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A revolução do Passo Zero

Mário Silva · 8 min

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O basquetebol, ao contrário do futebol, é um desporto vivo e com constantes alterações ás regras.

Recentemente, a FIBA divulgou mais 14 alterações pontuais, depois de na época passada (junho 2017), sem que a maioria tenha dado grande conta, ter modificado o Artigo 25 (“Avanço ilegal”) introduzindo o denominado Passo Zero, numa clara tentativa de uniformizar os critérios com a NBA.

A NBA que tem os mais extraordinários talento  mostra que o Passo Zero é um recurso ofensivo que cria grandes vantagens. A Europa, e Portugal em particular, continua a  dormir  face a uma NBA que leva anos de vantagem.

A maioria dos treinadores ainda não entendeu ou finge não entender o enorme potencial destas alterações. Por outro lado também não é fácil aos jogadores mudarem os gestos técnicos muito automatizados por anos de pratica.

Quando iniciei o estudo desta regra cedo fiquei convencido que não era um alteração pontual ás regras mas sim uma alteração radical ao jogo. Estamos perante uma revolução tanto na técnica como na táctica. Com o Passo Zero temos um novo potencial de acções ofensivas que vão exigir também da defesa um esforço suplementar e muita inteligência na tomada das decisões.

Os treinadores deviam estar actualizados e conhecer ao pormenor as alterações de forma a tirarem o melhor partido o que a maioria, mesmo ao nível profissional, até ao momento, ainda não fez já que não acreditam e continuam na zona de conforto recusando a mudança.

Mas o caminho é imparável e a FIBA não vai voltar atrás. As novas gerações vão passar a jogar um basquetebol diferente deixando para trás quem continuar a jogar à moda antiga (antes de 2017). A titulo de exemplo é  só relembrar a moda em vigor dos Triplos. Nos anos 80 muitos a negaram mas agora todos gostam…

O que é o passo zero ?

O mais curioso de tudo isto é que o Passo Zero não está escrito nas regras. Funciona apenas como um código que facilita o entendimento e a comunicação entre os agentes da modalidade.

O tempo de parar para pensar acabou no basquetebol moderno. Receber em movimento e não parar para  tomar rápidas e acertadas decisões torna o jogo mais fácil, dinâmico e espetacular. O  art. 25.2.1 refere  que um jogador que controla a bola  com um pé apoiado no solo poderá:

  • Dar dois passos mais para parar, passar ou lançar ao cesto
  • Dar um passo mais se o que pretende é iniciar o drible antes de mover o pé
Fonte: FIBA

Quer dizer,  no caso de receber com um pé  apoiado no solo, esse passo (0) não contará e o seguinte será o pé pivot ou eixo (1). Depois de estabelecer o pé pivot, mantêm-se a regra tradicional.

Fonte: FIBA

O primeiro grande desafio que se coloca aos treinadores , é ensinar os  jogadores a reconhecerem  se no momento de receber/controlar a bola têm um pé apoiado ou não no solo, porque em função disso terá opções diversas em termos regulamentares.

Quando não há passo zero:

Quer pois dizer que os jogadores pode jogar não só  com a nova regra mas também e ao mesmo tempo com a antiga , isto porque se recebem  a bola no ar ou se  recebe com dois pés no solo parado este novo conceito não se aplica.

Se recebemos a bola  com os pés no ar nada mudou e só podemos dribla antes de levantar pé eixo.

Mais rápido o contra ataque

No passado a recepção do primeiro passe de contra ataque pelo base em corrida após a equipa ganhar o ressalto defensivo era muitas vezes penalizada com violação á regra dos passos.

Dantes os treinadores ensinavam a não agarrar a bola para não fazerem passos, diziam ao base em movimento para dar uma palmada na bola iniciando de imediato o drible.

Com a nova regra passaram a dizer aos jogadores para não saltarem, continuarem a correr, controlando/agarrando a bola com apoio num pé (0) no solo o que lhes permite dar mais um apoio (1) antes de ter de enviar a bola ao solo. Passo de saída:  “Antes que apoie o passo 2”. Não é antes que levante… mas sim antes que apoie.

Fonte: FIBA

A recepção em corrida é uma das grandes vantagens das novas regras. Temos agora um jogo mais rápido com muito mais acções de contra ataque e menos riscos de perdas de bola por violações o que vai obrigar necessariamente a uma nova defesa…

Se os árbitros não observarem bem o contacto dos pés com o solo no momento da recepção/controle, esta regra pode ser uma autêntica “barra livre” o que, em minha  opinião, não favoreceria a melhoria da qualidade do basquetebol, mas apenas o seu dinamismo.

Mais um passo no ataque mais problemas para a defesa

Um esforço suplementar é o que se vai pedir no futuro aos defesas quando confrontados com atacantes que dominem os apoios com o passo zero, já que os recursos ofensivos são agora múltiplos e imprevisíveis.

É frequente, na NBA, os jogadores desistirem de defender dada a grande vantagem técnica e física de quem ataca com o recurso do passo zero. Com a recepção em movimento o defesa é obrigado a adivinhar o movimento dos pés do adversário de forma a antecipar a acção.

Arranques muito mais rápidos, múltiplas opções de finalização configuram um novo perfil de jogador no basquetebol FIBA. O atacante não tem agora de diminuir a velocidade dos seus deslocamentos para não infringir as regras, um novo quebra cabeças para os defensores

Anteriormente a defesa tinha vantagem na pressão da saída do contra ataque , baixava a velocidade da transição, dificuldade atacante para arrancar em corrida ou receber em movimento sem fazer passos. Agora o atacante tem mais um passo(0) e pode sair em drible orientado.

Não é boa ideia pressionar o portador da bola de frente (“straight”).

A solução defensiva passa agora por um “close out “/aproximação ao jogador com bola de forma lateral, com mãos activas, fechando o caminho (deslizando ou correndo) para condicionar opções ofensivas. 

Lançar ao “pé coxinho” é proibido

Pela lógica não fazia qualquer sentido a proibição de lançar ao “pé coxinho” (os espanhóis chamam “ traspiés”). Isto é não se pode  repetir o apoio: por exemplo entrada em drible  finalização repetindo apoios, pé esquerdo (0), pé esquerdo (1) e pé direito (2). Contudo surpreendentemente a FIBA proibiu tal movimento, provavelmente os norte americanos não gostam de tal acção…

Fonte: FIBA

Tecnicamente também não encontro razões já que o atacante apenas procura mudar a frequência dos passos frente a um opositor que pretende o desarme .

“STEP BACK“ á moda do barbudo Harden

No denominado movimento “Step Back” o atacante em drible e sem vantagem leva o defensor na direção e proximidade cesto para depois se separar do mesmo para trás afastando-se do cesto.

Gesto complicado no basquetebol FIBA no passado, porque exigia uma grande potencia de pernas para o atacante se separar do defesa porque só contava com os apoios 1 e 2 não podendo apoiar o pé do equilíbrio, o que originava um lançamento sobre um só pé muitas vezes desequilibrado

Agora graças ao passo zero jogadores com James Harden têm grande protagonismo com este lançamento, conseguindo sem grande esforço lançar afastado do defesa.

Drible inversão (“Spin Move”) de regresso

Para evitar fazer passos no  passado ensinávamos o drible de inversão completo e perfeito  incluindo formas simplificadas em que perdíamos um passo. Com a nova regra e de forma sincronizada controlamos a bola com um pé no chão (0) e depois podemos dar o passo (1) e o passo (2) para finalizar levantando o pé pivot e saltando sobre (2) para lançar ou optando por lançar em “Power Move” com os dois pés apoiados (12).

O segredo é mesmo o agarrar a bola com um pé no solo, não conta (0).

O movimento volta a ser espetacular e com múltiplas soluções: dois passos (012) para a frente  ou para trás á moda do alemão Dirk Nowitzki , um passo e um salto (0122), um salto e um passo (0112) …paragens (012) finta /roda  ou um passo (01) ou… um salto (011)…

Os postes também têm direito…

Os jogadores interiores podem agora finalizar  o drible com  um pé apoiado no solo (0) dando   mais dois  apoios (12) o que lhes permite  voltar ao lançamento de gancho.

Podem também lançar como o antigo poderoso poste Shak O´Neal que marcou muitos cestos finalizando  o drible com um pé apoiado (0)  e  caia em  um tempo (11) o que lhe  permitia ainda  mover um pé  mais (2). Um qualquer  já que pode escolher o pé eixo (11)

O “Pé coxinho”/ “traspiés”  em  movimento dos postes também é ilegal

O  “Step back” após drible inversão  passa a ser legal, sendo muito útil para criar espaços

Desafio aos treinadores

Com o Passo Zero os treinadores , sobretudo na Formação , podem limitar o erro de um mau passe (tanto por “timing” como por direção) se o jogador receber com um pé apoiado. A nova regra enriquece o jogo e permite mais recursos ao atacante .

O passo zero não elimina o risco dos passos por mover o pé pivot sem libertar a bola nem  elimina os passos nos arranques.

O Passo Zero não acabou com a técnica individual tal e qual a conhecíamos. Aumentámos sim os recursos ofensivos.

Quem fica claramente a ganhar com esta regra são os lançadores do perímetro que podem aproveitar melhor as saídas  dos bloqueios recorrendo com Korver (Cleveland) a apoios variados para marcarem triplos sem grande oposição.

Aprender a desaprender

Ensinar a jogar com o Passo Zero não é fácil. A experiência retirada dos muitos Clinics e treinos que levei a cabo por todo o pais diz-me que os mais jovens que se iniciam na modalidade aprendem com mais facilidade. Cada atleta tem um  tempo diferente de aprendizagem, para isso nada melhor que individualizar o ensino.

Já com os jogadores de nível intermédio estes já adquiram algumas habilidades e  têm que desprender para aprender de novo. Mais complicada parece ser a tarefa com jogadores de nível avançado onde desaprender é difícil. Neste grupo o trabalho proprioceptivo ajuda na melhoria da qualidade  da coordenação o que pode facilitar a entrada no Passo Zero.

Desaprender implica reconhecer que o resultado actual já não é o melhor nas habilidades e no conhecimento do jogo. Passaram de moda, e agora outras técnicas são mais rentáveis. Desaprender e aprender implica esforço. Jogadores que reaprendem são mais flexíveis ás  novas oportunidades do jogo.

No basquetebol faz sentido a máxima: Nada é para sempre.

Foto de Capa: FIBA

Mário Silva

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