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Felizmente, casos como o do Leicester City ainda vão alimentando o romantismo no futebol, mas são apenas exceções que confirmam a regra: o dinheiro é o principal determinante do sucesso de uma equipa de futebol.
Para cada clube, comparei os custos de aquisição do plantel (segundo dados do CIES – Football Observatory) com a pontuação alcançada no campeonato. Tive, naturalmente, em conta as diferenças entre países. Por exemplo, o plantel do Leicester (72 M €) custou mais do que o do Marselha (61 M €), mas, enquanto o campeão inglês tem o quarto plantel mais barato da Premier League, o Marselha tem o terceiro mais caro em França [ver notas técnicas no final]. Assim, calculei a pontuação esperada de cada clube, dado o custo do seu plantel, para saber quais foram as maiores surpresas e maiores desilusões da época nos cinco principais campeonatos da Europa. (O CIES só apresenta dados sobre as Ligas Espanhola, Inglesa, Alemã, Italiana e Francesa). As conclusões são interessantes, ainda que nem sempre surpreendentes.

Maiores surpresas
Comparando os pontos estimados pela linha de regressão e os pontos que, de facto, foram conseguidos, os clubes com performances mais surpreendentes foram Leicester City, Atlético de Madrid, Borussia de Dortmund, Nice e Roma.
Sobre o Leicester não é preciso acrescentar muito: fez mais 38 pontos do que seria expectável! O incrível Atlético de Madrid já quase nem é considerado surpresa, porque Simeone consegue, ano após anos, intrometer-se na luta pelo título, mas o certo é que isso não seria suposto dada a diferença de orçamento para Real e Barcelona. O segundo lugar do Dortmund não é nenhuma surpresa, mas é surpreendente a enorme distância que conseguiu cavar relativamente ao Leverkusen e Wolfsburgo, por exemplo, que têm plantéis com um custo parecido. É a confirmação de que Tuchel foi uma boa escolha para suceder a Klopp. Em França, a performance mais surpreendente foi a do Nice, de Claude Puel, que com o oitavo plantel mais barato da competição, conseguiu ficar em quarto lugar, a apenas dois pontos de Lyon e Monaco. Finalmente, em Itália, a Roma de Spalletti foi outra boa surpresa, terminando a apenas dois pontos do Nápoles.
Ainda dentro do top-10 das melhores supresas estão o Tottenham, que disputou a Premier League até perto do final; a Fiorentina de Paulo Sousa, que quebrou um pouco na segunda volta, mas que fez um excelente campeonato; e o West Ham, que conseguiu o sétimo lugar em Inglaterra.
Barcelona e Athletic Bilbao surgem também como equipas que fizeram mais pontos do que o custo dos seus plantéis deixaria antever, mas isso deve-se, em parte, ao facto de serem clubes que contam com vários jogadores da formação, fazendo com que o custo do seu plantel não corresponda ao seu valor real.
Maiores desilusões
As equipas cuja pontuação ficou mais longe do esperado foram Aston Villa, Troyes, Hannover, Valencia e Chelsea. Aston Villa e Troyes foram últimos classificados dos respetivos campeonatos, com pontuações baixíssimas: 17 e 18 pontos, respetivamente, o que corresponde a metade dos pontos do penúltimo classificado. O Hannover também ficou em último lugar, apesar de haver na Bundesliga sete equipas com um plantel mais barato do que o seu. Finalmente, Valencia e Chelsea, que começaram com treinadores portugueses, também fizeram épocas desastrosas, ficando muito longe dos seus objetivos.
Destacaram-se ainda pela negativa Wolfsburgo, Manchester City e Manchester United. De resto, a proeza do Leicester só foi possível devido às péssimas épocas dos dois clubes de Manchester e do Chelsea que, em condições normais, seriam os principais candidatos ao título.
Concluindo, o dinheiro não é tudo, como mostram os falhanços dos grandes ingleses e do Valencia, por exemplo, assim como o inesperado sucesso do Leicester. Mas, não sendo tudo, o dinheiro conta muito e de certeza que, para o ano, Manchester United, Manchester City, Chelsea e Valencia voltarão a lugares mais condizentes com o seu investimento. Infelizmente, o mesmo deverá acontecer com o Leicester.
*Notas (um pouco mais) técnicas:
Sempre que me refiro ao investimento dos clubes, refiro-me apenas ao dinheiro investido na aquisição de jogadores que estão atualmente no plantel. Segundo este critério, Messi, Iniesta e Busquets, por exemplo, não exigiram nenhum investimento do Barcelona. Há que lembrar também que pode haver jogadores contratados por um preço que não corresponde ao seu real valor: Lewandowski, por exemplo, chegou ao Bayern a custo zero.
Standardizei os valores do investimento, subtraindo-o pelo valor do investimento médio em cada país e dividindo pelo desvio padrão. Assim, a cada clube é atribuído um número de forma a que a média de cada campeonato seja zero e o desvio padrão 1. Desta forma é possível comparar os níveis de investimento, mesmo entre clubes de países diferentes, o que não aconteceria se comparássemos valores absolutos. É que, por exemplo, o plantel do Man. United (€ 533 M) e do PSG (€525 M) custaram quase o mesmo, mas, em França, o custo médio de cada plantel é inferior a € 52 M, enquanto que em Inglaterra é de € 190 M. Assim, o PSG tem muito mais obrigação de vencer o campeonato do que o United, apesar de terem feito um investimento parecido nos últimos anos.
Apesar de, ao longo do texto, me referir aos pontos obtidos por cada equipa, na realidade considerei a percentagem de pontos obtida, ou seja, o número de pontos obtidos, a dividir pelo número total de pontos que foram disputados. Esta pequena diferença é necessária porque o campeonato alemão tem apenas 34 jornadas, enquanto os outros têm 38. Se comparássemos a pontuação em termos absolutos, os clubes alemães ficariam em desvantagem.
O CIES não apresenta informação para os clubes cujo plantel custou menos de € 5 M no total. Nestes casos (que não são muitos) considerei o custo do plantel como sendo de € 5 Milhões.
A informação sobre o custo de cada plantel é de setembro, ou seja, as mexidas feitas nos plantéis em janeiro não foram tidas em conta.













