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Espanha, a nova campeã mundial | Espanha 1-0 Argentina


Ao fim dos 90 minutos, só havia um possível vencedor. Aos 120, a história era praticamente obrigatória. A Espanha foi a melhor seleção do Mundial 2026. Discutia o estatuto com a França, mas a contingência da vitória diante dos gauleses reduziu à seleção de Luis de La Fuente esta consideração. Não é uma garantia ou obrigatoriedade para vencer o Mundial, mas ajuda. E a Espanha foi a melhor seleção do Mundial. Também foi quem a venceu. Jogou melhor, foi melhor e terminou melhor, como 47 outras seleções chegaram a sonhar.
Curiosamente, chegou aos EUA envolvida em dúvidas e desconfianças. Sobre o trabalho coletivo e identidade, muito poucas, mas várias sobre a variabilidade ofensiva e a capacidade de transportar o trabalho que, por exemplo, baseou a conquista do Euro 2024, para o Mundial. As grandes referências da seleção (Rodri, Pedri, Lamine Yamal) não davam garantias absolutas de regularidade e decisão. Outros nomes decisivos, Nico Williams à cabeça, ajudavam a um clima de nuvens cinzentas que, o empate na estreia, diante Cabo Verde, transformou em aguaceiros. Como em tudo na realidade norte-americana, os alertas de tempestade foram o que foram. Para a Espanha, daí em frente, só dias de sol.A final do Mundial foi um exercício de superioridade, uma via de sentido único e uma miragem de competitividade apenas perpetuada pelo resultado.
Entre todos os desportos do mundo, só o futebol permitiria que nestas condições, o jogo tivesse mais 30 minutos. O prolongamento foi o adiar da inevitável vitória espanhola. As luzes interiores do carro já piscavam por todo o lado, os batimentos cardíacos já estavam parados, o último brilho do por do sol já há muito tinha desaparecido do céu argentino, menos celeste que o costume. Apenas obra do destino, entre o inexplicável e o implacável, explicou a necessidade da bola continuar a rolar. Deu Espanha no final, o único final possível.


A Argentina da alma, da busca da intervenção divina e da resistência, ficou afundada no mar de erros, num jogo em que adiou o golo sofrido por obra de um destino cruel ou salvador, dependendo da forma como o encarar. A estratégia roçou o descarado. Se, na primeira parte, se poderia justificar, procurando que a frustração tomasse conta da seleção espanhola e que Messi, desprovido de grandes trabalhos, aparecesse somente uma vez na segunda etapa, o arrastar dos minutos levantou o véu de uma questão preocupante. A albiceleste não rematou uma vez à baliza adversária, ao lado ou qualquer outra possibilidade ao fim de 90 minutos. Simplesmente, não atacou. E, para uma abordagem que precisava de uma defesa perfeita, deixou espaços por todo o lado.
Lionel Scaloni procurou proteger o lado esquerdo com Nico González, para suportar Tagliafico, mas Lamine Yamal conseguiu gerar superioridades. Quando o extremo argentino saiu ao intervalo, para a entrada de um Leandro Paredes mais desastrado que a norma, a superioridade de Pedro Porro e do jovem extremo, que sai do Mundial sem nenhum momento brilhante, mas consolidado no brilho que os troféus coletivos oferecem aos mais sentilantes jogadores, foi demasiado evidente. Rodri foi condicionado na primeira parte, mas ganhou metros para jogar com o avançar dos minutos. A fase a eliminar do médio roça o assombroso, como se a lesão nunca tivesse existido e a forma continuasse a mesma desde 2024, quando a Bola de Ouro virou uma época determinante. Quando não passou pelo médio mais recuado, Mikel Oyarzabal, em apoio, deu soluções para a Espanba entrar com tudo no corredor central.
As mudanças reais chegaram do banco, de onde Luis de La Fuente resgatou a vitória. Quando Fabian Ruiz começou a ganhar metros para chegar à área, quando os cruzamentos começaram a aparecer naquela zona mortífera (Cucurella com demonstração brutal de oportunismo quer a meter a bola, quer a aparecer nesta zona), chamou Mikel Merino. Desta vez, não marcou, mas não deixa de ter méritos na forma como a Espanha foi crescendo na dimensão da ameaça. Também do reduto dos suplentes saiu Nico Williams. Alex Baena aparecerá, daqui a uns anos, nos desafios para adivinhar o jogador esquecido do onze base da Espanha. Por mais que tenha cumprido, nunca passou de uma regularidade na ordem do q.b. Nico Williams era fundamental para a Roja ganhar ameaça também sobre a esquerda, esgaçando ainda mais a defesa Argentina. Foi o melhor jogador da final do Euro e, agora, aparece como o assistente do golo miraculoso.


A Argentina tem uma sina de golos sofridos nos descontos por suplentes. Depois de Mario Gotze, eis a vez de Ferran Torres. Quando teve um golo anulado contra a Arábia Saudita, foram virais as imagens onde suplicava para que a bola entrasse mesmo. É um avançado muito específico nas características. Não é um acelerador ou desequilibrador para jogar por fora, mas também não encaixa na consistência de ações que Mikel Oyarzabal dá por dentro. Ainda assim, possuiu atributos no entendimento de jogo, na ligação e na capacidade de se movimentar que são valiosos. Precisava, claramente, de um momento como este para resgatar todo o ímpeto interior, afundado num mar de dúvidas de onde finalmente saiu. Recordar as súplicas ditas entredentes por um hipotético golo de um 5-0, ora não foi este o sucedido diante da Arábia Saudita, é demasiado pesado para um avançado eternamente ligado a um título, a partir deste momento. Não se voltará a questionar a capacidade do avançado marcar golos, muito menos golos importantes. A história do futebol tem mais um herói improvável para vangloriar.
Há, no jogo espanhol, uma assertividade e eficácia quase matemática, só possível pela solidez defensiva. Num torneio com mais um jogo que os anteriores, só por uma vez viu a própria baliza ameaçada. O registo é inédito nos vencedores de Mundiais e valoriza uma valência muitas vezes ignorada ou desprezada. A Espanha não defende bem só com bola, embora essa seja a estratégia principal da equipa. A segurança vai bem para lá do incansável Cucurella, que vai perdendo o estatuto de bad boy para ser cada vez mais valorizado pela solidez e eficácia nos duelos. Longe de maiores holofotes, o torneio de Aymeric Laporte e, principalmente, de Pau Cubarsí – tem 19 anos, não nos esqueçamos – é um manual de boas abordagens defensivas. Raramente se fizeram reger pela impulsividade nas ações. Para lá da sobriedade na área, a forma como permitiram muitos poucos lances no espaço com uma linha defensiva tão alta é assinalável. Quando a bola chegou mais longe, apareceu Unai Simón. Que não é o melhor dos guarda-redes espanhóis convocados é evidente. Que nenhum outro daria as mesmas garantias no controlo da profundidade, também o é. Luis de La Fuente viveu com as suas escolhas.
Em sentido contrário, Lionel Scaloni morreu com as suas. Pouco evoluiu ou procurou fazer diferente de 2022, esperando que a base que foi quase revolucionária não se tornasse obsoleta. A gestão da final é difícil de entender. Mais do que os nomes, que também são questionáveis (em 2022, Enzo Fernández passou de nome de rotação a indiscutível, em 2026, Valentín Barco, Exequiel Palacios e Nico Paz foram residuais), a abordagem estratégica ao jogo não tem compreensão alguma. Esperar por algo saído dos pés de Lionel Messi, o grande responsável por mais uma final Argentina, não resultou. A expulsão de Enzo Fernández dificultou este cenário, tirando uma potencial linha de passe ao argentino, tornou praticamente missão impossível. Dibu Martínez não conseguiu estudar até todo o lado e só no último suspiro surgiu algo diferente. Muito curto.


Desde 2008, a Espanha venceu três Europeus e dois Mundiais. A repetição histórica mete a seleção espanhola já como a grande favorita a ganhar também em 2028. Impressionante o legado construído, partindo da base até ao topo da pirâmide, extensível ao futebol feminino e ao futebol de formação. A construção de uma identidade está feita. Agora, a Espanha vai construindo novas prateleiras para troféus a partir daí. Luis de La Fuente veio de baixo, da própria estrutura da Federação, e encarnou esse espírito. Mais de um mês depois, tudo definido: a Espanha é campeã do mundo.
Nota final: obrigado por teres estado desse lado ao longo de mais de um mês. Diariamente, procurámos aproximar-te do Mundial 2026, da sua história, do seu futebol e dos seus protagonistas. Foi uma longa jornada, repleta de momentos memoráveis para eternizar. Este foi o último capitulo do Diário do Mundial 2026. Agora, novas viagens serão construídas, novas histórias serão contadas, novos jogos estão a caminho.

