Destaques

Chris Froome é o óbvio primeiro destaque e nem poderia ser de outra forma. Ainda assim, meto a sua equipa da Sky ao mesmo nível, já que ambos fizeram uma excelente Volta à França. O britânico nascido no Quénia venceu pela terceira vez, ultrapassou Contador e igualou Greg LeMond, Bobet e Thys (apenas ciclistas como Indurain, Merckx, Anquetil ou Hinault têm mais, com 5 – veremos se Froome chega a este nível). Domínio avassalador do vencedor de 2013 e 2015, sem dúvida. Fez a diferença numa descida, arriscou numa etapa plana e consolidou a sua posição nos contrarrelógios e no Mont Ventoux (neste caso, em situações peculiares, já abordadas num dos artigos de atualização).

Nas restantes etapas de montanha, controlo incrível por parte da Team Sky. A equipa de Froome também dominou, soube gerir as demais partes de cada corrida e foi uma peça crucial na vitória do britânico. Nas últimas 4 vitórias da equipa britânica no Tour, houve sempre algum nome que se destacou dos outros em termos de ajudar o líder. Tivemos Froome, Porte, Thomas e, este ano, esse papel coube a Wout Poels. O holandês esteve incrível e conseguiu responder a praticamente tudo o que deveria responder. Além disso, até chegava a contra atacar e com Froome na sua roda, algo que foi igualmente importante. Por fim, não é preciso dizer muito mais de uma equipa quando, no top’17, temos 4 ciclistas da Sky (Henao, Thomas e Nieve) e, no top’28, temos 5 ciclistas (Wout Poels completa esta “lista”). Absolutamente incrível!

Peter Sagan, a par de Froome, foi o nome mais em foco até ao fim deste Tour. Uma verdadeira força da natureza, este homem da Tinkoff. Ganhou 3 etapas, esteve de amarelo, entrou em várias fugas, fossem elas em montanha ou não, e venceu, mais uma vez, a classificação por pontos, a 5.ª vez consecutiva, ficando apenas a 1 vitória de igualar Eric Zabel como o recordista e que também conquistou as suas 6 camisolas de forma consecutiva. Com apenas 26 anos, é difícil não prever que Sagan irá bater, muito provavelmente, este recorde. No próximo ano, irá para a Bora, em princípio, e a ganhar cerca de 6 milhões de euros por ano. Para um ciclista desta elevada categoria, acaba por ser justo.

A Sky esteve fortíssima Fonte: Tour de France
A Sky esteve fortíssima
Fonte: Tour de France

O eslovaco ainda venceu o prémio de Super Combativo deste Tour. Nomes como Thomas De Gendt, Jarlinson Pantano (incrível prova do colombiano, a mostrar-se ao mais alto nível e, não fosse Sagan, teria sido a minha escolha para o mais combativo deste Tour), Rafal Majka, Greg Van Avermaet (venceu uma etapa de forma categórica e conseguiu andar de amarelo graças a isso, estando ainda presente em algumas fugas) ou, até mesmo, o próprio Rui Costa mereciam ter tido uma distinção como esta, mas o prémio também fica bem entregue ao camisola verde.

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Rafal Majka, também da equipa da Tinkoff, foi um dos principais animadores das etapas de montanha e conseguiu vencer, pela segunda vez na sua carreira, a camisola da montanha. Entrando em várias fugas e numa luta bastante interessante com De Gendt, conseguiu ir acumulando os pontos suficientes para ganhar uma ida ao pódio em Paris. No final, ainda acabou com uma vantagem razoável para o belga da Lotto (uma vantagem não tão longa quando comparado com aquela que Sagan deu ao segundo lugar da classificação dos pontos, Marcel Kittel).

A própria equipa da Tinkoff merece um destaque. Perderam Contador bem cedo na prova, mas acabaram por ser uma das equipas em maior evidência neste Tour. Não só arrecadaram duas das camisolas presentes, como ainda conseguiram ter um ciclista no top’10 da classificação geral final. Roman Kreuziger parecia que teria mesmo de se contentar com o facto de ficar às portas dos 10 melhores, mas uma entrada bem medida numa fuga bem-sucedida acabou por se comprovar decisiva. O checo conseguiu um bom 10.º lugar e deu ainda mais “cor” a um excelente Tour na última vez em que a equipa irá apresentar-se na prova.

Adam Yates era, para mim, a principal “aposta” para vencer a camisola da juventude. Não só conseguiu isso, como também surpreendeu a maioria ao quase conseguiu um pódio neste Tour. O ciclista da Orica teve azar quando, na 7.ª etapa, um insuflável caiu-lhe em cima ou, então, quando numa das últimas etapas, acaba por ter um dia menos bom, depois de um CR em que poderia ter feito melhor, notando-se que acabou este Tour em quebra de forma. Ainda assim, conseguiu ficar num excelente 4.º lugar.

Yates esteve irrepreensível Fonte: Tour de France
Yates esteve irrepreensível
Fonte: Tour de France

Romain Bardet não se mostrou tanto quando os franceses quereriam, mas bastou uma incrível etapa e um ataque muito bom para chegar ao pódio da prova. Depois, andou mais conservadoramente e conseguiu manter o segundo lugar, à frente do mais favorito Nairo Quintana. Um ciclista bravo, combativo (considerado o mais combativo do ano passado) e que, na maioria das vezes, não tem receio de atacar para conseguir os seus objetivos. Claramente, o melhor francês da prova deste ano e igualou o feito do seu companheiro da AG2R aquando do segundo lugar de Peraud em 2014.

Mark Cavendish, uma espécie de definição para “fénix renascida das cinzas”. Quando se pensava que a ida para a Dimension Data (equipa que teve igualmente Cummings em destaque, com mais uma excelente vitória em etapa por parte do ciclista de 35 anos) serviria mais para um “propósito olímpico”, eis que o britânico contraria quem pudesse ter feito tal afirmação e volta a dominar uma Volta à França no que diz respeito aos sprints em pelotão compacto. Venceu 4 etapas (tal como Greipel no ano passado) e abandonou para então, sim, concentrar-se nas provas de pista para os Jogos Olímpicos. Conseguiu ter no seu corpo a camisola amarela e a camisola verde nesta edição, tal como Sagan. Que possamos ter um Cav a este nível durante mais tempo, se assim for, o recorde do lendário Eddie Merck poderá ser quebrado – só faltam mais 4 vitórias para Cavendish igualar este incrível recorde de vitórias em etapas do Tour.

Tom Dumoulin voltou a dominar nos contrarrelógios, perdendo apenas um deles para um incrível Froome. Ganhou também em Arcalis (etapa em que o português Rui Costa ficou em segundo, portanto, uma vitória de má memória para todos nós, visto que, não fosse terem deixado o holandês ganhar vantagem, provavelmente teríamos festejado mais uma vitória do Rui num Tour) e teve de abandonar a corrida por lesão, que lhe poderá custar a presença nos Jogos Olímpicos… Não esteve concentrado na geral individual e isso também foi decisivo para as suas vitórias. No futuro, veremos se o homem da Giant não será um nome com presença assídua nos top’10 das Grandes Voltas, principalmente no que ao Tour diz respeito.

Cavendish renasceu dos mortos e ganhou quatro etapas Fonte: Tour de France
Cavendish renasceu dos mortos e ganhou quatro etapas
Fonte: Tour de France

Outros nomes marcaram a sua presença nos 10 melhores da prova e foram outros dos destaques da mesma, como:

Richie Porte (não conseguiu chegar ao pódio, mas mostrou uma solidez impressionante e foi o melhor trepador a par de Froome nesta edição, voltando a ter bastante azar em alturas cruciais da prova), Alejandro Valverde (se alguém disser que não é possível ter bons/grandes resultados desde o princípio da época até ao fim, de forma consistente, é melhor verem o que o espanhol tem feito… venceu a Flèche Wallonne em Fevereiro, teve outros bons resultados até ao Giro, conseguiu chegar ao pódio nesse mesmo Giro, cumpriu neste Tour com um bom 6.º lugar e vai lutar por uma medalha nos Jogos Olímpicos, sendo ainda possível a sua presença na Vuelta, simplesmente incrível);

Purito Rodriguez (pela sua carreira, não deveria surpreender esta sua classificação, mas a verdade é que não teve quase nenhum resultado de renome neste ano – exceção para a Volta ao País Basco, provavelmente – e os seus 37 anos devem influenciar, sendo que acabou por anunciar o fim da sua carreira no final da época e recebendo uma homenagem muito boa ao ter-lhe sido dada a possibilidade de ser o primeiro a entrar nos Campos Elísios), Louis Meintjes (outra boa surpresa desta prova, mostrando evolução e muito inteligência na sua corrida ao longo de 3 semanas, sendo que pouco teve o apoio da equipa e tentou lutar até ao fim pela disputada camisola da juventude, acabando por conseguir ser o primeiro africano a entrar no top’10 do Tour) e Daniel Martin (um dos que mais tentou e atacou, principalmente nas montanhas, e aproveitou o excelente Critérium du Dauphiné que realizou para mostrar aqui que não consegue só estar ao mais alto nível em provas de 1 semana, conseguindo igualmente fazê-lo em provas de 3 semanas).