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cartaaberta

Caro Nélson Évora,

esta carta que lhe dirijo não é registada; não pressupõe, portanto, que acuse a sua recepção. Mesmo considerando que, por regra, ignorará o direito à opinião – e de preferência – que a lei me assiste, escrevo-lhe na mesma.

Deixe-me começar esta missiva por destacar o muitíssimo respeito que tenho por si; e confessar-lhe que sempre o admirei, como a mais nenhum outro, como homem e atleta. A sua carreira foi sempre, para mim, um exemplo de verdadeira superação. As suas vitórias foram sempre, aos meus olhos, lições de trabalho, de dedicação e de humildade. A sua relação pessoal e profissional com João Ganço, o seu “segundo pai” (nas suas palavras), comovia-me. Que atleta, de topo, especialista no triplo salto, ex-campeão olímpico, com fractura na tíbia, uma e outra vez, regressa, contra todas as expectativas, por talento e mérito próprios, ao nível mais alto da competição, voltando a colar-se aos melhores, voltando ao lugar que é seu, vencendo ainda um Europeu e conquistando um incrível “bronze” nos mundiais de atletismo? A resposta: Nelson Évora – que grande argumento para um filme de domingo à tarde (em dia de chuva). Não concorda?

Digo-lhe sinceramente: podia ser de qualquer outro clube, Sporting, FC Porto ou do JOMA, que, certamente, continuaria a sentir por si o mesmo respeito e admiração. O “ouro” nos Jogos Olímpicos de Pequim foram uma das grandes alegrias desportivas da minha vida. E digo-lhe mais: poucos foram capazes de me manter acordado madrugada adentro; e você, muito provavelmente, terá sido o único homem (é até algo que pode incluir num currículo). No entanto, você era atleta do Benfica; quis o destino que fosse um dos nossos. E isso, confesso, enchia-me de orgulho.

Escrevo-lhe esta carta (a tal que não receberá), dou-me a todo este trabalho – negligenciando até o olhar suplicante da minha cadela, ávida por dar um salto, não triplo, apenas simples, até ao parque -, pela razão de que você, Nelson Évora, não é, ou era, apenas mais um. Era especial e demonstrou-o, como referiu nas últimas horas, vencendo tudo o que havia para vencer durante os 12 anos de “águia ao peito” (nas suas palavras). O Nelson Évora não é, ou não era, somente um atleta do Benfica – era, isso sim, “o” atleta do Benfica, o símbolo das nossas modalidades, do nosso ecletismo, aquele que, pelo seu percurso pessoal e profissional, representava, como mais nenhum outro, os príncipios e valores deste clube, feito de trabalho e humildade, feito de medalhas de ouro. Neste período, você cresceu no Benfica e, sejamos justos, o Benfica cresceu consigo – você simboliza, ou simbolizou, essa recuperação, o regresso daquele Benfica que, mesmo não ganhando sempre, ganha sempre mais que outros: no atletismo; mas também no futebol, no futsal, no hóquei em patins, no basquebol e no voleibol (falta uma, eu sei, mas lá teremos de chegar sem si).

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