O expectável aconteceu: Ruben Amorim saiu tão depressa quanto entrou no Manchester United. Mas a verdadeira questão é: terá sido este despedimento justo, ou “só” mais um capítulo na história de um United que não sabe o que quer ser?
Vamos por partes para desmitificar o assunto e contextualizar a história. De forma nua e crua, sim, o despedimento de Ruben Amorim é justo. Nunca lhe tirando o mérito, e admitindo que é dos treinadores mais inteligentes atualmente, a verdade é que todos previam que a chegada à Premier League ia ser atribulada e o caminho que se seguiu só o veio a confirmar.
A Premier League não é como a Liga Portuguesa. Os resultados têm de ser imediatos, a intensidade é maior, a disputa é feita ponto a ponto e, por vezes, o marcador tem de demonstrar mais do que a tática usada em campo. Todos estes fatores eram sabidos e decorados por Amorim, que mesmo assim escolheu usar a mesma técnica que usava em Portugal (que aqui resultou numa quebra do jejum de falta de campeonatos para o Sporting), mas que dificilmente ia funcionar em Inglaterra.
Amorim insistiu demasiado em algo que não era eficiente a longo prazo neste Manchester United. Foi inflexível e não tentou adaptar o modelo ao plantel que tinha à disposição. A construção desde trás, a pressão estruturada, a largura ofensiva e as transições rápidas eram um ótimo plano… se tivesse equipa para isso.
Os resultados falam por si: 24 vitórias, 18 empates e 21 derrotas.


Sejamos honestos, o Manchester United tem falhas colossais para a visão que os diretores do clube podiam ter. Ruben Amorim era fã do sistema 3-4-3, mas onde estavam os laterais com pulmão suficiente para correr durante 90 minutos, ou com inteligência posicional suficiente ou ainda com qualidade no cruzamento? Não é que os jogadores sejam péssimos, atenção, simplesmente não eram suficientes a longo prazo, o que fez com que o desgaste físico se refletisse nas prestações e nos maus resultados.
Era necessário ir ao mercado e construir um plantel que ocupasse posições fragilizadas. A Premier é uma liga física, mas os calendários são apertados, e nem sempre o mesmo plantel consegue recuperar entre partidas. Mas este foi apenas um dos pontos para o despedimento do técnico português.
Apesar da teimosia tipicamente portuguesa de Ruben Amorim, e este ser o único culpado neste sentido, a culpa dos sucessivos maus resultados não é inteiramente dele. Na verdade, Amorim sofreu de um mal histórico do United que antecessores técnicos também sofreram. A diferença é que Amorim saiu cedo de mais, os outros ficaram tempo suficiente para falhar mais.
Quando o Manchester United contratou Ruben Amorim, já sabiam que ele era um treinador com um sistema tático muito específico, mas o mercado não foi alinhado a esse modelo. Logo desde aí seria difícil fazer a máquina andar. Pior do que isto, foi a pressa do United em ter resultados. Não é característica do clube, nem dos adeptos, a paciência. Mas a pressa é inimiga da perfeição. E Ruben Amorim pode ter sido “vítima” desta maldição que também recaiu sobre Van Gaal, Mourinho e até Ten Hag.


O único que se livrou deste mal foi Alex Ferguson, que conseguiu segurar as rédeas dos Red Devils por 27 anos! Depois dele, foi só a piorar.
Ou seja, é extremamente difícil definir este despedimento como justo ou injusto. Porque por um lado, devido ao historial de treinadores (13 em 10 anos, mais de um por época) é algo que já se sabia que ia acontecer mais cedo ou mais tarde. Mas, por outro lado, pode não ter sido a melhor estratégia para um United que não está nada bem, e que a tendência não é para melhorar.
Resta-nos esperar para saber se o clube vai manter Darren Fletcher até ao fim da época, ou se vai “à caça” de um novo treinador a tempo de salvar a posição na tabela.

