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Foi um dos talentos de uma geração vencedora do futebol de formação do Benfica e até nacional. Enquanto sénior, trilhou o seu caminho por muitos dos clubes históricos do nosso país e conquistou dois campeonatos nacionais da Segunda Liga. Nesta conversa, Luís Zambujo demonstra ao BnR que ainda tem garra e vontade para assumir novos projectos e pisca o olho até ao estrangeiro.

– Os primeiros passos no SL Benfica –

«Manuel Fernandes (…) já na altura se via que ia ser um craque, tanto dentro como fora dos relvados».

Bola na Rede [BnR]: Entraste para as camadas jovens do SL Benfica com apenas 10 anos. Como foi esse percurso até chegar ao clube da Luz?

Luís Zambujo [LZ]: Sim, é verdade. Cheguei ao Benfica com 10 anos, mas na altura, antes na altura o meu sonho nem era o futebol. Eu praticava motocross no Alentejo, em Moura, e até fui campeão da Península Ibérica e ligava mais a motas do que ao futebol. Entretanto, num torneio de verão, creio que foi no campo do Lusitano GC, no Campo Estrela, em Évora, fui fazer um torneio pelo Lusitano e estava um olheiro do Benfica que ligou aos meus pais e fui fazer um treino ao antigo Estádio da Luz. Lembro-me que, na altura, o mister José Morais e o mister Paisana, treinadores dos escolinhas, dizerem que a equipa estava praticamente fechada mas que me queriam ver, nem que fosse para ficarem com referências minhas. Nesse treino conjunto, com outros miúdos com 9 e 10 anos, fiz cinco ou seis golos e quiseram logo que eu ficasse. A partir daí entrei na estrutura do clube.

BnR: Para um jovem de Évora, foi difícil a adaptação a uma nova realidade? Vivendo longe dos pais, numa cidade maior, com nova escola e novas rotinas?

LZ: Sim, mas deixa-me dizer que andei durante três anos a fazer viagens entre Portel, a minha terra, e Lisboa, entre treinos e jogos eram três vezes por semana que fazia a viagem. Por isso, só a partir dos treze é que fiquei no Centro de Estágio do Benfica, mas já tinha três anos de clube e era dos mais antigos, senão mesmo o jogador com mais anos de caso. Lembro que, na altura, os juniores tinham já carinho e respeito por mim porque, apesar de ser mais novo, já estava lá há muito tempo e conhecia muita gente. Mas sim, foi um pouco difícil porque uma coisa é ir treinar e voltar para casa dos pais e outra coisa é ficar lá a viver. Mas é como eu já disse, os três anos de casa ajudaram-me bastante. Custou-me mais as rotinas, o mudar para uma escola onde não conhecia ninguém sem ser os meus colegas do Benfica. A cidade de Lisboa também era gigante e aqueles percalços de sermos abordados e até assaltados para nos roubarem óculos de sol ou a carteira também eram novos para mim. Contudo, faz parte do crescimento e, a partir daí, cresci tanto como jogador como homem.

BnR: Estiveste quase dez anos no Benfica, numa altura em que não havia ainda as instalações do Seixal. Como era viver no Estádio da Luz?

LZ: Viver no antigo Estádio da Luz foi uma experiência fantástica e os meus colegas que passaram por lá acredito que digam todos os mesmos. Vivias nas bancadas do estádio, num centro de estágio em que convivias com miúdos dos 10 aos 20 anos e às vezes estavas a ir para a escola e vias passar os craques da altura, como o João Vieira Pinto, Poborsky ou Michel Preud’homme. No centro de estágio tínhamos mesmo uma abertura para as bancadas e conseguíamos ver quase todos os treinos dos seniores e chegávamos a passar tardes a estudar nas bancadas do terceiro anel a ver o relvado. Foi fantástico, até mesmo o convívio com os sócios e ir ver outras modalidades como o hóquei, andebol e basquetebol. Era tudo ali, praticamente no mesmo sítio e isso é uma experiência única que vou guardar para o resto da minha vida.

BnR: Foste companheiro de equipa de muitos jogadores do nosso futebol e partilhaste os dormitórios do Benfica com eles. Existiam partidas entre vocês e praxes?

LZ: Sim, claro. Seja no centro de estágio ou mesmo no balneário, havia sempre aquelas partidas e praxes que eram normais e que ainda hoje acontecem em todos os balneários do mundo. Mas tínhamos um ambiente muito bom e éramos muito amigos. Claro que havia aqueles que queriam dormir mais cedo, outros mais antipáticos, mas tudo isso faz parte da nossa amizade e do nosso crescimento. Lembro-me que éramos vinte no centro de estágio, com idades entre os 12 e os 20 e, às vezes, íamos todos para o Colombo lanchar ou ir dar uma volta à Baixa de Lisboa. Era bonito ver miúdos com 20 anos ali juntos a outros com 13 ou 14, todos amigos e a lutarem por um sonho. Mas, respondendo à pergunta, havia praxes, como há em todos os lados.

BnR: Quais eram os jogadores que, já na altura, percebeste que poderiam vingar no futebol? Seja no SL Benfica seja noutros clubes.

LZ: A minha geração de 1986 foi sempre muito forte no Benfica. Ainda hoje se diz que foi das mais fortes de sempre do clube. Praticamente ganhávamos todos os torneios por onde passávamos e até prémios individuais. Eu lembro-me que, nos primeiros quatro anos de Benfica, a minha equipa ganhava sempre o prémio de melhor marcador, melhor jogador, jogador mais tecnicista; lembro-me que arrebatávamos os prémios todos individuais. Eu lembro-me de ganhar, sem exagerar, uns 14 prémios individuais; o João Coimbra e o Manuel Fernandes, que nós víamos já que ia dar num jogador fantástico. Mas a minha geração era mesmo muito forte, tínhamos também o Tiago Gomes e o Rui Nereu, que já na altura era um “gato” e defendia muito. Nas outras equipas, lembro-me bem do [João] Moutinho, Nani, Paulo Machado ou Ivanildo. Era um misto de jogadores que nos encontrávamos todos nas selecções, onde éramos todos colegas. Mas nos três grandes já se via bem que havia ali muito jovem com condições para dar o salto. Falando somente do Benfica, acho que o jogador que teve uma melhor carreira e um percurso fantástico foi o Manuel Fernandes, que já na altura se via que ia ser um craque, tanto dentro como fora dos relvados.

BnR: E, no reverso da medalha, há algum jogador que prometesse e que tenha ficado pelo caminho?

LZ: Eu não vejo as coisas por esse lado. Eu costumo dizer que há jogadores que não tinham tanta qualidade como eu, por exemplo, mas que fizeram – ou estão a fazer – uma carreira melhor do que a minha e há outros que eram melhores do que eu e que ficaram pelo caminho. Não me lembro assim de nenhum que prometesse muito mais que não tenha cumprido. Cada um seguiu o seu caminho, uns com mais sorte do que outros, outros acompanhados de melhor forma por empresários do que outros, outros ainda com lesões complicadas numa fase crucial da carreira, mas tudo faz parte. De resto, até por respeito, acho que não deva indicar algum nome em particular. Até porque, para alguns, posso estar a fazer uma boa carreira e para outros nem por isso. É tudo muito relativo.

Luís Zambujo nos antigos campos do Estádio da Luz
Fonte: Arquivo pessoal de Luís Zambujo
BnR: Nos juniores, viveste de perto a morte de Bruno Baião, um dos talentos dessa geração. Como é que um jovem de apenas 17/18 anos lida com a morte?

LZ: Lembro-me muito bem desse dia. Nesse dia não tinha ido treinar, estava com princípios de pubalgia e tinha ficado no centro de estágio que já não era no Estádio da Luz, era nos Pupilos do Exército, ao pé do Centro Comercial Fonte Nova. Lembro-me de estar no quarto de um colega meu e quando abro a porta para ir almoçar vejo os meus colegas dos juniores todos a chorar e com uma cara de enorme preocupação. Na altura o João Vilela, que é da geração antes da minha, disse-me para ir tomar banho e despachar porque tínhamos que ir para o hospital – senão me engano o Curry Cabral – porque o Baião tinha tido um ataque cardíaco. Depois foi a história que toda a gente já sabe, o Bruno era um craque e um exemplo para todos, era o nosso capitão e sentimos muito a falta dele, tanto no balneário e em campo como na vida. O Bruno era uma pessoa cheia de força, sempre com uma palavra amiga para dar e um capitão na verdadeira acepção da palavra. Custou-me muito, até porque o Fehér tinha morrido também há poucos meses e nunca foi fácil. Nós tínhamos passado pela experiência de morrer um colega mais velho e logo a seguir morreu um amigo e companheiro de equipa. Foi muito difícil e, ainda hoje, considero o Bruno um amigo e onde quer que ele esteja sei que está a olhar por todos nós.

BnR: Existe algum treinador que te tenha marcado pela positiva ou negativa durante os anos que passaste no Benfica?

LZ: Todos os treinadores que tive no Benfica me ajudaram a crescer tanto como jogador como homem. Tenho alguns que ainda hoje são meus amigos, mas todos foram importantes. É verdade que uns mais do que outros, mas todos importantes pelo que me foram passando, que me ensinaram e pela paciência que tiveram comigo. Eu também estava sozinho em Lisboa e alguns foram como pais para mim, ajudando-me e dando conselhos. Por isso, acho que todos os treinadores que tive no Benfica fizeram-me crescer e tornaram-me o homem que sou hoje. Agradeço e envio um abraço para eles todos porque, naquela fase inicial, ajudaram-me muito a conseguir seguir o meu sonho e dou graças a Deus por isso.

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