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O difícil papel de suplente

Mário Silva · 6 min

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Cabeçalho modalidadesNos jogos colectivos ninguém gosta de ser suplente, todos querem jogar. A realidade, contudo, é dura e diz que muitos jogadores passam a vida sentados no banco. No basquetebol, um atleta que joga apenas cinco minutos por jogo, o que faz nos restantes 35? Como pode ajudar a equipa a ganhar?

Muitos treinadores ainda não entenderam a importância destes jogadores no resultado final .

Os americanos falam muito em off the bench,  jogadores que saem do banco dos suplentes para ajudarem as equipas a melhorar o que esteja a corre mal, o que para as equipas que pretendem vencer e ter sucesso representa um factor decisivo.

O antigo poste dos Chicago Bulls, Bill Cartwright, disse um dia: “as equipas só têm sucesso quando possuem, no seu seio, jogadores capazes de pensar primeiro no colectivo e só depois em si mesmo.”

Jerry Tarkanian, treinador famosos e já falecido, foi ainda mais concreto: “O segredo é termos oito bons jogadores e mais quatro que apoiem claramente a equipa”.

Compete pois ao treinador definir, no tempo certo e de forma clara, quem vai ser o cinco mais utilizado e quem são os restantes que partem do banco e que, gradualmente, assumem a tarefa de serem úteis à equipa. Estes jogadores devem estar conscientes que, sem deixarem de pensar nos seus interesses particulares , vão ter de se comprometer emocionalmente com os interesses do colectivo.

Assim, fica claro que o bom jogador é aquele que, por via da sua acção, contribui para a vitória e o sucesso da equipa e que, para além da sua acção individual, consegue, acima de tudo, ajudar os companheiros a serem melhores.

Ao longo da minha carreira de jogador, nomeadamente na passagem pela equipa do SL Benfica, treinada pelo mítico Prof. Teotónio Lima, ficou clara a ideia da importância dos suplentes, independentemente do tempo de utilização.

Fonte: Prof. Mário Silva
Fonte: Prof. Mário Silva

Não me posso nunca esquecer dum jogo da Taça da Taças, contra os Belgas do Racing Malines, onde, com o Pavilhão da Luz super lotado e numa partida equilibrada, tive a oportunidade de jogar no último minuto e de ter recebido a bola. Não perdi a mesma e consegui fazer o passe. Ganhámos e foi um os melhores jogos da minha carreira…

Foto de Capa: James Pennington

A importância de Mcadoo

O extremo dos Golden State Warriors (NBA), James Michael Ray McAdoo, foi elemento de destaque em North Carolina (“Tar Heels”), onde jogou três anos. Em 2014, não concluiu o ultimo ano de elegibilidade e não foi escolhido no NBA draft.

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Fonte: New York Times

A família tem grande tradição na modalidade: os pais de McAdoos, Ronnie e Janet, jogaram basquetebol em Old Dominion e foram profissionais na Europa, a irmã mais velha, Kelsey, também jogou em North Carolina. O pai de McAdoo é primo do “Hall of Fame”, Bob McAdoo, que também jogou em North Carolina, na NBA e na Europa.

Agora, apesar de ser o último jogador no banco da melhor equipa da NBA, a atitude e a ética de trabalho fazem de James McAdoo um elemento valioso.

Nos jogos dos Golden State Warriors, poucos reparam neste jovem, que fica na maior parte das vezes o jogo inteiro sentado no banco. Só se dá por ele quando o técnico, Steve Kerr, pede um desconto de tempo e ele se levanta para dar um high five a uma das grandes estrelas da equipa.

A rotina de James McAdoo, ao longo da semana, não é, contudo, fácil. Normalmente, é o primeiro a chegar ao centro de treino. Liga o seu o som, calça as botas e junta-se a três membros do departamento de vídeo dos Golden State Warriors (conhecidos como os membros do Clube do Café da Manhã ), para fazer um ligeiro aquecimento antes do treino.

Como assiste à maioria dos jogos sentado numa cadeira dobrável à beira do campo, precisa de treino extra. Os seus companheiros, que o conhecem por Mac, apreciam o seu esforço. “Ninguém me subestima só porque eu não jogo”, declarou McAdoo.

Da equipa que foi campeã em 2015, apenas seis jogadores permanecem no elenco dos Warriors: Stephen Curry, Klay Thompson, Draymond Green, Andre Iguodala, Shaun Livingston e James Michael McAdoo. McAdoo só ficou devido à sua ética de trabalho, à sua mentalidade de saber trabalhar em equipa e ao seu contrato barato.

McAdoo esta época apenas jogou em média 8,4 minutos. “É difícil jogar mais tempo porque temos muito jogadores bons”, disse o técnico assistente, Ron Adams.

Está sujeito a uma rotina implacável, chega cedo e sai tarde, procurando não só melhorar como jogador, mas também em  motivar os seus companheiros, que ficam comprometidos com o trabalho duro ao verem o exemplo do suplente.

McAdoo é um jovem (24 anos) que está bem ciente do seu papel. “Não estou aqui para fazer discursos motivacionais”, diz. Nunca sabe quando vai ter direito a minutos mas tem de estar preparado .

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Fonte: New York Times

Complicada é também a vida da sua esposa, Lauren, uma ex-jogadora de voleibol. “Estou a assistir aos jogos e quando já  estão a vencer por 20 ou mais penso: é agora que ele vai entrar. Fico tão frustrada quando não o colocam e depois ele chega a casa e apenas dia: Está tudo bem!”.

A maioria dos vizinhos de McAdoo desconhece o que ele faz profissionalmente.

Lauren McAdoo tem, contudo, uma visão positiva da carreira do marido: “Muitos jogadores eram capazes de matar para fazerem parte do banco dos campeões”.

Foto de Capa: James Pennington

Nos Warriors, os titulares são responsáveis por 75% da folha de pagamento (só Durant ganha US$ 26.5 milhões de salário). McAdoo assinou, em julho, um contrato de um ano, valendo apenas US$ 980.000. Por outro lado, enquanto Durant e Curry têm contratos multimilionários em publicidade, McAdoo tem apenas direito a ganhar botas de graça da Nike.

“Acho que a química da equipa é determinada pelos dois melhores jogadores e pela parte mais humilde do elenco”, disse o técnico Steve Kerr. “Na maioria das equipas , há uma hierarquia bem clara, e sabemos quem está a liderar e todos sabemos como a liderança é essencial. Os suplentes, como Macdoo, são muito importantes. Se começarem a reclamar ou ficarem desmotivados, isso pode ter um efeito negativo no resto da equipe. Os Warriors pensam novamente no título, e não podem perder tempo com isso”.

McAdoo, depois de concluir a carreira em North Carolina, não foi recrutado por nenhuma equipa. O seu agente, Jim Tanner, não desanimou e deu-lhe o seguinte conselho: “vai fazer um teste com os Warriors como agente livre, e trata de seres o jogador que mais trabalha”, recorda McAdoo.

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Fonte: New York Times

Contudo, a mentalidade trabalhadora de McAdoo não foi suficiente para impedir que fosse cortado no “Training Camp”. Passou naturalmente para a Liga de Desenvolvimento da NBA, onde jogou nos Santa Cruz Warriors, tendo obtido médias de 19.5 pontos, 8.7 ressaltos, com 57.5% de aproveitamento, em 33 jogos. Uma  sequência improvável de acontecimentos fez com que McAdoo conseguisse uma segunda chance nos Golden State naquela temporada. “Para que eu tivesse uma chance um jogador teve que, literalmente, dizer que não queria continuar a jogar na NBA”.  Nemanja Nedovic estava muito desapontado com seu papel limitador e resolveu assinar com uma equipa de Espanha. Os Warriors acabaram por vencer o seu primeiro campeonato desde 1975 e McAdoo, que jogou apenas em cinco jogos dos playoffs, ganhou um anel.

“Sabemos que Mac pode ser o 15º jogador aqui, mas noutra equipa pode ser o oitavo, e nós ficaremos felizes por ele quando esse tempo chegar.”

McAdoo sabe que tem de permanecer preparado, não importa quando vai ter de jogar. Frequentemente, nem é convocado, o que significa que nem se equipa. No começo da temporada, não saiu do banco por oito jogos seguidos e, quando Kerr finalmente decidiu colocá-lo em campo, foi apenas para jogar cinco segundos contra os Miami Heat.

“Todos querem jogar 48 minutos. Porém, não me posso esquecer que este é  o terceiro ano na liga e na melhor equipa  da NBA, por isso é difícil reclamar. Sei que tenho de me manter mentalmente envolvido. Não tenho necessidade que alguém me diga  que tenho de treinar, vou por minha iniciativa”, concluiu McAdoo.

Foto de Capa: James Pennington

Artigo revisto por: Francisca Carvalho

Mário Silva

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