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Campeonato do Mundo a cada dois anos: fantasia ou realidade?

O futebol nunca foi de grandes consensos. E não falo das discussões sobre que clube merece ser campeão, quem é o melhor jogador do mundo ou se o árbitro prejudicou, ou não, a equipa. Também fazem parte, mas há divisões bem mais profundas.

Diria que há duas certezas no futebol. A de que este é o desporto do povo – que por muito que tenha o seu dispute nos grandes estádios, não vive sem as ruas e sem os adeptos – e de que, atualmente, o dinheiro é, e será, indispensável ao futebol profissional. É um contrassenso, mas é assim mesmo. Há muito que esta modalidade vive neste equilíbrio delicado entre o seu lado romântico e a sua face mais obscura.

A polémica sobre o Campeonato do Mundo de dois em dois anos é só a mais recente alínea numa discussão muito mais profunda, que parece desaguar num ponto assente: o futebol que hoje conhecemos vai mudar, não se sabe é como.

 

Calendário, novas oportunidades e tradicionalismos

Na base desta nova discussão há algo com que todos parecem concordar: o calendário atual não é bom. Atletas, treinadores e clubes criticam a sua saturação, os adeptos não gostam de tantas interrupções para jogos das seleções e os dirigentes temem que o desporto se torne menos apelativo e gere menos receitas.

Arsene Wenger tem sido a cara mediática destas propostas e defende-se das críticas dizendo que a grande maioria das pessoas com quem falou – e garante que falou com muitas – concorda que algo tem de mudar. Toda a polémica é, segundo o francês, uma questão emotiva. Até pode ser, mas já vimos com a questão da Superliga Europeia que as emoções ainda têm algo a dizer.

Mas descabidos. Para além do antes de entrar em condenações absolutas, há que ver que os argumentos da FIFA e de Wenger não são, de todo, lado poético da coisa – aquele nos fala em oportunidades para mais países participar no torneio e na aproximação de mais povos ao desporto rei – há um certo sentido de praticidade nesta questão.

Wenger garante que com este modelo será possível encurtar as rondas de qualificação, fazer uma distinção mais clara entre calendário clubístico e o de Seleções e que o impacto na saúde dos jogadores não seria tão sério como muitos alertam. Se assim for, se houver um plano bem delineado para não aumentar o número de jogos por época, não seria esta uma proposta a considerar? Não estaremos realmente demasiado agarrados à ideia tradicional de ver um Campeonato do Mundo a cada quatro anos?

A verdade é que não há respostas absolutas. Mas analisando a questão da perspetiva estritamente desportiva – a que, quero acreditar, deve prevalecer – não haveria grandes benefícios em disputar o Campeonato do Mundo de dois em dois anos.

 

Uma ideia desportivamente fraca

Desde crianças que aprendemos que o Natal só é bom porque não é Natal todos os dias. Já percebemos também, com a polémica da Superliga Europeia, que os grandes jogos só o são porque não acontecem todas semanas. Pois, também o Campeonato do Mundo guarda muito da sua magia no facto de ser um evento tão raro que, numa sociedade de imediatismo, nos obriga a esperar como se esperava há 30, 40 ou 50 anos.

O aumento do número de equipas, e de oportunidades para os países mais frágeis de aparecer, é bonita no papel, mas desinteressante na prática. Todos gostamos de ver o Panamá ou Trinidad e Tobago a bater-se contra os melhores. Mas imaginemos um Mundial, disputado na China, com um Panamá vs. Trinidad e Tobago a ser transmitido às quatro da manhã para a Europa. De repente a coisa não parece assim tão apelativas, nem sequer para o público local.

Vejamos também a questão do calendário. Não seria mais simples adaptar o atual, sem acrescentar e alargar competições, arrastando a época para o mês de julho todos os anos?

Há, de facto, demasiadas pausas para Seleções, mas não é preciso ir muito longe para as cortar. As competições da UEFA, em sub-17 e sub-19, já têm uma fase preliminar de qualificação, seguida de uma “ronda de elite”. Permite grupos mais pequenos, de quatro equipas, menos jogos e mais competitividade.

Adotando este formato para a qualificação do Campeonato do Mundo, teríamos rondas que podiam ser fechadas em dois ou três meses e muito mais apelativas para o público. É só um exemplo, de algo que já está a ser implementado, e que parece uma opção muito mais simples.

Por fim, mas não menos importante, há uma parte imprescindível que tanto dirigentes, como adeptos, teimam em esquecer: os interesses dos jogadores. Não é coincidência que, mais do que nunca, os jogadores estão se a pronunciar contra a sobrecarga de jogos, que um Campeonato do Mundo bienal viria aumentar. Para além do fator físico, há a parte motivacional.

Didier Deschamps avisou para os riscos de a competição perder muito do seu prestígio, no fundo, de deixar de ser uma oportunidade única na carreira para um jogador ou para toda uma geração e passar a ser mais uma competição entre tantas outras. De dois em dois anos, a época já passou a ser de julho a julho, sem interrupções pelo meio. Desgastante para os jogadores, saturante para os adeptos e um crime contra a qualidade de jogo.

 

Serão estas mudanças inevitáveis?

Mas, afinal de contas, onde é que tudo isto vai dar? Que interesses vão prevalecer?

Atualmente, ninguém no mundo do futebol parece concordar com um Campeonato do Mundo a cada dois anos. Por muito que a FIFA tente transmitir uma versão romântica dessa proposta, é fácil de ver que são muitos mais os contras do que os prós. Os adeptos não querem, os jogadores são contra e há até Federações que ameaçam sair do organismo que rege o futebol mundial.

Daqui a uns anos, a história pode ser outra. Há muito que ideias de “Superligas” e expansões do Campeonato do Mundo ecoam pelos bastidores do futebol. Não estamos a falar de meros caprichos de dirigentes, mas de planos detalhados que mesmo que não prevaleçam em 2021, vão continuar a ser estudados e trabalhados para o futuro.

A Superliga Europeia foi, para já, rejeitada, mas a UEFA vai introduzir um novo formato para a Liga dos Campões. O Campeonato do Mundo a cada dois anos pode não ser implementado, mas a FIFA ainda tem a proposta do Mundial de Clubes alargado e disputado no verão.

As mudanças estão aí à porta e, de forma mais ou menos subtil, o mundo do futebol vai ter de ser adaptar para rivalizar não só com outros desportos, mas também com fenómenos como o streaming ou as redes sociais. Porque, por muito que nos encante a visão do futebol de rua, há que perceber que o que hoje nos faz confusão, pode vir a ser normal para as próximas gerações. E pode vir a ser algo muito mais estranho do que um Campeonato do Mundo bienal. Campeonato do Mundo

Campeonato do Mundo

Frequentador de estádios e consumidor de bifanas desde os 5, aprendeu cedo que é melhor a ver do que a jogar futebol. Aos 22, estuda Jornalismo e vai escrevendo sobre os jogos que valem o preço do bilhete e as estórias que só se ouvem no bar, ao intervalo.                                                                                                                                                 O Vasco escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

Frequentador de estádios e consumidor de bifanas desde os 5, aprendeu cedo que é melhor a ver do que a jogar futebol. Aos 22, estuda Jornalismo e vai escrevendo sobre os jogos que valem o preço do bilhete e as estórias que só se ouvem no bar, ao intervalo.                                                                                                                                                 O Vasco escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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