Desilusões

Nairo Quintana, mesmo tendo conseguido mais uma chegada ao pódio, não poderá estar totalmente satisfeito com o terceiro lugar que obteve. Distraiu-se ao apanhar um bidon, provavelmente, na 8.ª etapa e logo aí deixou escapar Froome. No Mont Ventoux não conseguiu seguir com Froome e Porte e ainda viu Mollema a passar por ele. Não fosse o incidente que aconteceu e provavelmente teria perdido ainda mais tempo para a liderança, quem sabe. Pouco atacou como muitos esperavam, principalmente na alta montanha, chegando a perder tempo em etapas que não se previa que acontecesse algo assim. Foi seguindo rodas, demonstrou não ter quase iniciativa e pareceu bastante “apático” para o que se ia passando no grupo dos favoritos nas mais variadas etapas. Aproveitou as quedas e azares de outros para conseguir chegar ao pódio.

Uma nota para a Movistar que, apesar da vitória na classificação por equipas, também não fica isenta de culpas pela maneira como não meteu a equipa da Sky “em xeque”. Devido às mais variadas presenças em fugas, conseguiu obter a vitória por equipas, sendo que Nélson Oliveira também contribuiu para isto, principalmente com o excelente terceiro lugar no primeiro contrarrelógio. Além disto, um Valverde a um bom nível e um Quintana a jogar pelo seguro permitiu a tal vitória. Na última etapa de montanha, Ion Izaguirre deu a tão desejada vitória em etapa para a equipa espanhola.

Fábio Aru e a Astana vinham com ambições realmente elevadas. A própria equipa cazaque mostrava-se muito forte, a par da Sky e da Movistar, mas a verdade é que ficou tudo mais no papel do que na prática. Também não é menos verdade de que era a estreia de Aru no Tour como líder, mas esperava-se muito mais do italiano. Vacilou na última etapa de montanha e foi para fora do top’10. A terceira semana foi trabalhada de forma árdua pela Astana, mas a equipa não soube gerir o esforço de Aru e acabaram ambos por sair deste Tour de forma algo desapontante.

Apesar da vitória coletiva os principais objetivos da equipa espanhola não foram cumpridos. Fonte: Movistar
Apesar da vitória coletiva os principais objetivos da equipa espanhola não foram cumpridos.
Fonte: Movistar

Marcel Kittel e André Greipel eram, à partida, os principais candidatos a vencerem o maior número de etapas. A verdade é que foram surpreendidos por um incrível Cavendish e, apesar de ainda terem vencido uma etapa cada um, deixaram muitos dos fãs do ciclismo a esperar por mais da parte deles. É de esperar que possam dar a volta ao contexto no próximo ano.

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Pierre Rolland, Domenico Pozzovivo, Wilco Kelderman, Tejay Van Garderen, Warren Barguil ou, num caso mais à parte, Thibaut Pinot (mais um ano sem resultados para a geral e a possibilidade de ser “ultrapassado” por Romain Bardet na “hierarquia dos franceses” é real), Alberto Contador (um candidato a vencer que acabou por desistir sem grande coisa para contar, sendo que no próximo ano estará na Trek e acredito que vá, por uma última vez, com tudo para vencer o Tour) e Bauke Mollema (depois de um excelente Tour e onde o lugar no pódio estava à vista, eis que deita tudo a perder em 2 dias e passou do segundo lugar para o décimo primeiro lugar, queda desapontante para um, também, “azarado” holandês, mas que poderia ter aguentado melhor a situação em que se encontrava – talvez uma crítica injusta da minha parte, mas esperava que conseguisse manter o seu lugar entre os melhores, ainda assim), todos eles poderiam ter feito mais do que aquilo que fizeram, sendo apenas alguns exemplos de ciclistas que poderiam ter abrilhantado mais a prova, mas pouco o fizeram, variando as circunstâncias para cada ciclista, claro.

Nelson Oliveira esteve bem nos contrarelógios Fonte: Nelson Oliveira
Nelson Oliveira esteve bem nos contrarelógios
Fonte: Nelson Oliveira

Por fim, destaque para os dois portugueses em prova. Rui Costa tentou, tentou e tentou, mas não tive a ponta de sorte suficiente para alcançar a tão desejada vitória em etapa. Levou para casa um prémio de mais combativo do dia e esteve nos nomeados para o mais combativo de todo o Tour. Para o ano há mais! Em relação a Nélson Oliveira, uma ajuda importante a Quintana e Valverde, tentou igualmente entrar em fugas e, por fim, o ponto mais alto do seu Tour, que foi ficar em 3.º lugar no contrarrelógio, apenas atrás de Tom Dumoulin e Chris Froome, mostrando que está pronto para tentar dar uma medalha a Portugal, nesta especialidade, nos Jogos Olímpicos!

Em conclusão, foi uma Volta à França com menos espetáculo do que o previsto, muito devido à superioridade de Chris Froome e da sua Sky. Ainda assim, tivemos bons destaques, surpresas agradáveis e, como acontece quase sempre, algumas desilusões ou ciclistas que poderiam ter feito bem melhor. Foi um Tour que também deixou algumas expetativas para o futuro, principalmente da parte da organização, em termos de controlar melhor o público, pelo menos nos quilómetros finais de certo tipo de etapas. O Tour de France voltará no próximo ano e está quase a chegar a Volta a Portugal…! Não percam a antevisão da prova mais aguardada do calendário nacional.

Foto de Capa: Tour de France