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Duarte Nuno Pereira Gomes. Uma das referências da arbitragem portuguesa, que depois de “arrumar o apito” continua ligado aos relvados com o projeto Kickoff, uma lufada de ar fresco num ambiente cada vez mais tóxico em torno do futebol. Duarte Gomes explica que o objetivo deste projeto é humanizar o árbitro e esclarecer os lances mais polémicos na arbitragem. Sem meias palavras, lugares comuns ou frases feitas, falamos ainda do Apito Dourado, da cultura desportiva em Portugal, das ameaças constantes aos árbitros e da inércia destes na defesa da própria classe, do que o VAR ainda não resolve e de uma final da Liga dos Campeões muito especial.

– Apito Dourado expôs as “maçãs podres” –

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Bola na Rede: Duarte, de que é que tens mais saudades dos tempos em que arbitravas?

Duarte Gomes: Tenho saudades de muitas coisas. Sobretudo, da adrenalina que é a carreira intensa na arbitragem. Nomeadamente, com os colegas, os treinos diários, a partilha de momentos de diversão, estágios, cursos, a preparação do jogo. Aquela sensação boa de fazer um jogo, o pós-jogo, o desafio de superar um jogo mal efetuado.

Bola na Rede: Quando eras nomeado para um jogo, tinhas algum ritual de preparação?

Duarte Gomes: Sim. Fui aperfeiçoando ao longo dos anos e melhorando o meu nível de preparação em função dos conhecimentos que ia adquirindo ao longo da carreira e também da informação que íamos recebendo das equipas. Nós tínhamos um protocolo muito rigoroso e profissional desde o dia da nomeação.

Bola na Rede: Como era esse protocolo?

Duarte Gomes: Entrávamos logo em contacto uns com os outros, a equipa que era nomeada para o jogo, e a partir daí começava um countdown: a preparação logística, o local do jogo, a ida, o estágio, combinar tudo em relação à parte operacional. Em relação ao jogo, o scouting: começávamos a preparar as equipas que íamos fazer sobre vários pontos de vista. Eu fazia sempre uma reunião com os meus colegas na manhã do jogo. Durava cerca de uma hora, com uma apresentação em powerpoint com os detalhes completos sobre as equipas, sobre o estádio, sobre o ambiente que eu esperava, sobre o histórico de rivalidades, sobre questões mais táticas, bolas paradas, jogadores mais rápidos, mais tecnicistas. Víamos tudo ao pormenor porque a ideia era estar o mais preparado possível.

Bola na Rede:: Vocês também assinalavam os jogadores à beira da suspensão se levassem um cartão amarelo ou jogadores problemáticos?

Duarte Gomes: Jogadores problemáticos sim, saber qual era o jogador mais difícil, aquele que cai na área com mais facilidade, aquele que chateia mais o árbitro. É importante para percebermos com o que vamos lidar. Jogadores com exclusões nunca queríamos sequer saber e se tínhamos essa informação tentávamos torná-la irrelevante.

Bola na Rede: E de que é que tens menos saudades?

Duarte Gomes: Tenho menos saudades daquilo que ainda hoje vemos acontecer em dimensões de explosão social bastante exponenciadas. Este ruído todo exterior, a perturbação da vida privada, aquela sensação que as pessoas vão criando em ti que é muito injusta porque tu sabes que fizeste o teu trabalho o melhor que podias e sabias e, quando erras, há sempre aquele olhar de desdém de quem acha que terás feito de propósito. É o olhar que sugere premeditação. Hoje em dia, com o tal escrutínio que existe, com a dimensão que o jogo assume em termos mediáticos, com as redes sociais, que exponenciaram esta partilha de informação, toda a gente opina.

Bola na Rede: Na tua opinião, os árbitros estavam mais protegidos, porque menos expostos, antes da criação das redes sociais?

Duarte Gomes: Sem dúvida. E quando dizes protegidos dizes no sentido em que o seu nome, a sua imagem, os seus emails, as suas contas de redes sociais ou não existiam ou quando existiam, estavam na fase inicial e não eram divulgados. Há muita dificuldade em distinguir a crítica à competência do ataque à integridade. São duas coisas completamente distintas. Qualquer profissional pode e deve ser criticado de forma legítima em modo próprio e no local certo. Depois há aquela linha que separa tudo isso do ataque à idoneidade, à família, à invasão pessoal com partilha de elementos privados para as redes sociais e com um “bar aberto” de pessoas que te querem atacar, pressionar-te e magoar-te para te deixar abatido.

Bola na Rede: Casos como o “Apito Dourado” perpetuaram o estigma da suspeita sobre os árbitros?

Duarte Gomes: Acho exatamente o contrário. Acho que o Apito Dourado foi uma benção porque veio expor todos aqueles, e não apenas árbitros porque tratou-se de muito mais do que isso, que de uma forma comprovadamente ilegal, ou não comprovadamente ilegal mas altamente imoral, tentaram tirar dividendos desportivos de formas desvirtuadas. Expôs nomes, expôs os rostos, expôs as vozes das gravações e todos nós vimos, ouvimos e lembramos. Foi importante haver essa diferenciação porque, por exemplo, já estava na 1ª Liga quando esse escândalo rebentou e foi importante perceber e que se percebesse quem é que não fazia parte do cesto de algumas maçãs podres que existiam no futebol.

Bola na Rede: Alguma vez foste abordado para tentativas de aliciamento?

Duarte Gomes: Nunca, em 25 anos de carreira. Nem uma tentativa indireta, nem direta, nem por via de alguém, nem uma insinuação. Nunca, nunca. E tenho muito prazer em dizer isto publicamente. Isso de facto acontecia muito naquela altura, anos 80, anos 90, era o modus operandi de atuar no futebol. Esta era a verdade, não vale a pena escondê-lo, e depois havia quem cedesse ou não. Nem se trata de corrupção ativa, era mais a questão do favor, da carreira, da promoção, do jeitinho.

Bola na Rede: Por que é achas que nos programas de comentário desportivo se está mais tempo a falar de arbitragens do que do jogo jogado?

Duarte Gomes: É profundamente cultural. O futebol é uma das montras maiores da sociedade em termos de posicionamento, educação, formação e cultura. É com muita pena que digo isto mas nós culturalmente somos um povo que, pelo que se manifesta através do futebol, estamos a anos-luz daquilo que podemos ser em termos de evolução, mentalidade, educação, saber estar, respeito.

Bola na Rede: A isso acrescenta-se ser um fenómeno altamente emocional.

Duarte Gomes: Exatamente. As pessoas além de não estarem preparadas culturalmente para discutir um fenómeno desta importância, são muito afetadas pela clubite, pelas suas emoções. Por isso é que perdem muito tempo no acessório, desligando, muito injustamente para quem joga, daquilo que é essencial, que é esse protagonismo que eles deviam ter.

Bola na Rede: Mas esses protagonistas às vezes também recorrem às arbitragens para justificar maus resultados.

Duarte Gomes: Sim, a verdade é que nós passamos a vida a falar de arbitragens porque dá muita jeito a toda a gente justificar os insucessos desportivos com erros de árbitros, que de facto existem mas não são diferentes, se virmos a uma grande distância, dos erros que os jogadores cometem. Passes atrasados, bolas mal batidas pelos guarda-redes, frangos, falhanços à frente da baliza, substituições mal feitas, esquemas táticos mal feitos. São erros que acontecem. O problema é que, aos olhos das pessoas, o erro do árbitro é premeditado e os outros faz parte. Esta inversão de valores diz muito daquilo que somos enquanto pessoas e da forma como estamos na vida.

Bola na Rede: De quem é a culpa disso?

Duarte Gomes: É de todos nós. Primeiro, a questão da educação e de saber estar. As pessoas não têm uma educação orientada para respeitar a adversidade e saber aceitar um resultado negativo. Mais, de saber aceitar um resultado negativo, ainda que por variáveis que não dominam e que até tenham sido prejudicados. Porque entre o prejuízo e o benefício, no final da época as contas estarão bem feitas com certeza. É também muito exponenciado por dirigentes de clubes e staff que têm voz ativa no futebol, têm poder de formar opinião e que a deformam. É também exponenciado por alguns comentadores que, percebendo muito pouco de arbitragem, falam de forma demasiado agressiva, muitas vezes de forma errada ou até mentirosa, deformando a opinião pública. E também é culpa de quem assiste a tudo isto de forma impávida e serena e não tem nem a coragem nem a determinação de tentar evitar que isto aconteça e punir isto devidamente. Portanto, andamos num círculo vicioso de punição, de sensação de impunidade, em que tudo é permitido para fazer exatamente o oposto do que o futebol pretende, que é valorização.

Bola na Rede: Com os árbitros a terem o seu trabalho escrutinado de forma minuciosa, não faria sentido que estes também se pudessem defender publicamente?

Duarte Gomes: A comunicação é fundamental e nos tempos que nós vivemos hoje, de redes sociais e em que toda a gente fala e toma a sua posição, como é óbvio é fundamental que eles falassem. Não sou daqueles que defende que deve haver uma comunicação jogo a jogo. Sabes qual é o problema de se falar muito? É banalizar o discurso. Portanto, falar pouco e falar bem.

Bola na Rede: E a verdade é que os árbitros também têm uma estrutura.

Duarte Gomes: Sim, o Conselho de Arbitragem. Em algumas situações, era importante que houvesse uma comunicação para o exterior em relação a algumas situações de jogo. Não apenas as mais mediáticas, mas de uma forma estratégica e abrangente, em que fossem esclarecidas todas as questões técnicas de maior relevo. A questão é que num setor como o da arbitragem, que sempre foi muito suspeito, não falar só acumula a suspeição. Mostrar, explicar, esclarecer, mesmo que assumindo o erro, é fundamental para aumentar a transparência. A arbitragem tem de se mostrar mais aos adeptos para matar os fantasmas e claramente dizer que nesta casa não se esconde rigorosamente nada.

Bola na Rede: Somos dos campeonatos com menor tempo útil de jogo. Como se pode melhorar este aspecto?

Duarte Gomes: Isso implicava uma grande reflexão a nível dos árbitros, jogadores e treinadores, e uma maior e ainda mais difícil ao nível do posicionamento dos adeptos. É muito engraçado dizer que o futebol inglês é fantástico e que o tempo útil de jogo lá é altíssimo e que as faltas raramente chegam às 20. Mas isto acontece, primeiro, porque as arbitragens são menos defensivas. E são menos defensivas porque são menos atacadas no exterior. Para que tenhas uma ideia, não há um único jornal desportivo em Inglaterra. Portanto, está tudo dito. Depois, porque não há uma tendência do jogador e do treinador de protestar a toda a hora, de cair fácil com uma mão agarrada à cara quando o toque é na barriga e de simular. Se todos nós, que aparentemente somos fãs incondicionais de tempo útil de jogo, na prática o conseguimos implementar, sim as coisas melhoram.

Bola na Rede: Achas que a crítica é também porque quem fala não tem noção do trabalho de quem está dentro de campo?

Duarte Gomes: Isto tem um pormenor engraçado, só para teres uma ideia, toda a gente que diz sobre o tempo útil que cá é só faltas e faltinhas, apitam tudo e o futebol inglês é que é. Se puseres essa pessoa no Benfica-Sporting ou no Benfica-Porto, há uma pequena falta no meio-campo que o árbitro não marca e a outra equipa marca um golo, cai o Carmo e a Trindade. Porque aquela faltinha, aquilo que a pessoa não quer que se marque, tinha que se marcar. E vão ver aquilo em repetição em 50 ângulos. Isto é tudo um bluff cultural, nós somos uns eternos wannabes. Nós queríamos ser como eles, mas não somos. Dizer que isto é uma responsabilidade exclusiva dos árbitros é errado, é também dos árbitros mas é sobretudo do futebol português, da sua estrutura interna e da forma como é visto cá fora. Até pela imprensa.

Bola na Rede:: Em cada jogo, o desafio para um árbitro é manter o equilíbrio entre não ser demasiado rigoroso nem ser demasiado brando?

Duarte Gomes: É um dos desafios, sim. Acima de tudo, o árbitro não se pode descaracterizar enquanto pessoa. Tal como o jogador nunca o pode fazer. Todos os jogadores e os treinadores, e tu já viste isso em campo, na forma como reagem, como disputam a bola, são o reflexo da sua personalidade. Portanto, os árbitros também. Para além desse desafio de manterem a sua identidade, têm também de gerir a sua autoridade. E se tu tiveres uma semana muito má, se estiveres num processo de divórcio, um problema financeiro, um despedimento, o falecimento de alguém próximo, o teu estado de espírito pode estar alterado e tu tens de saber muito bem desligar disso e deixar essa situação à porta do balneário.

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