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Lendas do Atletismo: Gail Devers – A estrela das unhas esquisitas

Pedro Pires · 6 min

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Cabeçalho modalidadesAtravés da rubrica “Lendas do Atletismo” iremos revisitar alguns dos nomes maiores do nosso desporto, dando a conhecer também aos mais novos aqueles atletas que devem ser imortalizados e nunca esquecidos.

Começamos por falar de um nome por demais conhecido das gerações de 80/90: Gail Devers! Confesso que a atleta é uma das primeiras recordações que eu tenho do Track & Field. Ainda em criança, acompanhava pela televisão os grandes eventos e numa dessas ocasiões, sentado ao lado do meu pai, não consegui esconder o espanto (ou até o medo!) por aquela mulher de expressão séria e com umas enormes unhas, compridas até ao ponto de enrolarem. No final, venceu. Eu sabia que ela iria vencer assim que a vi. Se é verdade que as unhas sempre foram uma das imagens de marca de Devers enquanto atleta, esta deve ser recordada sobretudo por ter sido uma das mais extraordinárias atletas da história, tendo enfrentado um percurso que jogou muitos obstáculos contra si.

As unhas eram uma das imagens de marca Fonte: Macrumors
As unhas eram uma das imagens de marca
Fonte: Macrumors

Recuemos então até ao início da carreira da atleta de Seattle. Desde cedo, começou a destacar-se no Atletismo, sendo que a especialidade na escola secundária eram os 800 metros, a meia distância. Quando chegou à universidade, nomeadamente a UCLA, conheceu Bob Kersee, treinador-estrela do desporto norte-americano e do Atletismo em geral e que a incentivou para as distâncias mais curtas. Cedo começou a vencer, também, nas provas mais rápidas de distância curta (nos 60 e nos 100 metros, com e sem barreiras), chegando inclusive a bater o recorde nacional dos 100 metros com barreiras quando ainda era estudante universitária e foi com naturalidade que, aos 21 anos, viu carimbado o seu apuramento para os Jogos Olímpicos de Seul 88 nos 100 metros barreiras. No entanto, ainda antes da competição, a atleta começou a apresentar várias queixas de tonturas, queda de cabelo, perda de visão, perda de peso drástica, perda de memória e extremo cansaço, o que se viria a agravar no decorrer do ano, não tendo Devers passado das meias-finais da competição.

Em 1990, dois anos depois dos sintomas aparecerem em força, a atleta viria finalmente a ser diagnosticada com a chamada “Doença de Graves” – uma doença autoimune que afecta a tiroide. A situação de Devers chegou a ser tão delicada que, devido ao agravamento da doença e à formação de coágulos de grande dimensão, os médicos chegaram a ponderar a amputação de ambos os pés, no decorrer de uma má reacção ao tratamento com radiação. Na verdade, a atleta recorda que em Fevereiro de 1991 foi internada de urgência no hospital para que o seu pé esquerdo fosse amputado. Num emocionante depoimento – que pode ser consultado neste artigo do The Guardian Gail Devers: ‘A girl asked what was wrong with me. She said I looked like a monster’  – a mesma relembra o sofrimento que passou e a sua condição que fazia com que parecesse “um monstro”. Em determinadas alturas, Gail Devers não era sequer capaz de caminhar, tendo que se arrastar para fazer pequenas distâncias, como da cama para a casa de banho. Subitamente e com a ajuda de um diferente tratamento, Devers começou a melhorar significativamente da sua condição e até retomou os treinos pouco mais de um mês depois do sucedido e dois anos e meio depois de ter parado de treinar e competir. Em Agosto do mesmo ano, Devers viria a conquistar a medalha de Prata nos Mundiais de Tóquio, na distância curta com barreiras.

Um ano depois, em 1992, partindo da linha dois, a atleta viria a conquistar a medalha de Ouro nos 100 metros dos Jogos Olímpicos de Barcelona – algo ainda mais surpreendente porque a mesma era vista mais como uma “barreirista” e não era favorita no hectómetro sem barreiras. A chegada à meta dessa final foi do mais emocionante que o nosso desporto alguma vez viu, sendo que a decisão apenas foi tomada após a consulta do photo finish, com 5 atletas separadas por apenas 0.06 segundos! Vejam o video abaixo, que com certeza não darão o tempo por perdido:

[ot-video type=”youtube” url=”https://www.youtube.com/watch?v=3XsPCL2546Q”]

Gail Devers voltaria a repetir o Ouro olímpico em Atlanta 96 – mais uma vez com recurso ao photo finish! – e à data de hoje apenas duas outras atletas na história conseguiram a proeza de conquistar duas medalhas de Ouro nos 100 metros olímpicos (a norte-americana Wyomia Tyus em 1964 e 1968 e a jamaicana Shelly-Ann Fraser-Pryce em 2008 e 2012). Nos 100 metros ainda, viria também a conquistar o Ouro nos Mundiais de 1993 – mais uma vez com recurso ao photo finish! – e nas estafetas 4×100 ajudou a equipa norte-americana em mais um Ouro olímpico (Atlanta 1996), um Ouro mundial (Atenas 1997) e uma Prata mundial (Estugarda 1993).

O Ouro Olímpico de Atlanta – apenas outras duas mulheres na história do desporto conseguiram dois Ouros nos 100 metros em Jogos Olímpicos Fonte: 2BP
O Ouro Olímpico de Atlanta – apenas outras duas mulheres na história do desporto conseguiram dois Ouros nos 100 metros em Jogos Olímpicos
Fonte: 2BP

Também uma estrela em Pista Coberta, Devers conquistou por três vezes o título mundial Indoor nos 60 metros e por uma vez o da distância com barreiras. Em 2004, em Budapeste, já com 37 anos (!) tentou o Ouro em ambas as distâncias, mas acabaria, por ficar apenas com a Prata nas barreiras (e Ouro na distância sem barreiras).

Eu sei o que vocês estão a pensar. Então e o seu percurso nas barreiras ao ar livre, a sua prova preferida e a sua especialidade? Depois de começar com aquela Prata milagrosa em Tóquio, viria a repetir essa medalha muitos anos mais tarde, em Edmonton 01. Mas pelo caminho, conquistou três Ouros através dos três títulos mundiais ao ar livre nas barreiras (Estugarda 93, Gotemburgo 95 e Sevilla 99), sendo que em Estugarda foi mesmo campeã mundial na distância com barreiras e sem barreiras em simultâneo!

O título mundial das barreiras em Sevilha 99:

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Já nos Jogos Olímpicos, na sua disciplina favorita (os 100 metros com barreiras), ficará para sempre com um amargo de boca de nunca ter conseguido alcançar sequer uma medalha – embora Devers diga que não está nada desapontada pela sua trajectória, pois deu sempre o melhor de si em todas as provas. Em Barcelona 92, numa prova que lhe daria o segundo Ouro no mesmo evento depois da vitória nos 100 metros livres, liderava por completo a prova e estudos posteriores concluiram que ia para recorde mundial, quando embateu contra a última barreira e ficou em 5º lugar. Um dos desfechos mais dramáticos da história do nosso desporto e dos Jogos Olímpcos.

[ot-video type=”youtube” url=”https://www.youtube.com/watch?v=sUbSU1dZuRE”]

Em Atlanta 96 ficou num desapontante 4º lugar e em Sidney 00 e Atenas 04 teve que abdicar por lesão, nunca alcançando a glória olímpica no seu evento predilecto, mas alcançando na distância sem barreiras. Poucos são, no entanto, os atletas (no masculino e no feminino) que se poderão gabar de terem marcado presença em 5 edições dos Jogos Olímpicos, o que demonstra bem o talento e a força de vontade da atleta norte-americana.

Gail Devers viria a abandonar em definitivo o desporto em 2007, já com 40 anos, num ano em que, já depois de ser mãe pela primeira vez, conseguiu o melhor tempo da temporada nos 60m Indoor e bateu, por larga margem, o recorde para atletas acima dos 40 anos.

Gail Devers na actualidade, com as suas duas filhas Fonte: Zimbio
Gail Devers na actualidade, com as suas duas filhas
Fonte: Zimbio

Hoje , Devers, vive em Atlanta com o seu marido Mike Phillips e as suas duas filhas, é proprietária de um resort em Guiana, gere a sua própria instituição de caridade e é presença habitual como voluntária bastantes vezes em eventos com jovens, onde gosta de passar um pouco da sua experiência de vida. “Prémios e troféus são-te dados para que inspires os outros. Eu acredito que fui abençoada por este tão grande sucesso, para que possa fazer a diferença na vida de outras pessoas”. Uma campeã. Dentro e foras das pistas!

[blockquote style=”1″]SABIAS QUE? O sucesso de Gail Devers foi de tão grande impacto que o estádio da sua universidade tem hoje o nome de “Gail Devers Stadium?

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Foto de Capa: Biography.com

Pedro Pires

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