Egan Bernal triunfa num Giro d’Italia com muito “lume” português

A BODA DE PRATA DE EGAN BERNAL QUE PROMETE TORNAR-SE DE OURO

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Falar desta vitória é como falar de um casamento perfeito, abençoado pelas bodas de prata, e que de uma miragem, passou a uma possibilidade bem real quando falamos das bodas de ouro para o jovem colombiano. 24 anos e fica a faltar apenas a La Vuelta para atingir o pleno de grandes voltas. Importa contextualizar isto, até porque, na pior das hipóteses, Egan Bernal tem uma década para manter o nível apresentado e juntar-se assim a nomes como Anquetil, Gimondi, Merckx, Hinault, Contador, Nibali ou Froome.

A tradição de prata chegou um ano mais cedo do que era suposto e a de ouro certamente não demorará mais duas décadas e meia. Não é certo que aconteça, mas refletir sobre o atual nível do jovem ciclista da Ineos é necessário, tornando o balanço deste Giro pródigo à perceção do ciclista que Bernal se está a tornar. Na lista de fatores que levaram o colombiano à camisola rosa, em termos gerais, terá de se referir sempre a sua postura. Dentro do núcleo da equipa britânica, a experiência e disponibilidade coletiva serviram de aliança para um destemido atleta na condição física, onde se destacou nos momentos chave.

Porém, não só de qualidade, capacidade ou talento se faz um campeão, e Bernal provou-o. A superioridade no asfalto ficou evidenciada, assim como a importância de uma equipa bem calibrada, contudo, outros aspetos relevantes desta vitória passaram pela exímia gestão de esforço, pela capacidade psicológica para gerir a emoção, as perdas e os ganhos de tempo, acrescentando a confiança no plano delineado em laboratório, dependendo dos diferentes tipos de necessidade.

O primeiro passo, ou pedalada séria, se preferir, deu-se com a primeira demonstração de força, que culminou com a vitória número um do colombiano numa grande volta. A chegada explosiva – em terra batida – a Campo Felice, na etapa nove do Giro, valeu mais pelo grito autoritário do que pelo primeiro dia de rosa. Antes, juntamente com Mikel Landa, denotava-se o degrau acima em que o líder da equipa de Dave Brailsford se encontrava, mas esse ficou bem patente na etapa 16, que contou com a passagem pelo Passo Giau, ponto alto da performance do novo campeão do Giro d´Italia.

Antes disso, já a etapa do Sterrato (11) e a chegada ao Zoncolan (14) deixaram bem vincada a diferença de forças entre os principais tubarões, com Bernal à cabeça. Sempre com Jonathan Castroviejo e Daniel Martinez perto de si, o jovem ganhou tempo aos seus rivais em praticamente todas as principais dificuldades nas etapas antecedentes ao último dia de descanso, sendo que nunca foram diferenças absurdas para Damiano Caruso ou Simon Yates, por exemplo, mas foram constantes. A bem dizer, os versos mais importantes desta história escreveram-se com a falta de resposta consecutiva nos momentos decisivos.

Em termos de oposição, não há muito a dizer. Um Damiano Caruso conformado e um Simon Yates algo inconstante acabariam por terminar no pódio. Aleksandr Vlasov correspondeu às expectativas e terminou num honroso quarto posto, sendo um dos corredores mais consistentes, a par de Emanuel Buchmann, que teve de abandonar, e Hugh Carty, responsável por uma performance mais inconstante também devido aos diferentes níveis de adaptação a condições climatéricas sempre em mudança.

Ainda sobre este top 10 final, o fiel escudeiro de Bernal, Daniel Martínez, concluiu na quinta posição, exibindo-se a grande nível na terceira semana, o que em muito ajudou a tornar a tática de controlo da Ineos bastante eficaz. João Almeida, muito atrasado na classificação, foi como uma bomba deixada para explodir na terceira semana, e assim se sucedeu. Romain Bardet, novamente de volta aos lugares cimeiros de uma grande volta, garantiu o sétimo posto, ao passo que Tobias Foss – jovem a ter em conta no futuro – e Dan Martin, vencedor de uma etapa, foram os restantes nomes a fechar nos 10 mais.

No fundo, Bernal construiu esta vitória com paciência e certificou-se do seu favoritismo à medida que as dificuldades foram passando, no entanto, a terceira semana foi mais complexa do que aquilo que se previa. Yates, predisposto a recuperar do “desfalecimento” no Passo Giau sobre um clima inóspito, exibiu-se de forma bastante atacante, a par de João Almeida. Bernal sentiu dificuldades e acabou por ceder terreno nas etapas 17 e 19, ao mesmo tempo que controlou sempre um fantástico Caruso, até mesmo na penúltima etapa da prova, onde o italiano atacou de muito longe com Bardet.

Se a segunda semana foi o seu pico, o decréscimo do mesmo sucedeu-se de forma controlada. Os ataques curtos e explosivos que lhe deram a vantagem necessária provocaram-lhe uma surpresa quando o “motor” rebentou na subida a Sega di Ala, na etapa 17. Soube adaptar-se, respondendo de forma positiva na 19ª etapa, limitando as perdas a segundos para Yates e distanciando-se de Caruso antes do último teste montanhoso e o contrarrelógio final.

O susto e a esperança de uma reviravolta cedo se acalmaram. Bernal geriu a etapa 20 juntamente com a sua equipa e entrou para o esforço final relativamente confortável. A vitória acabaria por se concretizar com a diferença de um minuto e 29 segundos para Damiano Caruso e quatro minutos e 15 para Simon Yates.

Ricardo Rebelo
Ricardo Rebelohttp://www.bolanarede.pt
O Ricardo é licenciado em Comunicação Social. Natural de Amarante, percorreu praticamente todos os pelados do distrito do Porto enquanto futebolista de formação, mas o sonho de seguir esse caminho deu lugar ao objetivo de se tornar jornalista. Encara a escrita e o desporto como dois dos maiores prazeres da vida, sendo um adepto incondicional de ciclismo desde 2011.

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