Florentino Pérez surpreendeu o mundo do futebol ao anunciar que realizaria uma conferência de imprensa ao final da tarde da última terça-feira, depois de uma época absolutamente para esquecer do Real Madrid. Se alguns presidentes não têm qualquer problema em falar com a imprensa, apresentando-se aos jornalistas inclusivamente algumas vezes por mês, o líder dos merengues sempre se pautou pelo silêncio, tantos nos momentos positivos como nos negativos. O dirigente sempre contou com intermediários, o que fez com que poucas vezes pisasse os terrenos da sala de imprensa. Quando o fez, mostrou-se assertivo, ponderado e seguro de si. Podíamos não concordar com a mensagem, mas a mesma não era mal transmitida, usavam-se as palavras de uma forma correta, num discurso trabalhado com antecedência.
O que vimos em Valdebebas foi o inverso do que se esperava. Previa-se um Florentino Pérez a realizar um resumo da época, retirando ilações negativas, já que positivas há poucas, admitindo que iria contratar um novo técnico e que existiria uma reconstrução do plantel. Quiçá pudéssemos apontar para a convocatória de eleições, tendo em conta a dificuldade que é para alguém poder participar nas mesmas, dadas as condições aprovadas pelos sócios do Real Madrid e apresentadas pela atual direção.
É seguro afirmar que somente os primeiros 30 segundos da conferência foram ‘normais’. Florentino Pérez não apresentou a demissão, mas confirmou que os associados vão ter de ir às urnas em breve. A partir daí, foi o descalabro total. Um presidente desorientado, sem qualquer tipo de discurso, altamente protegido pelo seu assessor (embora Florentino Pérez se tenha negado a sair da sala de imprensa no momento correto, continuando a responder a perguntas) e puxando dos galões, referindo de forma constante que estava a convocar eleições para defender os sócios do Real Madrid, indicando uma suposta entidade ou pessoa que se dedica a destruir o trabalho realizado.
Florentino Pérez dividiu-se entre o papel de ‘rei da sala’, evocando todos os títulos que os blancos conquistaram durante a sua presidência, e o de ‘acusador’, proferindo frases graves contra jornalistas, muitos dos quais não estavam naquele lugar. O principal visado foi Rubén Cañizares (‘Tu, que estás sempre a criticar o Real Madrid; estamos a falar do melhor clube do mundo, por que é que o desacreditas todos os dias?’) e o próprio Jornal ABC (‘esquecendo’ os ataques ao Relevo, indicando que o órgão de comunicação social foi criado para fazer mal ao Real Madrid e que gerou perdas de 25 milhões de euros), que o presidente afirmou que deixaria de subscrever. Cañizares teve direito a defender, já que estava em Valdebebas, mas a ‘senhora que Florentino Pérez não sabe se perceber sequer de futebol’ não teve o mesmo direito, remetendo-se às suas redes sociais, onde apresentou uma resposta de classe.
Uma conferência que se transformou num circo, na qual Florentino Pérez quis inclusivamente escutar uma jornalista, já que os demais eram ‘feios’, assumindo o papel de chefe de imprensa. Na verdade, poucas foram as perguntas cuja resposta do dirigente teve qualidade. Na maioria delas, assumiu-se como o defensor dos sócios do Real Madrid e protetor do futebol (assumindo que a Superliga Europeia levaria o futebol aos meninos em África de forma gratuita).
Frase sim, frase não, Florentino Pérez recordava que o Real Madrid é o maior clube do mundo, recorrendo a dados das redes sociais e do Transfermarkt, ao mesmo tempo que dava alfinetadas ao Barcelona (‘Ganhei sete Champions e sete La Ligas, mas deviam ser 14, se não nos tivessem roubado’, menosprezando os méritos dos rivais), recordando o Caso Negreira. Nem parece que os catalães conquistaram o bicampeonato no último fim de semana, já que o presidente dos blancos se recusou a falar de futebol.
Florentino Pérez não falava com os meios de comunicação de uma forma tão aberta há 10 anos e mostrou a sua pior face, uma mistura de Donald J. Trump e Joe Biden, sem qualquer tipo de classe, mas convencido que ele é que está certo, que tem o mundo contra ele e contra o Real Madrid. Poucos ficaram convencidos com o seu discurso, embora 99% tenha consciência de que vai vencer as próximas eleições.
Enrique Riquelme, o ‘senhor que tem acento mexicano’, é o grande rival de Florentino Pérez no Real Madrid, mas o atual dirigente tem tudo nas suas mãos, podendo apresentar inclusivamente José Mourinho como maneira de convencer o associado a votar nele. Todavia, um hipotético triunfo do engenheiro civil seria concretizado com uma percentagem bem mais baixa do que o próprio pensa, convencido que daria um 90-10 sem qualquer tipo de problemas.
Florentino Pérez já foi Deus no Santiago Bernabéu, mas está em declínio claro e na terça-feira somou uma derrota histórica, fora do campo, perdendo o respeito de muitos que o admiravam.
Seria muito mais positivo que o próprio viesse justificar a saída de Xabi Alonso do banco de suplentes, para colocar Álvaro Arbeloa como treinador principal, quando tinha poucas provadas dadas, enquanto que o antigo médio estava a montar um projeto, que necessitava de algum tempo. Também poderia falar das saídas de antigas glórias como Luka Modric ou Toni Kroos, que tinham o respeito de todo o balneário, eram uma voz de união. Quem são os líderes do Real Madrid hoje em dia?
Florentino Pérez normalizou os confrontos entre jogadores dos merengues, revelando que os mesmos existem todos os anos, inclusivamente com mais frequência. Não é descabido a existência destes acontecimentos, mas sim a forma como o presidente da suposta maior instituição do mundo do futebol analisou o tema:
«Têm existido desentendimentos todos os anos desde que estou lá, mas é como as brigas dos jovens: dás um pontapé, o outro retribui e, no final, não passa de nada e continuam amigos», disse. O que Florentino Pérez se ‘esquece’ é que não estamos a falar de jovens, mas sim de adultos, sendo que um deles tem encargos importantes. Federico Valverde é vice-capitão, é visto como um modelo para muitos e falhou o último encontro por um conflito com Aurélien Tchouaméni. Jogo esse que o Real Madrid foi derrotado pelo Barcelona por 2-0, sendo uma diferença curta no resultado. O francês tem 26 anos e o uruguaio 27, não são adolescentes, não são atletas que foram promovidos do Real Madrid B. São considerados líderes e falharam a um nível gritante.
Florentino Pérez também poderia ter aberto o jogo sobre o futuro, anunciando a negociação por um treinador, ou garantindo que tinha um alvo identificado (que o tem e chama-se José Mourinho), mas nem isso debateu, passando 90% do tempo ao ataque, danificando assim a sua própria imagem.
A verdade é que o Real Madrid está cada vez mais longe do topo da Europa, com o grande rival por cima na La Liga. Tem falhado certas contratações, com investimentos em atletas que não conseguem render no imediato (60 milhões de euros por Franco Mastantuono, 50 milhões de euros por Álvaro Carreras), mostrando uma instabilidade no banco de suplentes que não se tinha visto com Florentino Pérez. Hoje em dia, fala-se mais e escreve-se mais das polémicas envolvendo Vinícius Júnior e Kylian Mbappé (que prefere ir de férias com a namorada do que apoiar os restantes colegas quando está lesionado, o que diz muito do espírito existente), do que do que os merengues fazem bem dentro de campo. Mas este fenómeno não é provocado pelos jornalistas ou comentadores, mas sim pelo próprio Real Madrid. Não há quase nada de positivo para se analisar. Tal como nos próximos dias esta conferência de imprensa será a protagonista do universo madrileno.
A missão de Florentino Pérez de tentar convencer os adeptos do Real Madrid que está tudo bem falhou redondamente. O presidente dos merengues (que tem uma margem de erro infinita) esteve a falar durante mais de uma hora para chegarmos a duas conclusões: que não se demite (ainda com a existência de eleições) e que vai deixar de subscrever o ABC, notícia fundamental para quem estava interessado no futuro de um clube secular.

