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Talvez fosse difícil pensar em dois jogos piores para terminar o grupo B. Depois de um Paraguai-Uruguai que foi um autêntico bocejo para todos, o jogo desta noite entre albicelestes e jamaicanos não fugiu muito dessa linha. Bem vistas as coisas, aquilo que vimos no Estádio Sausalito, em Viña del Mar, não foi uma autêntica surpresa, tendo em conta a diferença gigante em termos de potencial entre uma e outra seleções. Na verdade, o último jogo deste grupo trazia-nos um verdadeiro duelo entre David e Golias, com a equipa argentina já apurada para os quartos de final, enquanto os jamaicanos já estavam matematicamente eliminados.

Também por isso, Gerardo Martino e W. Schafer optaram por introduzir alterações nos esquemas das duas equipas. Do lado argentino, o ex-treinador do Barcelona optou por efetuar duas alterações no onze comparativamente ao duelo com o Uruguai, colocando Demichelis e Higuain nos lugares de Otamendi e Kun Aguero. O sistema tático era o mesmo, mas era por demais evidente que, com estas alterações, o treinador argentino já tinha os quartos de final em mente, optando por isso por gerir de certa forma o plantel. Na equipa jamaicana, o técnico alemão optou por fazer quatro alterações na equipa inicial, lançando no onze Miller, Laing e Brown para os lugares de Kerr, Simon Dawkins e Giles Barnes.

A verdade é que, apesar das alterações promovidas pelos treinadores, os primeiros minutos da partida acabaram por mostrar aquilo que toda a gente já esperava. Um jogo de sentido único, com a Argentina a nunca carregar demasiado no acelerador, até porque uma vitória pela margem mínima era suficiente para chegar ao primeiro lugar do Grupo B. Dessa forma, e tendo em conta a inexistente capacidade ofensiva jamaicana – que apenas colocava Brown como homem mais adiantando, colocando depois 10 homens sempre atrás da linha da bola – a equipa de Martino decidiu controlar sempre os ritmos de jogo como quis, nunca impondo uma intensidade muito alta, até porque a competitividade tática da partida nunca o exigiu. Dessa forma, não raras vezes vimos os laterais Zabaleta e Rojo a atuarem praticamente como extremos, deixando a zona interior para as diagonais de Di Maria e Messi. A meio campo, o consistente e dinâmico tridente composto por Javier Mascherano, Lucas Biglia e Javier Pastore – que funcionaram sempre como autênticos faróis da equipa – iam sendo mais do que suficientes para o pouco perigo que os jamaicanos causavam no último terço do terreno.

À medida que os minutos foram passando – e apesar de a equipa jamaicana ter sempre procurado optar por uma postura defensiva compactando, nunca desprotegendo a zona central – a verdade é que os argentinos foram colecionando um verdadeiro festival de oportunidades desperdiçadas de golo. Só no que diz respeito à primeira parte, foram quase dez os lances de perigo junto à baliza de Miller. No meio de tanto desperdício, Higuain e Di Maria foram os mais perdulários. Ainda assim, foi do avançado do Nápoles que acabou por surgir o único golo da partida, apontado aos 10 minutos, numa excelente rotação sobre os centrais jamaicanos após trabalho individual de Di Maria. Esse lance foi mesmo a exceção naquilo que foi a regra da partida desta noite: a Argentina a jogar, a criar oportunidades e a falhar golos. Só no primeiro tempo, Higuain em quatro ocasiões (um dos remates bateu na trave da baliza de Miller), Di Maria por duas vezes e Messi numa situação foram os protagonistas do desperdício argentino perante uma Jamaica que apenas em bolas paradas se havia aproximado da baliza de Romero. Ao intervalo, e mesmo sem fazer uma exibição de grande intensidade, a verdade é que o resultado era inexplicavelmente curto, tantas tinham sido as oportunidades falhadas.

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Higuain apontou o único golo da partida
Fonte: Dailymail

A verdade é que na segunda parte o figurino da partida alterou-se de certa forma, e muito por culpa da Argentina, que veio ainda com menos intensidade para os segundos 45 minutos. Comparativamente ao primeiro tempo – em que oportunidades foram mais do que muitas para a equipa capitaneada por Lionel Messi – a segunda parte foi quase um deserto de ideias em termos ofensivos para os argentinos. De facto, tirando um remate à trave de Di Maria aos 52 minutos e um chapéu (quase) perfeito de Messi aos 57 minutos, a Argentina raramente se conseguiu aproximar com a mesma regularidade da área jamaicana. Com um adversário tão frágil, que poucos ou nenhuns problemas causou ao longo do jogo, a tendência para um afrouxamento argentino foi por demais evidente. A gestão física e tática do jogo foram sendo feitas a partir do controlo da bola, com Mascherano e Biglia a pautarem sempre os ritmos de jogo, deixando a Di Maria e Messi a criação de jogo ofensivo.

Mesmo depois das alterações de uma e outra equipa, o ritmo do jogo não se alterou e o arrastar da margem mínima até aos últimos minutos foi dando confiança à Jamaica, que pouco ou nada tinha a perder neste duelo com a Argentina. Dessa forma, o último quarto de hora do jogo acabou por trazer uma Jamaica mais afoita no terreno, subindo linhas e procurando colocar mais homens no processo ofensivo da equipa. O problema é que, apenas com Mc Anuff e Brown como jogadores mais virados para o ataque, a Jamaica só mesmo em bolas paradas é que foi provocando alguns calafrios junto do público albiceleste. Mesmo tendo passado os últimos minutos dentro da sua área, em virtude dos livres e cantos que a Jamaica foi colecionando nos últimos instantes do jogo, a verdade é que a Argentina nunca viu o resultado verdadeiramente ameaçado, em virtude da pouca capacidade jamaicana.

Messi foi sempre um quebra-cabeças para a Jamaica Fonte: tycsports.com
Messi foi sempre um quebra-cabeças para a Jamaica
Fonte: tycsports.com

Apesar de não ter feito novamente uma exibição de encher o olho, o facto é que a Argentina acaba por passar incólume nesta fase de grupos, apurando-se para os quartos de final da Copa América com sete pontos e o primeiro lugar do Grupo B. Ao olhar para as restantes concorrentes, percebe-se que talvez o Chile seja o adversário mais temível para os argentinos neste momento. Ainda assim, num onze com uma constelação de estrelas, facilmente se percebe que, até pelo valor individual dos seus jogadores, a Argentina de Messi, Di Maria e companhia é, à entrada para a fase decisiva da competição, provavelmente a equipa mais bem apetrechada para levantar o troféu sul-americano no próximo dia 4 de julho.

Agora, resta esperar pelo adversário dos quartos de final, que sairá pelo segundo melhor terceiro classificado dos grupos A ou C, sendo que a decisão deste último grupo acontecerá neste domingo, com os jogos Colômbia vs. Perú e Brasil vs. Venezuela. No jogo desta noite, os argentinos voltaram a não brilhar mas mostraram suficiente maturidade tática para encarar os futuros desafios com otimismo. Desde que, obviamente, sejam mais eficazes na altura de atirar à baliza. Até porque, daqui para a frente, não existem mais Jamaicas.

A Figura

Tridente ofensivo argentino Num jogo competitivamente tão desinteressante, com a Jamaica a atuar num bloco muito baixo, tornou-se evidente que teria de ser o talento individual argentino a desbloquear. E no que diz respeito a qualidade, o tridente composto por Di Maria, Messi e Higuain revelou-se muito dinâmico, tendo em conta o enorme número de oportunidades criadas ao longo do jogo. O ponto negativo foi mesmo a ineficácia que afetou os três jogadores e que evitou uma goleada da Argentina esta noite.

O Fora-de-Jogo

Fraca intensidade competitiva – Num duelo tão desigual, era quase impossível que o jogo não tomasse o rumo que tomou. De um lado, uma Argentina já apurada e cuja vitória magra era suficiente para alcançar o topo do grupo B; do outro lado, uma equipa da Jamaica que, apesar da boa réplica, está a anos luz de poder ser uma equipa verdadeiramente competitiva. Por tudo isto, o jogo foi muito pouco interessante porque toda a gente já sabia o seu destino, mesmo antes de este começar.

                                                                                               Foto de Capa: uk.eurosport.yahoo.com

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