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A bala mais certeira: A carreira de Alejandro Valverde

Filipe Pereira · 7 min

A bala mais certeira: A carreira de Alejandro Valverde
Foto: Movistar Team

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No último sábado, Alejandro Valverde, ciclista espanhol de 42 anos colocou um ponto final à sua carreira no pelotão. Com 139 vitórias em toda a carreira profissional, o último resultado do atleta murciano foi um sexto lugar na Volta a Lombardia. Um dos últimos bastiões de uma geração de ouro do ciclismo espanhol, na qual constam nomes como Joaquim Rodriguez e Alberto Contador. Um ciclista “à antiga” podia ganhar em praticamente qualquer estrada, fosse plano, a subir (mas não demasiado) ou a descer.

As vitórias mais características do “Bala” eram nos sprints em grupos reduzidos e em corridas de média montanha. Um Campeonato do Mundo, uma Vuelta, recorde de vitórias na Fleche Wallonne e de presenças no pódio da Liège-Bastogne-Liège, são os números mais sonantes de uma carreira que durou 21 anos.

Foto de Capa: Movistar Team

Artigo redigido por Filipe Pereira

O INÍCIO

Alejandro Valverde obteve bons resultados, desde os tempos de júnior. Uma vitória aos 17 anos na “Gipuzkoa Klasikoa” (prova basca de renome nos escalões de formação) e dois vice-campeonatos nacionais de contrarrelógio prometiam um futuro interessante para o jovem murciano

Valverde iniciou a carreira profissional em 2002, ao serviço da Kelme – Costa Blanca. Não obteve qualquer vitória nessa época, mas conseguiu diversos resultados de relevo, nomeadamente naVolta a Espanha, marcando a estreia do espanhol em corridas de três semanas.

O “Bala” atingiu o primeiro alvo em fevereiro de 2003, quando ganhou a classificação geral do “Challenge” de Maiorca. Foi um ano de revelação para o ciclista espanhol que, aos 23 anos, foi vice-campeão do Mundo (batido apenas pelo compatriota, Igor Astarloa), ganhou duas etapas e o prémio da combatividade na Vuelta.

Os top 10 nos Mundiais e as vitórias de etapa nas Grandes Voltas tornaram-se um hábito para Valverde e apareceram logo em 2004, ano em que arrasa na Volta a Burgos. Em 2005, mudou-se para a estrutura que hoje é designada de Movistar Team.

À PROCURA DA GLÓRIA EM GRANDES VOLTAS

Em 2005, Alejandro Valverde tem um dos episódios mais marcantes da carreira: um frente a frente com Lance Armstrong. O murciano participava pela primeira vez na Volta a França e numa etapa com chegada em alto nos Alpes, foi capaz de aguentar e ganhar num grupo com nomes como Francisco Mancebo e Ivan Basso.  Valverde mostrou ao Mundo a excelente ponta final que Espanha já conhecia.

NaVuelta de 2006, Alejandro Valverde alcançava o primeiro pódio da carreira em três semanas. A prova rainha do ciclismo espanhol revelar-se-ia um talismã para o murciano. Dos oito pódios alcançados, seis foram na Vuelta, sendo que apenas por uma vez ocupou o lugar mais alto. Em 2009, Alejandro Valverde ganhou a Volta a Espanha, batendo Samuel Sánchez e Cadel Evans.

Apenas 6 anos depois é que Valverde conseguia fazer pódio no Tour, quando nem sequer era o líder da Movistar (foi gregário de luxo para Nairo Quintana). Em 2016, participou pela primeira vez na Volta a Itália e juntou-se a um grupo restrito de 19 ciclistas que, em toda a história, fez pódio nas três grandes voltas.

Em 2019, Alejandro Valverde alcança o último pódio da carreira em provas de três semanas ao alcançar um segundo lugar, apenas batido por um tal Primoz Roglic.

A MAIOR QUEDA

A grande “mancha” na carreira de Alejandro Valverde é o envolvimento na operação “Puerto”, uma investigação, iniciada em 2006, que levou ao desmantelamento de uma rede de doping no desporto espanhol, encabeçada pelo médico Eufemiano Fuentes. Valverde foi ligado a um dos sacos de sangue apreendidos a Fuentes pela polícia, que continha vestígios de eritropoetina (EPO).

O “Bala” chegou a ser absolvido mas durante o Tour de 2008, uma amostra de ADN correspondeu com o sangue apreendido em 2006 . Como tal, o ciclista murciano enfrentou uma suspensão pelo Tribunal Arbitral do Desporto entre janeiro de 2010 e janeiro de 2012. Num documentário admitiu mesmo que enfrentou uma depressão quando regressou à competição.

“Veem-nos como estrelas, mas no final, somos humanos, os pontos baixos estão aí, estão em qualquer ponto de vida, estão em qualquer contexto da vida e atingiram-me”. Palavras que se fazem ouvir cada vez mais, não fosse a saúde mental um assunto cada vez mais importante.

O Diretor Desportivo da Movistar em 2011 (e até hoje), Eusebio Unzue elogiou numa entrevista ao VeloNews o murciano por nunca ter parado de treinar como um profissional, mesmo durante a suspensão.

Alejandro Valverde voltou em janeiro de 2012 no Tour Down Under, corrida australiana na qual venceu a quinta etapa. O espanhol refere esta como a maior vitória da carreira. Ainda nesse ano, arranca a ferros um triunfo numa etapa Tour.

Uma chegada em alto em Bagnères-de-Luchon perante uma perseguição intensa do famoso “Sky train” (que dava os primeiros sinais de uma vida muito longa) encabeçado por Chris Froome, seguido pelo camisola amarela, Bradley Wiggins. Foi ainda segundo classificado da Vuelta, atrás apenas de um certo pistoleiro.

Alguns dos melhores anos da carreira de Valverde ainda estavam pela frente, nomeadamente a época de 2017, quando o espanhol alcança 11 vitórias em apenas 35 dias de corrida. A temporada foi encurtada por uma queda muito grave no contrarrelógio de abertura do Tour que colocou em causa a continuação da carreira do “Bala”.

O REINADO NAS ARDENAS E A AMBIÇÃO DO ARCO-ÍRIS

Apesar dos bons resultados em provas de três semanas, os maiores “shows” de Alejandro Valverde eram nas corridas de um dia. Quando estava no pico de forma, poucos eram capazes de acompanhar o espanhol nas subidas curtas e empinadas. A sua ponta final “explosiva” combinada com a capacidade de subir, particularmente em média altitude, tornavam-no um candidato a todas as provas com percurso acidentado, marcadas por um “sobe e desce” quase constante.

As corridas mais talhadas com este tipo de perfil eram as clássicas das Ardenas, particularmente a Liège-Bastogne-Liège e a Fleche Wallonne. Valverde é recordista absoluto em ambas as provas com 4 e 5 vitórias, respetivamente.

Em 2017, aproveitou para limpar (mais uma vez) as duas maiores clássicas das Ardenas, alcançou a vitória 100 da carreira. Provou que se a corrida fosse de um dia ou de uma semana, não era só candidato, não era só um favorito, era favoritíssimo. Ao nível de provas de um dia, o maior buraco na carreira de Valverde fica mesmo na ausência de ouro olímpico no palmarés.

Um dos objetivos mais perseguidos pelo “Bala” foi a camisola arco-íris, a vitória no campeonato do Mundo. Foi ao pódio por seis ocasiões, ganhando a medalha de bronze por três anos consecutivos, nomeadamente em 2013, quando foi acusado por alguns adeptos espanhóis de ter facilitado a vitória de Rui Costa, colega de equipa na Movistar, contra o compatriota Joaquim Rodriguez.

Á última foi de vez! No ano de 2018, 15 anos depois de ganhar a primeira medalha de prata, o “Bala” atingiu o alvo mais esperado (ou mais pensado, como preferirem) e sagrou-se campeão do Mundo pela primeira e única vez, batendo Romain Bardet e Michael Woods ao sprint em Innsbruck. Valverde cumpriu, desta forma, um objetivo de carreira: correr a Vuelta com a famosa arco-íris

A época de 2022 não foi muito vitoriosa para Valverde, sendo que o murciano se dedicou sobretudo a assegurar a manutenção da Movistar no World Tour.

É o próprio que diz “É a vez dos jovens, agora”. Uma carreira com desafios físicos e mentais que atravessou a prosperidade e a decadência do ciclismo espanhol. Alejandro Valverde tem uma equipa de Sub-23, a Valverde Team – Ricardo Fuentes e vai continuar na estrutura da Movistar. Sai perante uma nova geração do ciclismo espanhol, marcada por Juan Ayuso e Carlos Rodriguez, que começa a recarregar a arma.

Filipe Pereira

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