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«António Salvador só não queria que eu fosse para o Benfica» – Entrevista BnR com Leandro Salino

Francisco Grácio Martins · 21 min

Foto: Olympiacos

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Despontou no Nacional, mas foi no Braga que se afirmou em pleno. Leandro Salino fez parte da equipa dos minhotos que chegou à final da Liga Europa, em 2010/11, um momento com que todos os jogadores sonham, mas que para este brasileiro de 35 anos teve um sabor agridoce. Salino revelou o que se passou nos bastidores da final de Dublin e a forma como foi afastado do jogo por Domingos Paciência. As boas épocas no nosso país levaram-no a transferir-se para o Olympiacos e recorda como Leonardo Jardim o tentou desviar. Consumada a ida para a Grécia, privou com Marco Silva e com jogadores como Cambiasso ou Éric Abidal que lhe serviram de inspiração. Hoje, na fase final da carreira, mas de consciência tranquila por tudo o que teve oportunidade de viver no mundo do futebol, representa o Betim do Brasil.

– A ilha (des)encantada soltou o guerreiro –

«Estava doido por vestir a camisola do Braga»

Bola na RedeQuando vieste para a Europa jogavas nos escalões secundários do Brasil. Como é que surge a vinda para Portugal?

Leandro Salino: A minha primeira ida foi em 2005. Fui campeão Mineiro com o Ipatinga e fui para o Nacional. A primeira passagem não foi boa. O treinador era o Manuel Machado. Fiquei seis meses e regressei ao Brasil em 2006. Tinha cinco anos de contrato com o Nacional, mas fiquei no Brasil até 2008. Andei pelo Ipatinga e pelo Flamengo. Fui cumprir o meu último ano e meio de contrato ao Nacional, novamente. Aí já foi melhor, tinha mais experiência. Jogámos a Liga Europa e logo a seguir fui para o Braga.

Bola na RedeNão chegaste a jogar no Camacha?

Leandro Salino: Não. Em 2005, o Nacional queria-me emprestar a esse clube e eu não aceitei. Preferia voltar para o Brasil.

Bola na RedeGuardas boas recordações da Madeira?

Leandro Salino: Muito boas. Consegui fazer amigos. O meu período lá foi curto, mas foi uma experiência muito boa. A ilha é muito bonita. O clube também era muito bom e tinham o dérbi contra o Marítimo que eram jogos muito intensos e muito bons de se jogarem.

Bola na RedeQual foi o momento mais marcante no Nacional?

Leandro Salino: Foi quando nos classificámos para a Liga Europa. Terminámos em quarto no campeonato português e conseguimos chegar à Liga Europa, eliminando o Zenit. Foi o momento mais marcante para mim.

Bola na RedeComo se deu a ida para o Braga?

Leandro Salino: Estávamos a chegar a dezembro. Tinha uma proposta de renovação com o Nacional. O Rui [Alves], presidente do Nacional, já me tinha feito uma proposta de renovação de cinco anos. Era uma proposta muito boa, mas eu não queria ficar mais na ilha por tudo o que eu já tinha passado. Queria ir para outro mercado, outro clube. Chegou a dezembro e recebi uma proposta do Braga que estava a lutar pelo título com o Benfica. Em dezembro ou janeiro, eles já queriam fazer um pré-contrato comigo, mas faltavam quatro meses para acabar o campeonato português. Eu decidi assinar o pré-contrato com o Braga. Isso circulou nos noticiários e o Rui acabou por me afastar do Nacional. Não me deixou jogar mais. Fiquei tranquilo. Sabia que ia para um grande clube como é o Sporting Clube de Braga, a quarta força aí de Portugal. Não havia hora de acabar o ano e o contrato para poder ir para o Braga. O treinador era o Domingos Paciência, já tinha tido contacto com ele, porque eles ligaram-me para assinar o pré-contrato. Essa mudança foi radical. Foi maravilhoso sair do Nacional. Fiquei ali quatro meses sem jogar, mas já tinha o pré-contrato assinado com o Braga e estava tranquilo e feliz ao mesmo tempo. Estava doido por vestir a camisola do Braga.

Bola na RedeQue dificuldades foram essas que te fizeram mudar?

Leandro Salino: A ilha é bonita, só que é pequena. Já conhecia tudo da ilha, não tinha muita coisa para fazer mais. Eu queria ir para outros ares. Lisboa, Porto… onde o mercado é melhor. Quando surgiu a proposta do Braga e o Rui me afastou, disse que não ia jogar mais no Nacional e que me ia embora. Esse final foi a maior dificuldade. Estar esse período afastado e não jogar, só treinar… e eu era titular absoluto e a equipa estava bem.

Bola na RedeÉ quando mudas para o Braga, com o Domingos Paciência, que passas de médio para lateral-direito?

Leandro Salino: Isso. Eu já era médio defensivo no Nacional, mas com o Domingos Paciência jogava mais como terceiro homem do meio-campo. O Braga era uma equipa muito forte com o Alan, Mossoró, Hugo Viana, Paulo César… Na pré-temporada joguei bem e acabei médio defensivo titular. O Domingos foi um treinador que me ajudou muito nesse período de Braga. Ele deu-me oportunidade de ser titular e acabei por fazer muitos jogos sob o comando do Paciência. Foi um clube em que a adaptação foi muito tranquila, porque eram mais brasileiros do que nacionais e o nosso grupo era muito unido. Foi espetacular.

Bola na RedeO que é que tiveste que mudar no teu jogo para fazer adaptação ao estilo de jogo?

Leandro Salino: No Nacional chegava mais à frente, no Braga marcava mais, porque a nossa equipa era muito rápida com o Mossoró, o Lima, que chegou no mesmo dia que eu. A nossa equipa jogava muito para a frente, então acabava por ficar mais na marcação eu e o Vandinho. Deixava a rapaziada da frente atacar.

Bola na RedePor indicação do treinador ou tu é que sentias essa necessidade?

Leandro Salino: Era o esquema de jogo. Tive que entender logo. As minhas características eram de defender mais. A nossa equipa atacava muito, então nós defendíamos sempre com os dois centrais, dois laterais e os dois médios defensivos, no caso, eu e o Vandinho, para dar segurança na defesa e libertar mais os extremos. Isso até acontecia mais quando eram jogos de Liga Europa ou Liga dos Campeões.

Bola na RedeMas, de vez em quando, ias desenrascar à direita.

Leandro Salino: Na verdade, com o Domingos eu fiz só um jogo na direita. Com o Leonardo Jardim acabei por jogar mais como lateral.

Bola na RedeNormalmente, os trincos são jogadores possantes. Tu és baixinho. Como superas essas debilidades físicas?

Leandro Salino: Eu sou baixo, mas sou um jogador muito rápido e de muita força na marcação. Hoje os trincos são todos altos, mas eu não tive dificuldade de jogar nessa função, porque sou baixo, mas tenho uma boa impulsão. Não tenho problemas de peso, sou um jogador leve e isso ajudava muito.

Bola na RedeGostavas mais de jogar em qual das posições?

Leandro Salino: Mais como médio defensivo. Como lateral corre-se muito [risos].

– Um Salino sem paciência para Domingos –

«Fiquei muito muito chateado. Para te dizer a verdade, já nem tinha cabeça para o jogo. No fim do jogo nem na cara dele olhei»

Bola na RedeNo Braga, em 2010/11, têm uma campanha europeia extraordinária. Como foi isso?

Leandro Salino: Foi logo no meu primeiro ano de Braga. Conseguimos um feito histórico: levámos o Braga à [fase de grupos da] Liga dos Campeões pela primeira vez. Eliminámos o Sevilha [no play-off] e estivemos muito bem na Liga dos Campeões. Depois fomos para a Liga Europa…

Bola na RedeChegaram mesmo a ganhar ao Arsenal.

Leandro Salino: Isso, ganhámos na Liga dos Campeões. Depois, apanhámos equipas muito fortes na Liga Europa: Liverpool, Benfica… até que chegámos à final com o FC Porto. O país inteiro e o Porto estava a torcer pelo Braga. Foi um ano fabuloso, em que a equipa jogava muito bem, e que eu guardo até hoje na minha memória.

Bola na RedePelo caminho eliminaram Lech Poznan, Liverpool, Dínamo Kiev e Benfica. Depois, na final, jogaram contra o Porto. Qual foi a principal dificuldade que tiveram pelo caminho?

Leandro Salino: Para te dizer a verdade, foi a imprensa portuguesa, porque nem eles acreditavam que podíamos eliminar essas equipas. Quando nos calhou o Liverpool, toda a gente achava que íamos perder. Quando foi com o Benfica, já havia cartazes da final “Benfica X Porto”. Acho que também ninguém imaginava que íamos eliminar o Benfica. Nós tínhamos um psicológico muito bom e sabíamos das capacidades da equipa que tínhamos. A imprensa toda a dizer que a final ia dar Porto X Benfica, acabámos por frustrar as pessoas.

Bola na RedeIsso desmotivava-vos ou dava-vos mais ânimo?

Leandro Salino: Motivava-nos demais! Eles esqueciam-se de falar no Braga. Todos queriam uma final entre Benfica e Porto. Isso motivava-nos bastante. Foi um grande jogo contra o Benfica, com um golo do Custódio de cabeça, um grande golo. Quando levámos o Braga à final, a cidade ficou em festa por muito tempo.

Bola na RedeNa meia-final, contra o Benfica, perderam a primeira mão. Como é que se motivaram para dar a volta na segunda?

Leandro Salino: Vou-te dizer, não foi fácil. O Vandinho ficou suspenso, não podia jogar o jogo de volta e acabou por entrar o Custódio que fez o golo de cabeça. A jogarmos em casa éramos muito fortes. Sabíamos que íamos marcar um golo ao Benfica, mas tínhamos a consciência de que não podíamos sofrer. O Benfica, com o Jorge Jesus, era uma equipa muito forte. Foi isso que aconteceu, fizemos golo num canto, um lindo golo, e conseguimos segurar a pressão, que foi enorme, do Benfica no final. Fechámo-nos ali e neutralizámos os pontos fortes do Benfica. O coletivo deles era muito forte com Aimar, Gaitán, Coentrão… uma equipa espetacular.

Bola na RedeComo geriram a alegria de chegarem à final?

Leandro Salino: A cidade ficou em festa. As pessoas abordavam-nos nos shoppings e restaurantes. Foi um feito histórico. Lembro-me de o [António] Salvador estar numa alegria que nem cabia nele. Foi muito importante esse feito para o Braga. Querendo ou não, ficámos na história do clube.

Bola na RedeFoste bastante utilizado até à final, mas acabas por não jogar contra o Porto. Ficaste triste?

Leandro Salino: Foi o momento mais triste da minha carreira. Eu era titular absoluto, tinha feito todos os jogos. O Domingos Paciência tinha uma dúvida, porque o Vandinho fez o golo contra o Benfica lá e o Custódio fez o golo em Braga. Então, ele tinha uma dúvida. O meio-campo titular era sempre eu, o Vandinho e o Hugo Viana. Ele tinha essa dúvida entre o Vandinho e o Custódio. No treino de reconhecimento do campo, um dia antes, ele meteu a equipa titular e eu estava. A meio, ele tirou o Vandinho e colocou o Custódio. Com certeza, o Vandinho não gostou. Fomos jantar, fomos para o hotel. No dia do jogo, pela manhã, acordei, tomei café, normal. Depois do almoço, o Domingos Paciência chama-me a mim, ao Custódio, ao Hugo Viana e ao Vandinho. Não entendi nada. O Domingos Paciência disse que estava com uma dúvida muito grande, deu-nos os parabéns e disse que dos quatro só iam jogar três. “Eu decidi que vou entrar com o Hugo Viana, Vandinho…” e eu achei que ele ia dizer o meu nome e ele disse “Custódio”. Toda a gente ficou a olhar, ninguém entendeu nada. “Decidi entrar com dois médios mais de marcação e vou libertar mais o Hugo Viana para fazer quase de ´10`”. “Vão entrar eles os dois, porque a equipa do Porto é muito forte”. “Se neutralizarmos o meio-campo deles temos muitas hipóteses de ser campeões”. Aí eu disse: “Tem a certeza disso?”. E ele: “Tenho”. Só me levantei e saí da sala. Respeitei, mas o Vandinho, o Custódio e o Hugo Viana também não acreditaram que ele tinha feito aquilo. Não tive cabeça para ficar na sala, nem consegui falar mais. Fiquei muito muito chateado. Para te dizer a verdade, já nem tinha cabeça para o jogo. No balneário, quando ele deu a equipa que ia jogar, ninguém entendeu nada. Alguns jogadores também estavam chateados com a atitude que ele teve. O Vandinho, pela manhã, falou com ele e disse que não aceitava ficar no banco, porque também era titular absoluto. No treino, quando ele tira o Vandinho e mete o Custódio, já criou a dúvida e o Vandinho chamou-o para conversarem. Ele, com medo do Vandinho, respeito, sei lá… decidiu estoirar pelo lado mais fraco. Eu fiquei no banco sem reação nenhuma. Se ele me metesse não ia fazer diferença nenhuma. No final do jogo, quando ele me vem dar os parabéns, nem na cara dele olhei. Foi uma grande sacanagem que ele fez.

Bola na RedeNunca mais falaste com ele?

Leandro Salino: Ele pediu-me desculpa pelo que fez. Reconheceu o erro dele. Depois, nunca mais falei com ele, mas foi por falta de oportunidade, porque nunca mais nos encontrámos.

Bola na RedeFora isso, como foi a final vista de dentro?

Leandro Salino: Foi uma festa muito bonita. O Estádio era muito bonito e estava cheio. A cidade de Braga foi toda. A nossa equipa estava muito bem, só que a equipa do Porto também era muito forte. Eles tinham o Moutinho, o Falcão, o Hulk, o Guarín, o James… Na única oportunidade que o Porto teve, fez golo. O jogo estava de igual para igual. Tivemos a oportunidade de empatar nos pés do Mossoró, que teve um cara a cara com o Helton, mas não conseguiu marcar. Era jogo para empate, para ir a prolongamento. Foi um jogo muito disputado, em que as duas equipas se conheciam, mas o Porto foi feliz. Apesar da derrota, o Braga, o Salvador e a cidade ficaram muitos contentes com o nosso desempenho.

Bola na RedeFoi o auge da tua carreira?

Leandro Salino: Foi. Aquele momento ali de chegar a uma final da Liga Europa… Não foi tão assim, porque ele me tirou da final [risos].

– Uma vingança servida a frio –

«Não acho que tivesse sido o momento certo para Rúben Amorim sair do Braga»

Bola na RedeDepois, fazes mais dois anos consistentes no Braga, até com presença relevante nas competições europeias. Chegam mesmo a ganhar a Taça da Liga.

Leandro Salino: Foi isso mesmo. Fomos campeões da Taça da Liga, um título muito importante para o Braga, vencendo o Porto.

Bola na RedeFoi a vingança?

Leandro Salino: Acredito que sim. Estávamos engasgados com eles. A equipa que jogou, a maioria, estava na final da Liga Europa. Entrámos muito motivados contra eles. Foi uma festa muito boa também.

Bola na RedeNo Braga, alguma vez vos passaram a ideia de que podiam ser campeões?

Leandro Salino: Era muito difícil. O Porto e o Benfica sempre tiveram plantéis muito fortes, investiam muito mais. O Braga não investia tanto assim. Nestes últimos anos, o Braga cresceu muito. Costumávamos ficar à frente do Sporting. Mesmo sabendo que era difícil, pensávamos em ser campeões portugueses, ou então, ficar entre os três.

Bola na RedeEstás a par da realidade do clube atualmente?

Leandro Salino: Acompanho muito. Tenho colegas aí no Braga. Torço muito pelo Braga. O Braga cresceu muito. Eu, o Alan, o Mossoró, o Lima… temos um grupo aqui no Whatsapp e conversamos muitas vezes. O Braga é uma das grandes potências aí de Portugal, tanto, em termos de estrutura. O Salvador é um presidente muito visionário, com pensamento no futuro. Contrata jogadores baratos e vende sempre por altos valores e isso está a ajudar muito o Braga a ser o que é hoje. É um presidente exemplar e inteligente.

Bola na RedeCom que pessoas ainda manténs contacto?

Leandro Salino: O Alan, o nosso eterno capitão, o próprio Chico [Francisco Miranda], massagista, o roupeiro também, o próprio Salvador, o presidente. É um clube que levo sempre no coração.

Bola na RedeAchas que o Braga pode ser campeão dentro de pouco tempo?

Leandro Salino: Espero que sim. Torço muito para isso. O Braga vai ser campeão português um dia. Eles merecem esse título.

Bola na RedeChegaste a ser colega do Rúben Amorim no Braga. Como tens visto o trabalho dele enquanto treinador?

Leandro Salino: Começou muito bem no Braga. Quando jogava, ele era um jogador taticamente muito inteligente. A evolução dele foi muito grande. Surgiu a possibilidade de ir para o Sporting, de tentar uma coisa diferente, mas não acho que tivesse sido o momento certo para ele sair do Braga. Acabou por ir para o Sporting e não sei se está assim tão bem. É uma grande pessoa, tem um grande futuro.

– Leonardo Jardim trocou-lhe as voltas –

«António Salvador só não queria que eu fosse para o Benfica»

Bola na RedeComo te mudas para o Olympiacos?

Leandro Salino: O meu contrato estava a acabar. Surgiram uns rumores de que o Benfica e o Sporting tinham interesse em mim. O Leonardo Jardim estava no Olympiacos. Eu tinha sido treinado por ele no Braga. É um grande amigo meu, um treinador espetacular e que me ajudou muito. Tive um primeiro contacto com o Olympiacos, só que tinha uma proposta de renovação com o Braga por mais três anos e tinha os rumores do Benfica…

Bola na RedeNada em concreto?

Leandro Salino: Nada. Só rumores e os empresários a ligar. Em fevereiro, o Salvador faz-me a proposta de renovação. Eu pedi para ele esperar e disse-lhe que, até abril, lhe dava resposta. Ele só não queria que eu fosse para o Benfica. A única proposta que me chegou era do Olympiacos do Leonardo Jardim. Financeiramente, essa proposta era muito diferente da do Braga. Foi uma decisão muito difícil. Quando decido assinar o pré-contrato com o Olympiacos era abril e faltavam quatro jogos para acabar o campeonato português. Chamei o Salvador e disse que ia aceitar a proposta do Olympiacos por causa do Leonardo Jardim e, financeiramente, era uma proposta muito boa. O Salvador foi uma pessoa muito bacana e disse que não tinha como cobrir a proposta. Eu estava com 27 anos e era uma proposta muito boa para o meu futuro. Mesmo assim, joguei os outros quatro jogos.

Bola na RedeNo entanto, o teu treinador na primeira época de Olympiacos era o Míchel.

Leandro Salino: Quando eu assinei o pré-contrato era o Leonardo Jardim. A um mês, para aí, de acabar a época, o Leonardo Jardim saiu do Olympiacos e foi para o Sporting. Ele ligou-me para me levar para o Sporting, mas eu já tinha o pré-contrato com o Olympiacos. Aí, eles trouxeram o Míchel, um espanhol.

Bola na RedeEntão chegou a haver uma proposta do Sporting?

Leandro Salino: O Leonardo Jardim indicou-me para o Sporting. Eu tentei suspender o pré-contrato com o Olympiacos, só que eles não me libertaram. Ainda tentei pagar uma multa, mas não quiseram e eu acabei por ir para o Olympiacos.

Bola na RedeEstou a ver que criaste uma boa ligação com o Leonardo Jardim…

Leandro Salino: Muito boa, por sinal. Até no Natal falamos. Dei-lhe os parabéns quando ele estava no Mónaco. Apesar de ele ser treinador, acabámos por nos conhecer mais um pouco.

Bola na RedeComo foi a tua adaptação à Grécia?

Leandro Salino: Foi tranquila. A equipa tinha o Paulo Machado, português, e ele ajudou-me muito. É um país maravilhoso. A nossa equipa tinha muitos sul-americanos também. Adaptei-me tranquilamente tanto à equipa, como ao país. Eu gosto de países assim, com calor, então fui para o lugar certo. Tínhamos uma equipa muito experiente.

Bola na RedeO que é que ainda sabes dizer em grego?

Leandro Salino: [risos] Só kalinixta, kalimera, kalispera [“boa noite”, “bom dia” e “boa tarde”, respetivamente] e os palavrões deles [risos].

Bola na RedeTrês anos na Grécia, três títulos de campeão grego e uma Taça da Grécia. Dava para ser melhor?

Leandro Salino: Só faltou ganhar três taças [risos]. Foram cinco títulos. Fui disputar a Liga dos Campeões também e grandes torneios nos Estados Unidos. Depois da final com o Braga, o Olympiacos foi o auge da minha carreira. É a maior equipa da Grécia que tem adeptos fanáticos, com uma paixão estrondosa pelo clube e pelo futebol. Foram três anos maravilhosos.

Bola na RedeAqui, em Portugal, diz-se sempre que é muito difícil ir jogar à Grécia por causa dos ambientes. Subscreves?

Leandro Salino: Jogar lá é sempre muito complicado devido aos adeptos. Tanto no Olympiacos, como no Panathinaikos ou no PAOK. O Benfica acabou agora por ser eliminado no PAOK e não havia público. Íamos jogar a qualquer campo da Grécia e havia milhares de adeptos do Olympiacos.

– Marco Silva no comando dos gregos nervosos –

«O Vítor Pereira era mais explosivo, o Marco Silva gostava de um jogo mais coletivo»

Bola na RedePartilhaste balneário com jogadores como Cambiasso, Éric Abidal ou Saviola. Aprendeste muito com eles?

Leandro Salino: O Abidal é fantástico. O Cambiasso também, muito humilde, um jogador que ganhou tudo no futebol. A humildade deles era o que os diferenciava. Aprendi muito quando jogava como médio defensivo com o Cambiasso, ele era muito inteligente, posicionava-se muito bem em campo e tinha uma leitura de jogo extraordinária. O Saviola era a tranquilidade de sempre, muito frio a finalizar. Foram três jogadores com quem aprendi muito mesmo, tanto dentro, como fora do campo.

Bola na RedeTens outros jogadores que, pelo seu talento, te tenham marcado?

Leandro Salino: O Nuno Gomes, quando passou pelo Braga. Era um jogador diferenciado. Outro jogador, que eu enfrentei quando era lateral no Olympiacos, foi o Lavezzi. Foi o jogador mais difícil que eu já defrontei.

Bola na RedeÉs muito amigo do Éric Abidal, que tem uma história de vida inspiradora. Revês-te nele?

Leandro Salino: Sim, ele contou-me a história dele de quando ele teve que fazer a cirurgia ao pulmão devido à doença que ele teve. Ele era muito amigo do Daniel Alves, que acabou por se oferecer para lhe doar um dos pulmões, mas ele não aceitou. A história de vida dele era espetacular mesmo e ele conversava muito connosco. No fim de um treino, chamou-me ao carro dele e deu-me a camisola dele do Barcelona com o número ´22`. Tínhamos uma amizade muito boa.

Bola na RedeO Olympiacos domina o futebol grego, está na hora de crescer no contexto europeu? Notas essa intenção?

Leandro Salino: Só falta isso ao Olympiacos. Na Grécia, eles dominam. É um clube que investe muito, estão sempre a levar um ou dois craques para o clube. O que falta mesmo é chegarem mais longe nas competições europeias. É isso que está a faltar para ser um clube mais respeitado na Europa.

Bola na RedeDisseste publicamente que o Marco Silva era um treinador que dava muita importância aos aspetos táticos. A que aspetos do jogo ele dava primazia?

Leandro Salino: Cada um tinha que respeitar as suas funções. Tínhamos que jogar compactos, sem chutões e com agressividade. Quer queiramos, quer não, os jogadores gregos têm a cultura deles e as suas manias e ele impôs essa obediência tática. Isso ajudou muito o Olympiacos e o futebol grego.

Bola na RedeQual é o estilo do jogador grego?

Leandro Salino: São jogadores mais bravos, muito nervosos e são poucos a aceitar críticas. O Marco Silva falava muito com os gregos para eles obedecerem taticamente e jogarem coletivamente.

Bola na RedeMarco Silva era muito diferente dos outros treinadores que tiveste?

Leandro Salino: O Vítor Pereira era mais explosivo, gostava de ligações mais diretas. O Marco Silva gostava de um jogo mais coletivo e mais próximo. O Míchel gostava de um futebol de toque, gostava que a equipa não perdesse a bola de maneira nenhuma. São treinadores com estilos de trabalho diferentes, mas todos muito bons.

Bola na RedeChegaste a cruzar-te com o Tsimikas, que foi agora para o Liverpool. Que opinião tens dele?

Leandro Salino: Na minha época, ele já era muito bom. Ele tinha um potencial muito grande mesmo. Fiquei muito feliz quando o vi a jogar no Olympiacos na última época, fazendo grandes jogos, inclusivamente, contra o Arsenal. É um grande lateral. Tem um futuro enorme.

– Um regresso não concretizado que virou sonho e uma carreira que satisfaz –

«Jorge Jesus foi uma influência muito grande para o futebol brasileiro»

Bola na RedePor que é que saíste do Olympiacos?

Leandro Salino: Lá baixaram o limite de estrangeiros para terem mais jogadores gregos na competição e eu não consegui tirar o passaporte europeu. A equipa desfez-se toda. Só ficou o Cambiasso, o Chori Domínguez, jogadores que tinham passaporte europeu. Os que não tinham saíram todos. Eu estava quase com uma proposta de renovação por mais dois anos, mas, com essa mudança, acabou por não acontecer.

Bola na RedeChegou-se a falar num regresso ao Braga.

Leandro Salino: Falou-se, cheguei até a falar com o Salvador. Ele disse que, em termos financeiros, não podia gastar muito. Eu disse para ele não se preocupar com isso, porque era um clube que eu gostava e queria voltar. Financeiramente, não ia ser problema. Só que depois acabou por não acontecer. Não sei se o Peseiro não aceitou, mas o meu regresso para o Braga acabou por não acontecer.

Bola na RedeDepois, regressas ao Brasil…

Leandro Salino: Sim, para o Vitória. Depois, no Tupynambás, realizo o sonho de jogar com o meu irmão [Léo Salino]. Agora estou aqui pelo Brasil, mesmo. Já estou com 35…

Bola na RedeJogaste com ele, mas também contra ele.

Leandro Salino: Isso, várias vezes. Contra ele estou invicto, nunca perdi.

Bola na RedeDos palcos que pisaste, qual foi aquele onde te deu mais gozo jogar?

Leandro Salino: O Teatro dos Sonhos, o campo do Manchester United. Já joguei lá quatro vezes. É o estádio mais bonito onde já joguei.

Bola na RedeTens andado por clubes do Brasil. A estrutura desses clubes tem alguma coisa a ver com o que encontraste na Europa?

Leandro Salino: Não, nem no Vitória, que é um clube de série A. Com a vinda do [Jorge] Jesus para cá, os clubes estão a crescer ainda mais em termos de estrutura e campos de treino, mas as condições lá fora ainda são melhores.

Bola na RedeViste o Jorge Jesus como uma influência para o país em termos futebolísticos?

Leandro Salino: Foi. Em termos de estilo de jogo, maneira como se joga e intensidade. Eu comentava que o Jesus era um ótimo treinador, só que ninguém conhecia. Ele acabou por vir para cá mudando a mentalidade do jogador brasileiro e de vários clubes. Ele sugava dos jogadores o máximo possível. Foi uma influência muito grande para o futebol brasileiro.

Bola na RedeNão achas que esse rigor que ele impôs não pode eliminar aquilo que é o talento e irreverência do jogador brasileiro?

Leandro Salino: Não, acho que ele até acrescentou. Ele sabe que o jogador brasileiro tem muito talento, só acrescentou a intensidade, a marcação, o reagir e o jogar com as linhas altas aos jogadores do Flamengo que tinham muito talento e que, muitos deles, estavam habituados a jogar na Europa.

Bola na RedeGostavas de terminar a carreira a um nível mais elevado?

Leandro Salino: Já me fartei. Já joguei em grandes palcos, contra grandes jogadores e já disputei tudo o que tinha que disputar. Claro, se tiver uma proposta melhor, eu vou. Prefiro estar perto de casa, num clube bom e que pague em dia. É muito complicado ficar longe da família e não receber…

Bola na RedeJá tiveste problemas com isso?

Leandro Salino: Já, no Joinville. Dois meses e vim-me embora. Não estava para isso. Eu prefiro estar num sítio que monte uma equipa para disputar, do que estar em clubes que não cumprem com os seus compromissos. Já passei pelo mundo inteiro a jogar futebol. Não tenho essa preocupação de terminar a carreira numa grande equipa.

Francisco Grácio Martins

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