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«Luís Castro proporcionou-me uma estreia no Dragão frente ao FC Porto, que jamais será esquecida»- Luís Guedes
Bola na RedeBoa noite, Guedes! 17 de dezembro de 2005. 70 minutos de jogo no Estádio do Dragão. O FC Porto, que ano e meio antes estava a sagrar-se campeão europeu, vence o FC Penafiel por 3-1, em partida da Primeira Liga. Luís Castro, treinador dos durienses, retira de campo Bruno Amaro (autor do golo forasteiro) e lança em campo um jovem de 18 anos formado no clube chamado Hélder Guedes. A minha questão é: o que é que se celebra mais na casa Guedes – o 25 ou o 17 de dezembro?
Hélder Guedes: Boa noite! Efetivamente foi uma data muito forte mesmo, mas não chega para substituir a data do 25 de dezembro. Contudo, o 17 será uma data jamais esquecida!
Bola na RedeAinda se lembra da última frase que Luís Castro lhe dirigiu antes desta prenda de natal antecipada que foi estrear-se no futebol sénior e na Primeira Liga?
Hélder Guedes: Recordo-me exatamente como se fosse hoje. Além de vir de um ser humano gigante, como é o mister Luís Castro – é um ser humano incrível -, proporcionou-me uma estreia que jamais será esquecida. Lembro-me que ele na altura convocou-me penso que para dois jogos antes do jogo com o FC Porto em que não me colocou, fiquei sempre no banco. Na semana do jogo do FC Porto, ele veio ter comigo e disse-me que ia estrear-me no Dragão, em princípio, porque estrear-me com 30 mil, 35 mil na bancada terá um sentimento totalmente diferente e, não desprezando os outros clubes, seria sempre uma estreia diferente com o FC Porto do que com outros clubes.
Bola na RedeEm que momento do seu trajeto de formação percebeu que chegar à equipa principal do FC Penafiel e jogar na Primeira Liga era uma realidade à espera de se concretizar?
Hélder Guedes: Na formação do FC Penafiel – e aqui um bocadinho modéstia à parte -, já me enquadrava no leque dos melhores jogadores de cada ano. Só que uma certa altura, ali pelos 16/17 anos, aparecem indicadores que te dizem que se a evolução continuar estás a um passo de assinar contrato profissional com o clube e começares a integrar-te na equipa principal. E dando aqui um exemplo de um indicador é uma ou duas vezes por semana começares a integrar os treinos da equipa principal ou começares a ir para o estágio com a equipa principal, até que nem jogues ou que nem entres e depois vens jogar à formação (que foi o meu caso). Esta integração era um dos indicadores que estava perto do meu sonho.
Bola na RedeO primeiro golo no futebol sénior surge a 29 de abril de 2007, estava o Hélder a sensivelmente uma semana de celebrar o 20º aniversário. E a verdade é que o seu golo deu a vitória por 1-0 ao FC Penafiel ante o CD Santa Clara, numa partida a contar para a Segunda Liga. Foi mais impactante esta estreia a marcar, ainda que na Segunda Liga, ou a estreia na Primeira Liga no Estádio do Dragão?
Hélder Guedes: São duas marcas tão fortes na minha carreira que tenho dificuldades em especificar qual seria a que optava, mas, se tivesse que dizer uma, se calhar a primeira porque sem ela seria impossível a segunda marca.
Bola na RedeO seu primeiro golo no principal escalão do futebol português acaba por acontecer apenas em 2014 (20 de setembro). E aconteceu ao serviço dos penafidelenses. Foi de grande penalidade que fez o 1-0 num jogo que o FC Penafiel viria a vencer por 2-0 (a assistência para o segundo golo foi sua), frente ao Vitória FC. Ou seja, o Guedes estreia-se na Primeira Liga, estreia-se a marcar como sénior e estreia-se a marcar na Primeira Liga pelo FC Penafiel. Posto isto, o nome do FC Penafiel está mais cravado na sua história do que o seu nome está na história do FC Penafiel? Ou acredita que deu tanto ao clube como o clube lhe deu a si?
Hélder Guedes: Acho que as duas estão bem unidas, estão bem interligadas. Obviamente que tenho que agradecer muito ao FC Penafiel, que fez parte do meu crescimento como jogador, como profissional, como ser humano. Zelo muito por isso, foi fundamental no meu trajeto e, mais uma vez, aproveito para deixar aqui um “muito obrigado”, mas o Guedes também sempre trabalhou em prol de ajudar o clube no que foi possível da minha parte. Sempre ajudei de forma muito séria e de forma muito profissional para que o clube atingisse os objetivos que eram propostos.
Bola na Rede“O meu coração só tem uma cor: azul e branco”, dizia João Pinto. A verdade é que a maioria dos jogadores passa por vários clubes e aprende a chamar “casa” a uma multiplicidade de sítios. O Guedes jogou em cinco clubes portugueses – FC Penafiel, FC Paços de Ferreira, Rio Ave FC, Vitória FC e GD Chaves. O seu coração consegue conter todas estas cores ou só alberga uma equipa?
Hélder Guedes: Acho que o meu coração alberga mais que uma equipa. O FC Penafiel é o pilar, obviamente, mas tenho mais que uma cor. Isto porquê? Eu ligo-me muito às pessoas e as pessoas é que fazem os clubes e é evidente que o FC Penafiel é o meu clube, mas não posso deixar aqui de referenciar o Rio Ave FC. Foi um clube onde eu conheci gente maravilhosa, como conheci também nos outros clubes, mas em Vila do Conde tive um sucesso profissional a nível coletivo e individual que faz com que também leve o Rio Ave FC no meu coração para sempre.

Bola na RedeAlém dos clubes nacionais que representou, teve igualmente uma experiência no estrangeiro – no Al Dhafra S&C Club dos Emirados Árabes Unidos. Acaba, no entanto, por estar poucos meses no clube e fica depois algum tempo sem competir, até regressar a Portugal e à Primeira Liga pela porta do Vitória FC. A que pilares se agarra um futebolista quando decide mudar-se para um país e para uma região cultural, social e até futebolisticamente diferente?
Hélder Guedes: Eu sempre gostei e tinha curiosidade em conhecer a cultura… eu gosto de conhecer novas culturas, novas experiências, e na altura do Rio Ave FC, no final – ali em meados de março/abril – o contrato estava a acabar e começaram a aparecer clubes. Estávamos a fazer uma boa época, individualmente as coisas também me estavam a correr bem, e começaram a aparecer vários clubes de vários países. Achei, por um conjunto de fatores, a do Al Dhafra S&C Club a mais interessante. Até em relação à Arábia e à Turquia… ok, é uma cultura muçulmana, mas ao nível de segurança e qualidade de vida acho superior às restantes. Infelizmente as coisas não me correram bem. No segundo jogo, lesionei-me no joelho e tive mais de oito meses parado, o que não ajudou nada.
Official: United Arab Emirati club Al Dhafra has signed Rio Ave’s top scorer Hélder Guedes on a free transer.
The 31-year-old Portuguese striker leaves Rio Ave after three seasons as the club top scorer, scoring 29 goals in 104 games. pic.twitter.com/6hPVOd1Fst
— Jan Fredrik Hagen (@PortuBall) July 17, 2018
Bola na RedeO que é que faltou para que esta experiência no Médio Oriente tivesse dado resultado?
Hélder Guedes: Vai muito ao encontro do que eu disse anteriormente. Se não me tivesse lesionado, as coisas seriam totalmente diferentes.
«Eu estive quase a assinar pelo Club Atlético de Madrid até à última»- Hélder Guedes
Bola na RedeDepois da estadia nos Emirados, a ideia foi sempre e exclusivamente regressar a Portugal?
Hélder Guedes: A ideia, naquela altura e depois de alguns episódios que me aconteceram lá, era vir o mais rapidamente para Portugal para estar perto da minha família e recuperar. Essa é que era a prioridade.
Bola na RedeEm que outro campeonato – e em que clube – gostaria de ter jogado? Em que estilo de futebol encaixaria melhor?
Hélder Guedes: Eu sempre admirei o campeonato espanhol e o italiano, também pelas minhas características. Acho que gostava de ter jogado lá.
Bola na RedeFoi mesmo a Portugal que regressou, para representar o Vitória FC. Em 2020, o clube é administrativamente relegado aos escalões não profissionais, após ter conseguido a manutenção na última jornada. O Guedes acaba por ser um dos jogadores a não continuar no clube sadino e defronta-se com um momento da sua vida profissional em que está sem clube e em plena pandemia, ainda que tenha assinado pelo GD Chaves poucas semanas depois. Quão difícil foi superar esta etapa da sua vida e quão importante foi o clube flaviense nesta fase?
Hélder Guedes: Em Setúbal, as coisas foram um bocadinho diferentes. Eu estava noutra fase da minha vida e queria estar perto da minha família, por questões familiares, e ali até meio – acho que foi até no mercado de janeiro – tentei sair para outro clube (pelas questões familiares) e não me foi permitido pelo presidente. Em resposta a esse entrave da saída foi-me prometido que no final da época poderia sair. Isto porque eu tinha dois anos de contrato e, por isso, não foi uma questão da situação do clube, que acaba depois por descer na secretaria. Não por nenhum fator desses, foi simplesmente por questões familiares. Eu queria vir e a minha decisão já estava tomada até em janeiro. Depois, acabo por ir para o GD Chaves e acho que aqui o grande peso foi já ser um namoro antigo, já sentia a vontade que eu fosse para Chaves da parte da direção do clube. Já vinha de alguns anos atrás, eu até quando estava no Rio Ave FC recebi abordagens… Então, já era um namoro antigo. Foi esse o peso que me fez ir para Chaves. Não foi só esse, obviamente – o projeto, as condições, a própria dimensão do clube, que é um clube grande, fez com que eu fosse para Chaves.
Hélder Guedes é o mais recente reforço do GD Chaves.
O avançado de 33 anos estava sem clube, após terminar a ligação com o Vitória FC. pic.twitter.com/co9HUzbOMI— Diário de Transferências (@DTransferencias) October 8, 2020
Bola na RedeNas fases em que a vida profissional não decorre de uma forma tão estável – a lesão que sofreu quando estava emprestado ao FC Paços de Ferreira pelo FC Penafiel é um exemplo -, como funciona a relação interdependente desta com a vida pessoal e familiar? A vida profissional afeta negativamente a vida pessoal ou a vida pessoal afeta positivamente a vida profissional e as coisas tornam-se mais simples?
Hélder Guedes: Foi a minha primeira grande lesão. Foi dos piores momentos da minha carreira, admito. Além de ser a primeira lesão, foi a primeira a requerer cirurgia. E depois carregava em cima de mim e mesmo as outras pessoas colocavam em cima de mim uma expetativa muito grande, porque era jovem, tinha acabado de fazer um grande campeonato, em todos os mercados se falava de mim… Eu estive quase a assinar pelo Club Atlético de Madrid até à última… E isso, quer se queira, quer não, coloca um peso em cima. Quer no jogador, quer na parte dos adeptos e até das próprias direções. Sempre tentei não trazer os problemas do futebol para casa e o contrário também. Mas tem que se ter uma resiliência muito grande, uma força de vontade muito grande. Depois dessas expetativas, ter uma lesão grave logo na primeira saída de Penafiel, quando se idealizavam mundos e fundos profissionais e depois cai assim “por água abaixo”… Tem que se ter uma força de vontade e um suporte familiar muito grandes para que possamos recuperar e estar de novo com a mesma ambição.
Bola na RedeA verdade é que estas duas experiências consecutivas, nos Emirados e em Setúbal, acabam por ser até ao momento as duas únicas vivências profissionais do Hélder fora do Norte de Portugal. Isto deveu-se a uma preferência por ficar mais perto de casa ou foi simplesmente assim que se desenrolou o rol de escolhas que foi fazendo ao longo do seu trajeto profissional?
Hélder Guedes: Não, não. O trajeto desenrolou-se assim, não foi nada planeado. Era indiferente ficar longe ou perto de casa. Desenrolou-se assim.
Bola na RedeE o futebolista é um dos profissionais que mais escolhas tem que fazer na construção e gestão da sua carreira. No seu caso, qual foi a hierarquia de prioridades que estabeleceu para o auxiliar nas suas decisões?
Hélder Guedes: Das poucas vezes que tive que escolher, porque não tive grandes transferências, não tive grandes alterações de clubes, mas a minha preocupação – e, se calhar, não tive por causa disso – sempre foi ficar no clube em vez de ir para outros, que eu entendia que estavam mal estruturados, mal organizados, que não tinham tantas garantias como os clubes onde eu estava. Essa era a minha grande preocupação e, anexado a isso, tinha o meu agente e amigo, que me ajudava a filtrar as coisas.
Bola na RedeE qual foi a decisão mais difícil que teve que tomar?
Hélder Guedes: Posso considerar que foi nos Emirados, depois da lesão no segundo jogo. Vim para Portugal, ainda não sabia se ia fazer a cirurgia ou não, tinha uma rotura de ligamentos e, como já era a terceira, estava a ponderar deixar o futebol e não fazer a cirurgia. Até porque, se não fosse para jogar futebol, não necessitava fazer aquela cirurgia, podia fazer a minha vida normal e não precisava de cirurgia. Contudo, a minha esposa e a minha família ajudaram-me, mais uma vez, o suporte familiar mais uma vez. Deram-me alguns exemplos e mostraram-me que algumas atividades ia ter no futuro dificuldade em fazer e optei por fazer cirurgia. Depois, fui ganhando forças novamente e tomei a decisão de voltar a jogar e foi quando fui para Setúbal. Essa, sim, foi uma grande decisão, porque estava naquele impasse de continuar a jogar ou não.
«Eu acho que um profissional de futebol nunca é livre. Nós somos animais competitivos»
Bola na RedeAs pessoas costumam dizer “Ai, se eu soubesse o que sei hoje…”, insinuando que tomariam decisões diferentes se tivessem então o conhecimento que têm agora. Eu, como não sei grande coisa, prefiro dizer “Ai, se eu soubesse o que sou hoje…”, porque mudaria muita coisa se soubesse então quem sou agora. Se soubesse há 16/18/20 anos atrás que seria agora, aos 34 anos, o jogador e o profissional que é, teria mudado alguma coisa?
Hélder Guedes: Não parto desse princípio, dessa lógica. Acho que nós para aprender temos que fazer coisas menos boas e coisas erradas. Isso é que nos dá o conhecimento e nos prepara ainda mais. Agora, se voltava a repetir? Aí é outra questão. Agora, se teria mudado ou se soubesse o que sei hoje… Não penso assim. Há um trajeto e nós vamos aprendendo e evoluindo com esses episódios e esses acontecimentos que fazem parte, não só no futebol, mas também na vida.
Bola na RedeAinda no que diz respeito às suas escolhas – e mesmo no que concerne à sua atividade profissional cotidiana -, até que ponto é que um jogador profissional é livre? Isto é, o que é que um futebolista de um escalão primário ou secundário pode fazer sem que haja pressões externas sobre ele, nomeadamente de agentes?
Hélder Guedes: Eu acho que um profissional de futebol nunca é livre. Como eu costumo dizer, e sendo repetitivo, nós somos animais competitivos. E não são fatores externos a colocar essa pressão. Acho que somos nós próprios que a colocamos, porque nós necessitamos disso, nós estamos mecanizados para a competição. Nós vivemos assim, sem ela não nos sentimos bem. Por isso, acho que somos nós próprios a colocar sobre nós essa pressão quando ninguém o faz. E noto isso agora que não estou a jogar. É até aquilo de que tenho mais dependência – essa competitividade.
Bola na RedeAcha que por vezes se perde a noção de que antes de ser jogador, um futebolista já era um ser humano com condições e necessidades biológicas e um cidadão com condições e necessidades sociais? Parece-lhe que, na ânsia de otimizar e rentabilizar os atletas de alta competição, acabamos por destruir muito do que é a pessoa por trás do atleta?
Hélder Guedes: Estou totalmente de acordo. Por vezes, confunde-se o atleta com máquina, com equipamento. Eu costumo dizer que tem de ser uma rentabilidade para ontem e com grande volume produtivo. E isso não existe, não é? Hoje em dia, o futebol é um negócio e é administrado como as empresas. E eu concordo, mas tem que haver aqui um equilíbrio. O jogador não é uma máquina, não é um equipamento, por isso tem que haver um equilíbrio e tem que haver paciência da parte, por vezes, dos adeptos e das administrações.
Bola na RedeJuntando a estes últimos parâmetros o vetor financeiro do futebol, que no futebol dito moderno assume proporções avassaladoras, sente que os jogadores são cada vez mais mercadorias, objetos de comércio? Pergunto-lhe isto até por ser curioso que o seu percurso contrasta com este paradigma, uma vez que o Guedes não fez movimentar qualquer verba nas suas transferências?
Hélder Guedes: É como eu disse anteriormente: é um negócio o futebol. Só retificar aqui a questão de não ter movimentado qualquer verba… Errado, errado. Até porque já fiz movimentar duas vezes em Penafiel – uma das vezes para o FC Paços de Ferreira e outra para o Rio Ave FC.
Bola na RedeVoltando à vertente desportiva… O Guedes foi internacional sub-20 (apontou inclusive 2 golos em 12 partidas) e fez ainda dois jogos nos Sub-21 – no Torneio Internacional Vale do Tejo 2008, que venceu com Portugal (entrou aos 77´ e aos 78´ respetivamente). No entanto, acaba por seguir um trajeto paralelo à Seleção A. O que é preciso bater certo na carreira de um jogador e em particular na transição dos escalões jovens para o futebol sénior para que a sua evolução permita chegar à seleção principal e não ficar apenas pelas chamadas às seleções jovens?
Hélder Guedes: Sendo muito pragmático – e não quero ser “desinspirador” -, para mim o grande fator é a qualidade. Há qualidade, estás mais perto; não há qualidade, ficas para trás. Depois, claro, tens alguns fatores, como a sorte, às vezes, as oportunidades, que nem todos têm as mesmas… Mas, o fator principal é a qualidade.

Bola na RedeHá demasiada pressão sobre os jovens no seu período de formação? Se a há, de onde vem maioritariamente: dos pais, dos treinadores…?
Hélder Guedes: Na minha altura também já existia essa pressão. Hoje, existe cada vez mais e mais até internamente. Isto também porque já envolve muito dinheiro, até os pais dos jovens já começam a receber dinheiro por parte dos agentes para assinar e isto faz com que a pressão seja maior internamente. Cada vez mais, a família quer que o filho seja o sustento e isso, por vezes, não é bom. O sustento e, às vezes, até o reconhecimento social, que hoje em dia já se vê muito isso. E isso não é bom.
Bola na RedeQual é a maior diferença entre a sua geração de sub-21 e a geração atual? Há mais condições agora para estes jovens crescerem e decidirem bem os seus passos para vingarem no futebol profissional?
Hélder Guedes: Sim, têm outras condições, é verdade – e ainda bem que têm, é sinal que estamos a evoluir. Eu vejo pela própria Federação, que tem imensos recursos, imensas condições. Mas até da parte dos clubes e tirando até os três grandes. O próprio SC Braga, o Vitória FC, o Rio Ave FC são clubes que foram evoluindo e que dão mais condições aos atletas do que na minha altura, o que torna a competitividade maior e isso é bom para o crescimento.
«Tive algumas conquistas que tiveram um sabor bem especial, como uma final da Taça de Portugal, a ida à Liga Europa pelo Rio Ave FC e a subida de divisão pelo FC Penafiel»
Bola na RedeAinda assim, na Primeira Liga faz 36 golos e 15 assistências em 143 jogos. Participação direta em 51 golos, numa média de 0,36 participações em golos por jogo. Atendendo a estes números, às suas prestações em campo, ao impacto que teve nos clubes por onde passou na Primeira Liga, alguma vez se sentiu subvalorizado ou sentiu que as pessoas tinham noção do seu real valor?
Hélder Guedes: Não, eu não era aquele tipo de jogador que encantava logo nos primeiros momentos. Mas depois de alguns jogos sentia o valor que era dado pelas pessoas, sim.
Bola na RedePara se sentir ainda mais valorizado, acha que lhe faltou uma passagem por um dos ditos três grandes do futebol português ou considera que um jogador não deve e não pode ser afinado por esse diapasão? Há ainda uma noção muito enraizada de que se um jogador não passa por um dos três grandes ou pela seleção não se pode dizer bem-sucedido?
Hélder Guedes: Era óbvio que se eu jogasse num dos três grandes seria muito mais valorizado. Mas como – se não me engano e já fiz um estudo sobre isto – só três por cento dos atletas é que conseguem chegar a um dos três grandes e visto que joguei onde joguei, penso que tive uma carreira bonita e digna.
Bola na RedeA ausência de troféus coletivos vota a carreira de um jogador ao obsoletismo ou acha que um futebolista pode ser marcante no panorama do futebol sem conquistar qualquer troféu? Sente que marcou o futebol português na última década?
Hélder Guedes: Ganhar troféus passa pelos objetivos dos jogadores. Individuais e coletivos, passa sempre por esses objetivos, e quem os ganha são os jogadores diferenciados. E para seres diferenciado tens que ter esses troféus. Agora, claro que há exceções. Poucas, mas há. Contudo, visto o nível em que estive, onde joguei, tive algumas conquistas que tiveram um sabor bem especial, como uma final da Taça de Portugal, Liga Europa do Rio Ave FC, subida de divisão pelo FC Penafiel… No meu nível, já foi bom.
Bola na RedeTodavia, se os dados não me deixam mal, o Guedes não fez ainda qualquer hat-trick como sénior, apesar de já ter bisado em quatro partidas. É um dos objetivos individuais que lhe faltam cumprir ou, ainda que seja um avançado, estes registos não lhe dizem nada?
Hélder Guedes: Sim, depois de eu fazer um bis, o próximo passo seria fazer um hat-trick. Isso era excelente, mas infelizmente nunca aconteceu… Mas, também nunca foi uma obsessão. A obsessão era ajudar a equipa sempre, para ganhar – essa é que era a minha obsessão.
Bola na RedeUm avançado não é só os golos que faz, é também o que trabalha para a equipa. O Guedes considera-se um avançado mais egoísta ou altruísta futebolisticamente falando?
Hélder Guedes: Mais altruísta.
Bola na RedeOlhando para os avançados da Primeira Liga, qual considera ser o mais parecido consigo na forma de jogar?
Hélder Guedes: Quando era jovem, numa fase inicial, seria o Darwin. Já numa fase mais recente, mais o Paulinho, que também admiro bastante. E acho que as minhas características nestes últimos anos enquadravam-se mais com as dele.
Bola na RedeE qual é o melhor avançado em Portugal neste momento?
Hélder Guedes: Falando de ponta-de-lança, ponta-de-lança, o Taremi.
Bola na RedeE o melhor avançado português em Portugal?
Hélder Guedes: Eu vou dizer o Pote (Pedro Gonçalves) e o Rafa, pelo momento que atravessam.
«[Regresso ao FC Penafiel como jogador] Era uma forma bonita de terminar e era o que eu idealizava, até porque penso que são três golos para ser o melhor marcador da história do FC Penafiel»
Bola na RedeVirando o olhar para fora, percebemos que o jogador português está “na berra” e é um ativo bastante bem cotado internacionalmente. Acredita que, em sentido contrário, em Portugal ainda há uma subvalorização do futebolista luso?
Hélder Guedes: Comparando com os de fora, sim. Mas também não temos também os mesmos recursos dos de fora, não é?
Bola na RedeAcha que a mentalidade por vezes mais tribal e carregada de ódio de algumas franjas de adeptos afeta o desempenho dos jogadores ou o grupo de trabalho é impermeável no que respeita a estas situações?
Hélder Guedes: Eu penso que sim, mas penso que é muito cultural. Falando agora do povo português, desta exigência no imediato, quando as coisas não estão a correr bem, vira-se ao contrário em vez de apoiar… Acho que é um bocadinho cultural e, às vezes, o adepto é que traz muitos problemas que tem em casa para o estádio e descarrega-os ali. Agora, o jogador também é pago para ouvir, nem sempre cai bem, mas tem que haver aqui um equilíbrio e uma preparação para ouvir isso. Eu não gosto, é feio, mas pronto…
Bola na RedeAlgum adepto ou algum evento em particular com adeptos o marcou para a vida?
Hélder Guedes: Temos uma história em Penafiel muito engraçada. Nós assegurámos a subida de divisão na Madeira e depois fizemos a viagem e no aeroporto tínhamos imensa gente, tínhamos uma multidão de gente de Penafiel e festejámos de forma diferente lá dentro do aeroporto e foi um momento marcante não só para mim, como para todos os jogadores e para o clube e até para os próprios adeptos.
Bola na RedeResgatando o tema da descida do Vitória FC, como viveu com os adeptos a festa da manutenção em campo, numa primeira instância, e depois o desalento pela decisão administrativa de relegar o clube para o Campeonato de Portugal?
Hélder Guedes: Foi um misto de sentimentos extremos. Como deve imaginar – e é visível – as pessoas de Setúbal são fervorosas, são apaixonadas pelo Vitória FC e não mereciam que o clube ficasse naquela situação. Então, foi um misto, porque festejou-se de forma muito fervorosa a manutenção e, depois, foi uma desilusão muito grande porque não foi desportivamente, foi por outros fatores, e foi uma grande desilusão, um sentimento horrível. Para os jogadores e para aquelas pessoas de Setúbal, que são umas apaixonadas pelo clube.
Bola na RedeE acredita que os verde-e-brancos setubalenses vão estar de volta à Primeira Liga brevemente?
Hélder Guedes: Penso que será um longo caminho, infelizmente, mas gostava de os ver o mais breve possível na Primeira Liga.
Bola na RedeE o Guedes vai estar de volta à Primeira Liga já na próxima temporada?
Hélder Guedes: Não, não (risos). Não vou viver em sonhos. Não, não. Posso voltar, mas só se for noutras funções.
Bola na RedeO que é que se segue na vida e na carreira de Hélder Tiago Pinto Moura Guedes? Um regresso ao FC Penafiel ainda como jogador está nos seus planos?
Hélder Guedes: Sim, admito que sim, fazia parte. Acho que era uma forma bonita de terminar e era o que eu idealizava, até porque penso que são três golos para ser o melhor marcador da história do FC Penafiel e, sendo um jogador da casa, acho que era bom para mim. Era uma marca histórica e ia ficar – e vou ficar – sempre na história do clube. Mas com esse recorde seria diferente. Mas não vai ser possível… Agora só se for noutras funções.
Bola na RedePlaneia continuar no mundo do futebol após se retirar como jogador?
Hélder Guedes: Sim, admito que sim. Mas também não é uma obsessão, até porque tenho outros negócios à parte e não é nenhuma obsessão e não é o único plano. Temos que ter outros planos para que, se não correr bem o “A”, optemos pelo “B”.
Bola na RedeEstando de momento fora do ativo, de que sente mais falta no que respeita ao mundo do futebol profissional?
Hélder Guedes: Do que estou a sentir neste momento mais falta é ao nível da competitividade. O ir para o treino todos os dias, a competição do treino, a pressão de chegar o fim-de-semana para o jogo – que é o que todos nós gostamos de fazer, é jogar. Por isso, a competitividade é o que me faz mais falta.
Bola na RedeEstamos já em período de descontos, eu aproveitava para colocar algumas questões mais breves. Assim, que treinador deixou mais marcas na sua carreira – acima de tudo, na sua forma de jogar?
Hélder Guedes: Foi o mister Luís Castro e o Miguel Cardoso. [Sobre Miguel Cardoso] Tínhamos um gozo tremendo em jogar, porque era um jogo em que tínhamos, não digo em todos os jogos, mas em quase todos os jogos, a maior percentagem de bola e isso dávamo-nos um gozo tremendo. Ter bola… privilegiava ter bola aquele modelo e era dos que eu mais me enquadrava e um dos com quem mais sucesso tivemos.
Bola na RedeQue jogador – de entre aqueles que foram seus colegas – mais o impressionou?
Hélder Guedes: Dos que jogaram e treinaram comigo, foi o Diego Costa, o Michel e o Rúben Ribeiro.
Bola na RedeQuando olha em retrospetiva para a sua carreira, sente orgulho no caminho que trilhou?
Hélder Guedes: Sim, concretizei o meu sonho, que foi ser profissional do futebol. Sempre dei tudo pelos clubes em que estive, sou bem recebido em todos eles…Sim, estou muito satisfeito, muito contente pela carreira que tive. É óbvio que queria ter jogado no Real Madrid CF, mas sou muito realista e, dentro do meu nível, saio feliz. E com um orgulho imenso do que fiz.
Bola na RedeE nessa retrospetiva vem-lhe algum arrependimento à cabeça ou, como diz o músico John Moreland, “There´s no glory in regret”?
Hélder Guedes: Tenho algumas coisas de que me arrependi, é óbvio. De certeza que fiz muitas coisas erradas, mas olho para isso de uma forma positiva. Não as vou repetir e aprendi com elas e temos de olhar dessa forma. Agora, admito e aceito que fiz coisas erradas.
Bola na RedeNuma palavra como se define enquanto jogador? E enquanto homem?
Hélder Guedes: Acho que deixo estas últimas questões para as pessoas de fora, porque o meu caminho sempre foi ter bons princípios, zelo sempre por isso, por ser um bom humano, amigo e, depois, o profissional é à parte. O que interessa é a pessoa e é para isso que eu zelo: para ser cada vez melhor e acho que a vida só faz sentido assim.
Muito obrigado, Hélder Guedes! Espero vê-lo de volta aos relvados muito em breve.















