José María Gallego é um nome a ganhar notoriedade em Portugal nos últimos anos. Apresentou-se em Amora como investidor, mas soube manter a confiança dos adeptos, definindo-se como um fã do futebol popular. Nem todos os donos de uma SAD têm esta postura, principalmente quando chegam do estrangeiro. Já em Espanha, o seu país natal, trabalha no Conselho de Administração do Real Bétis, integrando os mais recentes sucessos dos andaluzes. Ao mesmo tempo, lidera a Odemira Capital, uma empresa de investimentos. José María não é 100% futebol, mas dedica grande parte do seu tempo ao desporto-rei, seja no Santiago Bernabéu, ou no pelado mais perto de sua casa. O livro que lançou, Futebol S.A., espelha a sua paixão, analisando certos pontos de uma forma profunda, mas sem utilizar uma linguagem complexa, sendo de fácil acesso para qualquer leitor. A obra em 2026 passará a estar disponível em português e promete fazer parte das prateleiras de muitos lusos. É o mais recente convidado do Entrevista Bola na Rede.
Bola na Rede: Olá, José. Em primeiro lugar, agradecer o teu tempo para dares esta entrevista, onde abordaremos a tua passagem por Portugal, o projeto do Bétis e falaremos sobre o Futebol S.A., o livro que lançaste e que já foi editado em português.
José María Gallego: Olá! Eu é que agradeço.
Bola na Rede: O que te fez investir no futebol português?
José María Gallego: A verdade é que a ideia surgiu sem pensar muito. Eu tenho alguma vinculação com Portugal faz muito tempo. Tenho uma casa no Algarve, tenho algumas ligações com pessoas do futebol aí. Tu sabes que em Portugal todos os clubes estão à venda, embora não o refiram. A situação financeira é difícil para muitos clubes pequenos. Analisámos o mercado, não havia nada sério e que tivéssemos interesse. Contudo, através de um amigo apareceu uma oportunidade, ainda em 2020, no final da pandemia. Havia um clube em Lisboa, o Amora, um emblema histórico que tinha estado na Primeira Liga. Antes da pandemia, um grupo uruguaio fez um investimento, depois de ter comprado a participação na SAD um outro grupo moçambicano. Eles eram pessoas muito sérias, mas não conseguiram ir a Portugal nessa altura, somente mandavam dinheiro e participavam nas reuniões por videoconferências. Dado este cenário, eles quiseram sair do clube. Falaram-me da instituição, eu vi a localização, a Margem Sul, uma zona em que entendia que existia potencial para lançar jogadores. A verdade é que me apetecia esta aventura porque, à parte da minha vinculação com o Bétis, gostava de realizar um investimento no futebol. Foi algo pouco pensado, porque tinha que se tomar a decisão quase numa noite. Era necessário pagar a licença de participação na Liga 3. Caso contrário, o Amora não podia estar inscrito. Inicialmente não comprei o clube, já que não o conhecia assim tão bem, mas não podia deixar o clube naquela situação, falamos de um histórico. Decidi pagar a inscrição e ajudar de alguma forma. Depois, afirmei que queria controlar o clube minimamente. Logicamente estes clubes têm dividas, têm problemas. Não queria entrar num projeto que me colocasse em dificuldades financeiras ou que me aparecesse uma surpresa menos positiva neste ponto. Quando estás dentro, não há volta a dar. O primeiro momento foi um pouco difícil. O Estádio da Medideira estava impraticável, não se podia jogar futebol. A bancada estava totalmente destruída. Assumimos que tínhamos de encontrar uma solução e montar uma equipa. A pré-época começava na semana seguinte e o clube não tinha absolutamente nada. Havia um corpo técnica, não existiam jogadores, nem estrutura. Decidimos levar a equipa para o Algarve, leia-se o corpo técnico e o diretor desportivo. Começámos a conceber o plantel de uma forma rápida e seis meses depois, com a equipa montada e a jogar, decidimos efetivar a compra, por intermédio da minha empresa de investimentos, a Odemira Capital, onde tenho outro tipo de projetos, não apenas relacionados com o futebol. Quando entras, já sabes como funciona o futebol, o Amora é dos adeptos e da cidade e a primeira temporada foi complicada, jogámos todos os jogos como visitante, não tínhamos o estádio local. Procurávamos campos para alugar, conheci quase todo o Portugal devido a isso. Queríamos implementar uma ideia, com metodologia, apostando na formação, tentando desenvolver um projeto sério, de maneira a levar o Amora à Segunda Liga. Contudo, não éramos só nós a querer isso, todos os outros clubes o desejavam.
Bola na Rede: Com essas dificuldades financeiras que apanhaste logo no começo de projeto, que objetivo estabeleceste para o Amora no curto prazo?
José María Gallego: Fizemos um plano estratégico, que está escrito e divulgado. Desenhávamos o Amora do futuro para os quatro anos seguintes. Havia muitos objetivos ao nível desportivo e de infraestrutura. O primeiro objetivo era voltar a jogar na Medideira, isso estava muito claro. Tínhamos que reconstruir o estádio, melhorar o relvado, investir na bancada e nos balneários. Outra parte importante era criar um projeto sustentável. Como tu sabes, clubes da Liga 3 e da Segunda Liga, não apenas em Portugal, são clubes extremamente deficitários, que se mantêm pela aposta de investidores. Para ser sustentável, é necessário vender jogadores. Para isso têm que se promover jovens jogadores, valorizá-los e colocando-os no mercado, por via de vendas diretas ou de percentagens futuras. Se o jogador se sair bem, vai cair receita. Não falamos de valores elevados, tratam-se de clubes pequenos. Depois também existem os valores do mecanismo de solidariedade. Mas esta a linha onde queríamos ter o foco. Clubes deste perfil têm patrocínios locais que funcionam, mas são pessoas que estão vinculadas ao clube a nível histórico por serem da cidade. Esse patrocínio não é caro, mas também não gera grandes receitas. É como se diz, são patrocinadores porque acreditam no clube, não para ter grande retorno. A visibilidade não te oferece grande retorno a nível de imagem, por muito que a liga seja televisionada. O nosso plano estratégico tinha uma metodologia especifica de jogo, controlar a formação. Insistimos com o clube que queríamos apostar na formação com um modelo claro. Insistimos no controlo dos Sub-18 e dos Sub-19. Tu já conheces as ‘guerras’ entre clube e SAD. Aqueles jogadores iam ser o futuro do Amora, eu dizia sempre: ‘Eu venho de Espanha e para mim o modelo pelo qual me apaixono é o Athletic’. Neste caso, sabemos que é algo impossível de repetir. Porém, o Amora pode jogar com 11 jogadores da Margem Sul, de zonas próximas ao local onde está. Isto também faz sentido no tema financeiro. O Amora não pode ir só buscar jogadores ao norte do país, ao estrangeiro… é caro trazê-los, mantê-los a viver na zona, numa casa. A filosofia era esta e fomos trabalhando nisto durante quatro anos.


Bola na Rede: Quais são os principais objetivos de uma SAD quando falamos de uma equipa semi-profissional?
José María Gallego: O objetivo fundamental é fazê-lo sustentável a nível financeiro, o que não é fácil. A ajuda é pouca. A Federação faz um grande esforço com o Canal 11, mas não existem direitos televisivos. Na Liga 3 não há receitas televisivas, algo que não consigo entender. O patrocínio local não é muito elevado. A bilheteira também não. Portugal tem um problema importante. Descontando Sporting, Benfica, FC Porto, Vitória SC ou Braga, sendo generosos, o resto dos clubes não consegue uma média superior aos 2500 adeptos por jogo. Numaa Liga 3, poucos conseguem meter mais de 1000 pessoas no estádio. Além disso, não podes colocar um bilhete a um preço caro. Tínhamos que nos convencer que nos primeiros anos íamos ter prejuízo, com os investimentos na melhora do plantel e das infraestruturas, na esperança que no quarto ano fazer algum dinheiro. A responsabilidade do investidor é não deixar um clube com dívidas. Em Portugal isso é complicado, tal como no resto do mundo. A ambição leva-te a ter mais gastos no plantel do que receita. Porém, aqui tínhamos que ser ambiciosos, mas também responsáveis. Não entrar em loucuras. No Amora tivemos anos bons e maus e nunca cometemos loucuras no que diz respeito ao orçamento. Tentávamos ser sustentáveis. Não tínhamos o orçamento mais alto, mas também não era o mais baixo. Quando vendemos a nossa participação ao grupo brasileiro, o Amora ficou sem dívidas, muito saudável. Gostava que eles continuassem a ter sucesso, tenho muito carinho pelo Amora. Quero que tenham receitas futuras. Mas equilibrar um orçamento nesta categoria não é simples. O investidor que entra tem que perceber onde está a entrar. Todos querem ganhar a Liga 3, mas ganhar é caro.
Bola na Rede: Gostava de saber qual a tua opinião sobre a competitividade da Liga 3. Falamos de um campeonato que não é 100% profissional, mas também não se trata de um escalão amador…
José María Gallego: A Liga 3 é um campeonato supercompetitiva. O nível de igualdade cria essa competitividade. Há jogadores com muito talento, muito jovens, com a ambição de chegarem a outro patamar, ao profissionalismo. A Federação fez bem em realizar esta restruturação, separar do Campeonato de Portugal, que contou com vários modelos e que não acabavam por encaixar. O salto para a Segunda Liga era muito alto. Este campeonato intermédio coincidiu com a chegada da Primera RFEF a Espanha. No primeiro ano teve um certo impacto, com investimento da Federação. O nível de exigência era muito alto, com todos os clubes a terem que jogar em relvado natural. Pessoalmente, considerei isso muito importante. Criava impacto a nível televisivo e nível de jogo era algo relevante. Havia muitas exigências em relação à segurança nos estádios. A Liga 3 teve muita visibilidade, motivada pelo Canal 11, que transmitia todos os jogos, com comentadores e convidados. Isso dinamizava muito. Além disso, havia históricos que para mim eram clubes de Primeira ou Segunda, mas que viviam um momento mau. Havia o Vitória FC, a União de Leiria, o Alverca… falo do Grupo Sul. O Grupo Norte também tinha várias equipas do estilo. Da minha perceção particular, ano após ano a Federação foi perdendo ilusão com a Liga 3, deixou de dar essa visibilidade. Mas é um contexto interessante, ainda que semi-profissional. Há dificuldades para subir. Nós sofremos a nossa situação. O primeiro ano não era tão referência. Porque o planeamento foi algo improvisado. Mas no segundo ano, com uma planificação com sentido, fomos campeões com uma ideia de jogo muito boa, com o João Pereira a treinar. Depois no playoff dás-te conta da realidade. São detalhes, há a chegada do VAR, que nos prejudicou mais do que beneficiou. Mas isso tratou-se de algo casual. Em resumo, a Liga 3 é interessante, mas perdeu certa força, não competitividade. Perdeu algo de importância em Portugal.
«Geny Catamo? Não é normal que em Portugal que um clube como o Amora tivesse um duelo com o Sporting e se mantivesse firme».
Bola na Rede: Geny Catamo foi um jogador que colocou o Amora nas capas dos jornais. Gostaria de saber como foi a negociação entre a SAD e o Sporting.
José María Gallego: O tema Geny foi algo recorrente nos quatro anos que estive no Amora. Dava visibilidade ao Amora, não te posso negar. Ainda assim, 70% das notícias eram inventadas, não sei de onde saíam, era ruído. O Geny marcava um golo contra o Benfica e saía uma notícia de que o Amora estava a negociar por não sei quantos milhões. Não havia nada. Mantivemos uma postura de força, sendo uma equipa pequena. O produto tinha um valor. O contrato inicialmente não estava bem feito e tinha que se solucionar o problema. Era uma questão de tempo. Não é normal que em Portugal que um clube como o Amora tivesse um duelo com o Sporting e se mantivesse firme. É algo que os clubes portugueses têm de fazer mais. Há uma tirania dos grandes: Benfica, Sporting e FC Porto, mas também o Braga é um clube grande e entra nesta conversa. Eles sentem que têm um certo direito sobre os jogadores que estão no país e que podem gerir a situação conforme os respetivos desejos. Muitas vezes se os clubes mantivessem as suas peças, o produto teria um outro valor e tem que se pagar. Havia uma direção desportiva do Sporting com a qual não existia uma relação tão fluída, com capacidade de entendimento. Com a chegada do Bernardo Palmeiro tudo de agilizou bastante, quase de forma natural. Sempre digo que estávamos condenados a chegar a um acordo. O Sporting queria ter mais do que 20% de um dos seus melhores jogadores. O Amora também queria resolver a situação para fazer caixa, era o que fazia sentido. Pelo meio estava o Geny, que queria a situação resolvida para melhorar o seu contrato com o Sporting. O Bernardo Palmeiro teve a sensibilidade necessária para entender que o Amora não queria chatear o Sporting, mas somente defender os seus interesses, como obrigação. Eles entenderam que o jogador tinha um valor e tinha que o pagar. Quando falo em sensibilidade, não falo em facilidade. O Bernardo negociou duro, saiu na defesa da instituição que representa. Acho que ficámos todos contentes. No Amora também eramos conscientes da nossa posição. Trava-se de um clube de Liga 3 e ia ser a maior venda da história da competição. Vão passar anos para que este recorde se supere. Oxalá não, seria sinal que o futebol português cresceu. Foi uma operação muito boa para todos.
Bola na Rede: Acreditas que era possível ao Amora, sem um investidor, realizar uma venda por valores semelhantes e negociar desta maneira com o Sporting?
José María Gallego: Acho que seria complicado. Eramos um clube pequeno, que consome recursos e tem de gerar algo. Entendíamos que com a pressa de vender podíamos hipotecar o futuro e fazer uma má venda. Se o clube está financeiramente morto tem que aceder a um valor menor. No nosso caso, sendo uma SAD, tínhamos essa capacidade. Não sou um sheik árabe, mas tínhamos capacidade para aguentar, sem entrar em loucuras. Sabíamos que esta venda ia produzir-se. É fácil de contar, mas nem todos têm a mesma disposição de negociar no momento concreto. Se isto tivesse ocorrido num momento em que o clube estivesse mais debilitado financeiramente, o clube tinha que vender.


Bola na Rede: Um outro nome que ganhou muita ênfase no Amora foi o Beni Souza. Como o descobriram? Ele jogava em França.
José María Gallego: Na minha opinião Beni Souza é um jogador com um potencial tremendo. Agora todos falam dele, está na moda pela liga fantástica que fez na Académica. Encontrou o seu contexto adequado. A Liga 3 ajudou-o a crescer. Eu acho que a chave neste caso, sendo fácil agora de dizer, foi acreditar. Muitas vezes tens o jogador à tua frente, que tem potencial, mas como o futebol é algo muitas vezes imediato, não apostas no jogador. Neste caso, havia esperança e houve essa aposta desde o primeiro momento. O Pedro Paiva guiou o seu crescimento, afirmava que o Beni tinha potencial e que tinha de ter tempo para crescer. Ele tinha estado noutro clube a fazer testes, um emblema da Primeira Liga, e foi rejeitado. No Amora acreditámos, demos o contexto adequado para ele se sentir cómodo, só tinha que se preocupar com futebol. É um jogador diferente, é um tipo de jogador que quase não existe. Tem uma grande envergadura, mas que faz coisas de um jogador pequeno. Tem uma condição técnica incrível. Trabalhando plano físico, como fizemos com ele, ordenando o jogador a nível tático ele conseguiu crescer. O Benfica viu o valor do Beni e fez a aposta. Não era a única proposta que tínhamos. Havia outros clubes da Primeira Liga que gostavam de o ter. Mas entendemos que o contexto adequado era o Benfica. Fizemos uma operação financeira muito boa, ficando com uma percentagem, já que acreditávamos no produto e pode ser uma boa venda. Não há grandes segredos, não houve Big Data, nenhum scout foi ver o jogador seis meses antes. Foi intuição e acreditar.
Bola na Rede: Vês no Beni Souza potencial de jogar na Primeira Liga já na próxima temporada?
José María Gallego: Sinceramente, acredito que é um jogador agora mesmo, e aqui atiro-me à piscina porque não sou ninguém para dizer o que o Benfica tem de fazer, teria perfil de fazer a pré-temporada. Seria o perfil perfeito para Mourinho trabalhar, mas infelizmente ele vai sair do Benfica. Se ele apostasse nele, ficava no plantel. Tudo depende do momento e do tipo de futebol. Mourinho ficaria apaixonado pelo seu perfil. O futebol é muitas vezes isto, ter uma pessoa que te dê uma oportunidade e que acredite em ti. Pode acontecer o contrário e o Beni ser vendido. Acho que ele tem mercado, em Espanha sei que existem uns clubes que estão de olho, equipas da La Liga 2. Nunca se sabe. Tudo depende do momento e do contexto habituado.
«Beni Souza tem o perifl perfeito para Mourinho trabalhar. Infelizmente, o treinador vai sair do Benfica».
Bola na Rede: Escuto-te a falar com muita paixão do projeto do Amora, mas em 2025 decidiste vender a SAD. O que aconteceu?
José María Gallego: No final das contas, tem que se perceber de onde eu venho. Eu tenho um vínculo com o Bétis já lá vão oito anos. Tenho que ter tempo para isso, há responsabilidade, reuniões, decisões, viagens do clube. Também tenho a minha empresa, que esteve meio abandonada durante os quatro anos onde me foquei no futebol. Eu também vivo em Sevilha, não deixe de viver aqui. Conheço o percurso Lisboa-Sevilha metro a metro. Estava muito presente durante a semana. Via treinos, ia a todos os jogos, fossem em Santarém ou em Óbidos. Estava lá. Por vezes tinha de decidir entre o Bétis e o Amora, se coincidiam. Tinha que escolher entre o Bernabéu e um estádio da Liga 3 e para mim era igual, eu estava feliz. Dava-me exatamente a mesma ilusão. Claro que isto traz um desgaste pessoal importante. Os carros deterioram-se, mas o desgaste pessoal e físico pesa. Não sou tão jovem. Também causa desgaste familiar, ficas fora de casa muito tempo. Sentes que o esforço é grande e em alguns casos a recompensa é pouca. É futebol. Muitas vezes os resultados não aparecem. Além disto há a vertente financeira. Não é um fundo qatari ou americano. Era uma pessoa a assumir os custos, a correr riscos. Eu percebi que tinha pouca ajuda e isto não é uma crítica a ninguém. A Câmara Municipal não estava tão disponível, sentia pouco apoio e havia muito esforço. A Federação também não dava uma grande receita. No Amora queríamos deixar uma marca formadora de jogadores. Geny Catamo fez ruído, tal como o Beni Souza. O Afner Cá mudou-se para o Levante e é possível que vejamos no máximo nível. Isto são só alguns, há muitos mais exemplos. Negociámos com o Génova, com o Cádiz… chega um momento em que o esforço tem que ser compensado. Criaste uma marca que era apetitosa. Houve aproximações sérias e menos sérias, houve ofertas de todo o tipo. Apareceu um grupo financeiro que tinha capacidade, algo que eu tomei atenção. Não sei qual é o seu projeto, mas entendemos que era momento de sair, respirar e tomar ar. Quem sabe se amanhã surge uma nova oportunidade e nos lançamos, mas queríamos descansar. Foi aí que comecei a escrever o livro, ainda que já tinha algumas coisas escritas. Preencheu o tempo que dedicava ao Amora, a quem dedicava muitas horas. Fiquei com o Bétis e com a empresa. Sou ativo e faltava-me algo e quis reflexionar sobre futebol em geral, sem meter-me em problemas. Foi assim que nasceu o meu livro.
Bola na Rede: Que marca sentes que deixaste no Amora?
José María Gallego: Estou satisfeito com o trabalho que fizemos. Sendo sincero, pode ter ficado um pouco incompleto. Foi um projeto de quatro anos, há coisas por fazer. Vivemos momentos bons, cometemos erros. Não tenho orgulho em dizer que descemos uma vez, faz parte do processo. Foi uma descida estranha, mas circunstancial. Muita gente em Portugal achava que o investidor ia abandonar o Amora. Tudo ao contrário. Queria deixar o clube na Segunda Liga, ou pelo menos na Liga 3, nem que eu ficasse lá mais 10 anos. Apesar da dureza do Campeonato de Portugal, que é super exigente, devolvemos a equipa à Liga 3. Mais do que um acesso à fase de promoção à Segunda Liga, termos sido campeões da primeira fase da Liga 3, a promoção do Campeonato de Portugal, o que deixámos foi uma metodologia, um processo, uma maneira de trabalhar. Muita gente passou pelo Amora, jogadores, treinadores, preparadores que hoje em dia estão noutro patamar. Isso deixa-nos feliz. Vários dizem que o passo pelo Amora os marcou porque havia metodologia, uma ideia para onde íamos. Trabalhar com Wyscout que não era usual na Liga 3… tentámos criar uma identidade de marca e eu sinto orgulho nisso. Perguntas a pessoas de Amora e algumas vão dizer que gostavam da SAD espanhola, outras não gostavam. Não somos os melhores quando vencemos, nem os piores quando perdemos. É ver onde estão vários dos funcionários que passaram por lá. Isso deixa-me mais feliz que o retorno financeiro.


Bola na Rede: No teu livro referes que existem sempre algum receio dos adeptos quando chega um investidor do estrangeiro ao clube e que o mesmo possa perder identidade. Pensas que a tua passagem pelo Amora mostra o contrário?
José María Gallego: Era um pouco a ideia. Eu digo sempre que quando chego ao Amora o primeiro que quis entender era a sua história, conhecer as pessoas, como pensavam. Queria conhecer o universo do clube. Havia uma identidade, figuras históricas. Fomos com a missão de recuperar essa história e acho que nos saímos bem. Não há nada com maior novidade que uma camisa retro. Isto é um caso concreto. É o mais moderno possível, recuperar uma camisola com mais de 100 anos de história. Tentámos mostrar a história aos próprios jogadores, o que era o Amora, viver o Amora. Era uma preocupação minha. Há outros investidores com outras ideias. Nós fomos pelo nosso caminho. Preocupámo-nos com o estádio, colocámos assentos. Isto não é romper com a tradição, mas acreditar no futuro e no progresso. Há figuras que passaram pelo Amora que têm que se respeitar. A relação clube-SAD é uma guerra em Portugal, uma luta de poder. Nós tentámos, ainda que existiram momentos melhores e piores, que não éramos inimigos e tínhamos o mesmo objetivo: o Amora ganhar. Nem sempre estávamos na mesma direção, mas queríamos que o Amora crescesse. A minha preocupação era esta, tal como digo no livro. Há fundos que chegam do estrangeiro e vêm com ideias muito inovadoras, mas têm que entender o que vem do passado. Não podes tratar os clubes de forma igual, há uma filosofia diferente, a sua forma de viver o futebol. Focámo-nos muito nisso.
Bola na Rede: E se voltares a investir num clube em Portugal, seja daqui a uns anos ou daqui a uns meses, presumo que repitas todo esse processo…
José María Gallego: Vou tentar. Isso está no nosso ADN, na nossa forma de fazer as coisas. O futebol não é matemática, não te dá resultados imediatos, é um processo lento. Há que impor uma forma de trabalho, uma metodologia. Às vezes falhas e tens que decidir se mudas ou manténs a ideia. Eu sou muito de manter, de valorizar as pessoas que estão connosco. Quero repetir o processo, se temos sucesso ou não, já é outro tema.
«Há fundos que chegam do estrangeiro vêm com ideias muito rompedoras, mas que têm de entender o que vem no passado. Não podes tratar os clubes de forma igual».
Bola na Rede: Passamos um pouco à parte ‘espanhola’ da entrevista, se lhe podemos chamar assim, onde falaremos do Bétis, equipa do qual fazes parte do Conselho de Administração. A instituição vive um momento positivo, conseguiu o regresso à Champions League, depois de 21 anos. Os Sub-19 também estão período fantástico. Acreditas que ao dia de hoje o Real Bétis é o protagonista do futebol andaluz?
José María Gallego: Não sei se somos os protagonistas. Por resultados desportivos, claramente que o somos. Esta qualificação para a Champions mostra isso. Mas acho que não nos devemos ficar nesse nível local, devemos olhar mais além, afiançarmo-nos nesse vagão de topo da La Liga. É algo que não é fácil, mas estamos nesse ponto. Somos relevantes no panorama nacional e internacional. São seis presenças consecutivas na Europa, nunca o tínhamos conseguido. Queremos mais, somos ambiciosos, mas sempre com humildade e saber que todos queremos ganhar.
Bola na Rede: Depois de este top 5 na La Liga em 2025/26, torna-se obrigatório lutar pela mesma classificação na próxima temporada?
José María Gallego: Tem de ser. Os adeptos querem isso e nós dirigentes temos a obrigação de tentar seguir com o crescimento. Sabemos das dificuldades, mas não podemos ficar por aqui. Queremos assumir-nos nessas 4/5 posições principais na La Liga. Na Europa queremos fazer algo importante. A Champions tem grandes clubes, grandes orçamentos, muita história. Sem cometermos loucuras, temos de estar a competir e fazer feliz aos adeptos béticos. No fundo, trata-se do nosso trabalho.


Bola na Rede: Qual o papel do Manuel Pellegrini em todo este sucesso? Na minha visão, parece-me muito mais que um treinador…
José María Gallego: Não vamos descobrir agora o Manuel (risos). É um treinador que tem muita experiência, passou por grandes clubes europeus, jogou a Champions com cinco emblemas diferentes. Isto diz tudo da sua grandeza. A figura de Pellegrini é importante, mas ele tem um bom plantel, uma direção desportiva e o clube deu passos importantes. Isso ajuda muito o treinador a continuar a crescer. Podes ser o melhor treinador do mundo, mas se o demais não acompanha, não vais ter sucesso. Destacar somente o Manuel Pellegrini é um pouco injusto, um pouco curto. Há um plantel de qualidade, uma equipa técnica com muita experiência e que foi igualmente fundamental nestes resultados. Estamos a fazer as coisas bem para nos mantermos no caminho do sucesso.
Bola na Rede: Há um nome do plantel atual que gostaria de aprofundar um pouco, que é o de Isco Alarcón, que até esteve lesionado grande parte da temporada. Como é que o contrataram depois de ele ter passado pelo Sevilha?
José María Gallego: Mais do que ficar pela ‘anedota’ de ele ter passado pelo Sevilha, onde foi um passo curto e não lhe correu bem, trata-se de um grande futebolista, é diferente. Para mim, é um dos top 10 do mundo. Não apenas na parte do jogo, mas o que dá como pessoa. É um jogador que tem ilusão, apesar de ter vencido todo e isso faz dele ainda mais relevante. Apanhou também o clube em crescimento. É um jogador querido e importante. Para qualquer adepto do futebol é um gosto assisti-lo. Que dure muitos anos.
«No Bétis temos boas relações com várias equipas portuguesas. Chegam-nos propostas e estas são fechadas ou não. Portugal é um mercado bastante atrativo para poder potenciar jogadores jovens».
Bola na Rede: O Bétis é um clube que tem conseguido trabalhar bem a sua formação nos últimos anos. Contudo, vemos a equipa B em zona de despromoção da Primera RFEF, numa situação complicada, ainda que contem com elementos diferenciados como o Pablo García, o Dani Pérez ou o Pablo Busto. Isto pode tornar-se num risco para a instituição? Ou seja, que as promessas não atinjam o nível esperado num escalão como a Segunda RFEF?
José María Gallego: A realidade é que temos opções para a manutenção. Para nós é importante a manutenção na Primera RFEF. Chegou um novo treinador, que conhece bem a casa, e a equipa melhorou bastante. Se se derem as circunstâncias de que a equipa vai para a Segunda RFEF, acho que é uma liga supercompetitiva. Na etapa formativa ganhar é importante, mas não é tudo. Queremos desenvolver jogadores e que possam estar no plantel principal. Foi um ano de complicado, a Primera RFEF é muito competitiva, um pouco como o que já falámos da Liga 3. Tem grandes históricos, uma boa marca. Muitas vezes usámos uma equipa muito jovem, houve uma mudança geracional. No ano passado tínhamos jogadores com uma certa experiente, como o Guilherme Fernandes, um guarda-redes português que está emprestado ao Real Valladolid. Acho que ao princípio custou-nos muito esta mudança. Mas ainda temos opções e eu sou otimista. Como disseste, temos jogadores com uma capacidade extraordinária e um futuro muito prometedor, que estão a bater à porta da primeira equipa.
Bola na Rede: Há um nome que a título pessoal me causou alguma curiosidade. Marcos Fernández deixou o Bétis em junho de 2025 para se juntar ao Espanyol e hoje em dia, emprestado ao Ceuta, faz furor na La Liga 2, em conjunto com José Juan Romero, que conhece bem o Benito Villamarín. A sua saída deu-se a custo zero. Pergunto se, com este sucesso do Real Bétis, começa a não haver tanto espaço na equipa principal para estes jogadores da formação?
José María Gallego: Eu acredito que hoje em dia é mais complicado jogar no Béts, é uma equipa de Champions, há mais competição para os jovens. Mas acho que o jogador que tem qualidade vai conseguir chegar para tentar afirmar-se. Muitas vezes também se trata de sorte, da posição onde tu jogas. Se há mais ou menos competência. O Marcos é uma excelente pessoa e um futebolista estupendo. No seu caso, não tinha espaço. Isto é futebol e dá muitas voltas, nunca se sabe. Mas acredito que, ainda que o entorno seja mais competitivo e que seja mais complicado jogar na primeira equipa, se o jogador tem qualidade vai ser usado. A formação é importante e há oportunidades para todos.


Bola na Rede: Hoje em dia vemos cada vez mais jogadores espanhóis a Portugal, principalmente por empréstimo. Temos o caso do Mateo Flores no Arouca, por exemplo. Vês o Real Bétis a manter esta aposta?
José María Gallego: Sim, acho que o jogador espanhol se colocou um pouco de moda em Portugal. Não apenas pelo facto de equipas portugueses colocarem atenção na La Liga 2 e na Primera RFEF, sobretudo, mas também pelo jogador espanhol olhar para a Primeira Liga com bons olhos, como uma forma de dar um salto para outro patamar. Há casos de sucesso, como sabes. Jogadores que em Espanha não tinham espaço, mas que em Portugal deram o salto. No Bétis temos boas relações com várias equipas portuguesas. Chegam-nos propostas e estas são fechadas ou não. Portugal é um mercado bastante atrativo para poder potenciar jogadores jovens.
Bola na Rede: O Bétis chegou aos quartos de final da Europa League e foi eliminado pelo Braga. Pergunto-te se a eliminatória deixou um ‘amargo de boca’?
José María Gallego: Sim, foi muito duro para nós. Não menosprezámos o Braga, entendemos que ia ser uma eliminatória muito complicada, já que têm um bom plantel e uma boa ideia de jogo. Foi duro pelo que sucedeu na eliminatória. Conseguimos um bom resultado em Braga, em Sevilha começamos a vencer 2-0 em casa, com os adeptos do teu lado. O 3-0 anula-se por milímetros. Depois o Braga mostrou ser superior e fez um grande jogo. Para mim, mereceu passar a eliminatória, ainda que isso me doa muito. Deixou-nos esse mau sabor. Tínhamos muita esperança de chegar à final de Istambul. São detalhes mínimos, momentos do jogo, de inspiração, como no caso do Gorby. O Hornicek também esteve muito bem. O Braga era um rival muito forte e mostrou isso.
«Não menosprezámos o Braga, entendemos que ia ser uma eliminatória muito complicada, já que têm um bom plantel e uma boa ideia de jogo».
Bola na Rede: Passa a ser obrigatório ver o Bétis a chegar a estas fase das competições europeias? Sem esquecer que a equipa vai participar na próxima edição da Champions League.
José María Gallego: Trabalhamos com essa ambição, mas sempre com os pés na terra, com humildade e respeito pelas grandes equipas que enfrentamos. Conference, Europa e Champions League têm equipas com muita experiência na Europa. São grandes cidades, grandes clubes, são provas muito competitivas. A Champions é muito mais complicada, mas vamos para cada jogo com essa ambição, mas com humildade. Não vamos cometer loucuras em investimentos. Entrar na Champions não pode significar hipotecar o futuro do clube.
Bola na Rede: Vamos falar do teu livro, Futebol S.A., que me pareceu muito interessante e aproveitei para tirar alguns apontamentos e questionar-te sobre certas passagens. Porque é que acreditas que cada vez mais hoje em dia vemos o futebol mais como um negócio ao invés do que como uma paixão?
José María Gallego: Acho que isso é uma consequência do que tudo acontece. Vemos grandes companhias, grandes fundos americanos, fundos do Médio Oriente, que vêm o futebol em constante crescimento e que apostam no desporto. Há certos clubes que mantêm esta essência romântica, mas não se pode negar que o crescimento económico da indústria existe. Isto faz com que muitas coisas se transformem numa conta, resultado ou balanço do que o cachecol, a bandeira e o adepto. Há sempre este balanço a se fazer. De um lado o financeiro e o económico, do outro o romântico e o emotivo.


Bola na Rede: No livro referes a seguinte frase:
«O futebol de então, com todas as limitações, tinha uma virtude: estava aberto ao povo. Com a modernização do negócio, a globalização das ligas e a pressão por receitas crescentes, os preços subiram, afastando muitos dos adeptos de sempre».
Isto fez-me recordar que há uns dias estive no Camp Nou antes do jogo frente ao Real Madrid e a maior parte das pessoas que se encontravam pelas redondezas eram estrangeiras. Onde está o espaço para o adepto tradicional?
José María Gallego: Esse espaço tem que permanecer. Hoje em dia, por muitos direitos televisivos, palcos VIP, vendas de camisolas a nível global, não podemos esquecer essa paixão, a paixão do pai levar o filho ao estádio e 40 anos depois, ser o filho a levar o pai. Não se pode perder a essência de viver as cores, a instituição. O futebol são recordações de infância, os domingos, o dia em que viajaste com a tua equipa pela Europa. É difícil conjugar tudo isto. Com esta globalização do futebol, os estádios querem gerar mais ingressos. Tem que se pagar a ‘festa’ e ganhar é caro. Os grandes jogadores têm de ser pagos. Os clubes estão obrigados a gerar mais receitas. O que tento mostrar no livro é mentar esse equilíbrio. O futebol sem paixão não é nada. Um estádio cheio de pessoas que não sentem e não vibram, faz com que uma parte importante do negócio possa sofrer uma quebra. Aí está um pouco essa mistura.
Bola na Rede: Há um capítulo onde fazes uma análise ao VAR, sobre o seu nascimento, crescimento e estabilização. A conclusão a que eu chego é que defender um equilíbrio na sua utilização. Qual é a tua proposta?
José María Gallego: Eu não sou arbitro, não sou um experto e nunca apitei um jogo. É certo que, como sou um pouco romântico e gosto do futebol tradicional, acho que é uma invenção um pouco fria. Não gosto de celebrar um golo em diferido, nem duas vezes. Isso faz com que a paixão se perca. Antes celebrávamos um golo e era golo. Essa pausa, esses 15 ou 20 segundos, ou até um minuto, onde o adepto e o jogador não sabem o que vai acontecer, faz com que a paixão se perca. Acho que o VAR é uma ferramenta útil e que ajuda a justiça no futebol. Porém, quer relembrar que essas polémicas fazem com que se acenda a paixão. Se é penálti ou não, por exemplo. Mas acho que o VAR deveria ser mais automático, que não se tenha que se estar a analisar um fora de jogo durante muito tempo. Depois existe o critério em coisas mais subjetivas, como uma falta por mão. O árbitro de campo tem capacidade de fazer essa interpretação. O VAR não pode estar sempre a interferir, apenas nos momentos claros. É uma ferramenta útil, tem a sua beneficência. Mas se continua neste caminho, acho que mata o espetáculo e isso não me agrada nada. O VAR é positivo, vem para ajudar o futebol e o árbitro, que tem um trabalho muito complicado. Mas essa ferramenta tem de ser melhorada e há que unificar critérios. Aqui em Espanha o tema das mãos é alvo de polémicas, quando é mão, quando é voluntária ou não, se é ombro… noutras ligas o critério é totalmente diferente. Isto tem de ser unificado. Que se faça essa definição.
«Muitas vezes se diz que o melhor árbitro é o que ninguém se lembra no final da partida. Isto é certo. É uma profissão muito respeitável e complicada».
Bola na Rede: Acreditas que os árbitros deveriam ter mais espaço público para justificar as suas decisões?
José María Gallego: Eu acredito que sim e acho que a maioria estaria nessa linha. Fazem um trabalho complicado, não podes dar alegrias a todos. O árbitro erra, tal como o avançado que não marca um penálti, o guarda-redes que não consegue parar uma grande penalidade. São erros humanos. E este erro pode ser duplo, caso haja revisão. Muitas vezes os dois confundem-se. Há ligas em que os árbitros dão essa explicação e isso não é uma justificação. Muitas vezes o adepto não percebe o que é assinalado. O árbitro é parte do jogo. Muitas vezes se diz que o melhor árbitro é o que ninguém se lembra no final da partida. Isto é certo. É uma profissão muito respeitável e complicada.
Bola na Rede: Há um parágrafo que escreves sobre os adeptos que é interessante:
«O futebol que resiste não está nas capas nem nas bolsas de valores. Está no som de um bombo que marca o ritmo numa bancada humilde; nas crianças que pintam o emblema na parede do seu bairro; nos adeptos que organizam recolhas para salvar o seu clube da falência. É o futebol que não precisa de autorização para existir, porque pertence a todos os que o sentem».
Este pensamento rapidamente me trouxe à memória alguns casos de equipas espanholas relacionadas com o futebol popular como o Unionistas de Salamanca, o Xerez Deportivo ou o SD Logroñés. Sem adeptos, o futebol desaparece?
José María Gallego: Desaparece de forma automática. Afinal, a indústria está a crescer, vendem-se cada vez mais camisolas, cada vez se pagam mais direitos televisivos. Alguém gera isto e quem o faz são os adeptos. Podes estar em Lisboa e ser adepto do Barcelona ou pode estar em Angola e ser adepto do Benfica. Há muitos casos destes. São os adeptos que sustentam esta indústria. Há uma parte que me apaixona, que em Portugal se mantém, que é essa sensação de pertencer coletivamente a um clube, como uma sociedade. As pessoas são muito adeptas de um clube, não apenas no dia de jogo. Ajudam mesmo os clubes, com rifas, por exemplo. É uma parte comunitária que tem muito sentido e que não se deve perder. Eu muitas vezes critico o futebol em Portugal, até porque me sinto parte dele. Tenho que elogiar este sentido comunitário, que é muito interessante. São realidades que conheço. O sócio vai pagar ao clube a quota, vai mesmo à sede, ao presidente, não paga por MB Way. Esse mesmo sócio fica sem trabalho e continua a apoiar o clube porque é associado. E isso até o pode ajudar a encontrar um novo trabalho. Isto também acontece muito na Argentina. O sentido de pertencer a algo não se pode perder. Faz parte de algo que vai mais além de 90 minutos.


Bola na Rede: Tu como investidor, não tens medo de aos olhos dos adeptos ser um antagonista, já que tens 51% ou mais de uma SAD?
José María Gallego: Pode ser. Mas, falo-te desta parte romântica, sem dizer que o futebol não é um negócio. O equilíbrio tem de existir. Se não entrarem receitas, não há nada do que te disse antes. É preciso que o clube seja sustentável. No Amora às vezes diziam que a SAD era má, que eu era mau. Depende do ponto de vista. Tínhamos um objetivo em comum. Tentámos que o clube fosse maior. Mas é um equilíbrio complicado. Eu faço parte do futebol negócio, não o posso negar. Mas tento não me esquecer da outra parte, que é essa paixão pelo futebol, a comunidade e o respeito à história do clube.
Bola na Rede: Ao longo do livro destacas o papel da televisão na evolução do futebol. Sentes que chegámos à fase do streaming se impor?
José María Gallego: Acho que falta ainda algo. Mas acredito que se está a impor. Acho que os direitos televisivos, onde a Premier League teve um papel fundamental, tem muito que se lhe diga. Os direitos televisivos são 70% das receitas dos clubes europeus. A sua participação no orçamento é muito importante. A forma de controlar os direitos e de como se vê o futebol de mudar. Pessoas da minha idade, ainda que não me considero tão mais velho, consigo manter a atenção durante 90 minutos numa partida, vejo várias provas. Mas as gerações vindouras são diferentes, não aguentam esse tempo. Pode não lhes interessar ver um lançamento, assistir a publicidade ao intervalo. Procuram algo que se pode consumir de forma mais rápida. O streaming está relacionado com isso. Eu coloco em cima da mesa os casos dos meus filhos. Não estão a assistir logo depois de acordar o Bayern x PSG, mas se virem 15 minutos de melhores momentos se calhar entendem melhor a partida que eu, que vi o jogo completo. A forma de vermos o futebol vai mudando. As plataformas também estão relacionadas, com isso, terem direitos e ter capacidade de transmitir centenas de partidas. Tu pagas uma quota para ver esses jogos, mas pode não me interessar ver a Ligue 1 um a Serie A. Acho que a tendência é o streaming. Estou na sala a ver um jogo e o meu filho no quarto a ver o mesmo encontro. Pago pelo que quero assistir e que estou a consumir. O streaming vai ganhar peso, é uma opinião pessoal, mas parece-me o caminho que se segue.
«O atraso de Portugal nos direitos televisivos é importante. Não existe uma centralização, não há uma forma de negociação que seja comum».
Bola na Rede: No ponto dos direitos televisivos dedicas algum tempo às Big 5, mas deixas Portugal fora. Que nível de atraso temos em relação aos demais?
José María Gallego: O atraso é importante. Não existe uma centralização, não há uma forma de negociação que seja comum. Entendo que não seja fácil. As equipas que geram maior interesse querem ter o maior retorno, é algo óbvio. É uma postura egoísta, mas ninguém quer perder o que considera que é seu. Ainda assim, acho que isto deve mudar e vai mudar. Estes clubes grandes devem entender que uma liga mais competitiva, com mais receitas, faz com que os emblemas sejam mais fortes na Europa. Para que a liga seja mais competitiva, deveriam ser mais generosos. Ainda assim, as distâncias vão ficando mais curtas. Há equipas mais próximas dos grandes, nem sempre todos os emblemas vão à Europa. A chave aqui é que todos falam de 2027 e de 2028. Não é uma solução fácil, mas sim necessária.
Bola na Rede: Num capítulo onde escreves também sobre Portugal, mais precisamente no Benfica, está dedicado às infraestruturas. Hoje em dia está em cima da mesa o Benfica District. Acreditas que este é um passo lógico, não apenas para o Benfica, mas para os seus rivais?
José María Gallego: Acho que o Benfica a nível de infraestrutura foi um clube pioneiro e visionário. Conheço a academia e já visitei outras mais jovens e digo que a do Benfica é o modelo a seguir: eficiente, bem desenhada, com ótimas dimensões. Não tenho nenhum interesse com o Benfica, sou do Bétis, mas o modelo deles foi muito bem feito. Claro que se o Benfica quer seguir a crescer tem que avançar com esse projeto. No estádio a mesma coisa, foram pioneiros, no tema das luzes LED, dos ecrãs… Quem vai ao estádio sabe que o mesmo continua moderno.
«Acho que o Benfica a nível de infraestrutura foi um clube pioneiro e visionário».
Bola na Rede: Para fecharmos, quando vem a segunda parte do livro? Ou planeias escrever outro sobre outro tema?
José María Gallego: Gosto muito de escrever. Quiçá o próximo tema seja algo diferente, que fale da indústria, algo mais particular e concreto. Vai haver uma segunda parte, mas estamos em campanha do primeiro livro. Estou muito ilusionado, orgulhoso e feliz. Depois de ter um livro em espanhol, existir uma editora portuguesa interessada nos direitos, deixou-me muito orgulhoso. Sinto-me também parte do país. Vou apresentar o livro com pessoas relevantes e com alguns amigos com quem sigo em contacto. O Futebol S.A. é o agora, o segundo livro vai certamente existir.
Bola na Rede: Muito obrigado pelo tempo disposto.
José María Gallego: Eu é que agradeço.

