«Um profissional de futebol nunca é livre. Nós somos animais competitivos» – Entrevista BnR com Hélder Guedes

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Professor Neca entrevista À BnR Queria jogar no Real Madrid CF, mas foi pelo Club Atlético de Madrid que esteve a um passo de assinar. Hélder Guedes acabou por fazer carreira em terras lusitanas e arábicas – e diz-se feliz, ainda que as saudades da competição sejam muitas. Em Portugal foi acarinhado pelos adeptos, que por vezes são mais problema do que solução e alimentam a ideia de que os futebolistas são máquinas. Não são: são pessoas e, no final, “o que interessa é a pessoa”. Ah, e hoje é um dia muito especial para ele…

 «Luís Castro proporcionou-me uma estreia no Dragão frente ao FC Porto, que jamais será esquecida»- Luís Guedes

Bola na Rede: Boa noite, Guedes! 17 de dezembro de 2005. 70 minutos de jogo no Estádio do Dragão. O FC Porto, que ano e meio antes estava a sagrar-se campeão europeu, vence o FC Penafiel por 3-1, em partida da Primeira Liga. Luís Castro, treinador dos durienses, retira de campo Bruno Amaro (autor do golo forasteiro) e lança em campo um jovem de 18 anos formado no clube chamado Hélder Guedes. A minha questão é: o que é que se celebra mais na casa Guedes – o 25 ou o 17 de dezembro?

Hélder Guedes: Boa noite! Efetivamente foi uma data muito forte mesmo, mas não chega para substituir a data do 25 de dezembro. Contudo, o 17 será uma data jamais esquecida!

Bola na Rede: Ainda se lembra da última frase que Luís Castro lhe dirigiu antes desta prenda de natal antecipada que foi estrear-se no futebol sénior e na Primeira Liga?

Hélder Guedes: Recordo-me exatamente como se fosse hoje. Além de vir de um ser humano gigante, como é o mister Luís Castro – é um ser humano incrível -, proporcionou-me uma estreia que jamais será esquecida. Lembro-me que ele na altura convocou-me penso que para dois jogos antes do jogo com o FC Porto em que não me colocou, fiquei sempre no banco. Na semana do jogo do FC Porto, ele veio ter comigo e disse-me que ia estrear-me no Dragão, em princípio, porque estrear-me com 30 mil, 35 mil na bancada terá um sentimento totalmente diferente e, não desprezando os outros clubes, seria sempre uma estreia diferente com o FC Porto do que com outros clubes.

Bola na Rede: Em que momento do seu trajeto de formação percebeu que chegar à equipa principal do FC Penafiel e jogar na Primeira Liga era uma realidade à espera de se concretizar?

Hélder Guedes: Na formação do FC Penafiel – e aqui um bocadinho modéstia à parte -, já me enquadrava no leque dos melhores jogadores de cada ano. Só que uma certa altura, ali pelos 16/17 anos, aparecem indicadores que te dizem que se a evolução continuar estás a um passo de assinar contrato profissional com o clube e começares a integrar-te na equipa principal. E dando aqui um exemplo de um indicador é uma ou duas vezes por semana começares a integrar os treinos da equipa principal ou começares a ir para o estágio com a equipa principal, até que nem jogues ou que nem entres e depois vens jogar à formação (que foi o meu caso). Esta integração era um dos indicadores que estava perto do meu sonho.

Bola na Rede: O primeiro golo no futebol sénior surge a 29 de abril de 2007, estava o Hélder a sensivelmente uma semana de celebrar o 20º aniversário. E a verdade é que o seu golo deu a vitória por 1-0 ao FC Penafiel ante o CD Santa Clara, numa partida a contar para a Segunda Liga. Foi mais impactante esta estreia a marcar, ainda que na Segunda Liga, ou a estreia na Primeira Liga no Estádio do Dragão?

Hélder Guedes: São duas marcas tão fortes na minha carreira que tenho dificuldades em especificar qual seria a que optava, mas, se tivesse que dizer uma, se calhar a primeira porque sem ela seria impossível a segunda marca.

Bola na Rede: O seu primeiro golo no principal escalão do futebol português acaba por acontecer apenas em 2014 (20 de setembro). E aconteceu ao serviço dos penafidelenses. Foi de grande penalidade que fez o 1-0 num jogo que o FC Penafiel viria a vencer por 2-0 (a assistência para o segundo golo foi sua), frente ao Vitória FC. Ou seja, o Guedes estreia-se na Primeira Liga, estreia-se a marcar como sénior e estreia-se a marcar na Primeira Liga pelo FC Penafiel. Posto isto, o nome do FC Penafiel está mais cravado na sua história do que o seu nome está na história do FC Penafiel? Ou acredita que deu tanto ao clube como o clube lhe deu a si?

Hélder Guedes: Acho que as duas estão bem unidas, estão bem interligadas. Obviamente que tenho que agradecer muito ao FC Penafiel, que fez parte do meu crescimento como jogador, como profissional, como ser humano. Zelo muito por isso, foi fundamental no meu trajeto e, mais uma vez, aproveito para deixar aqui um “muito obrigado”, mas o Guedes também sempre trabalhou em prol de ajudar o clube no que foi possível da minha parte. Sempre ajudei de forma muito séria e de forma muito profissional para que o clube atingisse os objetivos que eram propostos.

Bola na Rede: “O meu coração só tem uma cor: azul e branco”, dizia João Pinto. A verdade é que a maioria dos jogadores passa por vários clubes e aprende a chamar “casa” a uma multiplicidade de sítios. O Guedes jogou em cinco clubes portugueses – FC Penafiel, FC Paços de Ferreira, Rio Ave FC, Vitória FC e GD Chaves. O seu coração consegue conter todas estas cores ou só alberga uma equipa?

Hélder Guedes: Acho que o meu coração alberga mais que uma equipa. O FC Penafiel é o pilar, obviamente, mas tenho mais que uma cor. Isto porquê? Eu ligo-me muito às pessoas e as pessoas é que fazem os clubes e é evidente que o FC Penafiel é o meu clube, mas não posso deixar aqui de referenciar o Rio Ave FC. Foi um clube onde eu conheci gente maravilhosa, como conheci também nos outros clubes, mas em Vila do Conde tive um sucesso profissional a nível coletivo e individual que faz com que também leve o Rio Ave FC no meu coração para sempre.

Fonte: Ricardo Peixoto/Liga Portugal

Bola na Rede: Além dos clubes nacionais que representou, teve igualmente uma experiência no estrangeiro – no Al Dhafra S&C Club dos Emirados Árabes Unidos. Acaba, no entanto, por estar poucos meses no clube e fica depois algum tempo sem competir, até regressar a Portugal e à Primeira Liga pela porta do Vitória FC. A que pilares se agarra um futebolista quando decide mudar-se para um país e para uma região cultural, social e até futebolisticamente diferente?

Hélder Guedes: Eu sempre gostei e tinha curiosidade em conhecer a cultura… eu gosto de conhecer novas culturas, novas experiências, e na altura do Rio Ave FC, no final – ali em meados de março/abril – o contrato estava a acabar e começaram a aparecer clubes. Estávamos a fazer uma boa época, individualmente as coisas também me estavam a correr bem, e começaram a aparecer vários clubes de vários países. Achei, por um conjunto de fatores, a do Al Dhafra S&C Club a mais interessante. Até em relação à Arábia e à Turquia… ok, é uma cultura muçulmana, mas ao nível de segurança e qualidade de vida acho superior às restantes. Infelizmente as coisas não me correram bem. No segundo jogo, lesionei-me no joelho e tive mais de oito meses parado, o que não ajudou nada.

Bola na Rede: O que é que faltou para que esta experiência no Médio Oriente tivesse dado resultado?

Hélder Guedes: Vai muito ao encontro do que eu disse anteriormente. Se não me tivesse lesionado, as coisas seriam totalmente diferentes.

Márcio Francisco Paiva
Márcio Francisco Paivahttp://www.bolanarede.pt
O desporto bem praticado fascina-o, o jornalismo bem feito extasia-o. É apaixonado (ou doente, se quiserem, é quase igual – um apaixonado apenas comete mais loucuras) pelo SL Benfica e por tudo o que envolve o clube: modalidades, futebol de formação, futebol sénior. Por ser fascinado por desporto bem praticado, segue com especial atenção a NBA, a Premier League, os majors de Snooker, os Grand Slams de ténis, o campeonato espanhol de futsal e diversas competições europeias e mundiais de futebol e futsal. Quando está aborrecido, vê qualquer desporto. Quando está mesmo, mesmo aborrecido, pratica desporto. Sozinho. E perde.

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