Cabeçalho modalidadesNos anos 80, Laurent Fignon e Bernard Hinault eram os grandes voltistas do ciclismo e a França, como habitual na história da modalidade, a mais forte das nações. O Tour de 1989 marcou o fim de uma era. Quando tudo parecia encaminhado para Fignon chegar à vitória e o próprio já não acreditava que o pudesse perder, deu-se a reviravolta nos Campos Elísios, com o americano Greg LeMond a vencer pela menor margem da história da prova, uns meros oito segundos.

Começou aí um período negro para os gauleses, que foram perdendo o seu estatuto de potência do ciclismo e começaram o novo milénio consignados à categoria de ‘combativos’ e de só marcar as grandes provas pelas suas presenças em fuga. Quando promessas como Coppel ou Sicard não corresponderam às grandes expectativas, o desespero e ânsia por um grande campeão francês adensou-se ainda mais.

Finalmente, os anos mais recentes trouxeram uma onda de jovens talentos franceses que estão a confirmar as suas credenciais, Thibaut Pinot e Romain Bardet nas Grandes Voltas, Julian Alaphilippe nas Clássicas e Arnaud Demare e Nacer Bouhanni nos sprints. Um terceiro nome deveria surgir na lista dos sprinters, o de Bryan Coquard, mas aquele que era considerado o mais promissor dos três está a ter dificuldades em se afirmar definitivamente no panorama internacional, especialmente devido às equipas em que se insere.

Logo a seguir a alcançar a prata na prova de fundo dos Mundiais de Estrada Sub23 de 2012, entrou, ainda muito jovem, na Europcar, uma das melhores equipas francesas com Thomas Voeckler e Pierre Rolland à cabeça e começou logo a vencer a um bom ritmo. Ele que havia também chegado à prata nas Olímpiadas de Londres na pista, na disciplina de Omnium, no seu segundo um ano de profissional já estava a estrear-se no Tour de France e dando boa conta de si, alcançando sete lugares entre os 10 melhores da etapa e acabando em terceiro na luta pela camisola verde. No ano seguinte foi menos regular ao longo dos 21 dias, mas os dois podiums de etapa deixavam adivinhar que estava próxima tão ansiada vitória de etapa.

2016 foi ano da confirmação de todo o potencial do velocista de Saint-Nazaire. Com 13 vitórias ao longo da temporada e sendo claramente o mais forte sprinter do calendário francês, no tour esteve outra vez tão, tão perto. Na verdade foi preciso recorrer ao photofinish para estabelecer que o francês tinha ficado a milímetros de Marcel Kittel. Mesmo tendo ficado aquém da vitória na La Grande Boucle, havia algo que todos se apercebiam: a sua equipa – entretanto renomeada Direct Energie – era demasiado pequena para tão grande talento.

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Com Voeckler já a acusar a idade, Rolland a já ter abandonado o projeto e um orçamento cada vez mais reduzido, a Direct Energie perdia espaço e importância, tanto internamente com a AG2R – La Mondiale e a FDJ a assumirem uma qualidade muito superior, como internacionalmente, marcando cada vez menos presença em provas fora de terras gaulesas. Para Coquard havia dois grandes problemas, a falta de gregários de qualidade que lhe dessem o apoio que necessitava e o calendário restrito que o impedia de, como fez Bouhanni, consolar as derrotas do Tour com vitórias no Giro e na Vuelta e mesmo em outras provas mais pequenas do World Tour.

Coquard está habituado a vencer longe dos grandes palcos Fonte: Direct Energie
Coquard está habituado a vencer longe dos grandes palcos
Fonte: Direct Energie

Assim, a meio de 2017, Coquard confirmou o que todos esperavam e anunciou que não renovaria com a Direct Energie. Se tal era esperado, o líder da equipa não gostou e decidiu, por isso, deixá-lo de fora do Tour e acabar a ligação de anos ao ciclista de forma azeda. O que acabou por surpreender foi a escolha de nova equipa de Coquard que seguiu para uma equipa Pro Continental recém-criada, invés de subir para o escalão World Tour, ingressando na Vital Concept do antigo ciclista Jerôme Pineau.

O resultado mais negativo foi agora conhecido: voltará a falhar o Tour em 2018. A ASO, entidade organizadora da prova, anunciou os Wildcards para as três provas por etapas francesas do World Tour e a Vital Concept apenas recebeu convite para o Critérium du Dauphiné. Ora, este é um grande revés para o ciclista e a equipa que tinham como um grande objetivo ir ao Tour e fazer boa figura. Deste figurino, há duas circunstâncias a merecer um maior escrutínio: a decisão da ASO e o futuro de Coquard.

Quanto ao primeiro ponto, há que dizer que a organização da maior prova do fundo adiantou-se aos acontecimentos e anunciou cedo demais a sua decisão, correndo o risco de o desempenho desportivo das equipas durante a época fazer com que se arrependa e se sujeite a ainda maiores críticas. A verdade é que nenhuma das selecionadas tem argumentos que a tornem insubstituível e, por isso, só com o desenrolar do calendário e o aparecimento de resultados se podia chegar à conclusão sobre quem realmente merecia estar presente no Tour.

Já quanto a Coquard, espero que este percalço acabe por não ser impeditivo de desenvolver todo o seu potencial. Sabe-se que o ciclista foi abaixo emocionalmente com a disputa com o seu antigo patrão e esta situação poderá desmotivá-lo ainda mais e dar lugar a um ciclo negativo, mas Coquard e os seus terão de encarar este momento difícil com a motivação de provar na estrada à ASO que estavam errados em não os levar ao Tour. Para isso, tem de se afirmar finalmente entre os melhores do pelotão internacional e se a qualidade está lá, a partir de agora também passa a ter uma equipa ao seu nível com apoios como Kevin Reza e Jonas Van Genechten e a Vital Concept, apesar de criada do zero, parece ser bem melhor estruturada que a Direct Energie.

Foto de Capa: Le Tour de France