«Sair do FC Porto foi uma das piores decisões que tomei no futebol» – Entrevista BnR com Telmo Castanheira

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«O futebol praticado é muito diferente, sem dúvida, o que me custou mais»

Bola na Rede: A adaptação ao novo país, custou-te ao início?

Telmo Castanheira: Custou, sinceramente, custou, porque, apesar de ter a ajuda dos portugueses na equipa, estamos a falar da Islândia, um país com uma cultura totalmente diferente. Apesar de ser da Europa, quase que não sentimos que é deste continente. Desde o clima, a língua, até a moeda é diferente! É um país muito próprio e específico, com diferenças que são bonitas, eu gosto, mas que se sentem. Passando isso para o lado desportivo, em termos do que é o futebol praticado, é muito diferente. Foi, sem dúvida, o que me custou mais. Nos primeiros dois meses, a expetativa sobre mim era alta, até porque o clube pagou ao Trofense. Eu senti isso, o próprio treinador fez questão que eu soubesse e, sendo a primeira experiência no estrangeiro, acusei um pouco ali o primeiro mês. Sentia que o meu futebol não estava a sair tão fluído, por questões de adaptação e por estar a sentir esse peso extra. Depois começou o campeonato, as coisas começaram a correr muito bem, até me recordo, num jogo da taça contra uma das melhores equipas islandesas, fui considerado o melhor em campo e, a partir daí, em termos desportivos, comecei a explodir, sempre em ascendente. A adaptação tornou-se mais fácil, acho que a parte pessoal está muito ligada à parte desportiva. Se a parte desportiva estiver a correr bem, a adaptação é muito mais fácil, até porque as próprias pessoas, não devia de ser assim, mas começam a respeitar-te mais. Com as coisas a correrem bem no futebol, tudo ficou facilitado, sinceramente.

Bola na Rede: Consideras que foi mais fácil a tua adaptação devido a teres o Rafael Veloso, Diogo Coelho, e o teu treinador o Pedro Hipólito, dentro da equipa?

Telmo Castanheira: Sem dúvida! Por exemplo, tinha lá o Diogo Coelho que já era meu amigo em Portugal, porque jogámos juntos no Santa Clara. Então, isso facilitou tremendamente, sou muito grato ao Diogo, pela forma que me acolheu lá, e o próprio treinador também ajudou como é lógico. Em termos de adaptação ajudou, mas depois existem situações que não são tão positivas, porque se as coisas começam a correr mal à equipa, é mais fácil acusarem um grupo onde estão os portugueses ou estrangeiros, na altura tínhamos muitos. No ano seguinte, dos estrangeiros, ficámos apenas uns dois ou três. Dos portugueses, fui o único que ficou e transitou para o ano seguinte. Por isso, é muito fácil, havendo muitos portugueses, pagarem todos pelos maus resultados.

Bola na Rede: No 1.º jogo pelo IBV marcaste logo um golo, para ajudar a equipa a cumprir os objetivos, infelizmente a equipa acabou por descer de divisão? Foi um momento complicado no clube?

Telmo Castanheira: Sim, foi um momento complicado. O clube é considerado estável na Primeira Liga islandesa, supostamente, um clube do meio da tabela. Nos últimos anos já estava a cair um pouco. Foi um ano muito estranho, porque o clube começou a fazer as contratações, a definir o plantel, chegou a uma altura, penso eu, por questões financeiras, deparou-se com alguma situação que não estava à espera e cortou um bocado nas contratações, já depois de eu chegar. O plantel ficou um pouco incompleto, viveu alguma instabilidade porque o clube mudou de Direção, e então ficou um pouco à deriva. A equipa ressentiu-se muito disso, descemos de divisão, foi complicado para o clube, mas eles já têm uma cultura muito otimista, não é tão pesado, como seria uma descida de divisão em Portugal. Rapidamente a nova Direção focou-se em preparar as próximas épocas com o objetivo de subida.

Bola na Rede: Este ano, conseguiram um segundo lugar, o que vos leva novamente para a primeira liga islandesa, sentes-te motivado para defrontar os melhores do país? Quais são os objetivos do clube e os teus para a próxima temporada?

Telmo Castanheira: Relativamente à subida de divisão, foi alcançada e foi difícil, porque não foi no primeiro ano, foi no segundo, e uma subida é sempre muito difícil, foi um grande feito na minha opinião, o que fizemos este ano. Para o novo ano, o campeonato mudou o modelo, ou seja, os primeiros seis vão disputar uma espécie de playoff, para apurar o campeão e os últimos seis para não descer. Para uma equipa que sobe, o objetivo tem de ser não descer, sendo realistas, é esse o nosso objetivo, a manutenção num primeiro ano de transição. É claro, eu pessoalmente, gostaria muito dos primeiros seis, para poder disputar a última fase com as melhores equipas. Estamos a construir uma equipa para que possa lutar por isso, sabendo que o objetivo primário é sempre a manutenção, só pode ser assim, temos um plantel jovem, e será esse o objetivo numa primeira fase.

Bola na Rede: Qual é a equipa islandesa que consideras que está melhor apetrechada de valores?

Telmo Castanheira: O futebol islandês tem crescido imenso, têm imensos jogadores jovens a jogar nas grandes ligas europeias, e cada vez mais. Ainda há espaço para evoluir. Em termos de equipas apetrechadas, eu iria para o Valur, uma equipa que em termos financeiros já consegue outro tipo de jogadores. E o atual campeão, o Víkingur Reykjavík, que tem um excelente treinador e está a construir uma ideia de jogo muito interessante. Mas ainda há espaço para evoluir, de forma a serem mais competitivos nas competições europeias. Essas duas equipas e, talvez, o Breidablik, já jogam um futebol muito atrativo e com jogadores de qualidade. Mas, a mais apetrechada em termos de jogadores, é o Valur.

André Filipe Antunes
André Filipe Antuneshttp://www.bolanarede.pt
O André é licenciado em Marketing e Publicidade e um fã incondicional de ciclismo. Começou desde pequeno a ter uma paixão pelo desporto, através do futebol. Chegava a saber os plantéis de todas as equipas da Primeira Liga! Com o tempo, abriu-se o horizonte e o interesse para outros desportos, como o Ciclismo, o Futsal e, mais recentemente, a NBA. Diz que no Ciclismo existem valores e táticas que mais nenhum desporto possui e ambiciona um dia ter a oportunidade de assistir ao vivo a um evento deste calibre.

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