«Deixemo-nos de histórias. O Sporting é grande, o Porto é grande, mas o Benfica é o Benfica» – Entrevista BnR com Professor Neca

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– Ligado pela cultura –

«Fomos para um jogo de enormíssima responsabilidade num avião que nem bancos tinha. Íamos sentados em grades de cerveja»

Bola na Rede: Qual foi o primeiro impacto de passar de uma realidade como a do Benfica para a da seleção angolana?

Professor Neca: Angola foi uma experiência enriquecedora. O Mário Wilson disse que me dispensava oito dias, mas que tinha que estar na semana da final da Taça de Portugal. Ganhámos 3-1 no Estádio do Jamor.

Bola na Rede: Um dia, apesar de tudo, complicado…

Professor Neca: Muito, foi a final do very light. Tinha ido a África porque tínhamos feito um estágio com o Benfica na África do Sul, mas a África do Sul não tinha nada a ver com a restante África. Em 1994, há a queda do Apartheid e Nelson Mandela assume a presidência da África do Sul. Fizemos o estágio na Cidade do Cabo que estava muito mais desenvolvida do que Lisboa. A África do Sul era um país muito à frente no tempo. Portugal, no pós-25 de abril teve uma transformação brutal com os dinheiros da Comunidade Europeia. Quando chego a Angola, ao sair do avião, constato um bafo de calor tremendo. Angola estava em Guerra Civil entre UNITA E MPLA. Saio do aeroporto… tudo partido, em termos de organização, uma confusão tremenda. No percurso entre o aeroporto e o hotel, carros partidos… O país teve uma Guerra Colonial e depois arrastou-se com mais 20 e tal anos de Guerra Civil. Foi muito difícil para aquele povo. Fiquei desanimado, mas depois comecei a contactar com as pessoas. Um país são as pessoas. Não são os grandes prédios ou as coisas muito bonitas, são as pessoas. Ia na rua e falavam-me no Benfica, nunca na seleção de Angola. As pessoas conheciam-me, porque existia o fervor pelos três grandes clubes portugueses, Benfica, Sporting e Porto, e também entra um bocado a Associação Académica de Coimbra aí, pelas passagens da classe política de Angola por Coimbra. Falo com o presidente da federação e, passados três ou quatro dias, estou-me a mudar. Primeiro foi o drama à chegada e depois as pessoas, a vontade, os afetos, a ligação, o conhecimento que tínhamos uns dos outros, a vontade comum de ir para um desafio. Era um desafio brutal. Saí de lá como selecionador de Angola.

Bola na Rede: Em que é que se baseava essa sinergia entre o Benfica e a seleção angolana?

Professor Neca: Diria que Portugal, Angola, Moçambique, Índia eram a continuidade. Estares em Angola é como estares em Portugal. O angolano estar em Portugal é como estar em Angola. É a cultura que liga as pessoas. Havia um conjunto de laços comunicantes muito naturais. Sentíamo-nos em casa. Era impressionante o conhecimento que os angolanos tinham de Portugal essencialmente através do futebol. Vais à Malásia, à Tailândia, à Mongólia, à China e se falares lá no primeiro-ministro [ninguém conhece], se falares no Cristiano Ronaldo eles põem-se em sentido. Sentíamo-nos em casa, porque estávamos com o futebol. Esta ligação era fortíssima, principalmente pelo afeto que os países das nossas ex-colónias têm com os principais clubes portugueses – Benfica, Sporting, Porto. Se olhares para a própria história, quando te falo do Mário Wilson, por exemplo, ele era moçambicano, o Eusébio era moçambicano, o Dinis era angolano, o Jordão era angolano. Era gente desse povo, povo esse que adorava os seus ídolos. Nós fazíamos parte dessa família futebolística.

Bola na Rede: Estou a ver que veio de lá realizado.

Professor Neca: Completamente. Sabia que ia para um desafio brutal. No dia em que acabou a Taça de Portugal já eu estava a organizar a seleção de Angola, porque passados 15 dias íamos ter um jogo de mata-mata para o Mundial com o Uganda. Uns dias depois, já estava um conjunto de jogadores que iam fazer parte da seleção de Angola a vir para Portugal para fazermos oito dias de trabalho aqui. Metade dos jogadores da seleção jogavam no futebol português e metade no campeonato angolano. No ano anterior, Angola tinha ido pela primeira vez à CAN. Angola estava pouco organizada. Logo no primeiro jogo com o Uganda, porque tinham prémios em atraso, os jogadores não queriam sair se não pagassem os prémios.

Bola na Rede: Como é que desbloqueou a situação?

Professor Neca: É a vontade, a determinação e a experiência acumulada. Na noite antes da partida para Campala [capital do Uganda], os jogadores não queriam ir. Reuni com todos no hotel. Foi uma noite dramática, estávamos entre o ir e o não ir. Convenci os jogadores que o importante era irmos para Campala e ganhar, que eu garantia que o dinheiro vinha. Aquilo para resolver os problemas era muito muito difícil. O dinheiro era pouco e as dificuldades eram muitas. Depois, tínhamos uma viagem que estava prometido ser num voo normal. Os jogadores disseram “Prof., não vai ser voo normal”. Estava prometido ser o avião onde normalmente ia a comitiva do presidente José Eduardo dos Santos. Quando vamos para o avião, para irmos para um jogo de enormíssima responsabilidade, tínhamos um avião que nem bancos tinha, que era uma coisa medonha. Não havia nada, não havia casas de banho, não havia bancos para sentar… Íamos sentados em grades de cervejas, em bancos improvisados. Foi o voo em que tive mais medo até hoje. O presidente da federação, que era deputado, ia ali sentado connosco, com a cerveja e o whisky a rolar. Para eles, aquilo era normal. Fui lá encostado a um canto. Não tínhamos cintos de segurança, não havia coisa nenhuma. Lá fizemos a viagem, que era para durar três horas, e demorámos quatro horas e meia. Fomos para o jogo e correu-nos muito bem. Ganhámos 1-0.

Bola na Rede: Os jogadores chegaram a receber os prémios?

Professor Neca: O Lito [Vidigal], que foi meu jogador na seleção de Angola, e outros tantos jogadores, disseram que a organização do futebol de Angola começou por mim. Começámos progressivamente a organizarmo-nos e eles pagaram.

Bola na Rede: Só saiu de Portugal com 17 anos de carreira. Ir para além-fronteiras assustava-o?

Professor Neca: Hoje, temos para cima de 500 treinadores fora do país. Nessa altura, estava eu na seleção de Angola, estava o Nelo Vingada na seleção da Arábia Saudita e o Carlos Queiroz nos Emirados Árabes Unidos. Uma mão cheia chegava e sobrava para dizer os treinadores que estavam no estrangeiro. Era o desafio. Tudo aquilo a que cheirava a dificuldade, eu ia. Os 17 anos de experiência davam-me capacidade para me ajustar às dificuldades e poder ajudar a encontrar as melhores soluções.

Francisco Grácio Martins
Francisco Grácio Martinshttp://www.bolanarede.pt
Em criança, recreava-se com a bola nos pés. Hoje, escreve sobre quem realmente faz magia com ela. Detém um incessante gosto por ouvir os protagonistas e uma grande curiosidade pelas histórias que contam. É licenciado em Jornalismo e Comunicação pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e frequenta o Mestrado em Jornalismo da Escola Superior de Comunicação Social.

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