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Paris-Roubaix: Um neerlandês voador realiza a ambição de um inglês sonhador

Miguel Monteiro · 7 min

Paris-Roubaix: Um neerlandês voador realiza a ambição de um inglês sonhador
Foto: INEOS Grenadiers

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HISTÓRIA DA CORRIDA

A 119.ª edição do Paris-Roubaix coroou o neerlandês Dylan Van Baarle (INEOS Grenadiers), numa corrida que ficou marcada por uma elevada imprevisibilidade do início ao fim da prova, o que, como é já sabido, é apanágio do “Inferno do Norte”.

Sendo dia de Páscoa, ainda se chegou a pensar que o pelotão iria abordar os 100 km iniciais da prova a um ritmo moderado (até chegarem ao empedrado) e que os 60 km seguintes (coincidentes com os primeiros 11 setores de paralelo) seriam apenas uma preparação sem muita história para o primeiro setor de cinco estrelas da prova, o mítico Trouée d’Arenberg, que se encontra a sensivelmente uma centena de quilómetros do velódromo de Roubaix, mas alguns ciclistas  e os seus diretores desportivos tinham outras ideias.

O terceiro monumento do ano pouco aquecimento teve e aqueles que ainda se encontravam ligeiramente sonolentos rapidamente acordaram, pois, não estavam sequer 50 km do traçado percorridos, quando a INEOS tomou a iniciativa de apresentar toda a sua equipa na frente e aproveitou uma zona do percurso mais exposta (no que ao vento diz respeito) para provocar “bordures”. Esta ação coletiva da equipa britânica dividiu o pelotão a meio e apanhou logo aí a maioria dos grandes favoritos desprevenidos, tendo estes de utilizar gregários essenciais para uma fase mais tardia da prova já naquela parte inicial, para que fossem reposicionados no primeiro grupo. Entre os favoritos que ficaram para trás com a movimentação da INEOS, destacavam-se: Mathieu Van der Poel (Alpecin-Fenic), Wout Van Aert e Christophe Laporte (Jumbo-Visma), Mads Pedersen e Jasper Stuyven (Trek-Segafredo), Stefan Kung e Valentin Madouas (Groupama-FDJ) e Kasper Asgreen (Quick-Step Alpha Vinyl Team).

Os dois grandes grupos acabaram por ficar separados durante mais de 100 km de prova, até que, à entrada dos últimos 100 km da corrida, imediatamente antes da abordagem ao Trouée d’Arenberg, houve uma junção de grupos.

A partir daí, a corrida continuou a ser feita a um ritmo desenfreado, devido também à formação de uma fuga perigosa (antes da entrada nos últimos 20 setores de empedrado), movimentação que chegou a ter mais de dois minutos de avanço (sobre o grande grupo de perseguidores) e que incluía nomes como, por exemplo: Tom Devriendt (Intermarché-Wanty-Gobert Matériaux), Matej Mohoric (Bahrain Victorious), Laurent Pichon (Team Arkéa Samsic) e Davide Ballerini (Quick-Step Alpha Vinyl Team). Esta tentativa de resistência do grupo de escapados começou a ser verdadeiramente anulada através de uma aceleração forte da Jumbo a 60 km da meta (no setor de Orchies), que fraturou verdadeiramente o grupo de favoritos, que se começaram a atacar mutuamente daí em diante.

A uma distância de 30 km da linha de chegada, quando já só Devriendt sobrava da fuga constituída há cerca de 80 km, Yves Lampaert (Quick-Step Alpha Vinyl Team) decidiu “fazer a ponte” para a frente, levando consigo na roda Mohoric, que já tinha sido alcançado pelo grupo dos principais favoritos (devido a um problema mecânico), mas partia novamente para a ofensiva. A estes juntava-se também, mais tarde, Dylan Van Baarle (INEOS Grenadiers), que aproveitou a distância sólida que os outros três ciclistas já haviam estabelecido em relação aos seus mais diretos perseguidores para, a pouco mais de 19 km da meta, no quinto último setor de paralelo (Camphin-en-Pévèle), desferir o golpe final sobre os adversários, que nunca mais lhe puseram os olhos em cima. O neerlandês acabou por oferecer à INEOS, de Sir Dave Brailsford (visivelmente emocionado no velódromo), o primeiro monumento nas clássicas do Norte, já depois de vários ingleses não o terem conseguido (Ian Stannard, Bradley Wiggins, Geraint Thomas).

O pódio foi completado por Van Aert e por Kung, respetivamente, que chegaram a quase dois minutos do grande vencedor, com o mesmo tempo de Devriendt (quarto) e Mohoric (quinto).

Foto de Capa: INEOS Grenadiers

Artigo redigido por Miguel Monteiro

AS FIGURAS

INEOS Grenadiers – A INEOS foi a grande surpresa (pela positiva) destas clássicas do Norte e este Paris-Roubaix foi uma autêntica obra de arte: começaram logo por mostrar ao que vinham com as “bordures” no início da prova, não se inibiram de trabalhar afincadamente para manter muitos dos grandes favoritos no segundo grupo (embora não tenha tido um resultado efetivo), souberam jogar as suas cartas de forma inteligente e, mesmo quando tiveram percalços, permaneceram serenos. Há que destacar ainda, em específico, a enormíssima exibição de Van Baarle, cuja capacidade física notável, aliada a uma subvalorizada leitura de corrida, lhe valeram um desfecho épico e inesperado.

Intermarché-Wanty-Gobert Matériaux – Quem diria… A Intermarché, cuja continuidade no World Tour em 2023 chegou a ser questionada em meados de 2021, está mais forte e saudável do que nunca. A equipa esteve sempre representada nas diversas movimentações e, em muitas delas, chegou a ter até superioridade numérica. A excelente corrida da equipa culminou com seis dos sete corredores que alinharam à partida no top 25, incluindo Devriendt em quarto e Adrien Petit em sexto.

Wout Van Aert – Van Aert, em teoria, vinha sem grandes expetativas para esta corrida, tendo como principal objetivo auxiliar Laporte, depois de ter sido obrigado a desistir da Ronde Van Vlaanderen (por ter contraído Covid-19) e não competindo há já 3 semanas. Porém, na prática, acabou por ser o líder incontestado da equipa e, com a forma que exibiu, não poderia ter sido de outra forma: atacou, reagiu a ataques, impôs ritmos fortes nos vários grupos dos quais faz parte e ainda sprintou incontestavelmente para um segundo lugar no velódromo. Muito cuidado com que este grande atleta pode vir a fazer na Liége-Bastogen-Liège, no próximo domingo.

AS DESILUSÕES

Mathieu Van der Poel – A corrida de Van Der Poel não foi péssima, mas, tendo em conta a qualidade das suas exibições nas corridas precedentes e o esforço hercúleo dos seus colegas de equipa, que estiveram ao seu serviço durante toda a jornada, um nono lugar deixa um pouco a desejar para este grande campeão, que nunca vira a cara à luta.

Quick-Step Alpha Vinyl Team – A “rainha das clássicas do Norte”, a Quick Step, procurava redimir-se dos seus resultados paupérrimos nas clássicas do empedrado este ano. Taticamente, a corrida da equipa foi quase imaculada, sempre a colocar ciclistas nas movimentações importantes, mas os azares voltaram a bater à porta, o que os impossibilitou de obter a classificação final desejada. Independentemente disso, os patrocinadores investem dinheiro nas equipas para que elas atinjam objetivos, que não foram atingidos. Por esse motivo, esta classificação é atribuída não só com base no Paris-Roubaix, mas na globalidade das clássicas do Norte.

Os espetadores – Como nota final, há que fazer uma chamada de atenção para aqueles que aguardam a passagem dos ciclistas na berma da estrada. Já é mais do que evidente que o comportamento dos espetadores que ladeiam os heróis do empedrado pode ter uma grande influência no desfecho final da corrida e, mesmo quando não o tem, o respeito é sempre imperativo no desporto, que apenas pode perdurar baseado em princípios e valores de dignidade e respeito. Numa corrida como esta, que possui bastantes particularidades, na eventualidade de não se saber como assistir à mesma, é preferível que se fique em casa. Um exemplo de uma situação infeliz causada pelos espetadores (nesta edição) deu-se a menos de 10 km da meta, quando Yves Lampaert, da Quick-Step, que tinha francas possibilidades de disputar o pódio, foi derrubado por um fã, que, muito provavelmente, não desejava que nada daquilo tivesse acontecido. O “Inferno do Norte” já é dificílimo de concluir para os ciclistas, portanto, não o tornemos mais infernal.

Miguel Monteiro

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