Um Olé da Espanha à França – Diário do Mundial 2026 #31

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A banalização do inquebrável | França 0-2 Espanha

Mikel Oyarzabal Lamine Yamal Aymeric Laporte Espanha Jogadores
Fonte: Federação Espanhola de Futebol

Quem quer que tenha visto os seis jogos da França no Mundial 2026, colocaria o plantel liderado por Didier Deschamps como a equipa mais temível em competição. Só isso, diz tudo sobre os méritos imensuráveis da Espanha que não só venceu bem a França como banalizou a seleção gaulesa. Os dados dizem o que cada um quer ver, mas são bem explicativos de vários parâmetros. Dito isto, a França teve o menor índice de xG – os golos esperados – desde 1966. Com o ataque maravilhoso e, aparentemente, imbatível.

Há méritos claros na estratégia espanhola para o jogo, mas, principalmente, na identidade coletiva. Faz um torneio em crescendo nesse aspeto. As comparações com o Euro 2024, o apogeu futebolístico desta Espanha, e mesmo com a Liga das Nações 2025 são válidas. A Roja tem, em comparação, menos ameaças, explicadas principalmente pela lesão de Nico Williams, e um jogo menos apetecível. Ainda assim, identitariamente, nada mudou. E essa é a grande força da seleção espanhola.

Quando, após o empate traiçoeiro contra Cabo Verde na estreia, se vaticinou o fim da posse de bola, pouco se pensou no contexto e mais nas necessidades de afirmações com efeito imediato. Nesse jogo, é certo que a Espanha desenvolveu uma posse estéril. Mas, por um lado, as ameaças estavam ainda mais escassas, com Lamine Yamal vindo de lesão e, por outro, poucas seriam as seleções que, quando começasse a doer, mantivessem a estabilidade defensiva dos Tubarões Azuis. A partir daí, a Espanha só soube crescer.

Pedro Porro Espanha
Fonte: Federação Espanhola de Futebol

Primeiro, porque Luis de la Fuente identificou os pontos de melhoria no onze base. À direita, Pedro Porro assumiu a titularidade, como lateral de maior envolvimento ofensivo e variabilidade nas ações. No meio-campo, Fabián Ruiz já apareceu no onze nos últimos jogos. Está num momento de forma superior ao de Pedri e oferece maior chegada à área. Sem Nico Williams no nível adequado, Alex Baena ganhou o lugar à esquerda. Dá mais que Gavi, titular na estreia, nesta posição, mantendo o protagonismo de Marc Cucurella. Também Lamine Yamal, a estrela da companhia, faz um Mundial em crescendo. Por todos esses fatores, também se explica o crescimento.

É impossível não olhar para a Espanha e não valorizar a capacidade para manter a bola e jogar com esta, procurando gerar vantagens e superioridades. Nesse aspeto, há três nomes particularmente relevantes na gestão dos ritmos e dos tempos. Rodri está a fazer uma fase a eliminar do Mundial de absoluto domínio. Foi o melhor jogador do Euro 2024 com menos. A lesão grave parecia tê-lo atirado para um segundo patamar, mas estas partidas entusiasmam. Chega a todo o lado sem bola e o jogo passa pelos seus pés. Faz o ritmo fluir, acelerando, travando e encontrando sempre um colega livre. Mais à frente, Dani Olmo com mais uma exibição determinante, a procurar espaços livres para decidir e a gerar combinações e acelerações. Sempre que se associou com Lamine Yamal (e com Pedro Porro) saiu de lá perigo. Mikel Oyarzabal deu à Espanha aquilo que, por exemplo, Marrocos não conseguiu ter com a ausência de Ismael Saibari. Consegue gerar superioridades por dentro, na construção, mas também ameaçar a última linha. Ainda esboçou os laivos de calma e sobriedade na hora do penálti.

Depois, para lá das condições com bola nos pés, nomeadamente a abrangência no passe, defensivamente a Espanha tem os defesas num bom momento, também no que diz respeito ao momento defensivo. Não abdicou da identidade contra a França e conseguiu sempre controlar o espaço nas costas da linha defensiva, curiosamente mais alta com o andar do jogo (o primeiro golo deu confiança à Roja). Usa a armadilha do fora de jogo e tem em Aymeric Laporte e, principalmente, Pau Cubarsí – escola do Barcelona de Hansi Flick – jogadores capazes de fazer esta gestão. Unai Simón controlou sempre a profundidade e somou duas ou três saídas para limpar. 

Lamine Yamal Lucas Digne Espanha França
Fonte: Federação Espanhola de Futebol

O estado de espírito da seleção francesa explica–se muito pelo que a Espanha foi capaz de fazer. Rodri não deu espaço a Olise, que começou por dentro e, completamente fora dela, ainda passou a jogar por fora, trocando com Dembélé e procurou terrenos mais recuados, com Koundé a projetar. Nada resultou. Kylian Mbappé era a opção para acelerar nas costas da linha defensiva, mas ficou travado no fora-de-jogo. Sem as duas principais referências no torneio, houve muito pouco para retirar da seleção francesa.

Lá atrás, o erro de Lucas Digne é imperdoável, especialmente num contexto tão alto. Já seria um erro de levantar cabelos em qualquer pelado das distritais, numa meia-final de Mundial ainda mais evidente se torna. A partir daí, o corredor esquerdo passou a ser uma autoestrada para a Espanha, que marcou o segundo golo – começando lá de trás para gerar vantagens e acelerar – também nas costas do lateral. A lesão de William Saliba não terá ajudado a recuperar, muito menos a substituição de Adrien Rabiot, amarelado, mas como o jogador mais inteligente nas compensações e na ocupação de espaços.

Sem o poder ofensivo, os quatro avançados da França tornaram-se um fardo demasiado grande para uma equipa que passou a maior parte do tempo a correr atrás da bola, mais do que a defender. Havia dúvidas sobre a invencibilidade francesa, já não há. A Espanha conseguiu-o, de uma forma tão inequívoca, como os gritos que se foram propagando ao longo da segunda parte evidenciaram. Olé.

Diogo Ribeiro
Diogo Ribeirohttp://www.bolanarede.pt
O Diogo tem formação em Ciências da Comunicação, Jornalismo e 4-4-2 losango. Acredita que nem tudo gira à volta do futebol, mas que o mundo fica muito mais bonito quando a bola começa a girar.

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