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Volta a Portugal 2016: A fuga de Vinhas

Nuno Raimundo · 7 min

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Cabeçalho modalidadesTem sido uma Volta a Portugal interessante, onde o ponto alto, como esperado, até agora, foi mesmo na etapa que terminou no alto da Senhora da Graça. Gustavo Veloso mostrou que está realmente num nível à parte, por enquanto, e venceu uma das etapas mais importantes da prova portuguesa.

Mas quem está ainda de amarelo é o seu colega de equipa Rui Vinhas, que, devido a uma fuga bem-sucedida e a algum desleixo do pelotão, conseguiu ficar com mais de três minutos de vantagem para todos os mais diretos adversários. Outro dos destaques tem sido Vicente de Mateos: o ciclista que já tem no seu historial da prova uma expulsão em tido boas razões para estar muito mais feliz nesta edição – já venceu uma etapa e terminou todas as etapas, até agora, no Top10, inclusive na subida ao alto da Senhora da Graça.

Como tem sido hábito, tudo começou por um prólogo. Gustavo Veloso e Alejandro Marque, dois dos principais favoritos, tiveram alguns problemas e nem no Top10 terminaram. Joni Brandão e Rinaldo Nocentini, pelo contrário, estiveram nos dez melhores e começaram da melhor forma esta Volta. No pódio da etapa ficaram José Gonçalves, o próprio Joni e o vencedor da etapa, o especialista em contrarrelógio Rafael Reis, que dava aqui a primeira vitória à equipa da W52-FC Porto.

A primeira etapa, como previsto, iria terminar no sprint, apesar de as dificuldades ao pé do final, com duas subidas, terem tirado alguns ciclistas da disputa pela vitória. Com um grande trabalho de Filipe Cardoso, da Efapel, o seu companheiro de equipa Daniel Mestre mostrou que é capaz de vencer ciclistas teoricamente mais rápidos do que ele, como Davide Vigano (2.º) ou Samuel Caldeira (4.º). José Gonçalves também tentou e voltou a ficar com o terceiro lugar da etapa. A camisola amarela foi, então, para o vencedor da etapa, visto que Rafael Reis trabalhou bastante para a sua equipa e não conseguiu aguentar as tais subidas que referi.

Daniel foi um verdadeiro “Mestre” nesta discussão ao sprint  Fonte: Volta a Portugal
Daniel foi um verdadeiro “Mestre” nesta discussão ao sprint
Fonte: Volta a Portugal

Na segunda etapa, depois da passagem inédita pelo Salto da Pedra Sentada, local de passagem bem conhecido no Rali de Portugal, vimos uma batalha interessante pela vitória entre alguns sprinters e puncheurs. Quando um excelente ataque de José Gonçalves (aqueles ataques típicos do ciclista da Caja Rural) quase fazia prever que fosse o português a vencer, Vicente de Mateos consegue persegui-lo e dar-lhe “luta” pela vitória.

Quem aproveitou esta situação foi Francesco Gavazzi. O bem conhecido italiano (dos ciclistas mais conhecidos em prova para quem também acompanha o ciclismo internacional – este ano já esteve, por exemplo, no Tirreno Adriático e, no ano passado, no Giro d’Itália) veio de trás de ambos e sprintou para a vitória, a primeira para ciclistas estrangeiros e equipas estrangeiras nesta edição, a Androni, neste caso. Vigano chegou em quarto lugar e Veloso voltou a sprintar com os homens mais rápidos do pelotão. Além disso, Daniel Mestre continuava de amarelo.

Chegava a terceira etapa e com ela um acontecimento inesperado para um possível desfecho da Volta a Portugal. A fuga ganhou vários minutos de avanço e o pelotão cometeu o erro de deixar um ciclista bem colocado entrar nessa fuga. Rui Vinhas, da W52-FC Porto, conseguiu entrar nessa mesma fuga. A vitória da etapa foi discutida entre William Clarke, da Drapac, e Marco Frapporti, da Androni. Clarke venceu com uma vantagem de dois segundos para o italiano e de 54 segundos para o resto dos homens da fuga.

Entre esses homens estava, então, Vinhas, o novo líder da Volta a Portugal, com mais de três minutos de avanço sobre toda a concorrência. Incrível situação que se passou nesse dia. Não fosse o trabalho da Efapel, provavelmente o ciclista da W52-FC Porto teria ganho ainda mais tempo a todos. A verdade é que isto foi inesperado para todos, até para a sua própria equipa, visto que, como é conhecido, Gustavo Veloso era/é o líder indiscutível. Veremos como a equipa e o próprio Vinhas abordarão a segunda metade da corrida, mas, até agora, ao dia de hoje, o português tem aguentado.

Surpresa inesperada para Rui Vinhas, conseguindo a camisola amarela e uma boa vantagem para todos os concorrentes  Fonte: Volta a Portugal
Surpresa inesperada para Rui Vinhas, conseguindo a camisola amarela e uma boa vantagem para todos os concorrentes
Fonte: Volta a Portugal

Após tudo isto, nada melhor do que chegar à etapa da Senhora da Graça, quarta etapa, e tirar algumas dúvidas acerca da situação da corrida. Estaria Rui Vinhas preparado para manter a camisola? Ou Gustavo Veloso continuaria a ser o único líder e o único ciclista protegido da equipa? Que decisão a W52-FC Porto iria tomar daqui para a frente? Será que os maiores adversários poderiam aproveitar toda esta situação? Provavelmente eram algumas perguntas que passavam pela mente dos ciclistas e dos fãs de ciclismo e desta Volta.

Gustavo Veloso não poderia ter dado uma melhor resposta a quem pudesse ter dúvidas sobre se iria deixar que Vinhas mantivesse a camisola. Após um bom ataque de Daniel Silva, o espanhol e Joni Brandão (o único a conseguir estar, até agora, tal como no ano passado, próximo do nível do último vencedor da Volta a Portugal) foram em perseguição do português. Joni tinha trabalhado muito e não aguentou uma aceleração da parte de Veloso, que conseguiu chegar ao pé do ciclista da Rádio Popular Boavista e inclusive ultrapassá-lo, vencendo uma das duas etapas mais míticas da prova.

Nota para o domínio da equipa do líder, com três ciclistas no Top5 da etapa e quatro ciclistas no Top10 da mesma. Uma autêntica “Sky” da Volta a Portugal – com as devidas diferenças, claro. Mostrou que é a equipa mais forte e com mais recursos em toda a prova; não tem sido nada fácil para os outros ciclistas contornar esta situação. Ainda mais importante do que isto: há que destacar que Rui Vinhas também esteve à altura dos acontecimentos, dando igualmente uma boa resposta a quem duvidasse da sua capacidade de se manter com a amarela depois desta etapa, e só perdeu 35 segundos para o seu colega de equipa, mantendo, assim, a camisola amarela.

Portanto, com base nisto tudo, é possível concluir que o português terá de continuar a fazer pela vida, porque o espanhol não está ali para servir de apoio a nenhum colega, porque ele é que era o líder à partida para esta Volta. Por circunstâncias felizes, Vinhas tem aqui uma possibilidade incrível de vencer, inesperadamente, uma Volta a Portugal. Resta-lhe contar com algum apoio da equipa e com as suas próprias capacidades para tal. Provavelmente, tal como previsto, teremos esta Volta decidida no contrarrelógio final, onde Veloso tem mostrado ser muito melhor do que a maioria da concorrência.

Vitória importante para Gustavo Veloso no alto da Senhora da Graça  Fonte: Volta a Portugal
Vitória importante para Gustavo Veloso no alto da Senhora da Graça
Fonte: Volta a Portugal

Depois desta etapa desgastante, ainda antes do dia de descanso, havia a etapa que ligava Lamego a Viseu, a quinta etapa. Para felicidade do pelotão, esta é a etapa mais pequena em toda a corrida. São Macário e a Serra da Arada fizeram mais “estragos” do que o previsto e levaram a que apenas 26 ciclistas chegassem ao fim quase todos juntos (o 27.º ciclista chegou oito minutos depois).

Vitória na etapa para Vicente de Mateos, ciclista que, há dois anos atrás, tinha sido expulso da corrida nesta mesma etapa. Rinaldo Nocentini, de uma forma excelente e também pouco esperada, quase vencia ao sprint, mas o espanhol, como esperado, foi um pouco mais rápido do que o italiano e líder de equipa do Sporting-Tavira. Francesco Gavazzi ficou com o terceiro lugar da etapa, sendo que os colegas Daniel Mestre e Joni Brandão vieram logo a seguir.

Na geral individual, após o dia de descanso e à partida para uma etapa que se prevê duríssima e que irá passar duas vezes pela Torre e terminar na Guarda (uma mudança algo surpreendente noutra etapa mítica da nossa Volta), Rui Vinhas segue com vantagem de dois minutos e 45 segundos para Gustavo Veloso e três minutos e dois segundos para Joni Brandão. Daniel Silva (a idade de Rui Sousa começa a “pesar” e este ciclista da Boavista tem feito um grande trabalho, até agora), João Benta (excelente trepador) e Amaro Antunes (tem tentado fazer jus às elevadas expetativas depositadas nele, ainda para mais depois de alguma “quebra” do seu colega Marque nalgumas etapas) seguem-se na classificação.

Vicente de Mateos “lutou” bastante para ter finalmente uma vitória Fonte: Volta a Portugal
Vicente de Mateos “lutou” bastante para ter finalmente uma vitória
Fonte: Volta a Portugal

Tendo em conta toda a classificação, ainda iremos ter algumas alterações, pelo menos no que ao Top10 diz respeito (ciclistas como Nocentini – a etapa de hoje é bem adaptada às suas caraterísticas -, Vilela, Marque, Belda ou Torres, por exemplo, terão uma palavra a dizer, ainda).

Continuem por aí a acompanhar a “Grandíssima”. Espero que hoje possamos ter um grande espetáculo na etapa com passagem pela Torre (se uma já é desgastante, imaginem duas vezes…) e chegada difícil à Guarda. Depois, provavelmente tudo se decidirá na última etapa, no contrarrelógio individual com 32 quilómetros.

Foto de Capa: Volta a Portugal

Nuno Raimundo

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