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«Acho uma injustiça que o Paulinho e o Horta não sejam sequer convocados» – Entrevista BnR com Barroso

Francisco Grácio Martins · 18 min

Barroso
Foto: Facebook de José Barroso

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Campeão nacional e vencedor da Taça de Portugal pelo FC Porto, foi no Braga que, sem nunca conquistar nenhum troféu, Barroso ganhou o estatuto de lenda. Natural da cidade minhota, viveu a juventude entre a marcenaria e o futebol, não deixando que a madeira o impedisse de viver o sonho de menino de jogar pelo seu Sporting de Braga. A norte, representou ainda o Rio Ave. Mais abaixo no mapa, conheceu a cidade dos estudantes, onde jogou pela Académica. Apesar das mudanças, foi no Braga que ficou sempre o seu coração, nunca escondendo a sua preferência pelos arsenalistas. A sua imagem de marca será sempre o potente remate que não deixava nenhum guarda-redes descansado. Ao longo dos muitos jogos que fizeram deste médio defensivo um dos jogadores que mais vezes usaram o emblema dos guerreiros, o seu pé direito ganhou o epíteto de pé canhão. Hoje, não esquece o respeito que conquistou no mundo do desporto e deixa o seu desejo de ver o Braga campeão.

– De marceneiro a artilheiro –

Bola na Rede [BnR]: O pé canhão ainda está afinado?

José Barroso [JB]: [suspiro] Agora nem metade deve estar. Vou fazer 50 anos, é normal.

BnR: Treinava muito o seu remate?

JB: Desde miúdo. Nas camadas jovens do Sporting de Braga faziam-se muitos treinos de finalização. A força estava lá, mas depois há que aprimorar a colocação, a técnica de remate, várias coisas. As condições não eram o que são agora, mas ia-se melhorando a cada treino.

BnR: Jesualdo Ferreira sentiu-o na pele…

JB: No primeiro treino aqui em Braga, ele estava a dar indicações e, sem querer, mandei-lhe uma bolada. Estava a ver que tinha matado o homem, mas não foi nada de mais. Ficou com o olho todo negro e acabou por cair ao chão derivado à força do remate, mas não aconteceu nada de especial.

BnR: Vamos ao tira teimas, qual foi o melhor golo que marcou?

JB: As pessoas falam muito do golo que marquei ao Porto, ao Vítor Baía. Para mim, não só porque foi um grande golo, mas porque foi importante para o Sporting de Braga, foi em Setúbal, numa altura em que estávamos a lutar para não descer. Foi um remate a 35 metros da baliza e, a duas jornadas do fim, garantiu, praticamente, a permanência do Sporting de Braga. É difícil escolher. Eu fiz 54 golos ao serviço do Sporting de Braga e são todos importantes e bons.

BnR: A que jogador do Braga é que emprestava o seu pé direito?

JB: Infelizmente, não se veem muitos golos de fora da área. Emprestava ao Paulinho ou ao Ricardo Horta que estão mais perto da baliza, se eles aceitassem.

BnR: Quando era miúdo já torcia pelo Braga?

JB: Já. Eu fui jogar para o Sporting de Braga aos 13 anos. Antigamente, não havia escolinhas, jogávamos na rua e nos campos pelados da freguesia. A minha primeira experiência em futebol federado foi no Sporting de Braga, no Campeonato Nacional de Iniciados. Até aí, jogava com os mais velhos, na rua, fazíamos balizas com duas pedras. Depois, fui para o Sporting de Braga. Foi sempre o meu clube e fui sempre ver os jogos durante esse tempo todo até agora. Não sou pessoa para mudar de clube, o meu clube sempre foi o Sporting de Braga e vai continuar a ser até ao fim. Respeito todos os clubes onde joguei, mas gosto de dizer a verdade: o Sporting de Braga é o meu clube. Quando jogava noutras equipas, e jogava contra o Sporting de Braga, o meu clube era onde eu jogava. Pelos anos que lá joguei, só pode ser o Sporting de Braga o meu clube. Hoje em dia, muitos futebolistas mudam constantemente e hoje são de um clube e depois mudam e já são desse clube desde pequeninos. Isso não me agrada muito.

BnR: O futebol moderno, com essas trocas e baldrocas, ainda o encanta?

JB: Hoje em dia, vê-se jogadores a serem transferidos que nem jogam nos clubes onde estão. Os miúdos são contratados pelo que podem vir a ser, pelo seu potencial. Não são jogadores que tenham mostrado grande coisa nas suas equipas seniores. Há uns anos para se chegar a uma equipa grande eram precisas, pelo menos, três épocas de grande nível para se chegar a uma equipa grande. Hoje, facilmente se chega a uma equipa grande. É a lei do mercado. O futebol é um negócio, nada a dizer sobre isso.

Fonte: Facebook de José Barroso

BnR: Como é que o marceneiro se deixou seduzir pelo futebol?

JB: Comecei a jogar aos 13 anos, mas já trabalhava desde os nove para ajudar os meu pais. O meu pai estava em França, a minha mãe estava cá e eu ia trabalhar de manhã, depois estudava à tarde. Saía às 17 horas e depois ia para os treinos sozinho, de autocarro. Agora, os pais vão levar os miúdos, o que, por um lado é bom, porque têm mais acompanhamento, mas, por outro, é mau, porque têm tudo de mão beijada, não passam por dificuldades nenhumas. Nunca ninguém me deu nada e sei o que me custou chegar lá. Sabia o que queria: queria ser jogador de futebol. Quando cheguei aos 18 anos, tive que optar ou pelo futebol ou pela marcenaria. Claro que o meu sonho era ser jogador do Sporting de Braga e chegar à equipa principal. Parti muita pedra para chegar lá, mas consegui até mais coisas do que eu imaginava na altura.

BnR: Foi duro, portanto…

JB: Nem sonhava em ser internacional A pela seleção portuguesa, porque sabia que era muito difícil. Ainda por cima estava no Sporting de Braga. Numa altura muito difícil do Sporting de Braga, em que haviam jogadores nas equipas grandes e no estrangeiro, sem empresário e ser internacional A pelo Sporting de Braga em 1995… Vendo agora o Paulinho e o Ricardo Horta, como o Sporting de Braga está, e nem sequer são convocados… acho uma injustiça. Agora o Trincão saiu para o Barcelona e já está na seleção. É de dar ainda mais mérito ao meu trabalho por ter conseguido chegar à seleção nacional. Nunca ninguém me deu nada. Tive pessoas que me ajudaram, mas hoje vê-se muita coisa dada a muitos jogadores que não fazem por merecer isso.

BnR: Com o que é que contava para se tornar jogador profissional?

JB: Eu era uma pessoa que sabia sofrer. Não era fácil chegar cansado do trabalho, estudar e ainda ir treinar. Chegava às 22 horas e tal a casa, muitas vezes perdia o autocarro e ainda andava a pé mais 20 minutos. Foi muito difícil mesmo. Agora há muitos empresários, mas, na altura, só com o meu trabalho é que consegui chegar ao topo do futebol português.

  

– O dinheiro não é tudo –

BnR: Após concluir a formação no Braga, como é que surge a ida para a equipa principal?

JB: Hoje em dia, chega-se mais rápido à equipa principal. No meu tempo, saíamos dos juniores e passávamos na equipa satélite, portanto, só cheguei à equipa principal com 23 anos. Comecei no Maximinense da distrital de Braga, que era a equipa satélite do Sporting de Braga. Subimos essa equipa, ganhámos tudo. Entretanto, fui para o Arsenal de Braga e subimos à Segunda Divisão B. Depois fui para a equipa principal do Braga, com o técnico Carlos Garcia. Fiz alguns jogos e acabei por ser emprestado ao Rio Ave, onde fiz uma grande temporada. Agora, com 19 ou 20 anos os miúdos já fazem parte das equipas principais. Se eu tivesse começado nessa altura podia ter muitos mais jogos na Primeira Liga.

BnR: O empréstimo ao Rio Ave mostra que as coisas ao início não correram muito bem?

JB: Até dezembro eu estava a jogar a titular. Depois houve pressões da direção do Braga para jogar um jogador que tinha sido contratado e eu fui encostado. Estava chateado, porque sentia que ia sair da equipa. O treinador adjunto disse-me para ter calma, que ainda era novo, e eu respondi-lhe que, se fosse a pensar assim, aos 30 anos ainda era novo. Nunca perguntei aos treinadores porque é que jogava, também não ia perguntar porque é que não jogava, mas fiquei desiludido, pois não merecia sair da equipa na altura.

BnR: Entretanto conseguiu singrar no Braga e acabou por ser internacional A. Conte-nos essa experiência.

JB: Foi maravilhoso. Estava no Sporting de Braga, como já disse. Enquanto estive no Porto, fui à seleção várias vezes, mas nunca joguei nem jogos particulares, nem oficiais, porque é muito difícil. Há muitos interesses. As pessoas não falam muito, mas para quem não tiver um currículo pelas seleções jovens, torna-se difícil. Eu acho que quem está em forma devia ir à seleção. Eu não tinha sido internacional pelas camadas jovens e, portanto, é o que eu disse, mais mérito dá ao meu trabalho.

BnR: É treinado por Manuel Cajuda que é conhecido pelos episódios caricatos. Tem alguma história caricata com ele?

JB: Tenho. Trabalhei seis ou sete anos com ele. Foi o Manuel Cajuda que me tornou capitão do Sporting de Braga. Normalmente, quem tem anos de clube é que é nomeado capitão, mas eu fui nomeado por ele quando ainda tinha pouco tempo como sénior no Sporting de Braga. Ele achou que eu tinha perfil para isso. Conhecendo a minha maneira de ser ele achou que eu devia ser o capitão de equipa. Houve uma altura em que o presidente [Nuno Cunha] me chamou ao seu gabinete e eu percebi que ele queria que eu metesse o balneário contra o Manuel Cajuda e eu disse-lhe que isso eu nunca faria e que, a partir daquele momento, eu deixaria de ser o capitão de equipa. Ele disse-me: “Tu és maluco, tu és maluco! Se deixares de ser capitão de equipa toda a gente te vai perguntar porquê!”. “Então, ó presidente, não me peça uma coisa dessas. Eu não queria trair o treinador. Eu estou aqui para ajudar o clube, o treinador, os adeptos, não estou aqui para trair ninguém”. Sou uma pessoa de gente humilde. O dinheiro, hoje em dia, compra tudo, mas a mim não me compra. A mim ninguém me tira o caráter e a dignidade.

Fonte: Facebook de José Barroso

BnR: Como é que o Barroso era enquanto capitão?

JB: Se houver um bom balneário, há bons resultados. Sempre gostei de acolher os novos jogadores. Ajudei muitos jogadores que chegaram longe no futebol profissional. Achei que tinha que os ajudar. Nunca gostei de fazer aos outros o que me fizeram a mim. Quando eu comecei a carreira, não era fácil. Não senti grande apoio de muitos ex-colegas.

BnR: Achou que tinha que conquistar estatuto no balneário?

JB: “O respeito não se impõe, conquista-se”. Fui conquistando o respeito das pessoas e dos meus colegas com atitudes, não com palavras. “Palavras leva-as o vento”.

BnR: Irritava-o quando os seus colegas não jogavam com amor à camisola?

JB: É difícil de falar. O amor à camisola também se conquista com os anos de clube, sendo um jogador competitivo. Muitos jogadores têm qualidade técnica, mas não são muito competitivos. Um grande jogador tem que ser competitivo. Antigamente, o futebol era mais agressivo, agora, joga-se mais à vontade, as equipas saem facilmente a jogar. São outros tempos, outros ordenados, outras condições.

 

– O Estádio das Antas ficou rendido –

BnR: Depois, vai para o Porto…

JB: Na altura, estava para ir para os clubes grandes todos. Como não tinha empresário, o presidente é que estava dentro dessas situações. Pelo que eu sabia, o Benfica só dava jogadores ao Sporting de Braga, não dava dinheiro. O Sporting de Braga precisava de dinheiro para pagar os ordenados em atraso, logo os jogadores não interessavam muito. Acabei por ir para o Porto que pagou [o equivalente a] 500 mil euros. Ajudou o clube, porque pagou três ou quatro ordenados em atraso. Numa altura até houve várias rescisões de contrato e o presidente ligou-me às três da manhã, a pensar que eu tinha rescindido. Só que a minha maneira de ser não ia deixar isso acontecer, porque não ia deixar o meu clube com as calças na mão. O Sporting de Braga saiu beneficiado com a minha venda, porque foi o clube que me deu tudo. Depois fui para o Porto e estive no ano do tri e do tetra. No primeiro ano no Porto, joguei quase todos os jogos e as coisas correram bem. Tive tempo para me adaptar, jogar logo e ganhar. Na segunda época, fui encostado de uma maneira esquisita. O empresário José Veiga é que metia lá os jogadores todos, eu como não tinha empresário… se calhar foi por isso… Depois fui para a Académica. Quando fui jogar pela Académica ao Estádio das Antas, fui substituído e o estádio cheio bateu-me palmas de pé. Foi das melhores coisas que me aconteceu na vida futebolística. As pessoas também notaram que as coisas não foram bem feitas a meu respeito. Não saí pelo meu valor, mas por outras coisas do futebol.

BnR: Teve pena de não fazer parte da equipa que ganhou o penta?

JB: Tive. O treinador que foi para lá [Fernando Santos] disse que tinha o Barroso e o Paulinho Santos, logo não precisava de médios defensivos e fui dispensado. É sinal que não fui dispensado pelo treinador, não fui dispensado pelo meu valor nem pelo que tinha feito no Porto. Estou de consciência tranquila. Ainda agora, pela altura da Taça da Liga, encontrei, aqui em Braga, pessoas do Porto que, quando me viram, me vieram dar um abraço muito satisfeitos com o trabalho que fiz no Porto e uma pessoa disse-me que não saí do Porto por causa do meu valor. Por outro lado, foi bom, porque acabei por regressar a Braga e terminei a carreira no meu clube do coração, que sempre foi um dos meus sonhos.

Fonte: Facebook de José Barroso

BnR: O que é que fazia o Porto ser tão dominador naquela época?

JB: O Porto tinha uma excelente equipa. Ao longo da sua história, teve várias possibilidades de conseguir o tri, mas nunca o tinha conseguido. Isso foi mesmo um sonho concretizado. Entrei na história do Porto, juntamente com os meus colegas. Éramos uma equipa que tínhamos muitos jogadores portugueses, o que era muito importante, e o balneário era bom.

BnR: Em 1998 ganha a Taça de Portugal ao Braga…

JB: Fizemos a dobradinha. Joguei muitos jogos da Taça, mas não joguei a final. O meu sentimento era de que o Porto tinha que ganhar. Eu estava no Porto, não havia volta a dar. Claro que gostava que o Sporting de Braga ganhasse a Taça de Portugal se fosse contra outra equipa. O Braga já merecia ter mais títulos, apesar de já ter conseguido alguns.

BnR: Jogou com Sérgio Conceição no Porto. Vê o caráter do Sérgio refletido na atual equipa do Porto?

JB: Vejo. Quando o Sérgio Conceição foi treinar o Porto, porque o Porto estava mal, eu disse que ele era a melhor opção para o Porto. Ele tem estatuto e disciplina. Nada funciona se não houver disciplina. Eu sou igual, gosto de disciplina. Eu disse que ele ia meter disciplina naquilo e assim foi. Felizmente, para ele e para o Porto, isso veio a refletir-se nos resultados, apesar de que os plantéis do Porto não têm sido grande coisa.

– Tudo é Braga e o Braga é tudo –

BnR: Como surge a possibilidade de regressar ao Braga?

JB: Estava na Académica e havia a possibilidade de ir para Espanha, para o Oviedo. As condições não eram o que eu achava que deviam ser e eu aceitei o Sporting de Braga, que tinha problemas de balneário na altura e, como tinha sido capitão antes de sair para o Porto, o Manuel Cajuda e o presidente falaram comigo para eu regressar e acertámos tudo a partir daí. As pessoas sempre gostaram de mim aqui em Braga, o que é bom. Não é pela minha linda cara, mas pelo trabalho que fiz ao longo dos anos. O balneário estava com problemas, mas as coisas melhoraram e fizemos um bom trabalho.

BnR: Apesar do amor ao Braga, é nos dois anos em que está no Porto que vence todos os títulos da sua carreira. Ficou com um amargo de boca por nunca ter ganhado nada no Braga ou é ainda mais gratificante para si ser considerado uma lenda do clube mesmo sem essas conquistas?

JB: Entendo perfeitamente os jogadores e os treinadores das equipas que lutam para não descer. É muito mais difícil lutar para não descer do que lutar para ser campeão ou para jogar a Liga Europa. Só jogadores fortes mentalmente conseguem sobreviver àquilo. O Sporting de Braga, há uns anos, tanto podia estar um ano a lutar pela Europa como um ano estava a lutar para não descer. Gostaria imenso de ganhar títulos pelo Sporting de Braga, mas era muito difícil. Campeonato? Ainda hoje é quase impossível ser campeão pelo Sporting de Braga. Espero que o Sporting de Braga o conquiste já este ano, mas não vai ser fácil. Em Portugal, não é fácil. Taça de Portugal? Taça de Portugal podia ser. Estivemos quase. Podíamos ter ido à final, mas não conseguíamos. Taça da Liga? Não havia. Intertoto? Não havia. O Sporting de Braga passou por muitas dificuldades financeiras. Só quem estava lá é que sabe. Felizmente, nunca desceu de divisão. O Vitória de Guimarães desceu à Segunda Liga com uma “equipaça”. Talvez fossem bons jogadores, mas mentalmente, para suportar aquilo, não conseguiram. O Sporting de Braga nunca desceu. A equipa nem sempre jogava bem, mas, o que é certo, é que dava tudo em campo. É o tal amor à camisola. Claro que o dinheiro é importante, mas nunca foi a prioridade para mim. Nunca olhei muito ao dinheiro. Preferia estar num sítio onde me sentisse bem. Era difícil ir para o estrangeiro, porque antigamente, só podiam jogar três jogadores estrangeiros nas equipas. Agora é muito fácil. Um jogador normalíssimo vai para a Roménia, vai para o Chipre, vai para todo o lado, até para a Letónia vão.

Fonte: Facebook de José Barroso

BnR: António Salvador disse que acreditava que o Braga pudesse ser campeão até 2021, ano do centenário. Acredita nisso?

JB: Possível é. Fica bonito dizer que vai ser. Agora, que é muito difícil, é. Não é preciso falar muito. As coisas estão à mostra de toda a gente. As coisas que se passam no futebol português… Não é de agora. Infelizmente, as pessoas não querem mudar. Quando alguém quer mudar alguma coisa vão logo com três ou quatro machados. Infelizmente para o futebol português, vai continuar assim a triste cena. Era bom outras equipas intrometerem-se pelo campeonato. O Sporting de Braga, com certeza, tem esses sonhos. Espero que o consiga.

BnR: Há pouco, referiu que o respeito se conquista com atitudes e atos, não com palavras. Que atitudes e atos foram esses que teve com o Braga?

JB: Nunca gostei de dizer que ia fazer isto ou aquilo, sempre demonstrei em campo. Sou uma pessoa que se mantém sempre no seu canto. Respeitei e respeito toda a gente e toda a gente me respeita. Com muito trabalho, muita dedicação e muita humildade consegui esse respeito das pessoas em geral.

BnR: Qual a maior loucura que fez pelo Braga?

JB: Vestir a camisola do Sporting de Braga sempre foi e será o maior orgulho da minha carreira. Uma das coisas que gostei de fazer foi ajudar a equipa B, quando estava em dificuldades para não descer de divisão. Eu fui lá. Disponibilizei-me para jogar, enquanto a maioria dos jogadores foi de férias. Fui ajudar os miúdos e conseguimos. Se os miúdos descessem de divisão iam dizer que eles não tinham valor. Fiquei muito contente por eles. Em alguns clubes, quando lá ia jogar, até me chamavam nomes e diziam: “O Barroso não pode jogar nesta equipa”. Para mim, o Sporting de Braga não era a equipa A nem a equipa B, o Sporting de Braga era um todo. Defrontava o Vizela, o Fafe ou o Maria da Fonte como defrontava o Milan na Champions com o Porto. Se eu desse o máximo, as pessoas ficavam contentes.

BnR: É importante passar a mística do clube aos mais novos?

JB: O que é a mística? A mística é uma pessoa gostar de um clube, dar o que tem e o que não tem pelo clube, independentemente de as coisas correrem bem ou não. A mística para mim é assim. Gostar do clube, gostar da cidade, gostar dos adeptos, identificar-se com a maneira de ser do clube e das pessoas. Às vezes, perguntam-se se tenho saudades do futebol. Não tenho saudades do futebol, porque dei o máximo ao futebol. Claro que, às vezes, há uma nostalgia. Quando o Sporting de Braga joga mal dá vontade de ir lá para dentro. O que eu não admito, também como treinador, é que o jogador não seja competitivo e não dê o máximo enquanto está a jogar.

 

– Ganhar para crescer –

BnR: O que o Braga está a preparar para a próxima temporada entusiasma-o?

JB: Claro, o Sporting de Braga tem uma excelente equipa. Não sabemos como vai começar a época, fala-se de jogadores que podem ser vendidos e outros vieram. Vai ser uma época diferente, mas os nomes e as camisolas não jogam, senão eu ainda jogava. Podes ter um plantel muito bom, mas se não deres corda aos sapatos… Hoje em dia, toda a gente quer ganhar ao Sporting de Braga. Se toda a equipa estiver imbuída num espírito forte, dificilmente as equipas ganham ao Sporting de Braga. Se tiver esse espírito, pode ser campeão. Já o ano passado tinham um excelente plantel. Não tenho dúvidas que o Sporting de Braga pode conseguir o título de campeão nacional. Agora, não é falar, é demonstrar. Eu estou a torcer por eles.

BnR: Surpreende-o que o Braga consiga atrair jogadores como Gaitán?

JB: É sinal do crescimento do Sporting de Braga. O presidente está a investir. É preciso também que os jogadores demonstrem no campo essa qualidade.

BnR: Acha que António Salvador teve um papel importante na evolução do clube?

JB: Eu estou à vontade, porque fui o primeiro capitão da era António Salvador. Os orçamentos têm sido bons. Bom orçamento, boa equipa. O clube tem vindo a crescer, porque, de facto, tem outras condições que não tinha há uns anos. Basta ver a 1ª fase da academia… Para o clube crescer mais ainda tem que ganhar títulos.

BnR: Revê-se naquilo que o clube é hoje?

JB: Sem dúvida. Gostaria que tivessem estas condições no meu tempo. Ainda bem para o Sporting de Braga e os seus atletas. Espero que não percam essa oportunidade. “O comboio só passa uma vez”. Muitas vezes, os jovens distraem-se com outras coisas, esquecem-se que são futebolistas e perdem uma grande oportunidade.

BnR: Tem expectativas para ver o trabalho de Carlos Carvalhal?

JB: Sim. As expectativas são muitas. Não sei é se vou ver jogos. Não sei se vai dar para entrar público. Se calhar vou ter que meter uma cunha para ir ver os jogos [risos]. Eu gostava de estar no estádio. Principalmente para quem é treinador, vês coisas que não vês na televisão.

BnR: A que é que se dedica neste momento?

JB: Neste momento, estou no desemprego. Tenho quarto nível UEFA Pro, o que, hoje em dia, pelos vistos, nem é preciso [risos]. Sou um treinador no mercado. Sem influências não consegues chegar a lado nenhum. Se calhar vou para marceneiro outra vez.

Francisco Grácio Martins

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