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Se alguém for capaz, que o faça. Descrever a 56.ª edição do Tirreno-Adriático não será tarefa fácil. Muitas surpresas, muitos momentos, espetáculo e mais espetáculo. Há quem diga que presenciámos uma das semanas mais incríveis do historial ciclístico recente… e é difícil não concordar. Há, também, muito que analisar de forma concisa e tendo em conta várias nuances. O grosso de competições mais importantes da primeira parte da temporada está ao virar da esquina e os indicadores não podiam deixar mais água na boca.
Sobre esta competição transalpina, é caso para se dizer: Mamma Mia! Apostemos numa lógica cinematográfica para explicar o que se passou num Tirreno-Adriático onde a narrativa se focou num romance profundamente intenso. O poema ciclístico contou com sete versos e qual deles o mais impactante? Pois, boa pergunta.
A Teoria de Tudo diz-nos que se conjugarmos uma série de potencialidades físicas e psicológicas, o produto final revela-nos um ciclista extremamente direcionado para um momento em específico. Quando isto acontece em duas ou mais especialidades, estamos perante um fora de série, e parece que o “novo” carrossel de talentos fora de série andou a espalhar muita magia pelas estradas italianas.
Wout Van Aert, pela versatilidade. Mathieu Van der Poel, pela potência. Tadej Pogačar, pela consistência. Julian Alaphillipe, pela inteligência. Mads Wurtz, por ter sido o único “humano” a vencer. A luxuosidade de tal elenco não poderia ter sido mais seletiva no que concerne a vitórias e é bom que se habituem a esta onda triunfante tão concentrada.
“AQUAMAN” DA ESLOVÉNIA DEU-SE MELHOR NO MAR ADRIÁTICO
A vitória na classificação geral, na classificação da montanha e na classificação da juventude sorriu ao Romeu mais provável de roubar um dos corações mais belíssimos do World Tour. Falamos, claramente, do Sea Master Trophy, o tridente do triunfo (quase que a triplicar), adquirido pelo novo “Aquaman” da Eslovénia, Tadej Pogačar.
🔱 @TamauPogi seals #TirreAdriatico 🇮🇹 victory.
🔹Pogačar: “It’s been a hard week of racing. This is one of the most prestigious one-week races so I’m really happy to get the win.”
📝 Full report: https://t.co/vcbVf7fko1#UAETeamEmirates #RideTogether pic.twitter.com/Kg7rVRg7s5
— @UAE-TeamEmirates (@TeamEmiratesUAE) March 16, 2021
Mas não desviemos o foco cinemático. Tadej Pogačar poderia ser o título de mais um romance do conhecido cineasta Josh Boone. A adaptação para as bicicletas aconteceria através de uma personagem predestinada a partir corações, principalmente daqueles com os mesmos objetivos. O prodígio esloveno continua a mostrar porque é que está um, dois ou três degraus acima dos seus adversários, pelo menos nesta fase da temporada.
Fundamentalmente, estamos a falar de uma capacidade física sem igual. Quando assim é, o que é que um diretor desportivo pode fazer? Que tática pode neutralizar um talento destes? Pogi concilia valores demasiado importantes para um voltista do século XXI, tornando-o completo, um verdadeiro especialista em classificações gerais da era moderna.
#TirrenoAdriatico – PRATI DI TIVO (14.55 km, 7.05 %, 1026 m)
2012 2013 2021
to go Nibali Froome Pogacar
14.55 km 0:00 0:00 0:00
10.00 km 11:58 11:37 11:03
6.70 km 21:25 20:03 19:23
0.00 km 38:58 38:23 36:07— ammattipyöräily (@ammattipyoraily) March 13, 2021
Este modernismo está espelhado na sua polivalência. A naturalidade com que venceu tornou-se visível em dois momentos: a subida estrondosa a Prati di Tivo e a consequente vitória e a machadada final na jornada seguinte (quinta etapa).
Pogi arrancou a 5,7 km para o final na subida padrão desta competição, demonstrando o perfeito conhecimento das suas capacidades em articulação com os momentos da corrida. Essa perceção mental caracteriza-se cada vez mais com a conceção de um corredor plenamente cirúrgico. De resto, forte no contrarrelógio, explosivo como sempre, imprevisível na hora de se mexer – o que lhe valeu um alargar de distâncias respeitável na etapa cinco -. Enfim, foi uma exibição à Pogačar, o que é que se pode dizer mais?
#TirrenoAdriatico – Final top 10 of the general classification pic.twitter.com/WQHr47oXWK
— La Flamme Rouge (@laflammerouge16) March 16, 2021
Vamos a números: Apenas Wout Van Aert (a 1:03) ameaçou timidamente a vitória do atual campeão do Tour. A completar o pódio, o experiente Mikel Landa (a 3:57), que, sorrateiramente, constou sempre na dianteira dos grupos certos. Vincenzo Nibali, Romain Bardet, Simon Yates e Egan Bernal foram os voltistas que garantiram o top10, mas sem nunca exibirem uma performance que os fizessem sonhar com algo mais. Matteo Fabro e Tim Wellens, um sólido escalador em ascensão e um conhecido puncher de origem belga, respetivamente, beneficiaram da excelente condição física para se intrometerem entres estes pesos pesados.
Falta apenas referenciar João Almeida e o seu sexto lugar em mais uma aparição de grande qualidade e regularidade do prodígio português. Esteve perto da vitória na segunda etapa, depois de disferir um ataque fortíssimo quando já ia no grupo da frente. É certo que teve uma quebra na etapa cinco, onde perdeu algum tempo, no entanto, levou para casa um sexto lugar depois do pódio no UAE Tour. A afirmação meteórica do Duro das Caldas continua a aproximar o povo português do ciclismo. Segue-se a Volta a Catalunha. Será que teremos uma vitória lusa?
Sixth place overall for @JooAlmeida98 in #TirrenoAdriatico, Portugal’s best result at the race in 35 years!
Bota Lume 🔥 pic.twitter.com/1kvWXWcmYP— Deceuninck-QuickStep (@deceuninck_qst) March 16, 2021
VAN’S IMPERIAIS SORRIRAM NA SOMBRA DE POGI
Voltando à veia cinematográfica, a película seguinte, por outro lado, parece que foi dirigida por Steven Spielberg, tal o carácter alienígena perfeito para retratar a prestação de Mathieu Van der Poel e Wout Van Aert. Convínhamos, estamos a falar de dois dos ciclistas mais excitantes do panorama atual. Se não concorda ou se não conhece, o Tirreno-Adriático foi como uma autêntica prova de vinhos, só que neste caso, quanto mais novo, melhor. Os rivais do cyclo-cross liquidaram nada mais, nada menos, do que quatro etapas.
Mathieu Van der Poel voltou a surpreender com a sua facilidade em finais propensos a um sprint em grupo compacto e na longevidade dos seus ataques, tendo conquistado uma jornada depois de uma fuga de 50km e outra sobre o eterno rival. Já Wout Van Aert, vencedor da classificação dos pontos, continua a demonstrar a sua estupenda polivalência, vencendo ao sprint, colocando-se entre os tubarões das montanhas e destronando Filippo Ganna (e Stefan Kung) no contrarrelógio final. Começam a faltar adjetivos para estes dois.
WVA > MVDP
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(falei que podia mudar de opinião)meme fornecido por @cycloffee pic.twitter.com/Vx8NXQdKYV
— daemoncycling (@daemoncycling) March 16, 2021
Respeitando a ordem cronológica dos acontecimentos, a primeira desta edição do Tirreno-Adriático sorriu a Wout Van Aert, que bateu ao sprint… Caleb Ewan e Fernando Gaviria. No papel ou no teclado, escrever algo como isto atesta bem a capacidade deste corredor belga. Acima disso, só visto. Mais forte do que todos os outros, bateu o colombiano sem problemas e só Caleb Ewan ainda ameaçou a vitória. Deu a ideia que o australiano era o homem mais rápido, mas a questão posicional, mais uma vez, penalizou um dos sprinters de topo mais descuidado neste aspeto importante da corrida.
No segundo dia, a vitória sorriu a outro tubarão, Julian Alaphilippe. A Deceuninck Quick-Step tinha João Almeida (em quebra) na frente. Os metros finais revelaram-se penosos para o português, que viu Alaphilippe a arrancar no momento certo. Potência e acima de tudo inteligência. O campeão do mundo bateu Wout Van Aert e um míssil holandês chamado Mathieu Van der Poel, que vindo de trás, ficou à frente de toda a gente, menos de um Loulou pragmático.
📺 The world’s strongest riders battled it out all the way to the line. What a finish! Watch the Stage 2 Highlights.
Follow the race on @RaiSport, https://t.co/wvUxqv3DzE and @gcntweet
#TirrenoAdriatico @eolo_it pic.twitter.com/SwIdJwg55r— Tirreno Adriatico (@TirrenAdriatico) March 11, 2021
A primeira desse tal míssil, que mais pareceu um foguetão nas rampas da Strade Bianche chegou no dia seguinte, batendo Wout Van Aert ao sprint na etapa três. A par da força em subidas íngremes e curtas, a velocidade de ponta de Mathieu Van der Poel é outro tópico da monstruosidade de ciclista que o holandês é. A diferença para os restantes é gritante e mesmo Van Aert parece ter dificuldade para acompanhar Van der Poel neste tipo de chegadas, se bem que é justo dizer que é um ciclista mais regular e taticamente mais evoluído.
Depois do show de Pogi na etapa rainha da competição, onde só Simon Yates foi capaz de fazer comichão, chegou a quinta etapa e com ela uma vitória inacreditável. Com um perfil acidentado, Mathieu Van der Poel arrancou a 50km da meta para um dos melhores triunfos da sua carreira. Apenas Tadej Pogačar se aproximou do ciclista da Alpecin-Fenix, que não mediu palavras quando se debateu sobre os sacrifícios que teve de perpetuar para vencer.
He really had to dig deep for this stunning solo victory! Here’s what @mathieuvdpoel had to say after his 2nd win at the 2021 #TirrenoAdriatico. 💬 pic.twitter.com/04Gq3NtDaj
— Alpecin-Fenix Cycling Team (@AlpecinFenix) March 14, 2021
Mas o espetáculo e os resultados surpreendentes ainda não tinham chegado ao fim. Mads Wurtz foi o mais forte num quinteto de foragidos ao pelotão no dia seguinte. Nélson Oliveira foi quinto nessa mesma etapa, que antecedeu um contrarrelógio final surpreendente.
Vejamos a situação: Filippo Ganna não perdia um contrarrelógio desde a sua vitória no campeonato do mundo na mesma especialidade; Filippo Ganna não perdia um contrarrelógio há mais de um ano; Filippo Ganna vinha de uma série de oito vitórias consecutivas no esforço individual.
Is there anything this man can’t do? What a win, what a rider.
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🇮🇹 #TirrenoAdriatico pic.twitter.com/tkP3qB7W8p— Velon CC (@VelonCC) March 16, 2021
Mas tudo o que é bom, acaba. Em pouco mais de 10km, Stefan Kung superiorizou-se por cinco segundos a Top Ganna. Porém, esta derrota ganhou ainda mais destaque com os onze segundos que Wout Van Aert conseguiu meter ao italiano.
O que é que este ciclista belga é incapaz de fazer? Serão repetíveis estas exibições por parte de nomes como Van der Poel, Alaphilippe, Pogačar, Van Aert, entre outros? Como já havia dito, estamos perante um verdadeiro filme, de um romance, talvez de extraterrestres ou super-heróis, onde a competição entre eles é tanta que o nível parece ter estagnado num ponto altíssimo. São muitas as perguntas, mas talvez o melhor mesmo seja desfrutar. Venham daí esses loucos anos 20!
Foto de Capa: Tirreno-Adriático














