Anterior1 de 3

Prometeu para si mesmo que no auge terminava a carreira de jogador e sairia do comando técnico encarnado e cumpriu tudo. Fez o que mais nenhum treinador do SL Benfica conseguiu ainda: ganhar uma UEFA Futsal Cup. No 11.º aniversário dessa conquista, André Lima falou-nos sobre o segredo por detrás desta conquista, onde acredita que mais nenhum treinador tinha “mãos” para levar as águias à glória europeia. Apontou ainda as possibilidades das duas equipas portuguesas na UEFA Futsal Champions League e ainda comentou temas que têm causado polémica no mundo desportivo.

– A confiança na vitória, o misto de emoções e o “quase” matar Bebé –

«Podia não ser o melhor treinador na altura, mas era o treinador ideal para o momento»

Bola na Rede (BnR): Quando é que começaste a acreditar que podias ser campeão da Europa de clubes com o SL Benfica?

André Lima: Estive como treinador do Benfica durante dois anos e tínhamos ganho tudo. No dia que foi a reunião com o presidente [Luís Filipe Vieira] para estabelecer os objetivos para a próxima época, sabia que, por ter passado de jogador para treinador, tinha de fazer algo de diferente. Ser campeão está implícito e já tinha ganho tudo. O que é que podia fazer mais para que as críticas não continuassem sabendo que às vezes ganhar não chega num grande clube como o Benfica? O que disse ao presidente foi: «ganhei tudo e, agora, temos de pôr aqui mais alguma coisa». Ele perguntou o quê e respondi-lhe: ser campeão da Europa. A equipa estava numa fase de maturidade certa para se procurar algo que já se procurava há quase dez anos, porque a espinha dorsal estava lá toda. O presidente chamou-me «maluco» e perguntou-me como é que ia ser campeão. Eu disse: «dá-me três jogadores [Joel Queirós, Davi e Marinho] e vou tentar ser campeão da Europa, porque ser campeão nacional está implícito no meu contrato». O sonho começou aqui. Só o “maluco eu” é que acreditava, mas sabia o grupo que tinha.

Anúncio Publicitário
A Ronda de Elite trouxe uma surpresa visto que o Benfica passou com os mesmos pontos do segundo devido aos golos marcados e sofridos
Fonte: João Barbosa/Bola na Rede

BnR: Como foi a preparação para a Final Four em Lisboa? Já agora, sabendo que iriam ter um pavilhão completamente cheio, é preciso motivar alguma equipa quando se sabe antemão que esta situação vai acontecer?

André Lima: A preparação começou muito antes, como já disse. Chegámos à 1.ª fase, na Eslovênia, que é sempre fácil para uma equipa como a do Benfica. Depois tivemos a Ronda de Elite no Pavilhão da Luz. Esta fase foi mais difícil, porque tivemos de enfrentar os atuais campeões da Europa (MKF Sinara Ekaterinburg). Empatámos e passámos à Final Four. Os melhores jogos que fizemos foi contra o Sinara e contra o ASD Luparense, na meia-final. Nesse jogo, fomos melhores do que na final, pois, esse é um jogo de emoção, de luta e intensidade. Os outros não. Não era só eu que acreditava, porque os jogadores também acreditavam que era possível. Quando conseguimos trazer a Final Four para Lisboa, que foi o Eusébio que esteve no sorteio, e calhou-nos os italianos senti que íamos ser campeões da Europa, disse-o ao meu adjunto (Nelito). Porque jogar com o Interviú Madrid na meia-final era diferente do que na final. Eles eram mais fortes e numa meia-final não tem tanta emoção e, provavelmente, o pavilhão não tinha enchido. A preparação foi normal. Conhecia bem os jogadores e o segredo foi esse.

BnR: Disseste numa entrevista à Agência Lusa, que no dia da final não conseguiste dar a palestra para o jogo. Chegaste a dizer alguma coisa ou o pavilhão falou por ti?

André Lima: Aconteceu duas coisas interessantes. Depois do aquecimento, vou para falar para dar os últimos apontamentos e entrou o presidente Luís Filipe Vieira. Foi ele quem deu a palestra. Chegou lá e, apesar de todo o barulho que nem se ouvia bem, agradeceu a toda a equipa por aquilo que já tinham conseguido, que não contava com o que eles fizeram e que se não vencessem já estava ali uma grande vitória, mas, ainda assim, disse que sentia que iam ganhar e para irem à para dentro fazerem aquilo que sabem. Era mais ou menos por aqui que ia pagar na palestra. Falar dos acertos táticos, das bolas paradas e, depois, dizer que era a última oportunidade que muitos tinham para ganhar e de experienciar tudo com um pavilhão cheio como aquele. Isto tudo mexeu com os jogadores e estiveram todos eles fantásticos.

BnR: Uma das imagens que marcam essa final é que o André Lima de cócoras a chorar. O que é que passou na tua cabeça nesse momento, visto que era apenas o teu segundo ano como treinador principal?

André Lima: Foi um descarregar e uma mistura de sentimentos. Por incrível que pareça, quanto mais ganhava no Benfica e melhorava quanto treinador mais críticas me caíam em cima. Também estava como o Rúben Amorim, com o 3.º nível. Tudo servia para massacrar todos os dias. Isto para um jovem treinador durante dois anos… Tive de me aguentar. O outro sentimento é que perdi três finais como jogador, inclusive uma consegui marcar três golos [2003/04] – a 1.ª vez que isso aconteceu. Tínhamos perdido 4-1, depois em casa fizemos 3-0 muito rápidos contra o Interviú e sabíamos que tínhamos de marcar muitos golos, porque eles nunca ficavam a zero. Já é difícil o Futsal ficar a zeros, imagina uma equipa daquelas. Como jogador, lembro-me de dizer no balneário que tínhamos de marcar quatro, cinco ou seis golos, porque ia ser difícil. Na final de 2010, era diferente por ser só um jogo. Sabia que para ganhar tínhamos de marcar golos. Quando começo a chorar, foi um bocadinho de frustração de estar em três e não conseguir ganhar como atleta e, ao mesmo tempo, de felicidade por ter sido uma coisa que criei. Quer queiram quer não, juntei e uni a equipa, metendo jogadores de qualidade, como o Davi, Marinho e Joel Queirós. O jogo estava muito intenso porque estava 3-2 e se houvesse um empate sabia que aquilo ia dar torto, por estares em vantagem e levares um empate no fim. Mas não aconteceu. Ganhámos com o pavilhão todo a gritar e foi um descarregar de emoções.

Em 2010, os encarnados tornaram-se no primeiro clube a conquistar um troféu europeu em Futsal
Fonte: UEFA

BnR: Há dois momentos importantes na final, o lance do golo do Davi e os últimos segundos com o lance do Bebé. Como é que viveste estes dois lances?

André Lima: Joguei com o Luís Amado em Espanha no Caja Segovia FS e disse aos jogadores que onde ele tinha mais dificuldade. Aliás, cheguei a marcar golos ao Luís com remates para baixo e para os cantos, porque não conseguia chegar. Tinha muitas dificuldades em chegar à bola aos cantos, fosse com as pernas ou com os braços. Em pé é que era muito forte ou a fazer a mancha [movimento típico dos guardiões de Futsal], mas remates dos dez ou doze metros para baixo não conseguia. A menos que fossem remates violentos como o golo do Joel ou do Arnaldo que foram de bola parada e que era muito complicado de fazer ao Interviú. O golo do Davi já vem um bocadinho dele. Ele antecipa o passe do guarda-redes para o pivô, dá-lhe para a frente e chuta muito bem de bico. A bola foi para o canto e o Luís Amado não conseguiu lá chegar. O golo ainda foi na 1.ª parte do prolongamento e ainda havia mais cinco minutos na 2.ª parte para sofrer. Quando estava a acabar o jogo e faltavam segundos, a bola vai para a mão do Bebé e disse para atirar para o campo do Interviú, mas bola alta para os segundos passarem. O Bebé tenta meter a bola, não sei em quem. A bola fica no peito do jogador do Interviú e o jogo acaba. Ele chutou, a bola vai ao poste e entra. Eu matava o Bebé se a bola tivesse entrado. Eu disse-lhe. Ficámos a brincar na festa sobre isso ou até quando nos juntamos e falamos sobre o assunto. Estava toda a gente muito nervosa naquela altura.

BnR: Tu fazes parte da geração de jogadores que estava muito à procura deste troféu há anos. Recebeste alguma mensagem de jogadores com quem partilhaste o campo nessas finais perdidas a dizer “finalmente conseguimos!”?

André Lima: Eles todos disseram. Na altura, não era o melhor treinador. Fiz o 1.º ano de contrato de treinador, mas ainda vou com contrato de jogador. Não contava deixar de jogar. A minha evolução foi junto com aquele grupo. Quando aceitei o convite, fui falar com eles e estavam preparados que podíamos ir juntos. Eu conhecia-os bem e eles tinham de me ajudar e assim foi. Podia não ser o melhor treinador na altura, mas era o treinador ideal para o momento. Se fosse outro treinador não ganhava. Aquela final não ganhava.

BnR: Numa entrevista, disseste que sem a ajuda do público no antigo Pavilhão Atlântico não tinha sido campeões. Aquilo que te pergunto é: se a equipa não fosse liderada pelo André Lima alguma vez teria hipótese de fazer história?

André Lima: Era muito difícil. Uma das coisas que tinha muito boa era a maneira como mexia na equipa. O Beto [antigo treinador encarnado] entrou, mas só esteve seis meses e não deu muito para mexer na maneira como jogávamos com o Adil Amarante. Eu apanhei alguma coisa dos dois e juntei os dois. Quando mexia na equipa, fazia-o sempre bem, porque sabia quem gostava de jogar com quem ou quem se sentia confortável a jogar com quem. Nem eles sabiam disso. Quando metia quatro jogadores a jogar, sabia que estava ali um que não se sentia tão confortável. Não era que tivesse algo contra aquilo, era porque sentia que o jogo de uns encaixava melhor no jogo dos outros. E tinha essa capacidade de mexer nas peças e uma facilidade enorme. Punha a equipa a jogar a quase 200%. Quando estávamos a jogar por quatro ou por cinco, misturava a equipa para que eles não soubessem. Quando os jogos eram difíceis, mexia cirurgicamente para que rendessem o máximo. Isso foi um dos segredos que usei para ser campeão europeu.

BnR: Como é que se gere uma equipa emocionalmente depois de vencer a competição mais importante na Europa para se depois encarar as restantes competições?

André Lima: Eram jogadores já acima dos trinta anos. Nós estávamos com o Ricardinho com 26/27 e ele ganha o título de melhor do Mundo em 2010, depois de ganhar a UEFA Futsal Cup. Ele estava no ponto e os outros também. Pedro Costa, Arnaldo, Joel, Gonçalo, Zé Maria, Bebé, Zé Carlos, Marinho… Estávamos de jogadores que emocionalmente não era muita coisa que mexia com eles. Pelo contrário. Quanto mais pressão tivessem, melhor jogavam. É aquela fase boa.

Anterior1 de 3

DEIXE UM COMENTÁRIO

Comente!
Por favor introduz o teu nome