«O melhor entre JJ, Lage e Rui Vitória? Bruno Lage, sem dúvida» – Entrevista BnR com André Carvalhas

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– Diferença abismal no Seixal-

«Nós jogamos um Benfica – Sporting de juniores no Estádio da Luz, com 25 mil pessoas, e não passou na televisão, e se calhar ninguém se lembra desse jogo»

BnR: O David Simão, numa entrevista que nos deu, disse que os jogadores da equipa da época passada nem sequer teriam sido convocados para a equipa de Jesus quando chegou ao Benfica. Concordas e achas que houve um decréscimo de qualidade?

André Carvalhas: Concordo. Não sei se é a nível de decréscimo, mas a nível de mentalidade e de política interna. Houve uma mudança de política interna, que permitiu a estes jovens terem oportunidades e, com o mister Jorge Jesus, as coisas funcionam de forma diferente. Ambos tiveram sucesso e não vale a pena discutir qual o melhor.

BnR: O David também nos disse que há jogadores no plantel que os adeptos veem de uma forma, mas o balneário os sente de outra forma, que são diferentes dentro e fora do balneário e conseguem sorrir depois de uma derrota. Acreditas nessa possibilidade?

André Carvalhas: Depois de uma derrota da equipa deles é algo que me faz confusão. Eu sou jogador de futebol e queremos jogar sempre, e temos um mal: a culpa nunca é nossa, é difícil o jogador olhar para o seu umbigo. O que me faz confusão é colegas meus que não tenham sido opção entrarem no balneário a sorrir depois de uma derrota. Eu sou a pessoa que normalmente os confronta na hora, não sou de levar as coisas para casa e ficar a remoer nelas. Acho uma falta de respeito. Acima de tudo os treinadores têm as suas opções e temos de respeitar os colegas, se nem os respeitamos a eles, não nos respeitamos também a nós.

BnR: É uma questão de ego. Achas que esse ego cresce pela facilidade de chegar às equipas principais?

André Carvalhas: Pode ser derivado às condições do futebol atual, os sub-23, equipas “B”, Youth League, competições que há uns anos atrás não existiam. A visibilidade que os jovens têm é abismal, e é bom que assim seja, mas há alguns que andam de salto alto por vezes, por força dessa mesma visibilidade, porque passam na televisão. Às vezes falta-lhes a capacidade de ver mais à frente e perceber que o ego só joga contra eles.

BnR: Achas que o facto de nunca teres tido cláusulas milionárias quando eras jovem e não seres patrocinado por muitas marcas te ajudou a ser mais humilde?

André Carvalhas: Eu acho que parte muito da educação que temos. Não sei se foi por aí, mas possivelmente pode ter-me ajudado a esse nível, no Benfica não havia as condições a nível internas que há agora. Às vezes, ligo a Benfica TV e vejo miúdos de 9/10 anos a passarem na televisão, antigamente era impensável. Nós jogamos um Benfica – Sporting de juniores no Estádio da Luz, com 25 mil pessoas, e não passou na televisão, e se calhar ninguém se lembra desse jogo. Agora, isso era impensável não dar na televisão. As circunstâncias são diferentes, é importante entender que estamos aqui, estamos bem, e é preciso o respeito pelos colegas. Sabermos que somos todos profissionais, e não vale a pena ter jogadas de bastidores, enganar os outros, porque o futebol é um mundo pequeno e sabe-se tudo.

BnR: Uma marca de Bruno Lage foi a aposta na formação. Achas que os jovens da formação têm o caminho muito mais facilitado para a equipa A do que tu tinhas na idade deles?

André Carvalhas: Sem dúvida. Eu apanhei dois anos do centro de estágio, foram os dois últimos anos de júnior, não havia equipa B, que já foi uma ajuda tremenda. A nossa evolução era dos juniores diretamente para a equipa principal do Benfica, uma transição muito grande. Eu lembro-me de treinar com eles, ainda com idade de júnior, e via o Rui Costa e ficava pasmado com a velocidade de execução e de pensamento. Eu sabia que podia chegar lá, e cheguei, mas não tínhamos capacidade para nos manter, e são essas condições que o Benfica dá neste momento com os sub-23, com a equipa B e com todas as condições que o Caixa Futebol Campus tem. Se tivéssemos também estas condições, poderíamos chegar e mantermo-nos, porque chegar era mais fácil do que manter, e era essa transição que eles têm da equipa B para a equipa principal dá-lhes um traquejo que lhes permite chegar lá, os que têm mais qualidade, e conseguirem-se manter mais tempo do que nós conseguíamos antigamente. O campeonato de juniores, para o Benfica, é pouco competitivo, há Benfica – Sporting, casa e fora, possivelmente um Belenenses, tínhamos jogos competitivos quando íamos à seleção e depois na fase final, onde tínhamos 6/8 jogos em que sentíamos que tínhamos de dar o litro. No ano a seguir, tínhamos de ir para um plantel principal e era gigante a transição.

BnR: Hoje em dia, também a integração era mais difícil, não?

André Carvalhas: Eu acho que já não apanhei tanto essa fase do “chega-me aqui as botas”, mas acho que eles agora são mais acarinhados. Tenho uma história curiosa com o Gaspar, quando fui emprestado ao Rio Ave. Ele, em tom de brincadeira, disse-me: “miúdo, limpa-me aí as botas”, e eu peguei nas botas e atirei contra ele, e disse-lhe: “tens boas mãos, é para limpares tu”. Tinha chegado há duas, três semanas ao Rio Ave, tinha 19 aninhos. Ia ao confronto se tivesse que ser, faz parte da minha personalidade, eu sempre me dei bem com toda a gente, felizmente em todos os balneários fiquei com boas relações. Há sempre, num ou noutro clube, relações muito boas, que faço questão de manter, mas sou uma pessoa com personalidade forte e quando a mostarda me chega ao nariz, eu bato de frente sem problemas.

Pedro Pinto Diniz
Pedro Pinto Dinizhttp://www.bolanarede.pt
O Pedro é um apaixonado por desporto. Em cada linha, procura transmitir toda a sua paixão pelo desporto-rei, o futebol, e por todos os aspetos que o envolvem. O Pedro tem o objetivo de se tornar jornalista desportivo e tem no Bola na Rede o seu primeiro passo para o sucesso.                                                                                                                                                 O Pedro escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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