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«Identifico-me muito mais com os portugueses do que com os franceses. Devo muito a este país»

Grégory Arnolin, 40 anos, personifica o exemplo de perseverança de quem fintou o destino para cumprir os seus sonhos: nascido e criado no (complicado) bairro de Montfermeil, nos subúrbios de país, o “central”, presença incontornável – e temida – nos relvados portugueses no início do século, fez carreira no norte do país e em Gijón, onde semanalmente media forças com melhores avançados do mundo. Descalçadas as chuteiras, Grégory assentou no país que adoptou como seu, e mantém-se ligado ao futebol como gestor de carreiras na Proeleven. O Bola na Rede regressou ao passado com o ex-jogador, internacional por Martinica, e que fechou o seu percurso nos relvados na improvável Índia.

Bola na Rede: Olá, Grégory. Estou a ver que trocaste as chuteiras pelo fato… Continuas ligado ao futebol?

Grégory: Sim, faz cinco anos que deixei os relvados e agora trabalho na agência de jogadores Proeleven, com o Carlos Gonçalves, que foi meu empresário e sempre me disse que iria trabalhar com ele quando terminasse a carreira. E foi isso mesmo que aconteceu… Já estou a trabalhar neste projeto há muito tempo.

Bola na Rede: O Carlos Gonçalves tem recrutado vários ex-jogadores que acompanhou para colaborarem na empresa. É normal criar-se uma relação tão forte, de amizade, entre empresário e jogadores, como acontece neste caso?

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Grégory: A nossa equipa tem muitos ex-jogadores: como é o caso do Miguelito, do João Vilela, do Sérgio Organista, do Carlos Coelho – que é um pouco mais velho e chegou a jogar na selecção portuguesa –, o Miguel Herlein, o Simão Coutinho… Enfim, essa é a filosofia do Carlos Gonçalves, confiar nas pessoas que foram jogadores e que conhece bem. Ele considera que isso pode ser uma vantagem para a empresa. Acima de tudo são pessoas em quem ele confia para fazer bem este trabalho. Mas é verdade que temos muitos ex-jogadores… Dá perfeitamente para fazermos um joguinho e de certeza que não perdemos (risos).

Bola na Rede: Vamos falar do teu percurso. Nasceste em Paris, França, e foi lá que passaste toda a tua infância e juventude. Quando eras crianças já imaginavas ter uma carreira profissional como jogador de futebol?

Grégory: Eu venho de um bairro muito problemático de Paris, o Montfermeil, e quem nasce nesse sítio tem apenas dois caminhos: o do crime – da droga, da prisão – ou o dos estudos e do futebol. Eu escolhi o caminho que achei mais acertado. Era um jovem focado em estudar e ser jogador de futebol. E até havia lá no bairro jogadores muito melhores que eu, com mais talento, mas eu queria muito cumprir esse sonho e, graças a Deus, consegui. Não tive uma carreira extraordinária, é verdade, mas tive uma carreira sólida.

Bola na Rede: Montfermeil é um contexto social complicado. De certeza que te cruzaste com talentos que se perderam pelo caminho…

Grégory: Sim, tive amigos que tinham muito talento, mas que depois não conseguiram. Uns estão presos, outros morreram… Há muitos casos desses por causa do crime. O facto de ter conseguido… Sinto que esta minha vitória também é para aqueles que não conseguiram… E sinto muito orgulho no meu percurso, que foi muito difícil tendo em conta o sítio onde nasci.

Bola na Rede: As tuas características em campo revelavam essa garra. Podemos dizer que é o exemplo de um jogador que, mais que o talento, conseguiu chegar onde chegou graças ao trabalho?

Grégory: Exatamente. As condições sociais e familiares em que nasci não eram fáceis… Fui criado pela minha avó e passei por algumas dificuldades. Nunca me faltou comida no prato, é verdade, mas era tudo muito difícil. Felizmente escolhi o caminho certo. Cheguei à faculdade de Desporto e depois apostei tudo no futebol… Não tinha outra opção, e correu-me bem…

Bola na Rede: Onde fizestes a tua formação?

Grégory: No Red Star 93.

Bola na Rede: Mas ainda passaste pelo Paris Saint-Germain, não foi?

Grégory: Sim, mas pouco tempo, estive lá apenas seis meses. Quando cheguei ao Paris Saint-Germain foi como levar uma chapada… Havia muitos bons jogadores e eu era apenas mais um. Eles fazem uma triagem muito seletiva e era muito difícil destacar-me. Senti que para seguir uma carreira como jogador tinha de dar um passo atrás e então decidi ir para um clube amador de Paris: o Villemomble. E acertei em cheio. Posso dizer que foi graças a esse clube que pude mostrar o meu valor e depois tive a oportunidade de me transferir para Portugal.

Bola na Rede: E chegas a Portugal também para um clube amador: o Pedras Rubras, que atuava no terceiro escalão. Como é que surgiu essa oportunidade?

Grégory: Foi uma pessoa que jogou muito tempo em Portugal que foi ver uns jogos meus, gostou e convidou-me. Eu estava muito indeciso, não é? Estava na faculdade, e Portugal era um país que não conhecia… A minha decisão foi tomada na véspera do início da época de exames, pensei: “Vou arriscar!”. E vim. Cheguei a Pedras Rubras e, a partir daí, descobri uma cultura completamente diferente. Hoje, não tenho dúvidas em afirmar que me identifico muito mais com os portugueses do que com os franceses. Quando cheguei a Portugal nem “bom dia” sabia dizer, mas as pessoas acolheram-me como se já fosse português. Isso é algo que nunca vou esquecer.

Bola na Rede: Quem nasce nos subúrbios de Paris, por vezes, é visto como “estrangeiro” no seu próprio país. A forma como foste recebido em Portugal surpreendeu-te?

Grégory: Realmente, é verdade. Provavelmente, em França olham mais para mim como estrangeiro do que em Portugal. São culturas completamente diferentes. O francês é muito frio e o português é o oposto, sabe receber bem. Dou-te um exemplo: quando cheguei a Portugal não sabia português e tinha de me desenrascar, não é? Pouco tempo depois de chegar fui às compras e perguntei informações a uma senhora de idade, mas eu só falava através de gestos… E então ela decidiu acompanhar-me até ao sítio para onde queria ir. Isso marcou-me bastante. É por isso que devo muito a Portugal, a minha carreira, aquilo que sou hoje. É verdade que as minhas raízes são em França, mas, 22 anos depois, fiz quase toda a minha vida aqui… E digo sempre que devo muito a este país.

Bola na Rede: No Pedras Rubras rapidamente destes nas vistas. Bastaram duas épocas para dares o salto para a 1.ª divisão. Foi outra surpresa?

Grégory: Eu sabia que em Portugal isso podia acontecer, que podia estar, num dia, a jogar na 3.ª divisão e, no outro, no futebol profissional e na 1.ª Divisão. Acho Portugal um país de oportunidades, onde não se cortam as pernas a ninguém. Aqui és julgado por aquilo que fazes dentro do campo. E se mostras as tuas qualidades, se os clubes gostarem de ti, então vêm contratar-te. Não existem preconceitos como em França.

Bola na Rede: E assinaste pelo Gil Vicente. Como é que surgiu essa oportunidade?

Grégory: Foi o Luís Campos, que era o treinador do Gil Vicente – e que mais recentemente era dirigente do Lille –, que viu algo em mim. E se uma pessoa como o Luís Campos gostou… É porque realmente tinha alguma qualidade (risos). Contratou-me e abriu-me as portas da 1.ª divisão. Foi aí que começou a minha caminhada no futebol profissional.

Bola na Rede: Foi um grande salto. Ainda te lembras como te sentiste na altura?

Grégory: Sim, foi um momento muito bom, inesquecível. Jogar na melhor divisão de um país como Portugal era um sonho tornado realidade.

Bola na Rede: E a adaptação a este novo contexto competitivo?

Grégory: Eu sou uma pessoa que gosta de aprender com os mais experientes e, por isso, todos os dias descobria uma coisa nova, melhorava e, depois, nos jogos, tentava mostrar o que tinha aprendido ao longo da semana. Foi assim que me adaptei. Com naturalidade deram-me a oportunidade de jogar, fui ganhando experiência, confiança, e, pouco a pouco, comecei a tornar-me mais regular dentro do campo. Mas o futebol, como tudo na vida, é uma aprendizagem… Ninguém sai de uma 3.ª Divisão pronto para jogar na 1.ª. Temos de ouvir, de aprender – e aprendi muito com o Luís Campos e com outros treinadores. Essa forma de pensar ajudou-me muito. E fiz quase 13 anos de 1.ª Divisão, por isso, alguma coisa devo ter feito bem. E posso dizer-te que aprendi coisas novas até ao último dia da minha carreira como futebolista.

Bola na Rede: Falaste do Luís Campos como um treinador que te marcou. Houve outros treinadores importantes na tua carreira?

Grégory: Sim, muitos. Mas tenho de dizer que o treinador que mais me marcou foi o Manuel Preciado, no Sporting de Gijón – um treinador que faleceu, uma história muito triste, mas que me marcou como um pai. Foi o treinador que tive mais tempo e marcou-me bastante pela pessoa que era e pelo treinador que era. Aprendi muito com ele. E depois tive outros bons treinadores: como o Luís Campos, de quem já falei, o Manuel Cajuda, o Rui Nascimento… o Sebastião Lazaroni, no Marítimo… E também tive o Zico, que foi meu treinador na Índia. Também fiz uma amizade fora do comum com o Zico, e ainda hoje falamos. Foi o último treinador que tive… Como costumo dizer, o melhor ficou para o fim. Não consigo destacar só um. Tive realmente uma ligação especial com o Manuel Preciado e com o Zico, mas aprendi com todos.

Bola na Rede: E do lado inverso? Alguma experiência mais negativa?

Grégory: Não queria dizer… (risos). Mas apanhei treinadores que falam contigo quando jogas, mas que deixam de falar quando não jogas. Apanhei assim alguns, mas a minha atitude era sempre igual, jogasse ou não, e isso ainda chateia mais este tipo de treinadores. Às vezes tenho dificuldade em compreender este tipo de comportamento, mas, enfim, cada um age da maneira que acha melhor. Compreendo que o treinador tem pressão, é constantemente julgado pelos resultados, mas se um dia for treinador – e neste momento não estou a pensar nisso – espero ser justo com todos. Sei que é difícil, mas vou tentar. Mas pronto, prefiro não citar nomes, mas apanhei alguns… Eu sou uma pessoa muito frontal, foi assim que fui educado, e é assim que sou e que prefiro que sejam comigo.

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