia a dia, falar com eles sobre o que está a acontecer, como está o país, o que é que se está a passar. Depois procuro muito, através de jornais e da internet, estar por dentro, do ponto de vista futebolístico, porque acompanho sempre e juntamo-nos sempre para ver o campeonato português, mas não só, também do ponto de vista político, perceber como é que está o nosso país economicamente. Nós temos um país extraordinário, extraordinário mesmo, muito diferenciado e, portanto, é uma paixão enorme. E quando nós temos essa paixão, é difícil largá-la. 

«O Ricardo Sá Pinto tem um coração enorme e é uma pessoa a quem jamais posso agradecer o suficiente por aquilo que fez por mim».

Rui Mota
Rui Mota Ludogorets
Fonte: PFC Ludogorets

Bola na Rede: Para não incorrer em qualquer tipo de erro, vou citar aqui para percebermos o currículo vasto como treinador-adjunto: Al-Fateh, na Arábia Saudita, Atromitos, na Grécia, Standard Liège, na Bélgica, Legia Varsóvia, na Polónia, Vasco da Gama, no Brasil, Gaziantep, na Turquia, Esteghlal, no Irão, e Sibenik, na Croácia. Esqueci-me de algum?

Rui Mota: O Sporting.

Bola na Rede: Lá fora. Isto pensando no estrangeiro.

Rui Mota: Lá fora, sim.

Bola na Rede: São países com culturas diferentes, com futebóis diferentes, com características diferentes. O que é que um treinador ganha com tantas vivências e experiências diferentes?

Rui Mota: Ganhas a capacidade de, quando estás perante um plantel também cada vez mais diversificado, conseguires compreender essas mesmas culturas. Embora o mundo seja muito diversificado, acabas por encontrar, do ponto de vista regional, muitas características das culturas e das vertentes de cada jogador. Isso é super importante. Depois, a compreensão de como respeitar o país e a cultura por onde nós vamos. Acho que quem chega tem que respeitar, tem que perceber, tem que se inteirar dos marcos culturais da sociedade e de onde estamos, para não beliscar a sua cultura. Eu acho que o respeito é muito importante.

Bola na Rede: Se for para fazer um onze ou uma espécie de destaque, uma lista com os principais jogadores, os jogadores com quem mais gostou de trabalhar em cada um destes clubes, era muito fácil?

Rui Mota: [risos] Não é fácil, não é fácil. Tive muito craque, muito craque, enquanto treinador-adjunto. Seria, da minha parte, muito inglório, porque ,sinceramente, foram muitos. Quando se está em clubes como o Sporting, o Braga, o Standard Liège, o Esteghlal, o Legia Varsóvia, o Vasco da Gama são contextos muito, muito ricos. É algo que me deixa orgulhoso, ter tido a capacidade de trabalhar com eles, de ajudar muitos deles que, na altura, eram jovens promessas e nós ajudámos a trazer para a ribalta. Isso obviamente dá-nos um gostinho, sem querer ser o pai da criança, porque eles é que são os verdadeiros heróis. Foram muitos, porque tive a sorte de estar perante grupos muito bons e jogadores fantásticos. Podia fazer aqui uma equipa e não sei quantas shadow teams.

Bola na Rede: Era uma convocatória.

Rui Mota: Fazia uma convocatória e muito boa.

Bola na Rede: E ficava alguém de fora?

Rui Mota: [risos]. Não podia. Tinha que trazer.

Bola na Rede: Também se aumentava o plantel.

Rui Mota: Exatamente.

Bola na Rede: Já destacaste o papel na equipa técnica do Ricardo Sá Pinto e a voz que ele dava aos adjuntos. Como é que foi também a experiência, para lá do futebol, com uma personalidade tão impactante?

Rui Mota: Foi muito bom. Estou muito grato por todos os momentos que passámos juntos. O Ricardo é uma pessoa extremamente apaixonada, primeiro pelo seu trabalho, e depois é uma pessoa super divertida, que também sabe usufruir daquilo que a vida nos dá. Para mim também foi importante, porque nós não podemos estar só a trabalhar, trabalhar, trabalhar, embora não há como fugir a isso, até porque é aquilo que nos preenche. Muitas vezes já estávamos fora do horário de trabalho, juntos em algum lugar, e íamos falando sobre algumas coisas, mas inevitavelmente, porque somos uns apaixonados, acabávamos sempre por discutir questões do futebol e do nosso trabalho. Isso não há forma de evitar. Sobretudo é uma pessoa que me diz muito, não só do ponto de vista profissional, mas também humano. Tem um coração enorme e é uma pessoa a quem jamais posso agradecer o suficiente por aquilo que fez por mim.

«Nessa época mudámos quatro vezes de treinador e a verdade é que a equipa pouco deu para um clube como o Sporting». 

Rui Mota
Rui Mota Waldhof Mannheim
Fonte: SV Waldhof Mannheim 07

Bola na Rede: Do ponto de vista nacional, é uma fase difícil do Sporting, marcada por uma transição com uma das piores classificações da história do clube. Existe a passagem do Oceano, do Jesualdo Ferreira, entre outros, e depois aparece a transição com Marco Silva, Leonardo Jardim e Jorge Jesus. O que se pode retirar dessa fase que tenha sido importante para o momento em que estás agora na carreira? O que foi necessário fazer na altura para aguentar o barco?

Rui Mota: Eu diria que esses momentos menos positivos são muito importantes também para nós, porque o futebol não é só ganhar, o futebol não são só rosas. Tem muitas fases em que as coisas não correm bem. Entrei para o Sporting nesse ano, tivemos uma série de treinadores diferentes, as coisas não começaram bem e não acabaram bem. Foram tantas as situações, porque isto não é só um fator. Quando as coisas não correm bem, por norma muda-se o treinador. Nessa época mudámos quatro vezes de treinador, foi o Ricardo [Sá Pinto], foi o Oceano, foi o [Franky] Vercauteren e foi o Jesualdo Ferreira e a verdade é que a equipa pouco deu para um clube como o Sporting. Isso dá que pensar. Houve uma onda negativa por não se ter ganho a Taça de Portugal contra a Académica e acho que isso penalizou muito o início do campeonato. Depois, também os problemas financeiros que o Sporting atravessava na altura, e como é óbvio, isso mexe com muita coisa. Há também aspetos do dia-a-dia que nós vemos, sinais que captando. E estar desperto para esses sinais, para essas situações, é importante para que, mais tarde, quando eles apareçam novamente, nós sabermos interpretá-los e sabermos o que fazer. Agora, não há receitas. Cada grupo é um grupo, cada contexto é um contexto, cada problema é um problema. Ali acho que havia um grande número de situações que não foram favoráveis. Mas sim, acho que as coisas negativas que nós passamos nos preparam muito para o futuro. Sobretudo, estar num clube enorme, com uma pressão enorme por parte da massa associativa, e ter que lidar com isso. Como é que nós damos a volta? Só há uma forma, é trabalhar. Trabalhar, acreditar, procurar soluções, não desistir. Acho que isso é fundamental, não só para o futebol, mas para a vida em geral.

Bola na Rede: Fazendo uma pequena ponte sobre o que tinhas dito no início, sobre dar um passo atrás para ter uma visão mais ampla. Nesses momentos difíceis é possível ter o discernimento para se afastar do que está a acontecer e perceber que é passageiro e que há forma de dar a volta à situação ou vive-se tudo com tanta intensidade que só passado algum tempo é possível ter essa perceção?

Rui Mota: Vive-se com muita intensidade, mas é preciso ter essa capacidade, e muito bem o que referiste, que é conseguir abstrair-se um pouco daquilo que está a acontecer e tentar ter um espectro maior para o perceber. Mas nem sempre é fácil. Depois, no futebol, isto muda de forma muito rápida. Tivemos isso e, no ano seguinte, tivemos um ano fantástico, em que houve muita coisa a mudar. Houve a entrada de um novo presidente, de um novo treinador, um plantel muito remodelado, e depois as coisas começaram bem. Às vezes o futebol é a bola entra ou não entra, a bola bate no poste ou não, o jogador mete o passo certo ou errado. São pequenas coisas. Quando às vezes os treinadores dizem os detalhes, é verdade, às vezes são coisas no detalhe. Esse detalhe não foi trabalhado ou não foi pensado? Muitas vezes foi, só que mais uma vez, isto é um jogo. Quando temos um jogo, não só temos as forças da equipa adversária que encontram as nossas, como também há variáveis muito grandes, porque o futebol é muito díspar. Há muitas variáveis que têm influência no resultado do jogo. Agora, como é óbvio, a reflexão é fundamental. Refletir, perceber, interpretar, mas nunca desesperar. Quando as coisas não estão a correr bem acho que não devemos ir contra a parede. Se as coisas não estão a correr bem, alguma coisa não está bem. A gente até acha que a parede é muito bonita, mas se nós não estamos a conseguir, não é ir contra a parede, vamos por outro lado e tentar de outra forma dar estratégias para a melhoria, mas também dar tempo para essa estratégia. Às vezes, no futebol falta tempo. Isto não como crítica, mas como reflexão. Reparem nas equipas que têm os seus treinadores, época após época, se essas equipas porventura não terão mais sucesso. Porquê? 

Bola na Rede: Tivemos o grande exemplo do Arsenal, não é? 

Rui Mota: Por exemplo. Temos o Abel Ferreira também, o Klopp, o Guardiola, o Luis Enrique. Cá em Portugal também, o Sporting, mesmo numa fase em que as coisas não correram bem com o Ruben Amorim, manteve o treinador e de seguida foram campeões. Não é como crítica, mas é como reflexão, há tanta complexidade à volta do futebol. Atenção, eu como treinador sei que tenho de ganhar, ponto final. Tenho de ir ao encontro dos objetivos da minha equipa. Isto é muito bonito, não posso chegar só ao balneário e dizer temos que ter calma, porque depois os jogadores também acabam por não acreditar naquilo que tu és. Mas a verdade é que, quando as coisas não correm bem, é preciso ter essa calma, essa serenidade para poder ultrapassar os problemas, porque eles vão existir. No Noah, por exemplo, que foi uma época fabulosa, tive períodos difíceis e tivemos que saber resolver. Resolvemos e a equipa acabou por ultrapassar e depois faz uma reta final estrondosa, mas também tivemos ali fases complicadas. 

«O Leonardo Jardim é um líder que consegue aglutinar, que consegue trazer para o grupo e acho que em qualquer contexto ele acaba por ter sucesso por isso». 

Rui Mota
Rui Mota Ludogorets
Fonte: PFC Ludogorets 1945

Bola na Rede: Retomando o foco no Sporting, destacaste o crescimento que a equipa teve no ano seguinte, com a chegada do Leonardo Jardim à equipa principal, um treinador na altura ainda jovem, sem grandes provas dadas a este nível. Como foi trabalhar com ele, qual o impacto verdadeiro que teve no Sporting, e agora pensando na sua carreira, como é que ele pode continuar a liderar o Flamengo a um nível muito alto, a um clube com muita inteligência, num campeonato brasileiro como conheces?

Rui Mota: É verdade que o Leonardo acaba por ter no Sporting o seu primeiro clube grande, mas aquilo que ele já havia evidenciado, a sua ideia de jogo, a forma de trabalhar, era de alguém que tinha qualidade para estar no Sporting. Aprendi muito com ele, assim como com o Marco Silva com o Jorge Jesus. Todos eles aportaram para a minha forma de ver o jogo, a minha forma de interpretar o jogo, de treinar, de liderar, de estar dentro de um balneário. O Jardim é, por exemplo, aquilo que destaco, além da sua forma de jogar, é como ele trabalha no balneário. Há bocado eu dizia que o adjunto era importante no balneário, mas o Leonardo naquele ano era ao contrário. Era ele que estava dentro do balneário, ele que criou uma relação. Vi essa proximidade com os jogadores, a importância que aquilo tem e, sem dúvida alguma, que ele tem essa capacidade. Ele é um líder que consegue aglutinar, que consegue trazer para o grupo e acho que em qualquer contexto ele acaba por ter sucesso exatamente por isso. No Campeonato Brasileiro ele já demonstrou aquilo que é capaz. Acho que este ano tem mais ferramentas do que tinha o ano passado, sinceramente, em termos da qualidade de jogadores que tem ao seu nível. Agora, é sempre um campeonato muito difícil, muito difícil. É um campeonato muito volátil em termos das performances das equipas. É um campeonato muito grande, muito exigente do ponto de vista de calendário. É super, super denso. E depois o Brasil é um continente.

Bola na Rede: Sim, as deslocações.

Rui Mota: As deslocações, as temperaturas. Nós achamos no Brasil que é só t-shirt e calções. Vai jogar tu a São Paulo, na altura do inverno, e vais ver. Ou vais lá jogar para baixo, para o sul de Florianópolis na altura do inverno, e vais ver. É inverno rigoroso. Nós achamos sempre que é só t-shirt e calçãozinho, mas não é. Depois a qualidade dos relvados. Agora, sem dúvida alguma, aquilo tem jogadores de qualidade por tudo o que é sítio. Acho que disso também tem vindo muito o sucesso do treinador português. Com todo o devido respeito ao treinador brasileiro, acho que aportámos não só em termos de estrutura, como também em premissas táticas e técnicas para a construção do jogador e para melhorar o jogador. Um bocadinho como quando acabam por vir para Portugal. Portugal sempre foi um veículo para esses jogadores. Já vários treinadores como o Klopp e o Guardiola, falam de jogadores que passam por Portugal, e não só os portugueses, e quando chegam à Premier League são diferentes. E isso tem a ver com a nossa abordagem, a nossa forma de treinar e de ver as coisas em Portugal. 

«O Marco Silva é um treinador muito assertivo, vai muito direto ao assunto».

Rui Mota
Rui Mota Ludogorets
Fonte: PFC Ludogorets 1945

Bola na Rede: E depois chega o Marco Silva também, ele com um trajeto de crescimento muito consolidado em Portugal. O que é que ele aportou ao Sporting? E falávamos há bocado de projetos longos. No Fulham teve um projeto já muito consolidado, conseguiu combater aquela instabilidade do ‘Clube Ioiô’ na Premier League, que subia, descia, subia, descia. Para o Marco Silva, e pensando num treinador de projetos longos, o tempo é realmente uma dimensão importante?

Rui Mota: Sim. Se bem que ele no Sporting teve apenas uma época, mas mesmo assim ganhámos a Taça de Portugal e jogámos Champions League e foi por muito pouco que não passámos. O Marco é um treinador muito assertivo, vai muito direto ao assunto, vamos assim dizer. Criou naquela altura, dentro do balneário, um verdadeiro sentimento de família e de equipa, até com um plantel que se calhar não era assim tão rico quanto os resultados depois acabaram por revelar. Tínhamos muito bons jogadores, mas se calhar depois acabámos por ter até outro nível, e o Sporting a partir daí começou a catapultar para outros níveis de jogadores. Contudo, e dito isto, aquilo que falavas é uma verdade. Acho que o Marco, e ainda há pouco tempo também lia, que o Fulham tem exatamente essa noção daquilo que é a estabilidade, daquilo que ele aporta. É um treinador que já passou por muitos contextos, sabe exatamente aquilo que quer, sabe como implementar, sabe como o conseguir e chegar aos objetivos do clube. Portanto, acho que faz todo o sentido que se veja dessa forma. E acho que estabilizou o Fulham. Pelo que eu sei, o Fulham até agora tem ideias para poder, agora que já está estabilizado na Premier League, começar se calhar a olhar para outros vôos. Não tenho dúvidas nenhumas de que esse trabalho é valorizado e acho que o que ele tem feito ali tem demonstrado que é realmente um treinador muito capaz de aportar às equipas onde está. 

Bola na Rede: E no ano seguinte há uma das mudanças de treinador mais épicas, vamos pôr assim nestes termos, no futebol português, uma mudança do Benfica diretamente para o Sporting. Como é que internamente se viveu a chegada do Jorge Jesus de Alvalade?

Rui Mota: Bom. [risos] Foi muito engraçado, muito engraçado. E sinceramente, ninguém estava à espera.

Bola na Rede: Nem lá dentro? 

«O Jorge Jesus consegue meter na cabeça do jogador a ideia que ele quer ao pormenor, de uma forma que o jogador vai mesmo contra a parede. Por isso é que ele, por onde passa, vai conquistando títulos». 

Rui Mota
Rui Mota Waldhof Mannheim
Fonte: SV Waldhof Mannheim 07

Rui Mota: Não, nem lá dentro. Não estávamos à espera, sinceramente. Agora, acho que foi uma jogada de mestre, porque o mister Jorge Jesus tinha feito umas campanhas no Benfica fantásticas. Eu lembro-me de quando ele chegou ao Benfica, de como o clube estava e depois como ele pôs a equipa a funcionar. E depois, não é só o ganhar, é a forma como ele ganhava. Ficámos todos admirados. Não se previa que ele o fizesse, mas a verdade é que ele tem um impacto muito grande também quando chega. Alterou uma série de situações para valorizar os jogadores e a própria estrutura. Lembro-me, por exemplo, que quando chega, uma das coisas que ele fez logo foi criar um ambiente balneário mais apelativo aos jogadores. Mudou coisas no estádio. Ele também vinha de uma máquina que já estava assim. Ele trouxe esse know-how e a experiência dele para dentro do Sporting. O Sporting cresceu muito nesse aspeto. Do meu ponto de vista, foi também mais um marco muito importante naquilo que foi o meu crescimento. Com ele, com a equipa técnica dele, pessoas muito válidas, muito experientes, e que, sinceramente, abriram-me completamente o livro, vamos assim dizer. Foi uma época em que é pena não termos conquistado aquele campeonato, porque, sinceramente, era uma equipa que jogava. A tal situação que nós falávamos há bocado, dos jogadores gostarem de jogar aquilo. Nós próprios tínhamos gozo e prazer em ver a equipa jogar. Era espetacular. E os jogadores sentiam-se.

Bola na Rede: E entre o método e o privilégio ao detalhe, e a irreverência e uma certa excentricidade, onde é que se situa o Jorge Jesus?

Rui Mota: Ele é tudo. Ele é tudo. Ele é aquela força que eu admiro muito, aquela forma de ele estar na vida, a forma como ele acredita nele próprio, na forma como ele trabalha, no detalhe que ele tem com o jogador. Às vezes, por algumas situações que nós vamos vendo no dia-a-dia, na comunicação social, fala-se muito da comunicação dele. A comunicação dele é excelente. Para os jogadores, é excelente. Ele consegue meter na cabeça do jogador a ideia que ele quer ao pormenor, de uma forma que o jogador vai mesmo contra a parede [risos]. Vai, vai, vai. Ele consegue incutir no jogador, tem muito bem na sua mente pensado o modelo de jogo, o processo de treino e como chegar a esse modelo de jogo através do processo de treino. Sinceramente, foi um treinador que me enriqueceu muito na passagem da ideia do treinador para grupo. Não quer dizer que os outros não tivessem, porque têm, cada um à sua maneira. Para mim, eles são três treinadores de nível muito elevado, do qual eu me sinto muito orgulhoso de ter trabalhado com eles, aprendido com eles e vivenciado o dia-a-dia com eles. Mas o Jorge Jesus, nesse aspeto, tem uma característica muito forte. Por isso é que ele, por onde passa, vai conquistando títulos. Se não ganha títulos, está lá muito perto de os fazer. Acho que é um treinador que marca também o nosso futebol.

«O Trincão é realmente um virtuoso. É um jogador muito diferenciado, também na sua forma de pensar». 

Rui Mota
Rui Mota
Fonte: SV Waldhof Mannheim 07

Bola na Rede: Depois tem passagem pelo Braga, onde aparecem jogadores como Ricardo Horta, o Paulinho, o João Palhinha. Na altura estavam numa fase de crescimento. Olhando para hoje, esperava-se que eles atingissem o nível que atingiram?

Rui Mota: Sim, claramente. Até porque muitos deles, nós já os conhecíamos. O o Ricardo Esgaio, o Palhinha, o Fransérgio, o Ricardo Horta, nós não os conhecíamos do ponto de vista mais direto, mas esses jogadores nós conhecíamos. Na altura, quando vamos para Braga, temos essa possibilidade. Eu acho que esse grupo é um grupo fantástico. Tem jogadores que nós, hoje em dia, vemos. O Matheus Magalhães, guarda-redes, eu lembro-me do Ricardo Esgaio a lateral, o Fransérgio, que, para mim, era um médio fantástico, com características muito pouco usuais, hoje em dia no futebol, o Palhinha, que estava numa fase menos boa, mas depois despontou, o Galeno, o Paulinho, o Ricardo Horta, o Wilson Eduardo fez o melhor arranque sempre connosco. Tantos. Realmente havia ali muita qualidade. Mesmo outros jogadores que, se calhar, não alcançaram o patamar de excelência como estes que eu estou agora a referir, mas eu lembro-me do Murilo, que fez uma época fantástica este ano. Era também um grande jogador. O Trincão, que lançámos na altura, na equipa, o David Carmo. Foi um prazer enorme trabalhar com aqueles jogadores. Foi, se calhar, o grupo mais fácil de trabalhar porque são futeboleiros. Vivem realmente o futebol no dia-a-dia. Claro que todos os profissionais gostam de futebol, mas o futeboleiro é aquele que está sempre em cima do assunto, não é só da sua equipa. São 24 horas. Acabam o treino e querem ir ver o jogo. E depois é engraçado, quando íamos para estágio andavam ali na disputa de qual era o jogo que íamos ver. Está a dar um jogo em Itália, mas depois há um jogo em Portugal, há um jogo na Alemanha. E aqui, espetáculo. Espetáculo mesmo. E de uma estrutura também fantástica. O Sporting de Braga foi um clube que cresceu imenso. Está ao nível de um grande, por aquilo que foi estabelecendo. Por isso é que também tem capacidade para andar na Europa como nós andámos. Essa época, foi também inesquecível, para já pela fase de qualificação com equipas muito fortes. Na altura jogámos com o Lokomotiv de Moscovo, que tinha um orçamento enorme e conseguimos derrotá-los. Na fase de grupos, com o Wolverhampton, com o Besiktas, com o Sloven Bratislava, e acho que fizemos uma boa campanha.  Não só a campanha, a forma como a equipa jogava, já me entusiasmava bastante.

Bola na Rede: Só uma curiosidade. Nessa equipa também estavam a aparecer, ainda, num nível de maturação muito diferente tanto o Ricardo Velho, como o Samu Costa, o próprio Trincão, os três que integraram a convocatória para o Mundial 2026. Pergunto-lhe, primeiramente, se esperava este crescimento dos jogadores, assim, um bocadinho mais fora do radar, talvez, e depois que ambições e que expectativas tem para o Mundial 2026?

Rui Mota: O Trincão já estava num outro patamar. O Trincão já era usual vir à equipa principal. É verdade que é connosco que ele depois tem o desenvolvimento que tem e assumiu a titularidade em vários jogos e acabou por ser um jogador do onze, vamos assim dizer. O Ricardo Velho e o Samu eram jogadores que ainda estavam a maturar na equipa B do Braga, algo a que nós também dávamos sempre muita atenção e hoje em dia também tenho esse cuidado de ver sempre as outras equipas. Há sempre esses pequenos diamantes que lá estão e, portanto, não os tendo em competição, acabávamos por tê-los no treino. Realmente vimos que eram jogadores que poderiam crescer, mas, às vezes, naquela idade é difícil. Isto depende de muita coisa. Há contextos onde esses jovens depois não têm espaço para crescer. Se não têm espaço para crescer, ou se perdem ou então têm a fase de performance e de crescer mais tarde, portanto. Aliás, o Braga hoje em dia até tem ido muito por aí. Tem pegado em jovens que já estiveram em grandes, que tiveram ali uma altura nos 20, 22 anos, que andaram ali um bocadinho “perdidos” e depois acabam por rebentar e acabam por dar certo. Acho que o Ricardo Velho e o Samu foram exatamente isso. São jogadores que acabam por aparecer, se calhar um bocadinho mais tarde do que os outros, mas que têm muitas qualidades. O Samu, como médio, acho que está um médio muito mais polivalente o que lhe permite interpretar várias situações. Mais dinâmico. Com mais chegada, até, já não é só aquele puro 6. E o Ricardo também. O Ricardo, eu lembro-me na altura, era um guarda-redes que dentro da baliza dava nas vistas nos treinos. Eles treinavam muitas vezes conosco na equipa sénior e notava-se isso. Depois com o seu crescimento, com a sua forma de liderança, acabou por chegar onde chegou. Acho que tanto um como o outro, têm capacidade para jogar ainda um nível superior. Acho que isso com naturalidade vai acontecer. E o Trincão é realmente um virtuoso. É um jogador muito diferenciado, também na sua forma de pensar. Porque é um miúdo muito bem construído do ponto de vista pessoal. E é com muito orgulho também que o vejo passear por esses palcos todos. Lá está o tal gostinho. Não sendo o pai da criança, nem querendo ser, mas obviamente dá gosto em ver esses jogadores todos.

Bola na Rede:  E espera vê-los dia 19 de julho levantar o troféu? 

Rui Mota: Espero que sim. Falávamos aqui da seleção e eu acho que nós temos um grupo excecional. Acho que temos um plantel muito recheado. Acho que estas questões de quem fica de fora obviamente atingem, porque nós temos muitos jogadores e jogadores que jogam o mais alto nível. Como é óbvio, não podemos levar todos. Depois isto acaba um por ser a ideia de cada um e o selecionador, tem a sua forma de ver o jogo, tem a sua forma de pensar as características que quer para cada posição e por isso é que há jogadores que acabam por ficar de fora. Se me disserem: “eles mereciam estar dentro?”. Ah, mereciam. Não tenho dúvidas nenhumas. Há muitos jogadores que ficaram de fora e que mereciam ter a oportunidade de estar no Mundial. Mas há regras, há limites. Obviamente que há pessoas que vão ficar chateadas. Faz parte. Acho que também é isso que nos apaixona no futebol, a paixão que as pessoas têm, as várias opiniões. Acho, claramente, que nós temos uma equipa para podemos ambicionar o título. Eu acho que uma boa prestação, sinceramente, sendo realista é chegarmos ali às meias-finais. Independentemente do resultado, acho que é bom. Porque entre as meias-finais, a final e ser campeão é aquele detalhe. É uma margem muito curta. Naquelas quatro que chegarem ali, a diferença, a qualidade dos jogadores, do treinador, de tudo, é muito ténue. Claro que ficamos tristes quando a nossa seleção não ganha, mas acho que de uma forma racional, devemos ter essa capacidade de lá chegar. Ganhar? Acho que sim. E acho que Portugal merecia. Por tudo aquilo que tem feito, por tudo aquilo que tem sido o desenvolvimento, um país tão pequeno e que tanto tem feito ao futebol, tanta história tem feito no futebol, acho que merecíamos ser campeões do mundo.

«O meu grande objectivo é melhorar, ser cada vez melhor e fazer o meu percurso, como sempre tenho feito, com muita paixão por aquilo que é o futebol». 

Rui Mota
Rui Mota Ludogorets
Fonte: PFC Ludogorets 1945

Bola na Rede: Nesta reta final da entrevista qual é o próximo passo que tens para a tua carreira a que tipo de objetivos é que te propões neste momento?

Rui Mota: É dar continuidade, estar em projetos que lutem por objetivos maiores. Este período também tem sido muito profícuo em abordagens, em reuniões e tem sido bom porque quando nós temos escolha, as coisas tornam-se mais fáceis. Tenho bem ciente na minha cabeça, daquilo que se está a passar e na próxima época, irei estar novamente a trabalhar, a crescer, a conquistar ainda mais títulos e mais capacidades também, porque não se pára de aprender. O meu grande objectivo é melhorar, ser cada vez melhor e fazer o meu percurso, como sempre tenho feito, com muita paixão por aquilo que é o futebol, porque para mim é tudo na vida.

Bola na Rede: Em Portugal ou no estrangeiro? 

Rui Mota: Pode haver várias situações. Como disse, tem havido várias abordagens. Vamos ver, vamos esperar. Isto também é uma altura no mercado em que todos os dias estão a aparecer coisas novas. Hoje em dia os clubes fazem sempre esse mercado, têm três, quatro treinadores e depois acabam por decidir um. Faz parte do nosso dia-a-dia essa questão. 

Bola na Rede: Vamos então fechar. O que é mais importante antes de a bola entrar na rede?

Rui Mota: Que se remate. [risos]

Bola na Rede: Está fechado com chave de ouro.

Diogo Ribeiro
Diogo Ribeirohttp://www.bolanarede.pt
O Diogo tem formação em Ciências da Comunicação, Jornalismo e 4-4-2 losango. Acredita que nem tudo gira à volta do futebol, mas que o mundo fica muito mais bonito quando a bola começa a girar.

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