Terminado mais um Mundial, é tempo de balanços e de reviver os momentos mais marcantes de uma competição que entrará para os manuais da história do futebol. O Mundial das Américas ficou marcado com excelentes jogos, momentos de futebol coletivo que fez conjuntos nacionais chegarem à vitória, cenas de habilidade individual de um jogador que fez o público regozijar-se de ver e momentos negativos que não deveriam acontecer dentro e fora das quatro linhas.


Para começar, além de felicitar pelo triunfo mais que justo, há que mencionar a seleção espanhola. A “La Roja” contou com grupo de jogadores absolutamente único e com um selecionador que conhece o seu ADN como poucos. Uma junção que resultou no melhor rendimento e resultado, além do percurso não ter sido nada fácil (eliminou Portugal, Bélgica, França e Argentina na final). Após um período de quase uma década (2014-2022) em que se assistiu à queda da geração de ouro do futebol espanhol (Xavi, Iniesta, Casillas, Puyol, Xabi Alonso, David Villa, Cesc Fábregas, David Silva ou Fernando Torres) e ao nascimento de novos talentos que ainda precisavam de tempo para crescer e se consolidarem (Rodri, Unai Simón, Pedri, Dani Olmo, Laporte, Marcos Llorente, Ferrán Torres, Nico Williams, Alex Baldé, Fabián Ruiz ou Mikel Oyarzabal), foi necessário passar por uma renovação e reconstrução do futebol de base espanhol.
Existe muito mérito do atual treinador do PSG, Luis Enrique, enquanto selecionador espanhol começou tal trabalho em 2018 e foi chamando novas caras com muito talento à equipa e começou a construir uma equipa para o futuro. Até à sua saída (após o Mundial do Catar em 2022), passou pelas dores de crescimento e algum azar à mistura, caindo nas meias-finais do Euro 2020, chegando à final da Liga das Nações em 2021 e caindo oitavos de final do Mundial 2022.


Seguiu-se a entrada de Luis de la Fuente que aproveitando o trabalho de Luis Enrique e conhecendo o futebol de base espanhol, enriquece o conjunto com o seu conhecimento e junta novos talentos como Lamine Yamal, Cucurella, Cubarsí, Pedro Porro ou Alex Baena (sendo justo mencionar Mikel Merino apesar de ter mais idade) ao grupo. Implementando um estilo que preserva a posse da bola com alguma flexibilidade tática, tendo também uma ação que acelera ou pausa o jogo consoante o momento do jogo, procura os espaços e pressionando forte após perder a bola, recuperando-a relativamente rápido.


Uma equipa com laterais híbridos, com boa capacidade de atacar e defender (Cucurella à esquerda e à direita Carvajal, mais tarde Pedro Porro), um meio-campo completo com jogadores para toda e qualquer função (Pedri, Rodri, Fabián Ruiz, Dani Olmo e Mikel Merino) e um ataque que junta verticalidade com versatilidade, tanto nas alas (Lemine Yamal, Nico Williams e Baena embora diferentes entre si, todos hábeis no um contra um, fortes a aproveitar transições e aproveitam bem os espaços para aplicar qualquer golpe) como no centro (Oyarzabal e Ferran Torres não sendo “noves” típicos, movimentam-se bem, abrem espaço para os colegas aparecerem e bons a finalizar). Além de um guarda-redes competente (Unai Simón e o privilégio de ter David Raya e Joan García como alternativas) e um centro da defesa bem complementada (Cubarsí e Laporte).
Uma junção de fatores que começa a resultar num coletivo forte que vence o Euro 2024, é finalista da Liga das Nações em 2025 e chega a campeão do Mundo em 2026. Mais um ciclo de ouro e capaz de se prolongar por mais anos, ao ponto de poder igualar o feito da anterior geração se vencer (como é candidata a fazê-lo) o Euro 2028: vencer três grandes competições consecutivas.


Falar deste Campeonato do Mundo, é obrigatório falar em Lionel Messi. É absolutamente extraordinário e ímpar o seu rendimento aos 39 anos (oito golos e quatro assistências em oito jogos). O astro argentino teve participação direta em 63% dos golos da sua equipa e liderou-a com o seu estilo mais sereno.
Embora não tivesse participação direta e inteira no futebol da equipa durante uma grande parte do tempo, foi aqui que a gestão do número dez foi a adequada. A equipa teve sempre um meio-campo povoado e forte pelo qual passava a maior parte da iniciativa (Enzo Fernández, De Paul, Paredes e Mac Allister) e avançados com mobilidade (Alvarez, Lautaro Martínez e Nico González), assim tal permitia que Messi estivesse observador e a gerir o seu esforço para os momentos chave dos encontros.


Lionel Scaloni teve um excelente grupo de jogadores com boas opções em todos os setores (menos forte nas laterais da defesa), mas com um estilo pouco ou nada evoluiu desde 2022, era Messi que ainda fez a diferença na esmagadora maioria das vezes. Tendo apenas de criticável o facto de ter merecido ser expulso no jogo inaugural frente à Argélia na sequência de um lance imprudente e desnecessário, Messi teve uma prestação que merecia ter sido coroada com o prémio de melhor jogador do torneio.
Sem falta de consideração para Rodri que foi muito importante na conquista da Espanha e um rendimento que mostra o retorno da sua melhor forma após a grave lesão. No entanto, fica a clara impressão de que mesmo que pudesse não ter vencido a competição, a Espanha poderia chegar longe na competição sem Rodri, mas a Argentina não chegaria aonde chegou sem Messi.


A Argentina acabou por não atuar de forma digna de um finalista de um Campeonato do Mundo e perdeu bem em toda a linha para a uma grande Espanha. Apesar de Messi também não ter estado no seu melhor na final de New Jersey, foi dos poucos elementos argentinos que provavelmente não merecia um final assim e um dos que teve um comportamento adequado de digno vencido. Não se podendo dizer o mesmo de Paredes (no final do jogo), Otamendi (declarações finais) e Enzo Fernández (durante o jogo) que mostraram precisamente o contrário.


Este Mundial de Messi marca o fim de uma era e a aparição da sua última “dança” numa grande competição juntamente com Cristiano Ronaldo, Neymar e Luka Modric. Todos deixarão muitas saudades, mas em particular Lionel Messi pelo que simboliza e por tudo o que alcançou. Embora tenha perdido a sua segunda final de um Mundial, a verdade é que já o vencera em 2022 e o juntou a 41 troféus coletivos (hoje são 45), além dos seus totais de 919 golos e 457 assistências (1376 participações) em 1163 jogos e 74 troféus individuais (oito Bolas de Ouro como feito principal).
Tudo feitos individuais e coletivos mais que merecidos a coroar a carreira de um rapaz que nos primeiros anos de vida enfrentou problemas devido ao seu crescimento e também dificuldades financeiras que não permitiam aos seus pais pagar o tratamento do filho. Mas após o Barcelona manifestar interesse no jovem argentino e ter mostrado disponibilidade de pagar o seu tratamento, Messi atravessou o oceano atlântico de um continente a outro e daí em diante, foi história. Não há mais nada a dizer nem a escrever, pois sobre Messi não se diz nem se escreve. Lionel Messi disse. Lionel Messi escreveu.


No restante pódio das quatro equipas, foi notória a qualidade apresentada por Inglaterra e França, mas também ficou a imagem de que ambos os conjuntos mais poderiam ter feito para chegar à final e quiçá vencer o Mundial. O conjunto inglês foi dos mais competitivos, com um estilo de jogo baseado na intensidade, pressão e transições. Apesar do selecionador Thomas Tuchel ter deixado de fora da convocatória dois dos jogadores mais relevantes do país (Phil Foden e Cole Palmer), o grupo de trabalho mostrou-se sempre coeso e fez um percurso consistente eliminando equipas como o México e a Noruega.
Destacaram-se principalmente Jude Bellingham (sete golos e uma assistência em oito jogos), Harry Kane (seis golos e uma assistência em sete jogos) e Jordan Pickford (várias defesas decisivas ao longo de sete jogos em que foi o eleito para a baliza). Por pouco não chegava à final eliminando a Argentina, quando a vencer por 1-0, Tuchel toma a decisão incompreensível de colocar jogadores defensivos e oferecer a iniciativa à equipa argentina, provando-se ter sido um erro fatal (derrota por 1-2). Mas terminaria no terceiro lugar do Mundial após uma vitória incrível por 6-4 frente à França.


A equipa de Didier Deschamps também chegou aos quatro últimos resistentes com um futebol ofensivo, mas também caiu na meia-final, tendo sido completamente destronada pela equipa espanhola (0-2). Tendo um grupo absolutamente único de jogadores (Mbappé, Olise, Doué ou Dembelé entre os prinicpais rostos), os gauleses foram dominadores e regulares até às meias-finais, eliminando Suécia, Paraguai e Marrocos. No entanto, um grupo fortíssimo de talentos não foi capaz de desmontar a máquina de futebol coletivo que a seleção espanhola sempre mostrara ser desde o início e terminou derrotada em toda a linha.
Um estado de espírito desolador que resultou na falta de ânimo e rigor frente aos ingleses (derrota por 4-6) e terminou no quarto lugar da competição. A caminhada francesa neste Mundial também marca o fim do consulado de Didier Deschamps à frente dos “bleus”, quando o mesmo já falava em “ambiente irrespirável”.


Terminando o que este Mundial teve de mais positivo, há que destacar mais uma campanha competente de Marrocos (quartos de final), Noruega (um conjunto muito consistente e jogadores que constituem uma das gerações mais talentosas de sempre do país, chegou aos quartos de final eliminando a Costa de Marfim o Brasil), Suiça (quartos de final eliminando a Argélia e a Colômbia, realizando o melhor Mundial dos últimos 88 anos) e da Bélgica (chega aos quartos de final pela segunda vez nos últimos quatro Campeonatos do Mundo).
Sendo justo mencionar as caminhadas de Cabo Verde (fase de grupos ultrapassada na sua primeira participação num Mundial e destaque para as exibições de Vozinha), Egito (oitavos de final e melhor Mundial dos últimos 92 anos) e Canadá (fase de grupos ultrapassada pela primeira vez num Mundial e destaque para as exibições de Jonathan David, Cyle David e Stephen Eustáquio).


No entanto, o Mundial das Américas fica marcado também por momentos negativos. Não é aceitável haver violência dentro das quatro linhas após o fim da final, como foi o caso de alguns jogadores da Argentina. É um ultraje haver uma despenalização de um jogador após “pressão” do presidente desse país, como foi o caso de Donald Trump em relação ao jogador norte-americano Folarin Balogun. O futebol é colocado em dúvida quando surgem notícias de “movimentos” nas finanças de uma federação (Argentina) durante o decorrer do torneio.
Tendo também de se mencionar que o futebol é um desporto universal e que tem a capacidade de unir toda a gente à volta do globo, esse deve ser o espírito. Logo, não é bonito ver-se mensagens políticas dentro do relvado (Argentina com uma mensagem a reclamar para si as ilhas Malvinas) e no campo oposto, ver tantas pessoas nas redes sociais e não só se congratulando pela vitória de uma equipa contra outra, como se uma simbolizasse o bem (Espanha) e a outra o mal (Argentina). O futebol não deve ser assim.


Dentro das quatro linhas, ficaram as desilusões dos rendimentos de seleções como Portugal, Alemanha, Brasil e Uruguai. Os portugueses e os alemães apresentaram-se longe do seu melhor nível, ambos com gerações promissoras (Vitinha, João Neves, Nuno Mendes ou Bruno Fernandes do lado luso e Musiala, Wirtz, Havertz e Undav do lado germânico) e com jogadores já longe do nível desejado para competir a este nível (Cristiano Ronaldo em Portugal e Manuel Neuer na Alemanha).


A seleção brasileira fez o seu pior Mundial desde 1990 (oitavos de final), com pouco convincentes, longe do seu melhor e parece que nem Carlo Ancelotti está a conseguir transformar a seleção mais vezes ganhadora do torneio (cinco). Já o Uruguai foi a equipa mais forte a cair na fase de grupos, o que é naturalmente uma desilusão para um país com o seu histórico e talentos.
Ficou escrita a história de mais um Campeonato do Mundo, onde triunfou o futebol coletivo acima de qualquer estrela individual, sendo que as mesmas são as que dão cor ao futebol e das últimas danças de grandes protagonistas. Daqui a quatro anos, cá estaremos e a história contuará.

