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Aos 27 anos, Isabel Ozorio acumula a braçadeira de capitã do campeão nacional Sporting e da Selecção Nacional Feminina, onde joga habitualmente como médio de abertura. A ex-jogadora do CR Técnico foi uma das principais caras da época vitoriosa do Sporting, onde conquistou o Campeonato Nacional – com 22 vitórias em 23 jogos – e a Taça de Portugal – depois de derrotar o Sport Rugby na final. Tudo isto, na época de estreia do rugby feminino como modalidade oficial dos Leões.
Bola na Rede (BnR): Quando, e de que forma, entrou o rugby na sua vida?
Isabel Ozorio (IO): Comecei a jogar rugby no CDUP, no Porto, de onde sou natural. Desde pequenina que me interesso pelo desporto em geral, mas até aos 14 anos só tinha feito desportos individuais, comecei pela natação, depois taekwondo, de seguida o ténis. Tinha vários amigos que jogavam no principal clube da cidade do Porto e um dia recebi uma mensagem a perguntar se gostava de ir experimentar um treino aberto. Fui, e nunca mais parei até hoje! Foi das melhores opções que tomei em toda a minha vida. Para além de todas as experiências, o rugby deu-me grande parte dos meus melhores amigos!
BnR: Como analisa o nível do rugby feminino em Portugal?
IO: Penso que actualmente deverão existir cerca de 300-400 jogadoras em Portugal. Algumas equipas estão a crescer, outras estão a reconstruir, e outras lutam para se manter. Felizmente faço parte de um clube que aposta muito no feminino, em rendimento nacional e internacional, mas também em desenvolver de forma sustentável este escalão. A nossa selecção nacional, mesmo passando também por uma fase de transição e pelas dificuldades gerais do rugby português, continua a ser muito superior ao que se poderia esperar tendo em conta a realidade geral, e a ser respeitada a nível europeu. É um grande orgulho jogar por Portugal!
BnR: A sociedade portuguesa já aceita o rugby como um desporto feminino? Ou ainda é maioritariamente visto como um desporto ”para homens”?
IO: Sempre aprendi que no desporto não há genero. Acho que os desportos colectivos no feminino ainda sofrem um bocadinho com os estereótipos criados. Contudo, acho que hoje em dia todas as desportistas são muito mais respeitadas e já têm muitos mais adeptos. No rugby, acontece o mesmo graças à forma séria e apaixonada com que nos comprometemos com aquilo que representamos!

Fonte: JP-Rugby.com
BnR: A época passada, 2016/2017, viveu uma época de sonho a nível de clubes, sendo campeã nacional e conquistando a Taça de Portugal pelo Sporting. Qual foi o segredo do grupo para a excelente época realizada?
IO: Acho que, acima de tudo, foi o compromisso com o grupo e com o nosso clube. Obviamente que houve muito trabalho, dedicação, superação. Mas para mim, o segredo foi estarmos sempre todas muito unidas e todas acreditarmos no processo.
BnR: Na primeira época enquanto modalidade oficial, o rugby feminino do Sporting acumulou títulos, torneios e viu muitas das suas atletas (de vários escalões) serem chamadas às selecções nacionais. O Sporting oferece as melhores condições às suas atletas, para a prática da modalidade?
IO: O Sporting CP é um clube desportivo com a dimensão que todos conhecemos e tem sido incansável no apoio ao rugby e à equipa sénior. Há um espírito de clube muito forte entre modalidades, rapazes e raparigas, o interesse entre cada desporto é recíproco e isso faz com que nos tornemos cada vez mais fortes. Para além disso, valoriza muito o desporto no feminino e acredita que é uma mais valia. Os resultados falam por si. É uma honra pertencer a este clube!
BnR: Como foi a estreia pela Selecção Nacional, na qual é capitã?
IO: A minha estreia já foi há alguns anos, ainda eu tinha 16/17 anos e não sabia bem o que era o rugby, mas tinha uma vontade enorme de ir mais longe. Todas as vezes que vestimos a camisola de Portugal, é uma emoção muito grande. Normalmente competimos por Portugal no final da época nacional, e por vezes já estamos saturadas. Mas quando chegamos ao Campeonato da Europa, é um sentimento único e tudo vale a pena. Um orgulho muito grande e mais uma oportunidade de fazer parte da história do desporto do nosso país.
BnR: O ano passado a selecção feminina de sevens ainda sonhou com o apuramento olímpico, objectivo que, apesar de não ter sido atingido, em nada belisca o bom desempenho das Lobas. Acredita que futuramente veremos o rugby feminino levar a bandeira portuguesa a bom porto?
IO: São poucas as pessoas que têm noção daquilo que a selecção nacional feminina tem alcançado e continua a alcançar, tendo em conta todo o desenvolvimento nos outros países e aquela que é a nossa realidade competitiva nacional e de recursos. Penso que, acima de tudo, os clubes têm que fazer mais pelo rugby. Estamos habituados a que as coisas nos caiam do céu e a nossa realidade não é essa porque não há cultura desportiva. Temos que trabalhar mais, ter uma estratégia própria para chegar a mais raparigas, mantê-las connosco e depois o rugby encarrega-se do resto. É impossível não adorar este desporto depois de o conhecer. Acho que é preciso perceber que não se traz raparigas para o rugby da mesma forma que se traz rapazes e às vezes a diferença está nos pormenores.

Fonte: Luís Cabelo
BnR: O que ainda ambiciona fazer e conquistar a nível de clubes e selecção?
IO: Obviamente que, em termos competitivos, o nosso objectivo passa sempre por ganhar todas as provas em que estivermos envolvidas. Espero ter mais experiências internacionais pelo clube e se possível sair com a vitória. Na época passada vencemos em Perpignan (França) o USAP, um histórico francês, e foi dos momentos mais emocionantes que vivemos. Fomos muito apoiadas por sermos portuguesas e por jogarmos pelo SCP. Gostava de voltar a repetir. Pela Selecção Nacional, gostava de ter a oportunidade de competir numa etapa do Circuito Mundial, e quem sabe, ajudar a conseguir o apuramento para o circuito. Obviamente que tenho o sonho de ir a uns Jogos Olímpicos, Tóquio está aí a chegar! Mas acima de tudo, espero continuar a poder dar o máximo de mim ao rugby, é o mínimo com que me posso comprometer.
BnR: Se houver uma chamada de um clube estrangeiro, haverá a possibilidade de a vermos noutro campeonato? Quais seriam as condições para tal suceder?
IO: Neste momento estou a jogar em Auckland na Nova Zelândia. Estou a realizar um sonho que tem vindo a ser adiado por razões profissionais/desportivas, mas que finalmente está a ser concretizado! Estou nas meias finais do campeonato de clubes (que na Nova Zelândia é regional, isto é, competição entre clubes da região/província) e o grande objectivo é ser escolhida para representar a província de Counties Manukau no campeonato nacional da NZ, que é a prova mais importante de cá. Os Counties são a equipa campeã em título, onde jogam várias estrelas internacionais, como por exemplo a Portia Woodman. Neste momento faço parte, juntamente com outra portuguesa e sportinguista, a Larissa Lima, da equipa escolhida para preparar a prova. Vamos fazer de tudo para ficarmos na equipa final. O desafio é grande, mas assim é que vale a pena!
BnR: Quais são as suas maiores referências nacionais e internacionais dentro das quatro linhas?
IO: Em termos femininos nacionais, são a Marta Ferreira e a Leonor Amaral, que passaram de adversárias a grandes amigas e que são um exemplo de dedicação, qualidade e acima de tudo muito carácter. No masculino, os meus jogadores preferidos são o Carl Murray e o Tomás Appleton. Em termos internacionais femininos talvez seja a Portia Woodman da Nova Zelândia. No masculino é o Brian O’Driscoll e o Richie McCaw.
Depois de conquistar tudo o que havia para conquistar na época transacta, Isabel Ozorio refere que o objetivo passa por voltar a vencer tudo de leão ao peito; pelo meio refere ainda o forte apoio que tem recebido enquanto jogadora dos Leões.
Foto de Capa: Sporting CP













