«Se os jogadores estão a jogar nos sub-21 e na Segunda Liga, têm qualidade para a Primeira Liga» – Entrevista Bola na Rede a Luís Freire

Luís Freire assumiu os sub-21 de Portugal há menos de um ano. Desde então, os números não mentem: são sete vitórias e um empate em oito jogos, 32 golos marcados e ainda está para conhecer o autor do primeiro golo contra os mais velhos dos mais jovens portugueses. O apuramento para o Europeu Sub-21, daqui a um ano, é o primeiro passo de um objetivo maior. É sobre esse sonho, sobre as circunstâncias do trabalho na formação e sobre o futebol no seu estado mais puro que se debruça a mais recente entrevista do Bola na Rede. Luís Freire, o comandante dos sub-21, em exclusivo numa entrevista realizada no dia seguinte ao triunfo diante da Irlanda do Norte, o oitavo jogo da sequência invicta do técnico na seleção.

«Eles têm essa chama, essa alma dentro deles, e isso é o que mais me atrai em trabalhar com eles».

Luís Freire
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Bola na Rede: Modelo mais de organização ou de transição?

Luís Freire: Jogo de organização ofensiva, sempre com olho na transição ofensiva e também nas bolas paradas. Tudo o que seja para criar golos e oportunidades, estamos lá.

Bola na Rede: Ganhar 1-0 ou ganhar 5-4?

Luís Freire: Ganhar. Ganhar é mais importante.

Bola na Rede: Marcar no primeiro ou no último minuto?

Luís Freire: Marcar no último minuto.

Bola na Rede: Linha de 3 ou linha de 4?

Luís Freire: Linha de 4.

Bola na Rede: Trabalho em clubes ou seleções?

Luís Freire: As duas têm as suas particularidades e as duas estão a dar-me muito prazer.

Bola na Rede: Um balneário mais jovem ou um balneário também com experiência?

Luís Freire: As duas são muito importantes. Nos sub-21, a juventude é obrigatória, portanto, neste momento, a juventude.

Bola na Rede: Parto exatamente da juventude no balneário para perguntar como é que se gera um balneário apenas com malta jovem? 

Luís Freire: Os jovens têm características muito próprias. Há uma energia muito grande, um sonho muito grande, uma paixão muito grande pelo jogo, uma vontade muito grande de trabalhar e treinar. Esse lado atrai-me muito. Esse lado genuíno do futebol atrai-me muito e aquilo que me apaixona em trabalhar com eles é saber que estou a contribuir com uma pequena parte para que eles mantenham esse espírito o máximo tempo. Um espírito de quem adora jogar futebol, tem prazer a jogar futebol e desfruta a jogar futebol e, depois, em nome do nosso país, de Portugal. É assim que os motivamos, tentando ao máximo que eles extraiam essas características boas para o jogo.

Bola na Rede: Trabalhando sempre os sonhos, o presente, mas também o futuro. 

Luís Freire: Sim, mas mais o prazer que eles têm em jogar. É a geração deles que está agora nos sub-21. Isto não é eterno, eles não vão jogar sempre nos sub-21. É uma determinada altura em que eles podem deixar a sua marca dentro deste escalão, portanto, acaba por ser uma oportunidade única que eles têm de jogar por Portugal. Como eu disse, isto não é eterno. Muitos deles podem chegar à seleção A e nós queremos que sejam o máximo, mas ouvir o hino não é para sempre. Se querem continuar a ouvir o hino muitas vezes, que é o que eu quero que eles consigam, é preciso dar o máximo ao serviço de Portugal. Eles têm essa chama, essa alma dentro deles, e isso é o que mais me atrai em trabalhar com eles. É sentir o brilho no olhar e querer muito, muito, muito jogar futebol ao mais alto nível.

«As experiências na seleção são experiências únicas na carreira deles». 

Luís Freire
Luís Freire Portugal
Fonte: Edmilson Monteiro / Bola na Rede

Bola na Rede: Este ciclo de transição na formação traz desafios diferentes para um selecionador e para um treinador? A sensação de uma etapa de transição, que não é definitiva?

Luís Freire: Sim, eles todos já são profissionais. Estamos a falar de jogadores profissionais jovens. Praticamente todos, aliás, estão todos no futebol profissional e todos vão ser profissionais de futebol. São jovens, todos estão a afirmar-se e eu quero, ao máximo, valorizar o trabalho deles, valorizar a personalidade deles, valorizar aquilo que eles são como pessoas e como jogadores. Acredito que com as características de talento que eles têm mais a personalidade e o caráter, vão poder ambicionar chegar a patamares mais altos. Mas profissionais eles já são, estão num final, final, final de formação, para não dizer que têm a formação praticamente completa porque já estão no futebol profissional.

Bola na Rede: O que os sub-21 podem acrescentar a essa formação já quase completa?

Luís Freire: Penso que são as experiências. As experiências na seleção são experiências únicas na carreira deles. A responsabilidade de representar um povo é diferente de representar um clube, uma fração de um determinado local, de um determinado clube. Não, nós estamos a representar as nossas famílias, os nossos amigos, as pessoas que vibram com eles, que os consideram referências, muitos jovens e miúdos que olham para eles como os craques do futuro e os craques do presente também e que querem muito estar perto deles. Penso que é isso que também os motiva a representar e é isso que oferecemos. Esta sensação, este sentimento único, de representar um povo, representar a nossa bandeira, ouvir o nosso hino e depois jogar. Depois fazer o que mais gostamos, neste caso é jogar futebol. 

«Queremos que as pessoas sigam a seleção sub-21 porque este apoio à volta deles vai fazê-los crescer com mais motivação».

Luís Freire
Luís Freire Proença
Fonte: FPF

Bola na Rede: Essa cultura de proximidade e de relação com os adeptos, de identificação, é importante para a criação de um grupo?

Luís Freire: Claro que sim. Ainda ontem, na Amoreira, tivemos muita gente a ver futebol. Tivemos já na qualificação casas cheias e isso faz com que o jogador sinta que é acarinhado pelos portugueses e dão mais por isso também. Não tenho dúvidas nenhumas que eles depois sentem a responsabilidade e a motivação de jogar pela nossa seleção e têm a ambição de chegar à seleção A. Todos eles sonham com essa possibilidade. O aproximar do povo à seleção é uma das coisas que nós queremos muito fazer. Queremos continuar a fazer e vamos fazer tudo para que isso aconteça, mas temos que ser nós a puxar as pessoas. Penso que estamos a conseguir. Eles são jogadores humildes, sérios, e ainda ontem provaram num jogo particular que são muito sérios, muito trabalhadores e queremos receber o máximo de apoio. Queremos que as pessoas sigam a seleção sub-21 porque este apoio à volta deles vai fazê-los crescer com mais motivação. 

Bola na Rede: É uma seleção que junta os melhores talentos do país, esquecendo aqueles que já deram o passo para a seleção principal. Tendo em conta toda esta qualidade, qual é que é o papel do selecionador dentro de um balneário, dentro de campo? O que é que um selecionador pode acrescentar a jogadores com tanta qualidade? 

Luís Freire: Principalmente é um trabalho junto deles, que não é só feito no campo e no relvado porque nós temos poucas oportunidades para estar juntos. É um acompanhamento que vamos fazendo ao longo do tempo, junto dos clubes, junto das pessoas dos clubes, quer sejam coordenadores técnicos, treinadores, dirigentes e junto deles próprios, ou seja, estar com eles. É importante ir acompanhando todo o processo e depois quando cá estão é tentar ajudá-los ao máximo na perspetiva de perceber o momento onde eles estão e recuperá-los ao máximo, seja recuperá-los, motivá-los ou gerir expectativas e ajudá-los também nas tomadas de decisão que vão ter pela frente. Está aqui um acompanhamento todo da pessoa e depois, dentro do campo, motivá-los com uma ideia de jogo que seja o máximo atrativa e responsabilizá-los porque estar ao serviço de Portugal não é qualquer coisa. É a coisa mais importante que eles podem fazer no futebol. É responsabilizá-los, é sensibilizá-los, é motivá-los, é pôr-lhes a responsabilidade, mas também é tirar-lhes responsabilidade, porque eles só têm que dar o máximo. A obrigação deles é dar o máximo e desfrutar ao máximo juntos, porque eles vão ter saudades disto. Vão ter muitas saudades de estar com os colegas da sua geração, da sua juventude, portanto, penso que é aproveitar todas as oportunidades para dar o seu melhor. Vão criar boas memórias com isso.

«Nós queremos essa maturidade dentro da seleção, mas a irreverência também é importante. Soltar a nossa magia, o nosso talento também exige um ambiente propício para isso».

Luís Freire
Luís Freire Portugal Sub-21
Fonte: Pedro Barrelas / Bola na Rede

Bola na Rede: Num grupo com perfis tão distintos, há algum perfil que seja fundamental para a construção de um grupo, de um balneário, de uma equipa? 

Luís Freire: Sim, sem dúvidas. O caráter do jogador, a forma como trabalha no dia-a-dia, a forma como se entrega ao grupo, jogando ou não jogando, sendo importante no seu exemplo de trabalho, de respeito, disciplina, mas também dando energia positiva. Uma energia boa, energia positiva, energia leve, porque nos estágios da seleção, normalmente os jogadores têm poucas férias, têm pouco tempo de descanso e têm que fazer alguns sacrifícios. Nós queremos que os nossos estágios tenham energia, sejam leves, que os jogadores desfrutem e gostem de aqui estar, mas depois, na chamada ao treino, na chamada ao jogo, temos que estar completamente focados naquilo que temos para fazer em campo com a exigência máxima. Penso que têm sido positivos esses aspectos.

Bola na Rede: Essa relação de equilíbrio necessária entre a exigência e um lado mais leve é fácil de alcançar com jogadores tão novos, apesar da maturidade que já têm?

Luís Freire: Não vamos pôr isto tudo na idade. A idade, como eu disse, traz coisas muito boas e tem outros desafios, mas a maturidade penso que é a palavra mais apropriada. Pode haver jogadores mais velhos com pouca maturidade, pode haver jogadores mais novos com muita maturidade. Nós queremos essa maturidade dentro da seleção, mas a irreverência também é importante. Soltar a nossa magia, o nosso talento também exige um ambiente propício para isso. Queremos estimular as duas coisas, mas sempre dentro de uma ordem e um sentido de responsabilidade. É para isso que nós estamos a fomentar cada vez mais estes princípios e não é difícil. Exige contacto próximo, mas exige também regras e regulamentos que têm de ser cumpridos.

Bola na Rede: E também se criam líderes e nascem líderes nestes momentos?

Luís Freire: É um desafio que nós queremos dentro do nosso balneário: lideranças. Cada vez mais vai ser importante. Este foi um ano crescimento e para o próximo vai ser fundamental. Não é assim tão fácil, são dois anos para formar um grupo, são dois anos para formar lideranças. Isto exige presença, a liderança exige estar. Não pode ser uma liderança só de vir vez em quando. Temos que criar um espaço, criar líderes, responsabilizá-los por exercer essa autoridade e os outros também respeitarem as lideranças, mas acima de tudo para um bem comum, que é o bem de todos, do grupo. Queremos ser um grupo cada vez mais forte, disciplinado, e como disse, com um sentimento de pertença, um sentimento leve. Mas depois chegamos ao jogo e temos de estar a mil.

«Eles têm mostrado muito caráter quando vão à seleção A e estão ao serviço de Portugal ao mais alto patamar que podem estar. Chegando ao sub-21, eles percebem que o hino é o mesmo, a bandeira é a mesma, o sentido de responsabilidade tem de ser o mesmo». 

Luís Freire
Luís Freire Portugal Sub-21
Fonte: FPF

Bola na Rede: E quem são os principais líderes deste grupo? 

Luís Freire: Nós temos três capitães de equipa definidos neste momento. Poderá haver mais capitães no futuro. Neste momento temos o Mateus Fernandes, o Gustavo Sá e o Gabriel Brás, três capitães. E como eu digo, a importância deles também vem da presença, têm de estar presentes no estágio. Temos o Tiago Gabriel, que ontem envergou pela primeira vez a braçadeira, o João Carvalho também envergou pela primeira vez a braçadeira. Ainda não estão nomeados capitães de equipa, mas são jogadores com um perfil também muito interessante, naquilo que são os valores, os princípios e a presença deles na seleção. O Tiago e o João têm sido constantes. Temos de criar lideranças e autonomia também dentro do grupo.

Bola na Rede: Já aqui destacou a importância do estágio. O Mateus Fernandes, por exemplo, em março foi à seleção principal. A seleção sub-21, já se sabe, está sempre muito dependente de fatores externos à vontade do selecionador e da equipa técnica. Como é que é feita esta gestão, tendo em conta que é uma seleção que tem mais entradas, mais saídas, do que a seleção principal?

Luís Freire: Em relação à seleção A, para nós, é um orgulho e uma alegria quando eles são chamados. Temos o Mateus, o Carlos Forbs, o Quenda, o Rodrigo Mora e o João Carvalho também já treinou alguns dias. Todos os jogadores que são chamados para a seleção A, para nós é uma alegria, um orgulho. É esse o nosso objetivo também, um dos nossos objetivos. Agora, eles sabem perfeitamente que têm aqui um espaço no sub-21, que é a geração deles, e que nunca ganhámos um troféu nos sub-21. Todos temos essa ambição. Os jogadores estão consciencializados dos nossos objetivos, do nosso grupo e do nosso espaço. Eu quero que seja um espaço onde eles gostem de estar e que gostem de vir, mas tem que haver um compromisso e é preciso formar este caráter. O caráter forma-se com as adversidades, com as dificuldades, com os desafios que vão aparecendo. Penso que eles têm mostrado muito caráter quando vão à seleção A e estão ao serviço de Portugal ao mais alto patamar que podem estar. Chegando ao sub-21, eles percebem que o hino é o mesmo, a bandeira é a mesma, o sentido de responsabilidade tem de ser o mesmo. São oportunidades e palco para eles mostrarem que estão cada vez mais preparados. É dar-lhes esse palco, essa responsabilidade, motivá-los ao máximo e ajudá-los. Quando estão muito bem e quando não estão tão bem, é tentar ajudá-los.

«Chegando ao Europeu, e estando confirmada essa presença, que ainda não está, vamos querer ganhar».

Luís Freire
Luís Freire Portugal Sub-21
Fonte: Pedro Barrelas / Bola na Rede

Bola na Rede: Destacou agora a vontade e a fome de vencer. Este ciclo tem como objetivo o Europeu Sub-21 em 2027. Qual é a importância do título na formação do jogador e na sua construção de identidade? Tendo em conta que na última década Portugal atingiu sucessos não só no futebol, a nível da seleção principal, mas também nos escalões de formação, o que é que um título pode acrescentar a estes jogadores? 

Luís Freire: Eu penso que os títulos são sempre memoráveis. Nós andamos no futebol para ter boas memórias, para ter boas sensações. Ser campeão de algo traz sentimentos únicos. Portanto, nós vamos querer a qualificação, que ainda não está garantida, e os estágios de setembro e outubro são fundamentais para nós garantirmos a qualificação. Esse é o primeiro grande desafio, e temos que estar a 1.000%, porque todos querem lá estar e nós queremos lá estar. Obrigatoriamente queremos lá estar. A partir daí é pensar no Europeu. Chegando ao Europeu, e estando confirmada essa presença, que ainda não está, vamos querer ganhar. Há outras seleções que vão querer ganhar, vai ser uma competição muito, muito acérrima. Se fosse fácil, fazíamos isso naturalmente. Não é fácil. No entanto, não fugimos ao objetivo, e não fugimos ao sonho que temos. Para isso precisamos de todos muito envolvidos. Todos os jogadores têm que estar muito envolvidos neste objetivo comum.

Bola na Rede: Desde a sua chegada, há um bocadinho menos de um ano, são oito jogos, sete vitórias, um empate, muitos golos marcados e ainda nenhum golo sofrido. Qual o balanço que faz? 

Luís Freire: O balanço é muito positivo na minha ótica porque estamos a falar de futebol de seleções. Se estamos a falar de futebol de seleções, estamos a falar de pouco tempo de trabalho e de pouco contacto com os jogadores, comparativamente a um clube e sem margem de erro. Praticamente não errámos. Mesmo na República Checa, onde tivemos um empate, conseguimos uma grande segunda parte, completamente por cima do adversário. Temos 32 golos marcados e zero sofridos, oito jogos sem sofrer golos. Não sofrer golos é reflexo de um futebol que tem sido ofensivo, tem sido dinâmico, tem criado soluções ofensivas para desbloquear adversários mais fechados, mas também de um grande compromisso defensivo de todos. Ainda ontem ficou muito visível essa energia que a equipa mete no processo defensivo. Todos atacam, todos se dão ao coletivo, e quando sai um e entra outro, a mentalidade é a mesma, a identidade é a mesma. Isto é o que me tem mais agradado ao longo do percurso. Aquilo de que eu mais tenho gostado é a junção deste caráter e compromisso com uma ideia de jogo que é fiel a si própria, e que está a evoluir e a procurar as suas nuances, mas espaçado no tempo. Temos curtos períodos de tempo, e em pouco tempo temos formado isto e um grupo que vai desenvolvendo estas lideranças, que vão ser muito importantes para o futuro. Isto e uma capacidade de sacrifício, de consistência e resiliência, que fazem os campeões. Penso que estamos a construir aos poucos. Ainda agora, em junho, podíamos estar a descansar todos e estivemos a trabalhar e os jogadores estiveram bem presentes no campo.

«Para nós vermos a qualidade individual é preciso que ela esteja no sítio certo. Meter os jogadores onde se sentem mais confortáveis ajuda, meter os jogadores onde eles acreditam que são bons ajuda». 

Luís Freire
Luís Freire Portugal Sub-21
Fonte: FPF

Bola na Rede: Com tantos golos marcados e nenhum golo sofrido, como é que são os treinos? Há golos nos treinos? 

Luís Freire: Então não há? [risos]. A finalização é uma das coisas que trabalhamos muito, tal como a capacidade dos jogadores criarem oportunidades de golo, seja em transição ofensiva, seja em ataque organizado, seja na bola parada. São coisas a que damos mesmo muita importância. Sabemos que, na qualificação, temos adversários mais defensivos, com menos qualidade para nos causar problemas com bola, então apostamos muito na parte ofensiva, da reação à perda, dos equilíbrios, mas também nos desequilíbrios que podemos provocar em 1×1, criar situações de 2×1, preencher a área com muita gente. São tudo coisas que trabalhamos na seleção no pouco tempo que temos. Damos muita atenção a isso e depois também o trabalho da linha defensiva e a coordenação coletiva na pressão. Eles também têm muita cultura tática. Estes jogadores têm muita cultura tática e em pouco tempo apanham o que é para fazer. O importante é passar bem a mensagem e depois eles estarem motivados para executá-la. É isso que tem acontecido e se calhar sempre aconteceu. 

Bola na Rede: Como é que do ponto de vista tático se facilita a expressão da individualidade em campo? 

Luís Freire: Dando-lhe o contexto certo, na minha opinião. Para nós vermos a qualidade individual é preciso que ela esteja no sítio certo. Meter os jogadores onde se sentem mais confortáveis ajuda, meter os jogadores onde eles acreditam que são bons ajuda e dar-lhes liberdade de ação e não ser demasiado estanque. Principalmente isso, dando liberdade a quem precisa de liberdade, dando contexto de 1×1 a quem precisa de 1×1, dando contexto de jogar de frente para o jogo a quem precisa jogar de frente para o jogo, meter entre linhas quem gosta e tem qualidade para jogar entre linhas. É dando um contexto em que eles se sintam bem nos seus papéis.

«Eu penso que o treino em Portugal tem que ser mais focado nas áreas». 

Luís Freire
Luís Freire
Fonte: FPF

Bola na Rede: Nessa manta de retalhos, como é que se constrói uma identidade coletiva, adaptando sempre os jogadores às melhores funções? Já falou aqui um bocadinho da capacidade que a equipa tem de tirar jogadores e meter jogadores novos e manter a ideia. É fácil ter esse trabalho? 

Luís Freire: Eu não digo que é fácil, mas nós estamos a conseguir fazê-lo. Nos jogadores há uma ordem clara, e quem vê os nossos jogos percebe a ordem que nós temos em termos de organização do jogo e em termos de posicionamentos. Agora, quando eu digo que há uma liberdade, é uma liberdade criativa, uma liberdade para arriscar. Ontem vimos vários 1×1 no jogo, também vimos 2×1 a ser criados, portanto é isso que nós queremos. É um futebol coletivo com soluções e combinações. Vimos o [Gonçalo] Moreira para o [Daniel] Banjaqui dar o penálti, vimos o Quenda numa jogada mais individualizada. Há esta liberdade e soluções individuais e coletivas que nós queremos com os nossos posicionamentos criar e os jogadores decidirem em função disso. Sempre que estamos no treino, estamos a estimular estas interações com os vários jogadores que vamos tendo. Nós temos em Portugal muita qualidade nas alas. Muita qualidade nas alas, nos extremos, temos mesmo muita qualidade, médios com muita qualidade, portanto acabamos por ter que beneficiar este palco e estes jogadores que já estão a um nível elevado. Depois, todos os outros também têm que estar bem perfilados para renderem ao máximo e podermos usufruir deste coletivo. 

Bola na Rede: Destacou a capacidade de Portugal criar jogadores de corredor, também médios. Fala-se um bocadinho, sem uma base científica aparente para isso, que Portugal é um país de médios, de extremos, mas com poucos jogadores de área tanto na defesa como no ataque. É uma falácia, um exagero ou há mesmo algum tipo de fundamento? 

Luís Freire: Ainda ontem, olhamos para o nosso onze e temos um guarda-redes que está a jogar na Segunda Liga, um central que está a jogar na Segunda Liga, um lateral esquerdo que está a jogar na Segunda Liga, um lateral direito que está a jogar na Segunda Liga. O nosso ponta de lança não, seja um ou seja outro, mas às vezes não se está a apostar tanto nos jogadores em determinadas posições. Mesmo pontas de lança há poucos a jogar na Primeira Liga. Essa falta de aposta nessas posições faz com que, se calhar, médios conseguimos apontar aqui 12 ou 13 que podem jogar nos sub-21 com rendimento alto e se calhar avançados apontamos 6 ou 7, se calhar centrais apontamos 6 ou 7. Há qualidade, não há quantidade, porque também não estão a chegar a contextos muito altos. Penso que não é uma questão de qualidade, é uma questão de aposta e de oportunidade. Temos agora o Chermiti, que foi para o Rangers, e tem 15 golos no Rangers. O [Rafael] Nel fez agora uns golos também na Liga dos Campeões, o Rodrigo Ribeiro fez dois golos na Alemanha, o [Gustavo] Varela fez seis ou sete na oportunidade que teve na Primeira Liga. As oportunidades têm que surgir nessa posição também. Eu penso que o treino em Portugal também tem que ser mais focado nas áreas, sinceramente. Olhando em retrospectiva para o que fiz em alguns momentos da minha carreira e para o que ando a fazer nos últimos tempos, é olhar muito mais para as áreas, seja a defender ou atacar. É nas áreas onde se resolvem os jogos e acho que o nosso treino tem que evoluir para as áreas, honestamente. 

«O Mateus Fernandes é um jogador mais completo na perspectiva física e técnica e eu penso que o futebol moderno tem que evoluir um bocado para isto».

Luís Freire
Luís Freire Portugal
Fonte: FPF

Bola na Rede: Dá-se muita capacidade de chegar lá e pouca capacidade para depois definir?

Luís Freire: Sim, acho que na formação é importante trabalhar nas áreas. As áreas é onde se definem os jogos. Nós temos médios e extremos porque também temos um treino muito orientado para o drible, para a posse, para a qualidade técnica, mas depois, tudo o que se passa dentro das áreas, tudo o que é contacto nas áreas, tudo o que é desmarcação nas áreas, tudo o que é capacidade física nas áreas e os primeiros toques nas áreas, de esquerda, de direita, de confronto no ar, o ataque à bola, a desmarcação, o contra-movimento na área, estes princípios… Olhando para a escola portuguesa tradicional de que eu faço parte, penso que nós, treinadores portugueses no geral, temos cada vez mais de olhar para as áreas, porque temos que formar grandes centrais e temos que continuar a formar grandes pontas de lance. Fazem falta ao nosso futebol. Nós olhamos para a Primeira Liga e não temos defesas centrais [portugueses sub-21] a jogar regularmente. Pontas de lança a jogar regularmente, temos o Varela, que começou a jogar mais  na segunda parte da época, mas não há muitos. Guarda-redes, tivemos o André [Gomes] no Alverca. E penso que há qualidade em todos os setores.

Bola na Rede: Pensando nos centrais, muito se fala do perfil de central moderno, com muita capacidade de sair a jogar. O facto de, na formação, os principais clubes jogarem tanto tempo em ataque organizado, com mais bola, faz com que os centrais tenham mais dificuldades no que são princípios defensivos? 

Luís Freire: O central moderno é um central que é muito bom com bola. Já não estamos nessa fase, na minha opinião. Estamos numa fase onde o sem bola e o com bola são muito importantes. Portanto, tendo também qualidade nos médios, que também temos, a parte defensiva dos centrais também é importante, muito importante. E penso que hoje em dia, e nós vemos as melhores equipas do mundo, o Paris Saint-Germain, o Arsenal, o Bayern de Munique são equipas com muita mobilidade, muita variabilidade no seu jogo, muitas trocas, muita criatividade, e isso também faz com que alguém tenha que sustentar isso tudo. No futebol moderno, não quer dizer que a parte com bola agora não interesse, claro que interessa, mas vemos cada vez mais muita criatividade do meio-campo para a frente. Vimos agora o Paris Saint-Germain e o Bayern Munique, um jogo onde poucas vezes se saiu a jogar. Não deixou de ser um jogo espetacular e ofensivo, mas poucas vezes as equipas arriscaram sob pressão, se repararmos. Está a mudar e ao mudar, beneficia-se a criação de centrais com a capacidade atlética, física, velocidade, posicionamento, saber estar, coordenação da linha. Depois com bola também. Na minha visão, e isto é a minha opinião e não quer dizer que haja colegas que pensem ao contrário e está tudo bem, temos que olhar para os defesas centrais na amplitude.

Bola na Rede: Vivemos uma nova era da fisicalidade e da capacidade atlética?

Luís Freire: Não digo uma nova era. Ontem, e pensando em fisicalidade e capacidade atlética, tínhamos o Gonçalo Moreira, e depois chegámos a ter o Mathias [de Amorim] e o Gonçalo juntos, que não são jogadores fisicamente altos, fortes e possantes. Depois tivemos também o [Geovany] Quenda, o [Carlos] Forbs e o Afonso [Moreira] Tem que haver uma mistura. Também não pode haver só jogadores deste ADN mais técnico. Acho que é preciso uma mistura. O Mateus [Fernandes] é um jogador mais completo na perspectiva física e técnica e eu penso que o futebol moderno tem que evoluir um bocado para isto. Físico e técnico.

Bola na Rede: Um jogador mais completo? 

Luís Freire: O Forbs, o Quenda, o Afonso, o João Costa, o Saviolo são todos jogadores muito rápidos e possantes  e a fisicalidade deles é muito forte. Em determinadas posições, acho que a parte física é importante. Os centrais, como já referi, acho que é uma delas.

«Se calhar foi Inglaterra que atraiu o Mateus Mané e nós recuperámos um português que nasceu cá e esteve cá até aos sete anos».

Luís Freire
Luís Freire Portugal
Fonte: Edmilson Monteiro / Bola na Rede

Bola na Rede: Olhando para o balneário, que jogadores é que mais o surpreenderam quando os viu presencialmente nas sessões de treino? 

Luís Freire: Podia responder à pergunta, mas acho que não me fica bem, até porque todos eles estão a mostrar qualidades, cada um à sua maneira, cada um à sua perspetiva. As minhas opções também vão respondendo um bocadinho a essa pergunta. É ver o que é que tem acontecido na nossa seleção, ver quem é que tem jogado, quem é que tem entrado, quem é que tem sido convocado. Para algumas pessoas pode ser uma surpresa. Para mim, que estou a vê-los e confio neles, penso que já não há tanta surpresa, senão não estavam aqui. Portanto, é ver essas opções e ver que há qualidade. Há jogadores que estão na Segunda Liga, e se estão a jogar nos sub-21 e estão na Segunda Liga, então têm qualidade para a Primeira Liga. Não pode haver dúvidas disso. Têm qualidade para a Primeira Liga.

Bola na Rede: Há uma base de recrutamento também muito grande de jogadores fora de Portugal e de alguns jogadores com dupla nacionalidade que foram captados pela seleção. Este trabalho, um bocadinho de bastidores, de recrutamento, de análise, de verificar  jogadores em campeonatos mais periféricos em relação à Primeira e Segunda Liga, também é importante?

Luís Freire: É muito importante. Nós temos na Federação um gabinete totalmente de scouting e prospeção, que vai pontuando determinados jogadores e acompanhando a situação deles familiar, pessoal e vontade de representarem Portugal. Depois há ou não o nosso interesse e há ou não o interesse do outro lado. Nós queremos conjugar tudo: O nosso interesse, a qualidade deles e o interesse deles para poderem vir. Mas há um acompanhamento, sim. Há um acompanhamento e há um triar. Temos o caso do Fábio Baldé, que ontem marcou em Toulon. Temos a questão do Mathys de Carvalho também, que estamos a acompanhar, no Lyon. Temos agora o Saviolo, que optou por Portugal, o Mateus Mané. São os casos mais visíveis, mas daí para baixo, também nos sub-19, sub-20, há um acompanhamento de vários jovens e a chamada deles?.

Bola na Rede: E olhando no sentido contrário, o que é que é preciso fazer para que os jogadores que representam Portugal nas camadas jovens com dupla nacionalidade, continuem a representar a seleção? Há algum tipo de trabalho especial ou é um assunto que não é uma questão?

Luís Freire: Não, não há [trabalho especial]. É a vontade deles. Estamos sempre dependentes da vontade deles, não é? Eles podem sentir mais o nosso país. Tivemos o caso do Fábio [Baldé], que estava nos sub-19 na Alemanha. Foi desafiado por nós para vir para Portugal e disse logo que sim, porque tinha familiares portugueses, porque tinha raízes portuguesas, porque para a família dele foi uma emoção. Ele, sendo de Portugal, na sua família, iria representar o nosso país.Fez-lhe mais sentido que continuar a representar a Alemanha. O Mateus Mané é português. Se calhar foi Inglaterra que o atraiu e nós recuperamos um português que nasceu cá e esteve cá até aos sete anos. 

«Os sub-17 foram campeões do mundo naquela idade e não podemos achar que não aconteceu nada. Aconteceu alguma coisa extraordinária, única e que precisa continuar a ser estimulada». 

Luís Freire
Luís Freire Portugal Sub-21
Fonte: FPF

Bola na Rede: Foi durante o seu ciclo na seleção que a geração dos sub-17, vamos chamar-lhe assim, teve o seu ápice com a vitória no Mundial e já integrados nos sub-21. O que é que estes jogadores trouxeram à equipa?

Luís Freire: Muitos não temos. Temos um jogador, o Daniel Banjaqui. 

Bola na Rede: Mas acredito que também estejam nas suas cogitações, mais cedo ou mais tarde.

Luís Freire: Sim, nós estamos a acompanhar o trajeto. Sabemos que é importante dar-lhes oportunidades porque acreditamos que aquela geração de sub-17, que é campeã do mundo, no futuro pode dar alguns jogadores à Seleção A. Mas para isso precisa de haver aposta. Foram campeões do mundo naquela idade e não podemos achar que não aconteceu nada. Aconteceu alguma coisa extraordinária, única e que precisa continuar a ser estimulada. Nós, sub-21, estamos cá para observar e para dar-lhes o estímulo, dentro daquilo que são os nossos objetivos e dentro daquilo que vai ser o trajeto deles. Puxámos agora o Banjaqui que está a ter um rendimento muito alto connosco, que é a realidade, e mostra que está preparado. Acredito que possa haver mais, um ou dois, vamos ver no futuro também. Neste ciclo não vai haver muitos, mas pode haver mais um caso ou outro.

Bola na Rede: É fácil integrar jogadores com uma diferença de idade ainda relativa ou nem sequer se pensa nisso? Sente-se diferença no balneário?

Luís Freire: Eu não penso na idade, eu penso na qualidade deles, penso no que a gente acredita que eles podem atingir também no futuro. Não há essa situação de idade. Claro que estamos num período de formação, ou seja, de 17 para 21, ou de 18 para 22 são quatro anos numa idade muito jovem. É diferente de 24 para 28, 28 para 32. Estamos numa fase em que estavam a jogar sub-19 e queremos pô-los no profissional, no patamar de Primeira Liga, de boa Primeira Liga. Têm que andar rápido, tem que evoluir rápido, tem que mostrar que estão preparados. O Daniel Banjaqui tem provado isso, nos jogos que tem feito. 

«Rodrigo Mora e Geovany Quenda? Esta juventude precisa de respirar, precisa de alegria, precisa de paixão, precisa daquilo que os fez chegar onde chegaram». 

Luís Freire
Luís Freire, Portugal Sub-21
Fonte: FPF

Bola na Rede: Olhando para jogadores com mais experiência de Primeira Liga, também já com chamadas à seleção principal, o Rodrigo Mora e o Geovany Quenda, até pelo destaque que têm em clubes grandes em Portugal,, são dois dos principais estandartes da seleção. Qual é a importância que dois jogadores com tanto mediatismo, com tanta visibilidade, têm para um grupo como este? 

Luís Freire: É importante, mas não depende unicamente deles. A responsabilidade que eles têm, os outros têm também. Eles têm de estar leves na seleção, têm de estar motivados. Eles estão dentro de um grupo, onde eles têm as suas características, as suas capacidades, as suas qualidades, o seu talento, a sua magia, são admirados, são seguidos. Mas aqui dentro, todos são importantes. Eles têm essa importância como os outros também têm essa importância. Só têm que trazer o melhor deles acima dando o máximo. Se derem o máximo com a qualidade que têm, acredito que as coisas possam correr bem e depois são reconhecidos a seguir. Não vale a pena pormos um peso demasiado grande nesta juventude. Esta juventude precisa de respirar, precisa de alegria, precisa de paixão, precisa daquilo que os fez chegar onde chegaram. O acarinhar, não é o exigir, exigir, exigir. O acarinhar é dar-lhes apoio e libertá-los, apoiando-os. Libertá-los, exigindo, sim, atitude e compromisso. Nesse sentido, temos de ser muito exigentes, mas não têm obrigações de chegar aqui e fazer tudo. A equipa é que tem que conseguir tudo e eles têm que querer ajudar em tudo. 

Bola na Rede: Nesse apoio, dar espaço ao erro, para existir e para conviver com ele de uma forma mais saudável do que no futebol profissional, também é uma ajuda? 

Luís Freire: Não vamos confundir. Eu acho é que estes jogadores, para renderem ao máximo, precisam disto. Nós já estamos no futebol profissional. Estes jogadores são todos profissionais. A exigência aqui é ganhar ou ganhar. Não há muito espaço. A gente tem que ser qualificados e temos que representar Portugal. Em alguns deles, estamos a falar de jogadores de seleção A. Agora, para eles renderem, não é isto que interessa. O que interessa para eles renderem é eles perceberem que estão num grupo. Têm que estar felizes, têm que estar soltos, alegres, tranquilos e não vai passar tudo por eles. Passa tudo pela equipa. Eles vão ser mais uns que vão ter que dar o máximo para que a eles também corra bem. Mas, se não forem eles, vão ser outros. A responsabilidade não é em dois ou três, é de todos. A responsabilidade tem que ser partilhada por todos. E a alegria de visitar Portugal é, de igual forma, partilhada por todos.

«O mister Roberto Martínez e a equipa técnica têm sido fantásticos no apoio que dão à nossa equipa e no acompanhamento que fazem».

Luís Freire
Luís Freire
Fonte: FPF

Bola na Rede: Já há quatro jogadores dos sub-21 chamados à seleção A. Qual é o espaço de distância entre o nível da seleção A e da seleção Sub-21? 

Luís Freire: Não vou fazer comparações porque não me parece justo nem tenho essa percepção. São dois espaços que trabalham juntos, que são ligados e que querem também proximidade. E é importante haver essa proximidade entre a seleção A e a Sub-21. O mister [Roberto] Martínez e a equipa técnica têm sido fantásticos no apoio que dão à nossa equipa e no acompanhamento que fazem. Muito, muito, muito próximos. Acredito que isso tem sido uma mais-valia para nós, essa comunicação. Mas não há aqui comparações. Aqui tenta-se dar o máximo para uma geração que está no seu momento de sub-21. Lá é o alto patamar do nosso futebol. Nós aqui queremos prepará-los em tudo para podermos ir vendo estes jovens na seleção A. Com mais velocidade ou menos velocidade, isso vai ser natural. 

Bola na Rede: Em relação ao processo de trabalho com a equipa técnica de Roberto Martínez e da seleção principal, como é feita essa gestão? Pergunto também se há algum tipo de conversa com o sentido de terem algum tipo de semelhanças no trabalho e na forma como as equipas jogam em campo. Há algum tipo de semelhança ou de padrão que queiram ver replicado? 

Luís Freire: Não. Não faz sentido haver esse tipo de padrões nem de semelhanças, na minha opinião. Há um estilo de jogo português, que é transversal, dos sub-15 à seleção A e que é facilmente identificável. Uma equipa que quer atacar, quer marcar golos, quer ser ofensiva, quer ter maior domínio, porque tem talento, tem qualidade e tem jogadores para isso também. Queremos que as relações tenham isto. A seguir, as gerações têm os seus pontos fortes. Se eu tiver três pontas de lança a jogar a um nível Champions, eu tenho que jogar com um ou com dois na minha geração. Se eu tiver quatro extremos a jogar Champions, os extremos são importantes por fora. Penso que já me fiz entender. Se eu tiver uma geração com quatro centrais a jogar competições europeias constantemente e dos melhores da Europa, se calhar tenho que jogar com dois ou com três. Se calhar tenho que ir ao terceiro. É beneficiar o talento que temos. Beneficiar, dar palco ao talento que temos. Esse é o nosso objetivo. É formar para todas as posições, mas beneficiando aquelas que ainda têm mais talento. 

«O exemplo do Matheus Nunes deveria ser mais referido, porque é uma história inacreditável».

Luís Freire
Luís Freire, Portugal Sub-21
Fonte: FPF

Bola na Rede: Olhando para a seleção principal, uma pergunta rápida, até porque a altura impera. Quais são as expectativas para o Mundial? 

Luís Freire: São as de todos os portugueses, são aquelas que nós sabemos. Vamos para um Campeonato do Mundo que é o melhor evento do mundo, seja desportivo ou não. É desejar a maior sorte, principalmente. A todos, a toda a comitiva portuguesa. Que orgulhem o povo português e, no final, todos fiquemos muito orgulhosos da nossa prestação como ficámos na Liga das Nações. Fiquei mesmo muito orgulhoso. Ainda não estava cá, mas lembro-me do orgulho que isso me deu. Espanha, Alemanha, termos conseguido levantar o troféu na Alemanha. Agora queremos os mesmos sentimentos e as mesmas alegrias, sabendo que o contexto ainda é mais difícil, mas tendo esse sonho e esse objetivo de trazer a taça para nós. 

Bola na Rede: Apenas um pequeno pormenor. Orientou, numa fase muito precoce da carreira, o Matheus Nunes, que agora vai ao Mundial como lateral. Já na altura imaginava que ele poderia render também esta posição?

Luís Freire: O Matheus tem o mérito completo daquilo que fez. Lembro-me do Matheus, ainda no Ericeirense, nos juvenis e eu estava nos séniores, salvo erro. Depois, no Estoril, ele foi meu jogador. Estava nos sub-23 e foi chamado. Jogou, brilhou, rapidamente foi para o Sporting, rapidamente se impôs no Sporting, foi campeão no Sporting, rapidamente foi para o Premier League, rapidamente foi para o Manchester City. Portanto, é tudo mérito do Matheus. Uma história absolutamente fantástica que faz sonhar todos os jogadores. Eu penso que o exemplo do Matheus deveria ser mais referido, porque é uma história inacreditável. Quem quiser estudar a forma dessa história, acho que é um exemplo fantástico para a juventude portuguesa. Aos 18/19 anos estava na Distrital e aos 26/27, está a disputar o Mundial pela seleção portuguesa e é titular no City. E sim, fomos vendo que havia ali qualidade diferenciada. Agora, se me dissessem isto… Nem sei se ele previa isto tudo, mas sem dúvidas que tem o mérito de tudo o que tem feito. 

«Às vezes, não chega fazer tudo bem. É preciso validar, e o título, às vezes, valida essa qualidade».

Luís Freire
Luís Freire
Fonte: FPF

Bola na Rede: Olhando agora para o Mundial, mas o de 2030, um ciclo daqui a quatro anos e um Mundial importante desde logo por também ser jogado em Portugal. Estes sub-21, na altura, vão ter mais quatro anos, mais experiência, mais maturidade, mais sentido competitivo. Podem ser uma base muito interessante para Portugal para esse Mundial? 

Luís Freire: Sim. Nós, através da Estrutura Técnica  temos um projeto, o Futebol 2030, já a pensar nesse Mundial 2030 e no que podemos fazer para que um conjunto de jogadores alargado possa jogar determinadas competições que lhes permitam estar a alto nível para poderem fazer parte desse Mundial. E acredito que esta geração, e há perguntou o que é que os títulos podem acrescentar? Podem acrescentar validação. Às vezes, não chega fazer tudo bem. É preciso validar, e o título, às vezes valida, essa qualidade. Toda a gente sabe que há, e quando ganhamos, parece que ainda há mais.

Bola na Rede: Essa validação é interior, do jogador e da equipa técnica, ou exterior?

Luís Freire: É exterior. É a percepção geral que, provavelmente, obrigará a essa aposta cada vez mais efetiva nestes jovens, sejam eles os mais mediáticos ou os menos mediáticos. Se calhar os menos mediáticos também vão passar a ser mais mediáticos se ganharem. Então, acredito que há um trajeto a ser feito, onde estar nas decisões e competir para ganhar, é importante para chegarmos a 2030 com jogadores claramente preparados para jogar o Mundial. 

Bola na Rede: Para concluir, a pergunta final que costumamos fazer. O que é que para si é mais importante antes de a bola entrar na rede?

Luís Freire: As pessoas que a metem lá dentro.

Diogo Ribeiro
Diogo Ribeirohttp://www.bolanarede.pt
O Diogo tem formação em Ciências da Comunicação, Jornalismo e 4-4-2 losango. Acredita que nem tudo gira à volta do futebol, mas que o mundo fica muito mais bonito quando a bola começa a girar.

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