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Giro d’Itália 2017 – A Confirmação de Dumoulin

Nuno Raimundo · 6 min

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Cabeçalho modalidadesUma Volta a Itália com etapas bem ao jeito de Vincenzo Nibali e com Nairo Quintana a ser o indiscutível favorito para vencer a prova, eis que um ciclista holandês, outrora “apenas” um exímio contrarrelogista, decide estragar os planos das maiores estrelas e, de forma consistente (fazendo, igualmente, uso das suas mais valias naturais), chegar ao fim da prova como o camisola rosa.

A 100.ª edição deu-nos uma grande disputa pela liderança, até ao fim, entre 4 ciclistas e com muita emoção até ao último dia e aos últimos segundos da prova, com a ordem de classificação destes 4 primeiros a poder mudar completamente e foi quase o que aconteceu. Dumoulin foi de quarto para primeiro, Quintana de primeiro para segundo, Nibali de segundo para terceiro e Pinot acabou por ficar fora do pódio da prova italiana.

Focando-me mais nos resultados finais e não tanto no que se passou ao longo destas 3 semanas, é possível considerar esta vitória de Tom Dumoulin algo justa. Acabou por mostrar ainda algumas debilidades na alta montanha, como seria de esperar, mas a verdade é que, nos momentos mais decisivos, soube aguentar as duas “grandes estrelas” da prova e selar a vitória nos contrarrelógios, onde era claramente o mais forte de todos os favoritos – relembrar que venceu o primeiro e ficou em segundo no último Contra Relógio.

Controlou realmente as perdas que ia tendo, como seriam de esperar assim que Quintana ou Nibali atacassem de forma mais forte, sendo que demonstrou que poderá ser um caso sério para o futuro. Novo Induraín? Novo Froome? Quem sabe… muitas e boas expetativas para o que este ciclista irá trazer no futuro, principalmente quando for ao Tour.

Giro d’Itália
Dumoulin ganhou também na montanha
Fonte: Giro d’Itália

É de destacar que venceu 2 etapas – um CR e uma etapa de montanha – e, na etapa rainha (etapa 16), no início da última subida do dia, teve de parar na estrada, num momento verdadeiramente insólito, e tratar de determinadas necessidades fisiológicas, o que acabou por lhe prejudicar no final, onde perdeu mais de 2 minutos para a concorrência direta. Ainda assim, Dumoulin protagonizou, claramente, um dos momentos mais “speechless” deste ano no ciclismo.

Dos restantes nomes já referidos, apesar de se ter defendido muito bem no contrarrelógio final (inclusive, fez melhor do que Zakarin ou Pinot, dois ciclistas que são melhores do que ele nesta vertente), Nairo Quintana sairá da prova com aquela sensação “amarga”. Fez mais um pódio, mas não foi o suficiente para conquistar a camisola rosa da prova.

Pareceu que o grande objetivo do colombiano era tentar vencer duas grandes voltas seguidas num ano, talvez achando que neste Giro não seria assim tão complicado e que depois no Tour era dar o “tudo por tudo”. Mas não foi assim que tudo aconteceu e, agora, possivelmente, o ciclista da Movistar terá mais pressão nos seus ombros assim que começar o Tour.

Vincenzo Nibali continua a somar pódios nas grandes voltas e a mostrar uma consistência impressionante no que diz respeito às 3 maiores corridas no ciclismo internacional. Mesmo assim, o “Tubarão” já não mostra conseguir estar a dar “dentadas” tão fortes quanto as que costumava dar. Além de fazer menos diferença nas montanhas do que em anos anteriores, também vimos o italiano a não “arrasar” tanto nas descidas como costuma fazer (de qualquer das formas, continuou a ser o melhor nessa vertente, neste Giro, sem qualquer dúvida).

O homem da Bahrain Merida parece estar numa fase já mais descendente da sua carreira, mas convém salientar que ainda é capaz de estar com os melhores e descer como o melhor. Aquela etapa 16 – a etapa rainha – foi realmente prova disso. E, por fim, há que continuar a destacar a sua técnica em cima da bicicleta, sendo quase como um daqueles elementos que vemos e dizemos que “até parece fácil”…mas não é e é só para os melhores, como Nibali.

Quem também fez uma boa prova foi Thibaut Pinot. É verdade, não terminou no pódio, mas esteve, até ao fim, na discussão pela vitória final e, não fosse uma abordagem má aos contrarrelógios que teve, poderia ter sido o grande vencedor…Mas é mesmo um facto de que o francês talvez tenha “retrocedido” um pouco no que diz respeito à sua evolução nesta mesma vertente.

Em relação aos vencedores das camisolas, há que destacar Fernando Gaviria, que, aos 22 anos, já venceu 4 etapas na mesma prova do Giro e ainda conseguiu a camisola dos pontos. Um feito bastante notável para o jovem colombiano, que mostrou ser realmente o mais forte, desta edição, ao sprint.

Fernando Gaviria foi um dos destaques do Giro Fonte: Giro d'Itália
Fernando Gaviria foi um dos destaques do Giro
Fonte: Giro d’Itália

Mikel Landa foi o grande vencedor da camisola da montanha e, para mim, se existisse um prémio de “mais combativo”, ele teria ido para o Landa (com Rui Costa em segundo e, talvez, Pierre Rolland em terceiro). Bob Jungels impressionou na estrada e controlou na sua especialidade, o contrarrelógio, conseguindo, então, no último dia, tirar a camisola ao próprio Adam Yates.

Por fim, com quase 1 hora de avanço sobre o segundo classificado, temos a Movistar como vencedora da categoria de melhor equipa, à frente da AG2R e da FDJ. A equipa espanhola terá de ser considerada uma das derrotadas da Volta a Itália, principalmente porque, apesar da incrível equipa que tinham e do prémio, pareciam mais preocupados em garantir etapas em fuga para a equipa segurar a enorme vantagem que tinham, em vez de poder a construir algo forte à volta de Quintana.

Jan Hirt e Jan Polanc formaram um duo de “Jan’s” e conquistaram o seu espaço neste pelotão com incríveis nomes do ciclismo mundial. Domenico Pozzovivo voltou à alta-roda do ciclismo depois de, em 2014, ter feito a sua última grande classificação no Giro, com um 5.º lugar (desta vez, terminou em sexto). Grande temporada, até agora, do italiano, que parece em forma para conquistar o que vier dali para a frente.

Depois, há 2 ciclistas que merecem a devida atenção mas que foram pouco falados na estrada: Maxime Monfort e Sebastian Reichenbach. O primeiro é daqueles que é tão regular que às vezes até passa despercebido (para os mais distraídos, terminou em 13.º da geral…exatamente). O segundo foi, para mim, o melhor ajudante de qualquer líder na prova. Quando Pinot precisou, Reichenbach estava por lá e quando o pelotão precisou, ele também estava. A juntar a isto, terminou num bom 15.º lugar.

Por fim, o português Rui Costa tentou, tentou e tentou, mas continuou a esbarrar na trave e a não finalizar da forma correta. Foi por três vezes que ficou em segundo na etapa, sendo que, pelo menos numa dessas vezes, poderia ter feito muito mais (aquando da vitória de Rolland), visto que o ex-campeão do mundo esperou que alguém tentasse reagir e afinal acabou por ficar entre aquele rol de ciclistas que nunca mais apanhou o francês.

Rui Costa bem tentou, mas não conseguiu vencer Fonte: UAE Team Emirates
Rui Costa bem tentou, mas não conseguiu vencer
Fonte: UAE Team Emirates

O ciclista português terminou em 27.º da geral, sendo que José Mendes (ainda tentou participar em algumas fugas, mas sem sucesso) terminou em 48.º e José Gonçalves, em 60.º (numa tarefa mais direcionada para a proteção ao líder Zakarin) acabou por pouco se destacar, fosse em fugas ou não.

Com quedas (Thomas e Landa bem se podem queixar disto, tal como Yates) ou sem quedas, é preciso realmente afirmar que não deixou de ser um Giro interessante e, curiosamente, a etapa mais interessante para mim foi a etapa rainha, onde houve emoção do início ao fim. Que no próximo ano haja mais do brilho, porque a Volta a Itália precisa disso e é daquelas provas que costuma/pode levar a todos os fãs do desporto bastante espetáculo.

Foto de Capa: Giro d’Itália

Nuno Raimundo

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