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Universo Paralelo: Roubaix à chuva

José Baptista · 5 min

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Este Universo Paralelo pode surgir de muitas maneiras – seja a China a ter melhores regras sanitárias para os seus mercados de carne, seja a ser um país democrático liberal onde não se silencia quem avisa do surgimento de um novo vírus, seja qualquer outra possibilidade que deixo à imaginação do leitor -, mas o ponto fundamental é simples: sem isolamento imposto pelo Coronavírus, a época ciclística continua na estrada ao seu ritmo normal com o Paris-Roubaix.

Na Ronde, Greg van Avermaet esteve quase a quebrar o enguiço e foi até foi o mais forte no paralelo, mas um grupo reduzido de perseguidores alcançou-o à entrada do último quilómetro. Mathieu van der Poel acelerou para o primeiro Monumento da carreira, batendo Sagan e van Aert. Depois de tamanha exibição no empedrado, o campeão olímpico era o grande favorito para o inferno do norte.

As previsões meteorológicas de precipitação pareciam estar erradas e os ciclistas saíram dos arredores de Paris, sob um ameno sol primaveril. Os primeiros 50 quilómetros são marcados por tentativas de fuga sem sucesso, enquanto CCC e Deceuninck-QuickStep comandam o pelotão a alto ritmo. Mas a CCC já não tem mais cartas para queimar antes do final, e a Deceuninck sozinha não consegue controlar um ataque numeroso: quinze ciclistas estabelecem-se na frente, criando um perigo para os favoritos. A Mitchelton-Scott foi a maior agitadora da fase inicial da corrida e é recompensada com uma presença forte no grupo dianteiro, com Durbridge, Edmondson e Smith.

Os ciclistas rolam para norte, e, por volta dos cem quilómetros percorridos, encontram o primeiro setor de pavé. E, então, começa. Primeiro ligeira, depois torrencial. 18 anos depois, há Paris-Roubaix à chuva.

À parte de uma queda que tira Mike Teunissen da corrida, não há muito a contar até entrarmos nos últimos 100 quilómetros. O grupo de escapados começa a perder algumas unidades, mas vai mantendo uma vantagem acima dos dois minutos que lhe dá asas para sonhar. O setor 19 começa a desenhar a corrida. No Trounee d’Arenberg, a Mitchelton-Scott volta ao ataque e Smith e Durbridge selecionam a dianteira, passando a levar somente quatro colegas de escapada. No pelotão, há resposta à altura. A Deceunick começa a aproveitar o dispor de vários líderes para fazer a diferença, e Bob Jungels lança-se em perseguição solitária à frente.

Benoot é um dos favoritos no paralelo, ainda mais quando há chuva
Fonte: Strade Bianche

A CCC assume a perseguição, mas, no setor 17, van Hooydonck não tem pernas para mais, e Schar fura. Restam só Trentin e Avermaet, forçando BORA-hansgrohe e Jumbo-Visma a assumir o grupo principal em busca do dianteiro. Uns bons quilómetros mais à frente, à chegada do setor 13, Jungels está quase na frente, mas Durbridge acelera novamente e só Eekhoff segue na roda. Com a lama, a estrada fica ainda mais estreita. O campeão luxemburguês tem dificuldades em conseguir passar por um Gougeard sem forças para aguentar mais na frente, perdendo valiosos segundos e tendo que perseguir durante mais um bom bocado.

Em Mons-en-Pevele, Greg van Avermaet não pode esperar mais, se ainda quer chegar ao grupo mais avançado. O belga assume a corrida desde a entrada do setor 11, e o pelotão segue em fila indiana na sua roda. Van Aert segue no seu encalço, e Benoot vem logo de seguida. Em quarto, segue Pollitt, mas, a certa altura, a roda dianteira do alemão fica presa na lama. Perde o controlo da bicicleta e acaba no chão, retendo os outros favoritos. Lampaert ainda passa, mas os 20 metros de atraso transformam-se em 30, 40, 50,… E o belga fica em terra de ninguém.

A realização mostra-nos um desolado van der Poel a olhar para horizonte, enquanto espera por assistência mecânica. Aos seus pés, uma Canyon partida em dois. A corrida está agora a seis. Durbridge, Eekhoff e Jungels têm 50 segundos sobre Avermaet, van Aert e Benoot.

Os perseguidores vão cortando um pouco a desvantagem, e nos setores sucessivos 7 e 6 têm a dianteira no seu campo de visão. Mas um Jungels irrequieto ataca na frente e deixa Durbridge para trás. Eekhoff ainda se aguenta na sua roda. O australiano é rapidamente engolido e ultrapassado pelo trio, e o duo da frente também acaba por se ver alcançado à entrada do setor 5.

Do Carrefour de l’Arbre é esperado que seja o momento decisivo para a corrida e não desilude. Wout van Aert fica parada, é lama a mais para a corrente da sua bicicleta. Perde qualquer hipótese de lutar pelo triunfo.

Benoot também acaba em dificuldades: o problema é um furo. Rapidamente há solução, e a Sunweb aproveita o facto de ser a única com dois ciclistas na frente. O belga recebe a bicicleta do seu colega de fuga. Ensopado e na berma da estrada, a estreia de sonho no Paris-Roubaix de Eekhoff acaba com o braço estendido à espera de uma roda.

Benoot fica a dez segundos da frente. Mas… Fantástico! No meio da lama, consegue recuperar e chegar aos outros dois antes do penúltimo setor. Em Hem, Avermaet bem tenta, mas os adversários não descolam e continua a ser uma luta a três.

Conseguirá Avermaet repetir a vitória de 2017? Fonte: Tour de France

O setor 1 é meramente simbólico e o trio da frente passa por ele a alta velocidade, mas Avermaet aparenta ter algumas dificuldades na traseira do grupo. Estará finalmente a fadiga a levar a melhor? A moto da câmara dá-nos a resposta com um plano aproximado da roda traseira. Um furo.

Não há possibilidade de trocar de bicicleta. Resta aguentar na roda e tentar fazer o melhor possível. Nem a chuva impede o velódromo de Roubaix de estar a abarrotar. Benoot lidera na primeira meia volta e Avermaet segue em terceiro. Com uma volta para o fim, Benoot abre para o lado e convida os adversários a passar para a frente. Jungels não se faz rogado.

Sem querer esperar pelo sprint, o luxemburguês impõe um ritmo demoníaco, e Benoot faz tudo por não perder a roda. Avermaet resigna-se ao último lugar do pódio, e só consegue tentar manter o controlo da bicicleta. Na última curva, Jungels ainda lidera e mantém a pressão sem se levantar do selim. Benoot sai pela direita, mas já não tem pernas para acelerar mais. Bob Jungels vence o Paris-Roubaix, depois de um ataque a quase 100 quilómetros da meta. Chapeau!

Foto de Capa: Paris-Roubaix

Artigo revisto por Mariana Plácido

José Baptista

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