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Um homem do mundo, Sandro Orlandelli é agora o homem forte do Red Bull Bragantino, um dos projetos mais modernos do futebol mundial. Do Brasil ao Japão, de passar fome a beber todo o conhecimento que Wenger tinha para dar, Sandro considera-se um profissional que corre pelo desafio, e o percurso fala por ele. Abram os livros e anotem, que o Sandro vem dar uma verdadeira aula sobre sucesso ao Bola na Rede. (NOTA: Entrevista realizada a 28/07/2020)

O novo membro da família Red Bull –

«O RB Bragantino tem independência técnica, financeira, um projeto próprio»

Bola na Rede [BnR]: O Bragantino vem num bom período, com vitórias sobre o São Paulo e o Botafogo. Quais são os objetivos do clube para esta época?

Sandro Orlandelli: Entendemos que faltam ainda muitas etapas, diante dos objetivos que temos, a nível de consistência de jogo, mas os resultados estão compatíveis ao que temos vindo a aplicar, e isso é o mais importante para nós. O conceito do jogo que temos está a ser cada vez mais estruturado, mais agressivo, técnico, mais avançado, é uma filosofia do clube que já conseguimos implementar. Não é simples fazer uma mudança cultural, então já é um resultado positivo, mas ainda falta muito para sermos uma equipa competitiva e lutarmos por títulos, que é o nosso objetivo para os próximos anos.

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BnR: Intriga-me muito o projeto da Red Bull, agora com a integração do Bragantino. Como funciona?

Sandro Orlandelli: Não há vínculos, são clubes independentes uns dos outros. O RB Bragantino tem independência técnica, financeira, um projeto próprio.

BnR: Falando então do Bragantino, o primeiro jogo do Brasileirão é contra o Santos, de Jesualdo. Como tem visto o impacto dos portugueses no Brasil? Carlos Carvalhal até esteve perto do Bragantino no passado, e agora do Flamengo.

Sandro Orlandelli: O Jorge Jesus é o grande cartão de visita de Portugal, o sucesso que ele teve é inegável. Isso deixou um caminho muito aberto aos treinadores portugueses, acho até que o Flamengo deve assinar com o Carvalhal…

BnR: Desculpe interromper, mas o Carvalhal assinou hoje pelo Braga, fala-se num treinador espanhol para o Flamengo.

Sandro Orlandelli: Interessante. Mas o trabalho que o Jesus fez foi excecional, ele conseguiu, dentro de uma cultura tão imediatista como o futebol brasileiro, implementar a filosofia dele, consolidar, conquistou os jogadores, teve o carisma dos adeptos, isso abriu a porta para muitos profissionais em Portugal, virou um canal de mercado para o treinador português, sem dúvida.

BnR: Sabe o que falhou na negociação entre Carvalhal e o Bragantino no ano passado?

Sandro Orlandelli: Eu não participei em tudo, mas procurando um perfil de um treinador mais jovem, que tenha uma caraterística em relação aos processos, e por ser brasileiro, entendemos que o Filipe Conceição teria um perfil que se adaptava melhor a este conceito novo do clube. Mas o Carvalhal é um excelente treinador, a biografia dele mostra isso logo, mas a nossa ideia foi um treinador jovem, como é a marca e o clube também, e decidimos começar com um treinador desde o início dos processos.

BnR: O clube é jovem, mas acha que o clube pode chegar longe nas provas a que se vai submeter, principalmente no Brasileirão?

Sandro Orlandelli: Temos consciência que o trabalho vai ser árduo, porque o nível da série A é muito diferente do da série B. Nós consideramos que somos um bebé neste processo, então vamos aprender a competir, esse é o nosso primeiro objetivo. Conseguir estar numa situação confortável, sem risco de despromoção, é a primeira meta. É essa a nossa ideia para o próximo ano, traçarmos uma ideia mais ambiciosa, para daqui a três/quatro anos podermos disputar títulos. Nós somos um clube que tem um ADN muito técnico. Tudo é baseado na ciência, na questão técnica, a avaliação toda é técnica, não existe uma política estatutária dentro do clube, e isso facilita muito. Todos os profissionais são competentes, todas as partes são ouvidas, tudo é muito considerado, é um clube que trabalha em cima de processos. Nós temos vários projetos e metas de ano a ano.

BnR: Na Alemanha vimos pouca aceitação dos adversários e dos adeptos em relação ao Leipzig, por assentar muito numa marca. Sentiu os adversários desconfortáveis com o aparecimento do Bragantino?

Sandro Orlandelli: Não, não. No Brasil, é diferente, muito pelo contrário. As pessoas veem como uma empresa que vem ajudar a profissionalizar o mercado. O Brasil necessita de uma profissionalização, de uma organização, é uma desvantagem que temos face a outros mercados mundiais. O que nos facilita muito é a visão corporativa que tem a Red Bull, para que possamos efetivar os processos com metas coerentes, através de estudos e de realidades de mercado. As pessoas têm encarado isto com muito profissionalismo, é uma forma de estimular os outros clubes consolidados, já com história no Brasil, a tentarem organizar-se nesse sentido. O futebol é uma conta simples, não há segredo, é receita e despesa. Dentro de um contexto empresarial, se gastar menos do que recebe, a empresa vai estar viva; se gastar mais do que recebe, a empresa estará doente. É essa a conta que fazemos. Não gastamos, investimos. E dentro de um orçamento, nós respeitamos a nossa posição financeira diante da nossa despesa. Procuramos usar a ciência e capacitação técnica dos profissionais, trabalhamos no desenvolvimento individual dos talentos, e a ajudar a capacitar cada vez mais o talento. Quanto mais jovem, criam-se metas e projetos para que o talento consiga atingir um nível aceitável depois de alguns anos, para que consiga desempenhar competitivamente como um grande jogador num grande clube.

BnR: E aí o Sandro tem um grande papel, fruto do seu talento natural de descobrir talentos.

Sandro Orlandelli: Sim, nós temos um departamento de scouting já bem estruturado. Eu participo na decisão final, então participo em todos os processos do clube, mas o socuting não é o segredo, o scouting é o primeiro processo. Como trabalhamos com jogadores jovens, é saber como desenvolver o jogador. Todos esses jogadores precisam de um processo de desenvolvimento, e isso é o detalhe para que possamos atingir os objetivos a que nos proporcionamos, ainda não conquistamos nada, mas estamos confiantes pelo que estamos a implementar, é um projeto de longo prazo.

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