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Foi campeã olímpica no Rio em 2016 e conta já com importantes medalhas e troféus no seu palmarés. Nunca, no entanto, Shaunae Miller-Uibo havia tido um ano tão dominador em duas disciplinas em simultâneo, não tendo perdido uma única prova das que participou em todo o 2018! Na distância pela qual é mais conhecida (400 metros) fez a sua melhor marca de sempre e nos 200 metros bateu todos os grandes nomes, incluindo a campeã mundial em título e também a campeã olímpica. O que poderemos esperar da atleta das Bahamas para os desafios que se avizinham?
Uma campeã em formação
Foi a 15 de Abril de 1984 que Shaunae Miller nasceu em Nassau, nas Bahamas, um pequeno país composto por mais de 700 ilhas, com uma população inferior a 400.000 pessoas. Vinda de uma família com ligações ao desporto, desde muito cedo começou a dar nas vistas e já aos 6 anos participava em provas de Atletismo. Com apenas 16, surpreendeu o mundo e tornou-se campeã mundial sub-20 em Moncton na distância dos 400 metros e foi aí que muitos de nós percebemos o diamante que estava por lapidar sob a forma da atleta que ainda hoje confessa ter apenas um sonho: ser a melhor!

Fonte: IAAF
Um ano depois, sem surpresas, foi a Lille vencer os Mundiais no escalão abaixo (de juvenis, sub-18) na mesma distância. Recordar este início da carreira de Miller é, também, perceber que a sua evolução foi contínua e os seus grandes resultados não apareceram apenas na idade adulta.
A fácil transição, o Ouro Olímpico e o desequilíbrio de Londres
Participou pela primeira vez em eventos globais seniores em 2012 nos Jogos de Londres com apenas 18 anos (lesionou-se e não terminou), mas foi nos Mundiais do ano seguinte, aos 19, que começou a provar que não seria um daqueles casos de difícil transição para atleta sénior. Nesse ano, em Moscovo, foi 4ª classificada, ficando à beira do pódio na prova de 200 – que nem era a sua especialidade – com uns impressionantes 70 metros finais. Olhando para os 3 nomes desse pódio (Shelly-Ann Fraser-Pryce, Murielle Ahouré e Blessing Okagbare) percebe-se o feito de Miller, numa final que tinha também nomes como Allyson Felix (que não terminou, lesionada) ou Jeneba Tarmoh (que foi 5ª). Um ano depois, a sua primeira medalha global apareceu e foi em pista coberta, com o Bronze nos 400 metros dos Mundiais de Sopot. Em 2015 baixou pela primeira vez dos 50 segundos nos 400 metros (em Lausanne com 49.92) e depois foi aos Mundiais de Pequim, conquistar a Prata em 49.67 segundos. Apesar da vitória de Allyson Felix em fantásticos 49.26, a marca de Miller não deixava dúvidas: ela seria a “next big thing” em pista.

Fonte: IAAF
2016 foi um fenomenal ano para a atleta. Não deu tanta atenção aos 200 metros como viria a dar em 2018, é verdade, mas nas 3 provas que disputou, venceu as 3. Nos 400 metros, porém, teve um domínio avassalador, não vencendo apenas a prova das meias-finais dos Jogos Olímpicos do Rio, onde Felix se exibiu em grande forma, projetando uma grande final. Na final, Miller superiorizou-se, tendo estado por cima durante toda a prova, mas sendo apertada no final pela estrela norte-americana, num dos mais dramáticos e controversos desfechos da história das finais do nosso desporto. Muito na altura se falou de um mergulho para o Ouro (que não é ilegal, mas muitos consideram ser pouco ético), mas a atleta sempre o negou, dizendo que tropeçou e esse aparente “mergulho” é apenas o resultado da queda. Nesse dia, terminou em 49.44 segundos, um novo recorde pessoal à data.
No ano de 2017, a época da atleta poderia ter sido quase perfeita, não fosse ter ocorrido um dos acontecimentos mais estranhos da sua carreira. Miller-Uibo havia dominado e vencido todas as provas de 400 metros da época. Chegou à final dos Mundiais de Londres como favorita e depois de um forte (ou alguns diriam, suicida) arranque de Allyson Felix, à saída da última curva, a norte-americana já tinha perdido a frente da prova e Miller assumira claramente o comando. Inexplicavelmente, a poucos metros do final, perdeu o equilíbrio e viu-se ultrapassada por Phillys Francis (que foi Ouro), Salwa Eid Naser (Prata) e Allyson-Felix (Bronze).
Muito se especulou acerca das causas do episódio: desde ácido lático até uma cãibra, passando por uma entorse. No final, a atleta desfez todas as dúvidas: ela estava na frente da prova e sabia-o, olhou para o ecrã no estádio e, sem qualquer explicação, quando o fez, perdeu o equilíbrio e o ritmo da sua corrida! Ficou fora do pódio, na quarta posição. Dois dias depois, na final dos 200 metros, viria a surpreender e aí sim a entrar no pódio, com a medalha de Bronze. Para o final do ano ainda estavam reservadas as finais da Diamond League, onde venceu nos 200 metros com um novo recorde pessoal de 21.88 e nos 400 metros com a melhor marca do ano (49.46), provando que o que acontecera em Londres fora apenas um percalço na pior altura possível.
Um 2018 só a vencer
Para este ano, Shaunae Miller-Uibo trazia uma estratégia clara de “se divertir”, sem forçar demasiado. Não era uma estratégia muito diferente da adotada pela maioria dos atletas. 2018 era um ano de transição ou, como muito se diz nos EUA, um year-off. No Atletismo em cada ciclo de 4 anos, existem 3 anos com eventos globais (1 Jogos Olímpicos e 2 Mundiais) e 1 ano sem qualquer evento do género – é a este ano que nos referimos. A atleta das Bahamas não só tinha como objetivo fazer menos provas, como também ter uma diferente abordagem a nível de treinos, testando coisas novas, principalmente a nível de distâncias.
Os resultados foram estrondosos! Foi nos 200 metros que fez a maioria das suas provas, vencendo as 7 competições em que participou (9 provas, contando com as eliminatórias dos Jogos da Commonwealth). Não foi a atleta que correu o tempo mais rápido do ano (o mais rápido que correu foi 22.06 e Dina Asher-Smith correu em 21.85 nos Europeus), mas sempre que esteve em prova com as atletas mais rápidas, correu mais rápido do que elas nesse dia! Desde 24 de Agosto de 2017 que só conhece o sabor da vitória nesta distância.

Fonte: IAAF
Nos 400 metros, também é desde Agosto do ano passado que não perde, embora nesta distância tenha realizado menos provas em 2018: foram apenas 3. Mas isso não impediu que na última vez que correu a distância nesta temporada tivesse feito história. No Mónaco, correu em 48.97 segundos, um enorme novo recorde pessoal, entrando para a casa de atletas a correr abaixo dos 49 segundos, subindo ao top-10 de sempre, com o tempo mais rápido que o mundo viu nos últimos 9 anos!
Fecharia a temporada com mais três importantes troféus na prateleira: com o Ouro nos Jogos da Commonwealth (logo em Abril), com a vitória do diamante na Diamond League (em Agosto) e com a conquista do primeiro lugar da Continental Cup (em Setembro), tudo isto na distância de 200 metros, num ano em que bateu a campeã olímpica (Elaine Thompson) e a campeã mundial (Dafne Schippers).
A época de Miller-Uibo teve ainda a particularidade de terminar sem qualquer derrota, tendo vencido todas as provas em que participou (e até fez Salto em Altura e Lançamento do Peso nos Nacionais!), sendo a única atleta em 2018 (feminino ou masculino) a dominar por completo, com invencibilidade absoluta, duas disciplinas em simultâneo!
O que esperar para 2019
É bastante incerto falarmos do que poderá ser Miller-Uibo em 2019, não pela sua qualidade e provável evolução, mas sim porque tudo irá ser determinado pelas suas escolhas durante a época. Os Mundiais de Doha, que se realizam apenas entre Setembro e Outubro do próximo ano, marcarão o ponto alto da temporada e os atletas apontarão o pique para essas datas tardias. No entanto, Miller-Uibo tem muito que decidir e planificar até aí chegar. Sendo uma atleta que tem apresentado tão elevado nível nos 200 e nos 400 metros, em Doha terá obrigatoriamente que fazer uma escolha, por muito que a atleta tenha mostrado previamente intenções de dobrar as distâncias. É que olhando para o último calendário divulgado pela IAAF, não se vislumbra tal possibilidade, uma vez que existem – em mais do que um dia – eliminatórias de ambas as distâncias separadas por minutos! Em condições normais e, dado, ter feito a enorme marca que fez nos 400 metros, parece sensato que a aposta passe pelos 400 metros, até porque será dela esperado que também ajude a sua nação na estafeta feminina e na estafeta mista, onde tem elevadas expetativas.

Fonte: Olympic
Mas não existindo ainda um pronunciamento oficial da atleta nem da sua agência, não sabemos se passará por aí a aposta. Quanto a marcas, acreditamos que em ambas as distâncias tem margem de progressão. Nos 200 parece claro que tem mais do que os 21.88 para mostrar e nos 400 – com a “ajuda” da pressão de Naser – pode ainda subir alguns lugares na tabela das mais rápidas de sempre, sem que pareça plausível poder alcançar as marcas de Marita Koch (47.60) e Jarmila Kratochvílová (47.99), tempos que têm a sua aura de ceticismo e que são sempre encarados com um asterisco à frente pela maioria dos fãs do desporto.
A concorrência que enfrenta(rá)
Caso a atleta decida apostar nos 200 metros em Doha, poderá ter a concorrência dos grandes nomes mundiais da velocidade mais curta. Elaine Thompson (a campeã olímpica) caso pretenda dobrar distâncias e Dafne Schippers (a campeã mundial) poderão apresentar-se como sérias ameaças, sem esquecer Marie-Josée Ta Lou (dupla medalhada de Prata em Londres) ou Dina Asher-Smith (a mais rápida em 2017). É, no entanto um tiro no escuro a um ano dos Mundiais fazer tal tipo de previsões, especialmente porque é bastante provável que algumas atletas não queiram fazer duas distâncias, apostando no aumento de probabilidade de sucesso se se concentrarem exclusivamente numa prova.
Ainda assim, a nossa aposta é que Miller-Uibo apostará nos 400 metros. Aí deverá ter a companhia da jovem, de apenas 20 anos, que representa o Bahrein, Salwa Eid Naser. Naser correu este ano mais do que nunca e apenas perdeu uma prova de 400 metros – a prova de Bruxelas onde Miller-Uibo baixou pela primeira vez dos 49 segundos! Nesse dia, Naser correu em impressionantes 49.08 segundos – um novo recorde asiático – e mais tarde viria a conquistar os Jogos Asiáticos e a Liga Diamante na distância. A jovem já afirmou que pretende correr algumas provas de 200 em 2019, mas parece-nos altamente improvável que a sua grande aposta não sejam os 400 metros. Será de momento a maior rival de Miller-Uibo e as duas em prova é promessa de uma corrida rapidíssima, com estilos muito diferentes mas igualmente eficazes. Miller-Uibo faz uso dos seus 1.85 metros e pernas longas para imprimir uma passada larga, chegando bastante forte aos metros finais. Já Naser que, curiosamente, também acaba bastante bem, é normalmente das mais baixas em pista (1.68 metros) em provas de 400 metros, mas nunca se deixa intimidar, sendo mortífera caso chegue à curva final em posição de discutir medalhas, como provou em Londres.

Fonte: IAAF
Longe dos holofotes em 2018 e a regressar em 2019 teremos a experiente Allyson Felix. A norte-americana, que é a mulher mais medalhada da história em eventos globais no Atletismo, prepara-se para fazer o último ciclo da sua carreira, ponderando o término em Tóquio (2020) ou Eugene (2021). Continua com a mesma fome de vencer, embora admita que está numa fase da carreira que tem que ser mais inteligente na forma de gestão. Nos 400 metros, Felix nunca correu tão rápido quanto Miller-Uibo ou Naser. A atleta tem um melhor pessoal de 49.26, mas nos últimos 3 anos não baixou dos 49.5, sendo difícil ver uma forma de Allyson Felix bater as duas atletas anteriormente mencionadas, quando chegar a Doha, à beira de completar 34 anos.
Phillys Francis é a campeã mundial em título e retirá-la da equação seria cometer um grave erro como o foi há 1 ano atrás. Os seus 49.92 que tem como recorde pessoal (na final de Londres) parecem longe de Miller-Uibo, mas numa final (quase) tudo pode acontecer e a final da capital inglesa prova isso mesmo. Francis tem o hábito de correr o seu melhor nos momentos mais importantes da temporada e em finais (nacionais ou globais), pelo que será uma das atletas que antevemos que não terá problemas em atingir o pico numa fase tão tardia do ano. Tem um wild card para Doha pelo que a preparação e o seu planeamento será exclusiva para esse momento da época, sem ter que se preocupar com o ranking mundial ou com as prestações nos Nacionais.
Depois existem um conjunto de atletas que são uma incógnita. Lynna Irby (19 anos) e Kendall Ellis (22 anos) são duas jovens norte-americanas que baixaram dos 50 segundos este ano e se voltarem a correr a esse nível poderão lutar por um lugar na equipa norte-americana. Aliás, a seleção norte-americana parece tão apertada, que até estávamos a deixar de fora a campeã mundial de pista coberta (Courtney Okolo) e a mais rápida do ano a seguir a Miller-Uibo e Naser: Shakima Wimbley! Isto se Sydney McLaughlin não quiser fazer uma gracinha na distância sem barreiras…
Na equação até pode aparecer Caster Semenya! A sul-africana surpreendeu tudo e todos, com os incríveis 49.62 segundos na Continental Cup de Ostrava. Não chegaram para bater Naser, mas chegaram para provar que se a sul-africana quiser apostar nos 400, tem grandes possibilidades de ser bem-sucedida. Sabemos que fará a “sua distância”: os 800. Provavelmente irá dobrar, resta saber se quererá fazer os 1500 ou os 400. O calendário parece mais propício para a prova de 1500 metros, mas é sempre uma possibilidade.
Quando Miller passou a Miller-Uibo
Como nota final, e como sabemos que por vezes existe alguma confusão com o nome de Shaunae, sendo que por vezes chamamos Miller e outras Miller-Uibo. Foi como Shaunae Miller que se deu a conhecer ao mundo e isso só mudou em Fevereiro de 2017 quando Miller casou com o estónio Maicel Uibo, adotando o seu apelido. E porque é que isto é também importante para este artigo? É que Maicel Uibo é também ele um atleta, das provas combinadas, que este ano foi medalhado de Bronze no Heptatlo dos Mundiais de Pista Coberta em Birmingham!

Fonte: Shaunae Miller-Uibo
Foto de Capa: IAAF Diamond League











