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Bola na RedeGerso, lembras-te do túnel que te fiz na Escola Martim de Freitas?
Gerso Fernandes: Não, não me lembro. Só tu é que te lembras disso mesmo. Será que isso aconteceu mesmo? (risos)
BnR: Acho que isso é só negação… Começaste a tua formação no União de Coimbra, depois acabaste na Académica. O que é que aconteceu para não ficares em Coimbra?
GF: Na altura, assim que acabei a minha formação na Académica, fui emprestado pela Académica ao Tourizense. No final dessa temporada, a Académica queria um jogador do Tourizense (Nivaldo, defesa-esquerdo). E eles acabaram por trocá-lo pelos meus direitos de formação. E depois disso, como o meu empresário, Nuno Rolo, tinha conhecimentos no Estoril, acabei por lá ficar.

BnR: Depois de meia época com o Vinícius Eutrópio apanhaste Marco Silva no início da carreira. Foi com ele que estiveste três anos da tua carreira. Foi o treinador que mais te marcou na carreira?
GF: Sim, sem dúvida. Foi o que mais me marcou e foi o que mais marcou o Estoril. Os três anos dele no Estoril foram fantásticos. Conseguimos a qualificação para a Liga Europa, depois de ficarmos no 4.º lugar, acho eu. Na altura, foi fantástico.
BnR: Mesmo o grupo, com João Coimbra, Diogo Amado… Era um grupo coeso, não é verdade?
GF: Tinha bons jogadores e bons amigos. E o Marco Silva tinha a capacidade de nos unir, não só como equipa, mas também como família. Isso ajudou-me muito nesses anos com ele.
BnR: Notaste logo que ele tinha aquele “bichinho” de treinador e que iria chegar onde chegou?
GF: Logo de início não notei, mas gostei da forma como ele nos dava os treinos e como conversava connosco. Acho que para ele também foi fácil e ele compreendia-nos muito. E ajudava-nos muito.
BnR: A tua saída do Estoril coincidiu com a do Marco Silva. As coisas estiveram relacionadas?
GF: Não, não acredito que as coisas tenham estado relacionadas a esse ponto. Quando o Marco Silva saiu, eu achei que iria ser o meu ano. Mas depois fui emprestado e as coisas não correram como aquilo de que eu estava à espera e fui emprestado ao Moreirense.
BnR: E foste emprestado ao Moreirense e tiveste a tua época mais produtiva em Portugal. Olhando apenas para golos marcados, foram seis. Foi importante seres emprestado para cresceres?
GF: Sim, foi importante, mas é curioso que, embora tenha sido a melhor época, não joguei tanto como tinha jogado nas outras épocas. Tive pubalgias e outras coisas de que, no futebol, não vale a pena falar. Acabei por não jogar tanto como aquilo de que estava à espera, mas consegui fazer alguns golos e alguns jogos.
BnR: Nesse Moreirense, partilhaste o balneário com o Rodrigo Battaglia, que começou a ser utilizado no SC Braga e agora é utilizado com regularidade no Sporting CP. Como é que vês a ascensão de Battaglia?
GF: Muito bem. Já na altura notava que ele não era jogador para estar ali. Tinha qualidade acima da média e como pessoa também era um excelente colega de balneário e amigo. Portanto, tudo o que lhe está a acontecer é natural, devido à qualidade que tem e à pessoa que é.

Fonte: Moreirense FC
BnR: Mas a posição em que ele joga não é a de origem. Agora joga mais atrás no terreno. Consideras que isso um dia pode acontecer contigo? Tu és extremo; podes vir a jogar mais a lateral ou a médio interior?
GF: Sim, acho que sim. Já joguei a interior e até gostava. Acho que no futuro me posso ver a jogar nessas posições.
BnR: És um jogador também com atenções defensivas?
GF: Não muito… Ia ser um lateral mais ofensivo. Num 3-5-2 da Juventus, por exemplo. Aí dava, talvez! (risos).
BnR: Depois voltaste ao Estoril, fizeste uma época regular e rumaste ao Belenenses. Foi difícil deixar o lugar onde nasceste para o futebol de alta competição?
GF: Foi, e a forma como o deixei ainda me deixou mais triste. Deixei o Estoril sem dizer o adeus que queria dizer. No último jogo em casa nem sequer fui convocado. E isso deixou-me triste. Sem dúvida que o Estoril ficará sempre no meu coração e teve grande importância para mim.
BnR: Os adeptos acarinharam-te muito?
GF: Os adeptos são fantásticos. Só queriam festa e eram fantásticos. São doidos, mas no bom sentido. E estão sempre a apoiar a equipa.
BnR: Em Belém começaste bem a época, mas o Kansas City chamou por ti a meio da temporada. Como é que se processou essa mudança?
GF: O Kansas City já andava atrás de mim há algum tempo. Já me queriam quando eu estava no Estoril. Só que eu, na altura, tinha apenas 22 anos e achei que era muito cedo para mim. Mas as coisas desenvolveram-se e quando saí do Estoril a minha intenção até era ir para o estrangeiro. No entanto, em conversa com os meus empresários, eles acharam que era melhor ficar mais um ano em Portugal e o Belenenses foi o clube onde fiquei. Mas entretanto falaram-me do Kansas em janeiro e perguntaram-me se eu queria ir. Como eu já tinha na minha mente que iria para fora, foi a altura certa, e eu aproveitei e aceitei a proposta.
BnR: Era uma oferta mais generosa…
GF: Sim, claro, também. Mas, mesmo quando rumei para lá aos 25 anos e sabia que iria ser melhor para mim monetariamente, sabia também que ainda tinha, e ainda tenho, o objetivo de jogar em Espanha ou em Inglaterra. Acho que não foi um passo atrás. Apesar de ser uma Liga que não tem tanta força no futebol, acabou por ser positivo para mim.
BnR: Mas acabaste por ter algum mediatismo, digamos assim… Estar numa Liga que conta com jogadores como Pirlo, Villa…
GF: Giovinco… Schweinsteiger… Joguei contra eles todos. Só não joguei contra o Schweinsteiger porque estava de castigo. Tinha um jogo de suspensão. Mas contra os outros todos joguei. Foi uma sensação fantástica. Estar habituado a vê-los na televisão e a ver o que eles faziam em campo, a jogar na Playstation com eles, e agora estar a partilhar o mesmo relvado com eles… É uma sensação fantástica; é muito bom.

Fonte: Sporting KC
BnR: Trocaste de camisola com algum deles?
GF: Por acaso não. Respeito-os, mas nisso eu prefiro trocar com um amigo que esteja do outro lado.
BnR: No Kansas City atingiste o teu número máximo de jogos e golos na carreira. Já és muito acarinhado pelos adeptos. Têm um cântico dedicado a ti. Estás muito feliz lá?
GF: Não tive uma adaptação difícil. Trataram-me bem e ajudaram-me com tudo. Fizeram com que tudo fosse fácil e com que tivesse uma adaptação tranquila.
BnR: Achas que estás no auge da tua carreira?
GF: Acho que sim. Em termos de maturidade como jogador acho que já cheguei ao meu pico, e agora é tentar manter este registo durante o máximo de tempo possível.
BnR: Queres ficar por lá ou já pensas em mudar?
GF: Se aparecer uma proposta de Inglaterra ou Espanha não posso dizer que não. Mas, se não aparecer, não vou forçar, porque gosto de lá estar. E o carinho que sinto dos adeptos e de toda a gente… Também é importante sentir isso.
BnR: E se fosse um dos três grandes?
GF: Aí é difícil. Olha que ia ser uma decisão muito difícil e não sei se aceitava… Sinceramente não sei. Para vir para cá teria de ser uma proposta que me compensasse muito e soubesse que, se não jogasse, estaria seguro economicamente.
BnR: Que diferenças é que encontras entre o futebol norte-americano e o português?
GF: Costumo dizer: para quem realmente percebe de futebol e gosta de ver como é… Se calhar, vai ver um jogo lá e não acha tão interessante. Vai-se divertir, mas não vai gostar dele taticamente. Mas para as pessoas que só lá vão para se divertir, é um espetáculo engraçado. Está a crescer, mas ainda falta…
BnR: Achas que os E.U.A. podem vir a ser uma potência do futebol mundial?
GF: A China também anda a tentar fazer o mesmo mas, com as condições que temos aqui e tendo em conta a forma como os americanos trabalham, mais facilmente poderemos conseguir as coisas aqui. São muito organizados e, quando querem, as coisas surgem. Acredito que no futuro eles consigam vir a ser uma potência do futebol mundial. Têm recursos para isso.
BnR: Em 2016-2017 fizeste 51 jogos, e nas épocas anteriores nunca foste abaixo dos 25. Qual o segredo para manteres esta regularidade, sem lesões?
GF: Não tenho segredo. Acho que me trato como todos os jogadores. Apenas tenho mais sorte do que outros, talvez. Só tive aquela lesão no Moreirense (pubalgia). Foi a mais grave que tive. De resto, tenho estado sempre normal. Espero é que a sorte continue. Ainda agora um colega meu teve uma rotura de ligamentos, e ele fisicamente é como eu. Estas coisas podem acontecer a qualquer um. Foi o meu amigo Faty, do Moreirense.
BnR: Tens alguma ligação forte com a Académica?
GF: Tenho mais por ser o clube da minha cidade. Sou de Coimbra e fui muito feliz nos meus dois anos de formação. Nunca tive lá oportunides, mas um dia gostaria de voltar a vestir a camisola da Académica.
BnR: Consideras acabar a carreira em Coimbra?
GF: É uma hipótese que não coloco de parte, de forma nenhuma.

Fonte: Tomás Resendes
BnR: O que achas da Bola de Ouro de Ronaldo e do desempenho dele?
GF: É o que todos nós sabemos. Ronaldo é uma máquina, é fantástico. Toda a gente fala de Messi, mas acho que ele merece crédito. Ele é o meu ídolo e é merecida a Bola de Ouro. Se o Messi ganhasse a vitória também seria merecida, mas ainda bem que ganhou Ronaldo. Sou português, é meu ídolo, e parabéns a Ronaldo. Parabéns ao melhor do mundo.
BnR: O Ronaldo é o teu único ídolo?
GF: Ronaldo é o único que me marca pelo que fez durante toda a carreira. Como começou… É o único que realmente me marca. É o único que considero como o meu ídolo. Ele é especial.
BnR: Gostavas de um dia partilhar o balneário com ele?
GF: Claro… Ou pelo menos só conseguir apertar-lhe a mão (risos).
BnR: Ele já disse que queria jogar nos E.U.A….
GF: Pode ser que o Kansas City invista nisso… Vou ficar à espera disso (risos).
BnR: E ainda tens o sonho de representar a Seleção Nacional Portuguesa?
GF: Tenho esse sonho, sim. Um dia, quem sabe… Ando a trabalhar para isso.
BnR: Como é que vês o campeonato em Portugal?
GF: Acho que vamos ter campeonato até ao fim. O Benfica estando eliminado das competições europeias tem mais tempo para se preparar do que o Sporting e o FC Porto. Mas tanto o Sporting como o FC Porto estão muito fortes: o FC Porto pela mudança de treinador e o Sporting pela forma como se reforçou. Acho que este ano vai ser renhido até ao fim.
BnR: E a Académica? Achas que vai subir?
GF: Espero que suba. Gostava muito. E agora estão numa boa fase. Portanto, estão a poucos pontos de subida. Têm condições.
BnR: E, se subirem, vens cá festejar?
GF: Se estiver cá, claro. Se estiver do outro lado, vou festejar também, sem dúvida.
BnR: Para terminar, queres partilhar connosco alguma história de balneário?
GF: Já no Belenenses, tínhamos um avançado sérvio, o Andric. Tínhamos feito um exercício de “roda, bota, fora” com várias equipas. O treinador antes disse quem é que tinha de ficar com coletes, mas o Andric, que não percebia português, acabou por manter o colete. Quando começámos a jogar, havia uma equipa que estava sempre a ganhar. Toda a gente começou a reclamar, até que alguém disse: “Espera aí, vamos lá contar os jogadores das equipas outra vez”. Era o Andric, que sem perceber estava a fazer superioridade na outra equipa. Foi uma situação engraçada e é uma história de que me lembro muito bem.
Foto de capa: Tomás Resendes










