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Durante 10 anos, os adeptos do futebol português habituaram-se a ver Douglas a defender a baliza do Vitória SC mas, aos 37 anos, o brasileiro retirou-se dos relvados. Na primeira entrevista depois de pendurar as luvas, o antigo guarda-redes falou sobre o começo modesto no futebol brasileiro, o «sonho realizado» de chegar ao Santos FC, a ida para o Vitória SC e as alegrias e tristezas na cidade-berço: desde a conquista da Taça de Portugal, e «aquele» penálti defendido em Chaves que levou os vimaranenses de novo ao Jamor, até à lesão no menisco que colocou a carreira em perigo. Eis Douglas, em exclusivo, no Bola na Rede.
– O pendurar das luvas e os primeiros passos como treinador de guarda-redes –
«Este é o melhor momento para trabalhar com guarda-redes e o melhor clube para começar era o Vitória SC»
Bola na Rede (BnR): Como estão a ser os primeiros tempos longe dos relvados?
Douglas: É uma rotina diferente, mas tem sido bom porque estou sempre em contacto com os guarda-redes da formação, vou para o campo com eles. Essa parte é boa, é uma rotina totalmente diferente mas, aos poucos, vou-me habituando.
BnR: Quais são as tuas funções no Vitória SC?
Douglas: Eu fiquei com a coordenação dos treinadores de guarda-redes, desde a equipa sub-23 até toda a formação. É muito trabalho [risos].
BnR: Na última temporada fizeste 38 jogos. Porque é que decidiste parar agora?
Douglas: Eu já vinha a pensar nisso, mas era uma coisa pessoal, só falava com a minha mulher. Podia ser esta época ou na próxima, mas devido às circunstâncias cheguei à conclusão que, até para iniciar este outro lado de trabalhar com os guarda-redes, este é o melhor momento… E o melhor clube para começar seria o Vitória SC. É um clube onde estou há muito tempo, o presidente deu-me essa oportunidade e decidi aceitar.

Fonte: Diogo Cardoso/Bola na Rede
BnR: Estavas a contar jogar tantos jogos esta temporada? Porque o Jhonatan chegou para, supostamente, ser titular, mas teve problemas físicos…
Douglas: É assim, nas últimas três épocas eu sempre me preparei para jogar muitos jogos. Para dizer a verdade, eu nunca me preparei para não jogar. Sempre fui assim, punha na minha cabeça que podia jogar todos os jogos. A escolha depende sempre do mister, mas como havia muito campeonato, Liga Europa, Taça da Liga, Taça de Portugal, eu não sabia quantos jogos ia fazer, mas tive a felicidade de fazer 38 jogos e foi muito bom. O ritmo de jogo era elevado, deu para trazer cá para fora tudo o que trabalhava no dia-a-dia. Foi gratificante.
BnR: Mas a época não vos correu lá muito bem. O que falhou?
Douglas: O principal foi não ter alcançado os objetivos, que acabou por marcar a época. Claro que, em certos momentos, jogámos um futebol atraente mas faltaram resultados e alcançar o objetivo. É difícil explicar porque foi uma época atípica, teve essa paragem… Lembro-me perfeitamente que até ao jogo com o Paços [Ferreira], o último jogo antes da paragem, vínhamos de uma fase crescente e boa de resultados, mas quando voltámos da paragem o campeonato é outro. Foi muito tempo em casa, o ritmo de jogo que tínhamos já não estava lá, não houve jogos de preparação, tínhamos dez jogos para cumprir a sério sem fazer nenhuma preparação. Se não tivesse acontecido a paragem podia ter sido muito diferente, mas infelizmente aconteceu isto no Mundo e acabou por nos prejudicar.
BnR: Vocês passaram do Luís Castro, que era um treinador com um estilo muito específico, para o Ivo Vieira. Foi complicado adaptar a essa diferença de jogo?
Douglas: É totalmente diferente. É sempre complicado quando estás habituado a uma coisa e depois tens de te habituar a outra em pouco tempo. Quando há mudanças existe sempre o lado bom e o lado mau. Com o Luís Castro fomos felizes porque alcançámos o objetivo final, que é sempre o mais importante, mas infelizmente com o mister Ivo não conseguimos. Mas são dois grandes treinadores com excelentes ideias, uma diferente da outra, mas é bom jogar com os dois. Tenho a certeza que, logo logo, o mister vai fazer um grande trabalho.
BnR: Apesar dos resultados não serem os melhores, as exibições eram sempre interessantes de se acompanhar, basta olhar para a vossa campanha europeia. Porque é que, no final, não conseguiam ter resultados de acordo com aquilo que jogavam?
Douglas: Não é fácil explicar porque todos os jogos contra adversários «top», não fomos massacrados por nenhum, não estivemos só a defender, bem pelo contrário. Estivemos muitas vezes por cima do jogo, mas quem não faz golos está sempre sujeito a ter resultados menos felizes e foi o que nos aconteceu muitas vezes: criávamos mas não conseguíamos marcar, outras vezes marcámos mas depois sofríamos. Não vou dizer sorte porque não acredito muito nisso, mas faltava um pouco mais de experiência de todos para ser diferente.
– Dos estaduais brasileiros ao «salto» para o Santos FC –
«Em 2010 cheguei a ter uma conversa com o SC Braga, mas foi com o Vitória SC que as coisas andaram mais»
BnR: Tiveste uma carreira longa, mas pouca gente sabe das tuas origens mais humildes no futebol brasileiro. Como é que chegaste ao Botafogo-SP?
Douglas: Eu sou de Ribeirão Preto, uma cidade grande com um milhão de habitantes, e o Botafogo sempre foi um grande «celeiro» no futebol brasileiro, revelou vários guarda-redes: Doni (ex-Roma e Liverpool), Diego Alves (atualmente no Flamengo), eu… o Renan, que agora está no Sporting, também começou lá no Botafogo, era uma escola muito boa de guarda-redes. Comecei numa escola de bairro com oito ou nove anos por indicação médica e comecei a chamar a atenção. Dominava os exercícios de guarda-redes, tinha uma facilidade de aprender e com 11 anos fui para o Botafogo-SP e fiquei lá até aos 21. Tive várias oportunidades de sair, mas não conseguia ficar em alojamentos, não gostava de ficar longe de casa. Lá em Ribeirão morava em casa dos meus pais, era tudo simples, mas não me faltava nada e eu vi amigos meus que viviam debaixo da arquibancada e, em alguns momentos, faltava alguma coisa e isso fazia-me confusão. Só saí do Botafogo em 2005 – já estava casado e tinha filhos – quando fui para o Iraty, no Paraná.
BnR: O que mudou para saíres da tua zona de conforto? Davam-te condições melhores ou davam-te outra oportunidade em termos competitivos?
Douglas: Foram duas coisas: uma foi eu achar que estava na hora de «virar homem» e sair de casa a todos os níveis, tanto do Botafogo, como da minha cidade e crescer dentro do futebol. Ali já não dava mais. Mudei de estado e fui para um clube que, na altura, era gerido por empresários e eles conseguiam fazer negócios com outros clubes. Mas a minha experiência não foi muito boa porque tive uma lesão séria, no início do ano magoei o ligamento cruzado, fui operado e só joguei cinco jogos. Passei o ano todo lesionado e depois fui para o Olímpia jogar a Série A3, a terceira divisão do campeonato Paulista, com um treinador que me conhecia desde os meus nove anos. Lá correu tudo bem, fomos campeões, fui o melhor guarda-redes da série, joguei o Paulista durante quatro meses e depois fui para o Sertãozinho, uma equipa ao lado de Ribeirão Preto que jogava a Série C. Joguei e, no final do ano, fui negociado para o Santos.
BnR: Como surgiu o interesse do Santos, para um salto assim tão grande?
Douglas: É assim: o Emerson Leão, um treinador conceituado no Brasil, tinha um treinador de guarda-redes que o acompanhou toda a carreira e, nesse período de 2006, o Emerson Leão não estava em nenhum clube e o treinador de guarda-redes recebeu o convite para treinar o Sertãozinho e aceitou. Ele contratou-me, eu trabalhei com ele, mas não ficou o campeonato todo. Em 2008, o Leão foi para o Santos, ele também foi e indicou-me ao treinador.

Fonte: Carlos Silva/Bola na Rede
BnR: Como foi jogar num clube como o Santos?
Douglas: É uma experiência… Primeiro foi o realizar de um sonho, chegar a um grande do Brasil. Não era o meu clube de infância, mas era um clube gigante.
BnR: Qual era o teu clube de infância?
Douglas: Era o São Paulo. Era o clube do meu pai, também pelo guarda-redes que tinha lá na altura, o Zetti. Foi o primeiro clube que vi no estádio… Hoje já não é mais, tenho algum carinho mas as coisas mudam, passamos por várias experiências e outras coisas que nos marcam. E foi assim, estive no Santos dois anos, joguei à volta de 30 jogos que, para aquelas duas épocas, era muito porque o guarda-redes da altura era um ídolo do clube, o Fábio Costa. Foi pena não ter a experiência que tenho hoje, porque podia ter lidado com certas situações de outra forma, mas foram dois anos fantásticos em que cresci muito como jogador e como atleta. No terceiro ano, fui emprestado ao Ipatinga, outro ano fantástico em 2010, joguei todos os jogos e aí surgiu a oportunidade de ir para o Vitória SC.
BnR: Quem é que falou contigo do Vitória SC?
Douglas: Foi assim: estávamos nos quartos de final do campeonato mineiro e o Basílio Marques – que até faleceu agora, há duas semanas – era adjunto no Vitória SC e foi ao Brasil ver uns jogos. Nesse jogo viu-me, falou comigo no final do jogo, estávamos em abril ou maio, e durante o ano continuaram a acompanhar-me. Em outubro entram em contacto com o meu empresário e acertámos o pré-contrato, porque acabava contrato com o Santos em dezembro. Foi assim que eu vim.
BnR: Como foi passar de guarda-redes titular para a sombra de um guarda-redes como o Nilson?
Douglas: Eu tive oportunidade de ir para outras equipas no Brasil e, naquela ano de 2010, cheguei a ter uma conversa com o SC Braga, mas foi com o Vitória SC que as coisas andaram mais. Na altura, o Nilson tinha 36 ou 37 anos e era natural que ele não ia jogar mais 10 anos. O clube estava a preparar um substituto e viram em mim que podia ser essa pessoa. Sabia que ia ter de esperar pelo meu momento e usei esse tempo para me adaptar ao treino, ao país. Passados todos estes anos, vejo que aquele período serviu muito para mim e ajudou-me muito. Quando entrei, já estava completamente adaptado, era só dar continuidade.
BnR: E nunca perdeste a motivação? Ainda ficaste um ano e meio como suplente…
Douglas: Houve momentos em que não perdi a motivação, mas havia propostas de clubes brasileiros e nós queremos sempre jogar. Mas o meu empresário dizia sempre «não, fica aí que vai chegar a tua hora»… E chegou. Passado algum tempo, vi que foi a melhor opção.
– Da glória na Taça com Rui Vitória ao temperamento de Sérgio Conceição –
«Houve contactos com a AS Roma e uma proposta do Real Bétis, mas acabou por não dar certo»
BnR: E a tua primeira época como titular é histórica: ganhaste a Taça de Portugal. Para começar, qual foi a diferença do Manuel Machado para o Rui Vitória?
Douglas: É totalmente diferente. Nós somos todos diferentes, ninguém é igual. O Rui Vitória é um motivador nato, nunca o vi a reclamar de nada, bem pelo contrário. Já o professor [Manuel Machado] é uma pessoa mais tranquila, com muita experiência, muitos anos de vida no futebol. São estilos de liderança diferentes, mas trabalhei muito mais tempo com o Rui Vitória, é normal que tenha um apreço maior por ele, mas quem me trouxe para o Vitória SC foi o Manuel Machado, que é uma pessoa a quem devo muito, senão não tinha vindo.
BnR: O que te lembras da caminhada até à final? Que jogos destacas?
Douglas: Foram os quartos de final contra o SC Braga. Ganhámos 2-1 em Guimarães, com dois golos do Barrientos. Esse jogo foi a prolongamento e foi, junto com aquela exibição no Dragão, uma das melhores que fiz no Vitória SC.
BnR: Chegamos, então, à final. Como foi apanhar um SL Benfica tão desmoralizado depois de perder o campeonato e a Liga Europa nos últimos minutos?
Douglas: É assim, eles tinham perdido o campeonato, mas eram uma equipa poderosa, jogavam com uma intensidade alta, agressivos na reação à perda da bola, bolas paradas muito bem definidas. Era uma equipa muito boa e potente. Mas também sabíamos que qualquer coisa boa que fizéssemos teria um peso maior nessa altura devido a esses resultados negativos e acabou por acontecer isso: eles começaram a ganhar com um golo que não esperavam, num ressalto, mas depois nós fizemos dois golos em três minutos…

Fonte: Diogo Cardoso/Bola na Rede
BnR: Com o avançar do tempo e com o passado do SL Benfica na altura, cada vez ganhavam mais motivação?
Douglas: Como marcamos o primeiro golo e o segundo foi logo a seguir, eles não tiveram tempo de reagir. Quando eles pensaram em reagir já tinham sofrido o segundo golo. E aquela equipa do Rui Vitória tinha uma raça absurda e nós sabíamos que tínhamos de correr e lutar, mas quando fizemos o 2-1 sabia que dificilmente perderíamos aquele jogo.
BnR: Depois dessa final começaram a surgir propostas para ti…
Douglas: Certo. Nesse ano da Taça, aconteceu uma coisa curiosa, mas não chegou a ser uma proposta porque, naquela altura, ainda não tinha o passaporte português: o meu empresário teve uma conversa com a AS Roma. Mas isso nunca veio a público porque não houve proposta, mas foi uma coisa que me deixou feliz, já era um nível diferente que estava a olhar para o meu trabalho. No ano a seguir tive uma proposta do Real Bétis, mas são pequenos detalhes que não dão certo e nem percebemos porquê e, na altura, acabou por não dar certo. Depois tive outros, da Turquia, o Trabzonspor, do Brasil, também chegámos a falar com o Grêmio, mas no final continuava sempre aqui e continuei em Guimarães.
BnR: E nunca houve o interesse de nenhum dos grandes?
Douglas: Houve algumas conversas com o meu empresário, mas nunca chegou a concretizar-se. Mas também, nesse tempo, sempre tiveram bem servidos, com excelentes guarda-redes: o Sporting CP teve o Rui [Patrício] durante muito tempo, o SL Benfica tinha Oblak, Artur, Ederson, Júlio [César]… No FC Porto havia o Hélton, depois foi o Iker [Casillas]. Sempre estiveram bem servidos, não era tão fácil.

Fonte: Facebook Douglas
BnR: A época seguinte foi muito mais complicada para o Vitória SC: caíram nas primeiras fases de todas as Taças e no campeonato acabaram em 10.º…
Douglas: A verdade é que naquelas duas épocas – a da Taça e a seguinte – o clube estava com muitas dificuldades financeiras. Então para gerir a montagem do plantel não foi fácil e isso via-se em campo. É difícil porque é um clube enorme, com uma exigência grande, que merece ir à Europa todos os anos e espero que consiga isso nos próximos anos. Sabemos que é difícil, mas já consegue ter equipas tecnicamente melhores que nessa altura. Acho que foi por aí, porque às vezes há grandes investimentos que não dão certo, mas naquela altura as dificuldades eram grandes. Não foi fácil…
BnR: Foi nessa altura que os adeptos invadiram a vossa academia de treino?
Douglas: [Risos] Não. Houve duas vezes: a primeira foi no primeiro treino do Rui Vitória, quando ele foi apresentado aconteceu isso. Mas no fundo entendemos, eles são apaixonados, o que interessa é o Vitória SC ganhar e é uma forma deles mostrarem o amor e carinho que têm pelo clube. Mas agora acho que não vai voltar a acontecer.
BnR: Depois o Rui Vitória foi para o SL Benfica e chegou o Sérgio Conceição, que tem um estilo mais…
Douglas: Diferente.
BnR: Sim, diferente. O que é que mudou para vocês?
Douglas: Mudou tudo, não tinha nada a ver. Foi como quando mudou do professor Manuel Machado para o Rui [Vitória], também mudou do Rui para o Sérgio. São pessoas totalmente diferentes, mas todos excelentes treinadores. A história mostra isso, com o que têm alcançado. Passados os anos, vejo que serviu de muito essa experiência para a minha vida enquanto jogador. Aprendi muita coisa e vai servir muito para esta área que estou a trabalhar. Aprendemos sempre com os treinadores: o que serve, agarramos. O que não serve, deixamos passar.
BnR: Foi difícil lidar com o temperamento dele?
Douglas: Não foi fácil… Mas, com a experiência, conseguimos perceber e ele é assim porque é a forma que ele encontra para ganhar, para tirar o melhor de cada um. Alguns gostam, outros não mas, no fundo, o que ele quer é ganhar. Essa é a verdade.
BnR: Vias nele um treinador que conseguia ser campeão noutro contexto?
Douglas: Eu acho que sim. É o que eu digo: ele agora está a treinar uma equipa em que o poder financeiro é totalmente diferente e isso faz a diferença. Ele, sendo o bom treinador que é, claro que, quanto mais qualidade humana tiver, claro que vai brigar por melhores coisas.
– A defesa heróica em Chaves e o regresso ao Jamor –
«Se vires os penáltis do Braga, 90% foram para a direita. Eu só queria que fosse ele a agarrar na bola naquela hora»
BnR: O Conceição acabou por sair, entrou o Pedro Martins e vocês fizeram mais uma época espetacular…
Douglas: Exatamente. Mudou da água para o vinho, foi totalmente diferente. O Pedro também é um treinador fantástico, com uma forma de liderar totalmente diferente, mas um treinador que gosta de ganhar e, agora, é só ver para onde foram para se perceber a qualidade que têm. É um treinador excelente.
BnR: No campeonato ficaram à frente do SC Braga. Quebraram uma espécie de barreira psicológica com o vosso rival?
Douglas: Não é barreira psicológica. Acho que aquela equipa – ficámos em quarto – podia perfeitamente ter ficado em terceiro. Se for ver os jogos, os jogadores que tínhamos, a forma como jogávamos, foi por detalhes que não aconteceu isso. Naquele ano merecemos ficar à frente, o campeonato que fizemos era merecido e foi o que aconteceu. Era uma equipa que jogava num estilo próprio, adorava ver aquela equipa a fazer transições: três ou quatro toques e estávamos na outra baliza.
BnR: Também nessa época foste herói na meia-final da Taça de Portugal. O que te lembras daquele jogo em Chaves?
Douglas: Lembro-me muito bem. A verdade é que não ia jogar aquele jogo: eu vinha a jogar no campeonato e na Taça jogava o Miguel [Silva]. Só que aquele jogo foi a uma quarta-feira e o Miguel lesionou-se no treino de domingo e eu, naturalmente, acabei por jogar. Uma meia-final da Taça representa muito, ir ao Jamor… Como a cidade de Guimarães viveu aquele dia é uma coisa… Basta ver a festa que fizeram desde Chaves, estava um ambiente muito favorável para nós, estávamos em vantagem no resultado, mas quando começou o jogo, em poucos minutos o GD Chaves – que também tinha uma excelente equipa – conseguiu fazer o 2-0 e nós não conseguíamos impor o nosso ritmo normal, não conseguíamos fazer transições…
BnR: Será que entraram demasiado relaxados com o resultado 2-0 da primeira mão?
Douglas: O que aconteceu é que naquela semana, ou na semana anterior, houve paragem para as seleções e nós tivemos um jogo para o campeonato num sábado na ilha [Madeira]. Como houve a paragem, o mister poupou alguns jogadores lá e ficámos muito tempo sem jogar. Lembro-me que o GD Chaves não fez isso, não poupou ninguém. Foi a única coisa de diferente que aconteceu: o tempo sem jogar de alguns. Pode ser bom por um lado, se calhar ficam mais descansados, por outro perdem um bocado de ritmo de jogo. Foram duas semanas sem jogar para alguns. Mas lembro-me que quando marcámos o golo, demos uma respirada e pensámos: «estamos dentro».
BnR: Mas como lidaste com aquele penálti? Como o Braga era o habitual marcador, já tinhas a lição estudada ou foi instinto?
Douglas: Eu já conhecia o Braga da altura em que jogava no Rio Ave FC. Se fores olhar aos penáltis do Braga, 90% foram para a direita. Todos os jogos vemos quem são os batedores e eu só queria que fosse ele a agarrar na bola naquela hora. A probabilidade de ir para o canto direito era grande, mas não sabia se ia ser em jeito ou em força. Ele acabou por bater em força e pronto… Ficou na história. É uma cena que ninguém esquece e vou-te dizer: foi um dos jogos mais emocionantes da minha carreira. Depois do penálti, aqueles minutos finais pareciam que eram mais 45. Foi marcante.
BnR: Na final voltam a encontrar o SL Benfica, mas numa situação completamente diferente de 2013…
Douglas: Era ao contrário. Tinham ganho o campeonato, chegámos lá com alguns dos principais atletas com queixas da época, de dores. Lembro-me do Hernâni, o Rafael Miranda, o próprio Marega… Era uma final, pode acontecer tudo. Claro que sonhávamos ganhar mais uma mas, infelizmente, não deu. O futebol tem dessas coisas…
BnR: Depois destes anos todos, o que podiam ter feito de diferente naquela final?
Douglas: Aquele jogo foi atípico porque, normalmente, não há chuva nas finais e naquele dia parecia que o céu estava a cair, choveu muito. Depois o SL Benfica conseguiu marcar duas vezes num espaço de tempo curto e não é fácil dar a volta numa equipa estruturada como aquela. Se calhar se tivéssemos marcado o golo primeiro… São os detalhes e, nesses jogos, pagam-se caro.
BnR: Na época seguinte, mais um ano complicado para vocês. Porque existe este padrão no Vitória SC de não ser consistente?
Douglas: É difícil de explicar. O que pode afetar esse equilíbrio é que, de uma época para a outra, a equipa perdia jogadores importantes. Também contratava bons jogadores mas, quando há mudanças, há sempre um tempo de adaptação e, às vezes, esse tempo custa caro. Eu acho que passa por aí. Lembro-me que a equipa naquela altura estava muito adaptada ao Marega, ao Hernâni, o Tiquinho saiu em janeiro… Olhas para a carreira desses jogadores e nós não perdemos um qualquer, perdemos jogadores importantes. Acho que é um pouco isso, a equipa consegue fazer uma boa época e na seguinte tenta perder o mínimo de jogadores possível. Não é fácil porque as equipas precisam de vender, mas é o caminho para dar seguimento.
BnR: Achas que a saída do Pedro Martins foi um erro?
Douglas: Não. Naquela altura, não.
BnR: Era preciso algo diferente para o Vitória SC acordar?
Douglas: Acho que sim.
BnR: E José Peseiro foi a mudança que precisavam?
Douglas: O mister Peseiro é muito bom treinador, só que é difícil entrar no decorrer de uma época e leva algum tempo para habituar à ideia dele. Se calhar quando nos estávamos a habituar, terminou a época. Mas o mister Peseiro, pela experiência que tem, com certeza que, com mais tempo, de início juntos na pré-época, seria melhor.
BnR: E o que mudou com Luís Castro? Ele que costuma pensar quase tudo no departamento de futebol?
Douglas: Quando muda o treinador, muda tudo. Adorei trabalhar com o mister Luís Castro, é uma pessoa espetacular, um treinador top. Adorei mesmo. O que gostava na equipa dele é que era difícil marcar-nos golos, era uma forma de defender que, para quem joga na defesa, é muito bom. Então para mim, guarda-redes, sabia que tinha uma linha de cinco ali… Mais um Wakaso no meio que até batia na mãe dele se fosse preciso [risos]. Sabia que era difícil marcar-nos um golo. Se calhar para alguns, a forma de jogar não é tão bonita ou atraente, mas dentro de campo estávamos sempre seguros. Não começámos bem, mas depois foi encontrando os jogadores adequados, acabaram por encaixar e fizemos bons resultados. Se calhar, não tão bons jogos, mas bons resultados.
BnR: Adaptaste-te bem ao estilo dele, que pede muito da capacidade de passe e técnica dos defesas?
Douglas: Eu não tive problema nenhum no estilo de jogo do mister, nenhum mesmo. Foi muito bom, gostei muito de trabalhar com ele. Foi uma época muito boa, até passou rápido [risos].
BnR: Onde pensas que ele pode chegar depois desta meia-final da Liga Europa com o FK Shakhtar Donetsk?
Douglas: Acho que esta oportunidade de ir para o Shakhtar Donetsk é o que ele precisa para crescer, porque o resto ele tem. É só uma questão de chegarem ao pé dele e dizerem: «ele é o treinador». A pessoa, o treinador, a forma de liderar… É muito bom mesmo.
– O pendurar das luvas e o futuro como treinador de guarda-redes –
«Se eu fizesse esse anti-jogo que as pessoas falam, provavelmente teria mais cartões, não é?»
BnR: Depois de dez anos, o Douglas está fora da baliza do Vitória SC. Achas que já era preciso reformular a baliza?
Douglas: Se fores ver, não é só a baliza. Na baliza, ia chegar este momento… Quem me dera poder jogar até aos 100 anos. Acho que é um processo normal: o Miguel [Silva] é mais novo, podia ter ficado mas acho que era o momento para sair e foi fazer a vida dele. Se olhar para trás, joguei dez anos no clube, joguei 235 jogos. Tenho mais para agradecer que reclamar de alguma coisa. O meu papel hoje é torcer para que tudo dê certo no Vitória SC, que alcance os objetivos todos. Vai ser bom para todos.
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— Vitória Sport Clube (@VitoriaSC1922) February 26, 2020
O guarda-redes brasileiro representou o Vitória SC por dez anos e pendurou as botas. Contudo, tem muito para contar por terras vimaranenses
BnR: O Vitória SC surpreendeu ao contratar vários guarda-redes jovens. Que qualidades vês nesses jogadores?
Douglas: Conhecer, só conheço o [Bruno] Varela, de jogar contra ele, e o Celton [Biai], que treinava connosco. Os outros dois eu não conheço, nem vi um treino ainda, nem um vídeo. Mas tenho a certeza absoluta que, para serem contratados, é porque têm qualidade. O Carlos Freitas é uma pessoa que dispensa comentários na área, sabe tudo do futebol. Agora, é uma posição em que só joga um e espero que o mister tenha dores de cabeças porque significa que está a correr bem. Vai ter de escolher um e espero que, o que ele escolher, dê alegrias aos vitorianos.
BnR: São guarda-redes que estão a fazer o mesmo caminho que tu fizeste, a experimentar um país diferente. Que conselhos darias a eles?
Douglas: Olha, que trabalhem muito e foquem-se no trabalho porque, se for diferente, não vão conseguir. Se forem olhar para as dificuldades não conseguem, mas se focarem no trabalho e meterem na cabeça que vão conseguir com muito trabalho… Só acredito que, assim, é que um guarda-redes chega a um nível bom e hoje, com a qualidade que nos oferecem, só não aproveita quem não quer.

BnR: Por vezes, os adeptos dos adversários criticaram o Douglas por perder algum tempo. Porque é que os guarda-redes insistem em perder tempo e pedir assistência, que prejudica o espetáculo?
Douglas: Há alguns que exageram, mas outros não. Acho que eu era normal, mas vou-te dar um exemplo, porque as pessoas falam às vezes sem critério: o meu último cartão pelo Vitória SC foi na época do Peseiro (2017/2018) e foi uma expulsão estúpida em Portimão, tenho muita vergonha de ser expulso naquele dia, mas foi o meu último cartão. Já lá vão três épocas. Depois fiz mais de 50 jogos e não levei nenhum cartão. Se eu fizesse esse anti-jogo que as pessoas falam, provavelmente teria mais cartões, não é? Esta época joguei 38 jogos e não levei nenhum cartão. Se for preciso segurar o jogo, é claro que fazemos porque o resultado é o mais importante. «Ah mas isso é feio», mas no calor do jogo, às vezes, acontece. Agora, há guarda-redes que fazem, mas não sei se são instruídos a isso ou se é por quererem. Aí tem de se ver que orientação têm, mas às vezes é difícil estar a jogar com o FC Porto, por exemplo, e a dez minutos do fim ter levado cinco remates, aí se calhar vai-se tentar parar o jogo para poder respirar. Acho que o dia em que o campeonato estiver mais livre tecnicamente… Na Inglaterra não se vê isso porque o nível é muito igual, mas também vemos jogos da Liga dos Campeões em que equipas fazem isso. Não é fácil…
BnR: O que achas ser preciso mudar no futebol português para as equipas não estarem tão distantes umas das outras?
Douglas: Acho que tem a ver com a situação financeira, aquilo que os clubes recebem devia ser igual e aquilo que conseguiam extra era mérito de cada um.
BnR: Qual foi o teu melhor momento nas dez épocas no Vitória SC?
Douglas: Melhor? É uma boa pergunta. Normalmente falamos no melhor ligado ao resultado, a altura da Taça de Portugal acabou coroada com um troféu. Mas se fores ver números a época passada com o Luís Castro foi uma época top. Eu acho que ao longo destes anos, dentro do esquema em que as equipas eram montadas, sei que consegui ter um bom nível… E quão mais fortes eram as equipas, melhor para mim. Essa equipa do Luís Castro era muito forte a defender, acabou por ser boa para mim. Mas é claro que fica sempre a imagem da Taça.
BnR: E o pior momento?
Douglas: Foi uma lesão que tive no menisco em 2014, na última época do Rui [Vitória]. Começámos o campeonato bem, até chegámos a liderar nas primeiras jornadas, mas num jogo em casa com o Boavista FC eu magoei o joelho, precisei fazer uma artroscopia e durante a recuperação tive uma infeção. Tive de fazer outra, mas a infeção foi muito séria e não sabia se voltaria a jogar. Nunca se soube, tive de guardar para mim e foram dois ou três meses de recuperação e com muito medo de não poder voltar, mas graças a Deus consegui dar a volta. Foi o momento mais complicado porque teve a ver com saúde, mas dentro de campo sempre lidei bem com os jogos menos maus, ficava lixado, nervoso, mas dava sempre a volta. Agora uma lesão que não depende de mim… É complicado.
BnR: Qual foi o treinador que mais te marcou?
Douglas: Todos me marcaram um pouco, mas o Rui [Vitória], pelo facto da conquista da Taça nas condições que tinha… Não só o mister, mas a equipa técnica, que tinha o Luís Estevão como treinador de guarda-redes e ajudou-me a evoluir muito. Mas com todos aprendemos muito.
BnR: Com quem tiveste uma experiência negativa?
Douglas: É assim, graças a Deus nunca tive problemas com um treinador. Com quem joguei menos foi com o Sérgio Conceição, mas era por opção dele, nunca tive nenhum problema com ele. Sempre nos respeitamos.

Fonte: Facebook Douglas
BnR: Nunca lhe perguntaste porque não jogavas?
Douglas: Não porque nas vezes que joguei também não perguntava o porquê de jogar. Não sou dessa linha de perguntar porque não jogo, sempre preferi treinar ao máximo, fazer o meu melhor e o mister que decidisse. Sempre respeitei muito as decisões
BnR: Se pudesses mudar uma coisa na tua carreira o que seria?
D: Não teria sido expulso em Portimão. Fiquei mesmo envergonhado…
BnR: Que clube gostavas de ter representado?
Douglas: Na verdade, pela minha carreira, donde saí, por tudo o que passei… Tenho mais a agradecer que a questionar alguma coisa. Acho que o que aconteceu na minha vida, foi o que tinha de ser e estou mesmo grato.
BnR: Qual jogador te criou mais problemas?
Douglas: Em Portugal, lembro-me que o Jackson [Martínez], na passagem pelo FC Porto, era muito difícil jogar contra ele. O Jonas também tinha um poder técnico muito apurado, eram jogadores que tínhamos de estar ligados o tempo todo, senão marcavam.
BnR: Para terminar, o que ambicionas da tua carreira fora dos relvados?
Douglas: Ah, quero ser tão bom treinador de guarda-redes quanto fui como jogador. Ou até muito melhor, vou trabalhar para isso. Agora é o início, ainda não como treinador de guarda-redes, apesar de estar sempre no campo com os miúdos a trocar experiência. Mas, claro, que o sonho é estar numa equipa profissional e vou trabalhar por isso.
Todas as fotografias usadas nesta entrevista foram retiradas das redes sociais do entrevistado Douglas de forma consentida.
Artigo revisto por Diogo Teixeira












