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«A melhor coisa que me aconteceu na vida foi Mourinho ter-se lembrado de mim» -Entrevista BnR com Ricardo Formosinho

Professor Neca entrevista À BnR

 

 

De Setúbal para o Mundo, Ricardo Formosinho conta histórias e vive cada momento com a intensidade de quem abraça um desafio pela primeira vez. Do ponto alto de trabalhar com José Mourinho ao novo desafio de deixar de lado o rótulo de “treinador-adjunto”, o técnico pormenoriza o convite feito pelo “special one” para integrar a sua equipa técnica e revive momentos de carreira que hoje deixam saudade. Ricardo Formosinho em exclusivo ao Bola na Rede.

«Ponho a conquista e a passagem pelo Sudão ao nível
das mais importantes da carreira».

Bola na Rede: Olá, Ricardo, boa tarde. Temos de começar pelo seu mais recente sucesso. Viveu momentos intensos agora no Sudão, passou inclusivamente por um golpe de estado, e acabou campeão com o Al-Hilal. Antes de mais, como surge o convite e como viveu toda esta experiência?

Ricardo Formosinho: Olá, Mário. Muito obrigado pelo convite, antes de mais. Fui para o Sudão na segunda tentativa de me levarem. Tinha – e tenho – uma aproximação muito grande com o Turki El Sheikh, que é muito amigo de José Mourinho. O Turki, um homem da Arábia Saudita, pediu-nos para ir lá porque ele tinha lá negócios e queria que a figura dele se fizesse notar por via do futebol. Isso só aconteceria se ele apostasse em alguém que lhe desse garantias, e isto num clube que é o maior clube do Sudão e um dos grandes clubes de África. No entanto, estava há sensivelmente quatro anos arredado de ganhar qualquer coisa. Era o eterno segundo, na Taça ia à final mas não ganhava, ia à fase de grupos da Champions, mas era eliminado… Na primeira vez em que me contactaram, não me estava a ver a mim e à minha família no Sudão. Depois voltaram à carga… Bom, e tu não podes dizer duas vezes que não a um homem como o Turki, porque se o fazes fechas aquele mercado. Aceitei, e ele aceitou as minhas imposições.

BnR: Quais foram elas?

RF: O staff teria de ser organizado e montado por mim e, claro, teria de ser português. Não queria ninguém estrangeiro, nem tão pouco local. Só staff português e ter autonomia sobre tudo o que se passava à minha volta. Assim foi. O certo é que chegámos aos dois últimos jogos da primeira volta, ganhámos um e perdemos outro, que era contra o vencedor dos últimos anos. O Silvino Louro fez um excelente trabalho, também. Fomos campeões com onze pontos de avanço do segundo classificado, fomos o melhor ataque, a melhor defesa, e apurámos a equipa para a fase de grupos da Champions. Fomos passando, eliminatória a eliminatória, e a equipa ficou na final da Taça, que ainda não se jogou. Penso que era complicado fazer melhor do que isto…

BnR: E em pouco tempo…

RF: A imagem dos portugueses ficou para o Sudão como a imagem do Manuel José está para o Egito. Muitas pessoas questionavam como é que o Manuel José foi para Egito. A mim também muita gente disse isso, inclusivamente, a minha família. Mas fui em boa hora para o Sudão, posso dizer isso. Só para te responder à pergunta, fomos jogar a eliminatória ao Egito e dá-se o golpe de estado. Então, nós, os portugueses, conversámos e decidimos que íamos voltar para Portugal. Nem sequer regressámos ao Sudão, partimos logo do Egito. Entretanto, voltámos, mas as coisas não melhoraram nada e decidimos todos rescindir o contrato…

BnR: Foi um processo pacífico?

RF: Foi. Eles entenderam e compreenderam o meu motivo maior. Os objetivos estavam cumpridos, não havia mais nada a fazer. Com a insegurança que eu senti e que a minha família também sentiu, não havia mais nada a fazer a não ser não voltar lá. Eles fizeram tudo para que eu voltasse, tenho de lhes tirar o chapéu, mas estava mesmo decidido a não voltar. Agora, segundo sei, parece que as coisas voltaram a aquecer e acho que tomei a melhor decisão.

BnR: Que importância tem a conquista do título na sua já longa carreira? É um dos mais importantes da sua carreira?

RF: Sim, é. Quando saí do Tottenham, vim por decisão própria. Conversei com o José Mourinho e ele concordou com os meus motivos. Depois de eu ter saído de Inglaterra e ter deixado de trabalhar para o Mourinho, tinha receio de ser visto como um adjunto. Havia que sair e agarrar de novo um projeto em que pudesse ser eu. Só havia um caminho. Daí vem a grande importância de ganhar este título. Ou ganhava e a minha vida profissional continuava, ou não ganhava e terminava aqui. Por isso, ponho esta conquista e esta passagem pelo Sudão ao nível das mais importantes da carreira.

BnR: Neste momento, não considera voltar a ser adjunto?

RF: Costumo dizer isto em tom de brincadeira, mas é verdade. Quem é adjunto do José Mourinho não pode ser adjunto de mais ninguém.

BnR: Quais as principais particularidades de um campeonato como o Sudão? Que dificuldades sentiu?

RF: Para muita gente, ser campeão no Sudão não tem grande valor, mas não é verdade. É muito difícil ser campeão naquele contexto. Onde encontrei as maiores dificuldades foi na mentalidade. Ali ganhas dois jogos, empatas outro, perdes mais dois e não se passa nada. A grande luta é fazer com que eles entendam que ganhar tem de ser um hábito, não pode ser um sentimento de ocasião. E foi esse hábito que nós deixámos lá: o hábito de ganhar.

BnR: E quais foram as boas surpresas que encontrou no país?

RF: Tanta coisa, mas há lá jogadores que têm mesmo muita qualidade técnica. Não têm bons hábitos, mas a capacidade técnica é mesmo muito boa. A questão monetária é importante para a evolução, até porque eles não ganham muito. Se não ganham muito, sentem que o futuro não está garantido, e isso condiciona a evolução e não permite que estejam focados.

BnR: Pode ser aqui um mercado e um campeonato interessante e a ser explorado?

RF: Sim, é. Tanto que três elementos do meu staff já voltaram para lá, porque reconhecem que há talento e potencial para explorar. Nós reconhecemos potencial e eles, por lá, olham para nós com maior respeito. Quando saí até me perguntaram: “E conhece mais portugueses para virem para cá?”.

BnR: Sente, portanto, que aprendeu bastante com esta experiência?

RF: Muito, mesmo. Mesmo no aspeto humano: sou um católico e aprendi a agradecer mais vezes a Deus a sorte que tenho tido na vida. Aquilo que via em alguns sítios à minha volta era muito triste…

O Mário é o fundador do Bola na Rede e a pessoa que (tenta) colocar ordem na malta. Adora quase todas as vertentes do desporto (talvez só não goste mesmo de cricket). Já pensou em ser treinador de futebol por causa de José Mourinho, mas, infelizmente, a coisa não avançou e preferiu dedicar-se a outras área dentro do mundo desportivo.

O Mário é o fundador do Bola na Rede e a pessoa que (tenta) colocar ordem na malta. Adora quase todas as vertentes do desporto (talvez só não goste mesmo de cricket). Já pensou em ser treinador de futebol por causa de José Mourinho, mas, infelizmente, a coisa não avançou e preferiu dedicar-se a outras área dentro do mundo desportivo.

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