José Mourinho, José Mourinho e José Mourinho. Não foi o treinador do Benfica que marcou qualquer um dos três golos com que os encarnados bateram o Estoril Praia na última jornada da Primeira Liga, mas é sobre o Special One que mais se centra a discussão do universo encarnado, demasiado debruçado sobre o treinador fenómeno mundial para cogitar outra hipótese sequer relativa à atualidade encarnada.
Não é para menos. Afinal, não é o treinador que joga, mas é o treinador que os mete a jogar. Não é o treinador que joga, mas quando o treinador é José Mourinho, nenhum jogador do Benfica terá o maior protagonismo no que concerne ao jogo. Não é o treinador que joga, mas é o treinador que está no centro de um ciclo noticioso entre Portugal e Espanha, com dois pés, um pé e meio ou um pé por Madrid, consoante a velocidade das informações e dos rumores façam querer parecer.
Muito se fala do futuro de José Mourinho. Afinal, o olhar já está na próxima temporada, quer o da estrutura, quer o dos adeptos e, fundamentalmente, pela mesma razão. Poucos serão aqueles os que, com mais ou menos carinho, vão desejar recordar o rumo da temporada encarnada. Há pontos altos, não fosse o golo de Anatoliy Trubin ter ajudado a que uma mistura mais ou menos maluca de resultados tornasse o Benfica na grande história da fase de liga da Champions League; ou não fosse o engenhoso António Silva ter percebido que um passo à frente colocaria Rafael Nel à frente dos demais e trocasse o momento mais feliz da vida do jovem avançado pelo raio de luz de Rafa Silva na área contrária; ou não fosse mesmo, aí como espectador, o período de quebra do Sporting na liga contra os últimos que, momentaneamente, colocou o Benfica com um pé na Champions League quando tal parecia uma utopia.


A verdade é que, para lá desses momentos áureos, tão efémeros como a própria passagem do tempo, há também momentos que muitos queiram esquecer. Entre as lamentações e as constatações de um infortúnio mal amado, uma época sem derrotas ter redundado num terceiro lugar tão redondo quanto os oito pontos de distância para o título que nunca foi senão uma miragem, é algo estranho num Benfica tão difícil de analisar como de descrever.
É que, o Benfica das 0 derrotas, da alma capaz de fazer tombar o Real Madrid, um papa Champions League, na sua própria competição favorita, é também o mesmo dos 11 empates. É o do erro de Nicolás Otamendi diante do Santa Clara, o dos tropeços nos descontos numa primeira fase, do autogolo de Tomás Araújo tão improvável quanto inusitado. Numa fase em que tudo corria melhor, é também o Benfica que, de quatro golos ao Real Madrid, não marcou nenhum ao Tondela e que, quando ainda alguns celebravam o tropeço do FC Porto em Rio Maior, deixou pontos para trás – e a alma – no reduto do Casa Pia. E, mais indescritível que tudo, é o Benfica que falhou dois match-points quando, ao seu colo, caiu uma chance de terminar a época em segundo lugar. Os empates contra o Famalicão e o Braga, por mais que tenham de ser enquadrados no contexto – essa tal palavra definidora, mas tão difícil de recordar, por vezes – foram mais dois tropeços do Benfica quando dependia apenas de si. Tal como, há um ano, havia deixado fugir uma vitória contra o Arouca quando passou a depender apenas de si.
E Mourinho? Nenhuma recordação da sua passagem pelo Benfica, pelo menos em 2025/26 se por alguma razão todos os tabloides espanhóis estiverem de algum modo equivocados, não levará em conta nem os bons, nem os maus momentos. O percurso do lendário treinador pelas águias é uma espécie de dia normal na vida de qualquer um. Aqueles dias nem de sol, nem de chuva, nem de trabalho intenso, nem de folga prazerosa, que passam nem demasiado lento para chatear, nem demasiado rápido para desejar parar o tempo. Foi uma época, ajustando à temporalidade, demasiado semelhante à anterior ou à que antecedeu a esta para ter qualquer tipo de memória distante. Isto, claro, sem esquecer os méritos que o técnico tem no desenrolar da época a nível do futebol jogado. Mais do que uma ambição desmedida ou uma mudança radical de jogo, há a noção de uma maior conjugação e complementaridade de perfis em campo e algo que pode ser definido como a funcionalidade de um onze base.


Das dinâmicas nos corredores, com Samuel Dahl mais baixo e interior para permitir a Andreas Schjelderup abrir o campo e invadir o espaço de fora para dentro à esquerda, e Gianluca Prestianni a tornar-se mais um construtor por dentro, libertando o espaço por fora para as cavalgadelas de Amar Dedic, às dinâmicas dos médios, com Fredrik Aursnes finalmente por dentro a permitir maior segurança e liberdade a Richard Ríos e Leandro Barreiro a atacar espaços na frente, há uma noção de equilíbrio e ocupação de espaços mais condizente com o estilo de jogo de uma equipa grande e, naturalmente, do Benfica. Com o enquadramento de alguns dos melhores em campo – longe vão os tempos em que era quase obrigatório ver os cinco médios em simultâneo – em posições e funções que privilegiem as mais-valias, José Mourinho conseguiu fazer o Benfica crescer exibicionalmente no final da época.
A individualidade, por vezes esquecida, é o maior legado que José Mourinho deixa para o seu sucessor ou, num cenário ainda em aberto, para si próprio. Aí, há dois jogadores cuja comparação faz a noite e o dia parecerem entidades próximas na luminosidade. Porventura, Andreas Schjelderup e Richard Ríos são as melhores obras-primas de José Mourinho no Benfica.
Só o técnico e os jogadores saberão, exatamente, qual o peso de cada parte na melhoria de rendimento. No caso de Andreas Schjelderup, José Mourinho fez-lhe a vénia, preferindo reduzir a si próprio os méritos para destacar o processo de crescimento do jovem norueguês.


«Ontem ou anteontem falei com ele e disse-lhe que tinha muitos motivos para estar orgulhoso com ele. Comparar o Schjelderup de há meses atrás com o de hoje é impossível, não há comparação. A cara de menino é a única coisa a comparar, sem barba e com cara de bebé. De resto, físico, tático e mental não há nada comparável. A continuar a evoluir desta maneira, será um caso sério de talento e eu diria de grande, grande talento. Tem motivos para estar orgulhoso. Via o potencial, mas não gostava do que via e levei-o ao limite em cada dia, não o convocando, pondo gente mais nova da B a jogar, sentado no banco. Muita crítica e muito trabalho no treino. Era vai ou racha e foi porque aguentou a pressão e o trabalho. Desenvolvimento extraordinário e mérito dele. A continuar assim, é um caso sério de talento», destacou José Mourinho há um par de dias.
De fora, o maior mérito de José Mourinho está mesmo na aposta e na confiança que depositou a Andreas Schjelderup, permitindo-lhe somar minutos com regularidade e entrar na dinâmica da equipa. Principalmente nos extremos, jogadores de rasgo e de risco, é importante a sequência de minutos, essa bebida dos deuses capaz de transformar a urgência em resolver na consciência em fazê-lo. Desde a maravilha de jogo do menino bonito da Luz contra o Real Madrid, numa altura em que a saída era tão comentada, que Andreas Schjelderup não mais saiu da equipa.
É certo que, defensivamente, há claramente mais noções de espaços, de timings e de ações, mas ofensivamente, não há grande coisa de novo no que faz Andreas Schjelderup. É um jogador com recursos quase infinitos para procurar o 1X1, superar o adversário e acionar o pé direito, de forma para dentro. A grande diferença está na quantidade, qualidade e regularidade das ações. Dos rasgos individuais – quem não se lembra do golo que ajudou a decidir a Taça da Liga ganha pelo Benfica – Andreas Schjelderup passou a ser protagonista. Num ano de Mundial 2026, o verão não é muito dado a certezas, mas a continuidade do norueguês e a construção da equipa tendo nele o epicentro trará boas notícias ao Benfica.


E Richard Ríos, aquele tosco de bola que veio por 20 milhões de euros? Há, no jogo do colombiano, duas grandes lições a retirar. A primeira é que não há um perfil certo e único para uma equipa, por maior que seja. É preciso é saber enquadrá-lo. A segunda é que 20 milhões de euros não passam exatamente disso: uma quantia absurda, que faria maravilhas nos metros quadrados de Lisboa cada vez mais caros, mas apenas uma quantia. Sendo capaz de se libertar um pouco dessa pressão e bem enquadrado por José Mourinho – e se em Schjelderup há espaço a interpretações distintas, aqui há dedo claro de treinador – o colombiano terminou a época num momento de forma contundente. A Colômbia sorri e Portugal bem pode tirar notas para o Mundial 2026.
De resto, o trabalho de José Mourinho foi facilitado pela identificação clara do seu perfil. Em novembro, depois do golo contra o Atlético que ajudou a relativizar muitas das críticas que o médio ouvia, o técnico encarnado começou por desvendar quem era, de facto, Richard Ríos.
«Tem sempre impacto na equipa, mesmo quando não faz as coisas que as pessoas esperam que façam. Mas há uma base que parece que com ele é inegociável, da entrega, da fisicalidade, da pressão, seja defensiva, seja ofensiva. Acho que tem justificado sempre, mesmo com alguns erros na confiança. Não é puxada de saco ao meu presidente, mas não vamos comparar Ríos com Rui Costa, só para dar um exemplo, mas dá-nos muito», disse, na altura, José Mourinho.


O preço pago por Richard Ríos – um questionamento legítimo, mas à parte da qualidade do jogador – criou, em muitos dos adeptos e críticos, a sensação de que estaria para chegar um Messias capaz de resolver todos os problemas encarnados e de assumir, por si próprio, toda a organização do jogo. Não podia estar mais distante da realidade. E José Mourinho voltou a explicá-lo, em dezembro depois da epopeia contra o Nápoles.
«O Ríos precisa de ter raio ação muito grande. Limitá-lo é retirar-lhe uma das suas forças. Dizer que não pode ir ali ou aqui, é complicado. O que temos é de dizer que, quando ele vai para ali ou para lá, alguém tem de fazer isto. Aquela conexão Ríos – Barreiro – Aursnes está a dar-nos equilíbrio e permite ao Ríos ser um grande jogador. Ele é um grande jogador. Não conseguiram rebentar com ele», explicou José Mourinho, tocando na questão central para compreender o colombiano: o raio de ação.
Valorizando mais ou menos a fisicalidade dos jogadores, Richard Ríos é o protótipo de médio de deslocamentos. Para a frente ou para trás, é jogador para pressionar, para sair da sua zona e correr desenfreadamente. Para bem ou mal dos seus pecados, dependendo do contexto em que esteja enquadrado, o que pode ser uma força também pode tornar-se facilmente uma fraqueza. Num Benfica refém de uma referência criativa pura no meio-campo, Richard Ríos passou muito tempo restrito a funções de organização de jogo e de criatividade pura para iniciar jogadas. Aí, não é e provavelmente nunca será um elemento diferenciador.


Com Enzo Barrenechea ao lado, torna-se também mais complicado a Richard Ríos gozar de toda a liberdade por que anseia. O argentino não tem perfil para cobrir espaços e segurar as pontas. Para o 20 do Benfica, a época começou quando Aursnes, um canivete suíço tão polivalente que o afastou demasiado tempo das zonas onde mais pode fazer a diferença, foi deslocado para a sua zona. Como 6, o norueguês foi capaz de oferecer segurança ao Benfica.
Também nunca será o elemento mais ousado na saída de bola ou a superar pressões altas, mas, ao contrário de outros médios do plantel, é capaz de dar segurança mesmo em situações de caos. Não se mete em trabalhos nem procura fazer o mais difícil. Sem bola, ajudou Richard Ríos a crescer. É um médio de entendimento de jogo refinando, jogando na antecipação e posicionando-se com eficiência sempre que é preciso apagar fogos. Esta dimensão do seu jogo deu ao colombiano maior confiança para se lançar em pressões, subir metros e encostar nos adversários. Aí, começou a notar-se o crescimento.
Com Aursnes mais recuado, Ríos também foi pisando cada vez mais terrenos avançados. Tem nessa dimensão de jogo, a chegada à área, uma característica de relevo. Também por isso se explica a veia goleadora demonstrada no final da época. Mais do que os remates de longe que gosta de tentar – ainda sem grande sucesso – é na chegada à área para responder a situações de cruzamentos atrasados que o colombiano mais oferece. E, depois, na bola de neve que é a confiança num futebolista, até já é possível ver outra influência em zonas recuadas pelo passe longo ou pela condução. O contexto nunca é impossível de ignorar.


Os próximos dias começarão a dar novidades sobre a próxima época do Benfica. Seja José Mourinho, seja Marco Silva ou seja qualquer outro, há dois nomes em evidência nos encarnados. Não dite o mercado de transferências um veredicto diferente e Andreas Schjelderup e Richard Ríos estão aí para dar rendimento.
BnR na Conferência de Imprensa
Bola na Rede: Já destacou a vontade em fazer uma análise a olhar para as duas épocas. Do primeiro jogo que faz no Estoril e depois dos primeiros meses difíceis, há duas temporadas, até hoje, taticamente e do ponto de vista do futebol jogado, que avaliação é que faz e onde sente, por um lado, que o Estoril mais cresceu e, por outro, mais precisa de continuar a crescer?
Ian Cathro: Eu acho que, olhando pela parte tática, sistema e maneira de jogar… Como o meu objetivo era trazer estabilidade ao Estoril, mudar a mentalidade, jogar sem medo, não é algo ligado com o 4-3-3, pressionar, bloco aqui ou bloco ali. Não era o objetivo. Ao longo das duas épocas, por necessidade ou por rendimento e disponibilidade de jogadores, fomos mexendo em várias coisas. Temos apresentado várias maneiras de jogar. Uma das coisas para o futuro é que não podemos estar a mexer tanto, nem trocar o nosso caminho tantas vezes. Por isso, vamos precisar de ter outro equilíbrio e outra robustez no plantel para começar a preparar a época na pré-época e a preparar a maneira como vamos jogar e fazer 34 jogos. Infelizmente, acho que toda a gente se esqueceu que esta época só fizemos 33 jogos e tivemos uma peladinha numa data FIFA. Espero que na próxima época façamos 34 jogos em condições normais. Nestes 34 jogos em condições normais, gostava de sentir que estávamos preparados para ter uma linha e seguir essa linha.
Infelizmente, não nos foi concedida a possibilidade de colocar uma questão a José Mourinho.
