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Volta a Portugal 2016: Uma “Grandíssima” contra o tempo

Nuno Raimundo · 10 min

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Está de regresso a Volta a Portugal em bicicleta! O momento alto para o calendário do ciclismo nacional, pese embora a maior qualidade existente na Volta ao Algarve. Novamente, entre o Tour e a Vuelta, e a terminar já com os Jogos Olímpicos a decorrerem, eis que surge a “Grandíssima”. Desde o dia 27 de Julho ao dia 7 de Agosto poderemos acompanhar pelas estradas portuguesas mais uma prova que se preverá equilibrada entre os favoritos.

Em termos de percurso, ao contrário da disputa entre os principais candidatos, podemos considerar que é algo desequilibrado, principalmente tendo em conta os últimos anos. A Senhora da Graça será, novamente, o ponto alto da corrida e a chegada à Torre foi “transformada” em dois pontos de passagem numa das etapas. Além disto, são cerca de 36 kms que iremos ter de contrarrelógio nesta edição, o que é demasiado para um conjunto com muitos trepadores. São igualmente de destaque as poucas etapas para uma devida chegada em pelotão compacto.

Provavelmente será mesmo no CR que irá ser decidida esta Volta, o que é uma pena, porque teríamos espaço para bastante mais espetáculo nas médias e altas montanhas. Ainda assim, espero estar enganado, porque realmente é importante que possamos ter espetáculo do início ao fim e não uma prova onde um ciclista vença por ser um excelente contrarrelogista, e que depois saiba defender-se na montanha. Acho que isso poderá retirar um pouco do que esta prova tem para nos dar.

Esta 78.ª edição começa e termina, então, com um exercício contra o tempo. Tudo se inicia em Oliveira de Azeméis com um contrarrelógio de cerca de 3,6 kms e onde um puro contrarrelogista poderá levar a primeira camisola amarela da Volta. Após este prólogo, na etapa seguinte, em Ovar, teremos uma etapa até Braga, que poderá dar a vitória (e a liderança) a um ciclista que se tenha defendido bem no CR e que aproveite esta oportunidade para atacar, por um dia, a amarela. Provavelmente, um puncheur será o mais indicado para esta primeira etapa (por exemplo, o português Filipe Cardoso – designado como o “Sagan Português” – ou José Gonçalves terão uma palavra a dizer, parece-me).

O “Sagan Português” quererá voltar a ser um dos principais animadores da Volta (dentro e fora dela)  Fonte: Filipe Cardoso
O “Sagan Português” quererá voltar a ser um dos principais animadores da Volta (dentro e fora dela)
Fonte: Filipe Cardoso

Na segunda etapa, iremos ter uma ligação entre Viana e Fafe, onde o pelotão irá encontrar um dos troços mais famosos presentes no Rali de Portugal, o “Salto da Pedra Sentada”, tendo, então, nessa parte, uma montanha de segunda categoria a menos de 20 kms para o fim e que será decisiva para o fecho da etapa, deixando, possivelmente, alguns puros sprinters fora da luta pela vitória.

Mais uma etapa e mais um perfil com algumas montanhas pelo meio: uma terceira etapa de média montanha que ligará Montalegre a Macedo de Cavaleiros e cuja principal dificuldade reside a cerca de 36 kms para a chegada à meta, num percurso pela Serra de Bornes.

Finalmente, depois de umas etapas algo acidentadas mas que, na teoria, não devem ter mexido muito com a geral individual, chega a tão proclamada quarta etapa que levará o pelotão desde Bragança até à mítica Senhora da Graça. Iremos ter as primeiras grandes diferenças entre os maiores candidatos à vitória e uma luta intensa entre os puros trepadores para vencer a etapa mais importante desta Volta a Portugal! Será, em princípio, um Domingo com bastantes pessoas na estrada, a apoiarem as equipas e os corredores, assim esperam os fãs do ciclismo. Homens como, por exemplo, Gustavo Veloso, Alejandro Marque, Joni Brandão ou Rinaldo Nocentini quererão estar ao seu melhor nível, sem dúvida.

Antes do único dia de descanso, a competição irá regressar a Lamego, para a quinta etapa, 5 anos depois. Região que acolhe a partida para a mais pequena etapa desta edição (cerca de 153 quilómetros). Viseu será o ponto de chegada e se os sprinters passarem bem a Serra da Arada terão uma verdadeira possibilidade de discutirem a etapa entre si, isto se não deixarem uma fuga vingar.

A sempre presente, bela e exigente subida à Senhora da Graça  FONTE: pedestrianismo.blogspot.pt
A sempre presente, bela e exigente subida à Senhora da Graça
Fonte: pedestrianismo.blogspot.pt

Após o aguardado dia de descanso, não haverá tempo para mais “conforto” entre o pelotão, porque logo na sexta etapa enfrentarão a ida de Belmonte até Guarda, com duas passagens pelo meio na também mítica Torre. Com a subida logo aos primeiros quilómetros, não será de admirar se realmente uma fuga for bem-sucedida. Tudo também dependerá dos homens candidatos à classificação geral individual e das suas respetivas equipas. A verdade é que, apesar de, infelizmente, não terminar no alto da Torre, a etapa continuará a ser incrivelmente árdua, tendo que os ciclistas passar pelo ponto mais alto de Portugal Continental por duas vezes numa só etapa e com ambas a terem a consideração de “categoria especial”.

A sétima etapa oferece um perfil muito mais calmo para todo o pelotão e, finalmente, uma etapa digna para qualquer puro sprinter (a melhor ao longo de toda a Volta). Depois de uma etapa, certamente, desgastante, é de se acreditar que iremos ter os favoritos a controlarem as energias para os dias finais, sendo assim, as equipas dos sprinters tentarão controlar a corrida para, então, chegarem ao fim e discutirem entre si a vitória em Castelo Branco – sendo que irão partir de Figueira de Castelo Rodrigo (outro regresso, desta vez, após quase 20 anos).

A oitava etapa é a mais longa de todas, com mais de 200 quilómetros a terem de ser percorridos pelo pelotão. Há 5 anos que não existia uma etapa tão longa, sendo que a Nazaré, como ponto de partida, e a Arruda dos Vinhos, como ponto de chegada, estrear-se-ão na Volta a Portugal.

Chegamos, então, ao fim de semana decisivo para as contas de tudo o que se passará na Grandíssima. Dia 6 de Agosto, na nona etapa, será um dia histórico para a nossa Volta, que finalmente irá voltar a terras alentejanas, 8 anos depois, neste caso, mais propriamente em Alcácer do Sal, onde estará a partida, e em Setúbal encontraremos o final, sendo que a bela subida ao Alto da Arrábida, a poucos quilómetros do fim, poderá surpreender alguns ciclistas e ter um papel decisivo no fecho da jornada.

Depois do regresso a terras alentejanas, os ciclistas, perto do final, subirão ao Alto da Arrábida Fonte: caminhadasnosporca.blogspot.com
Depois do regresso a terras alentejanas, os ciclistas, perto do final, subirão ao Alto da Arrábida
Fonte: caminhadasnosporca.blogspot.com

Por fim, Lisboa volta a acolher a chegada da última etapa da Volta, como de costume. É ali que irão ser coroados os vencedores e onde iremos ter mais uma etapa de corrida contra o tempo. Um CR crucial para as contas finais e que poderá “baralhar” algumas posições da geral individual. Os cerca de 32 quilómetros irão começar em Vila Franca de Xira e terminar em plena Praça do Comércio.

É um percurso que não parece tão duro como noutras ocasiões, até pelas duas etapas e vários quilómetros de contrarrelógio e pelas poucas chegadas ao alto, mas que se prevê muito difícil de controlar, como vimos, por exemplo, uma equipa como a Sky fazer no Tour (comparações à parte, claro). Este ano, haverá maior concorrência e está prevista uma maior disputa pela camisola amarela.

Uma das maiores curiosidades este ano será ver a “luta” entre Sporting e Porto, que se juntaram às equipas de Tavira e W52, respetivamente. Um duelo que promete, sem dúvida. Depois, há equipas como a Efapel, Boavista, Louletano ou a LA, que quererão estar na discussão da prova. Além disso, ainda temos equipas estrangeiras que vêm para tentar abrilhantar a Volta, como a Caja Rural, a Androni, a Drapac ou a Team Roth, que são as 4 equipas do nível Pró-Continental (o nível entre o das equipas portuguesas e o World Tour) presentes nesta corrida.

Em relação aos tais favoritos, Gustavo Veloso tem de ser considerado o principal candidato, até pelo facto de vir de duas vitórias consecutivas na nossa Volta. O espanhol da W52-FC Porto terá uma das melhores equipas em prova a apoiá-lo, mesmo tendo perdido Délio Fernandez, tendo como “reforços” os portugueses Ricardo Mestre e Rafael Reis, sendo este último um especialista nos contrarrelógios e indo para além disso, com a curiosidade de ser, nesta altura, o líder do ranking nacional deste ano.

Nessa mesma equipa, apesar do líder ser o espanhol Veloso, há que salientar que, além do próprio Rafael Reis, nomes como António Carvalho (excelente trepador) ou Raúl Alárcon poderão terminar nos melhores classificados, não estivesse esta equipa para a Volta à Portugal quase como a Sky está para o Tour.

Nocentini e o Sporting-Tavira prometem um bom “duelo” contra os rivais Veloso e a W52-FC Porto Fonte: valdarnopost.it
Nocentini e o Sporting-Tavira prometem um bom “duelo” contra os rivais Veloso e a W52-FC Porto
Fonte: valdarnopost.it

Outro dos candidatos é o italiano Rinaldo Nocentini. O ciclista do Sporting-Tavira é bastante experiente, com 38 anos, e “especialista” em “terrenos acidentados”, ou seja, terá aqui várias oportunidades para brilhar. Por exemplo, no ano passado, foi dos melhores classificados na Amstel Gold Race e na Fléche Wallone, clássicas de renome na Primavera. Além disto, venceu o Troféu Joaquim Agostinho, que antecede esta Volta a Portugal, frente a alguns dos seus maiores adversários nesta Volta, como Gustavo Veloso.

Alejandro Marque, que venceu a prova em 2013 e no ano passado foi terceiro classificado, é igualmente outro dos candidatos a vencer a prova. Este ano está na LA Alumínios-Antarte e um dos seus colegas é outro dos candidatos a vencer a prova, Amaro Antunes. Espera-se muito deste português, que fez uma Volta ao Algarve de grande valor e poderá ser o próximo português a ir correr para o estrangeiro. Da equipa da Efapel (que volta a trazer um conjunto bastante sólido), temos Joni Brandão, novamente, como o líder da equipa. Um ciclista que tem evoluído bem de ano para ano, sendo que no ano passado foi provavelmente o ciclista que mais luta deu a Veloso e, este ano, continua a ser dos principais candidatos a vencer, até por estar igualmente na calha para ir correr para o estrangeiro, tal como Amaro. Portanto, atenção igualmente a este ciclista português.

Outro dos crónicos candidatos na Volta a Portugal é o português Rui Sousa da equipa da Rádio Popular-Boavista. Já com 40 anos ainda continua a procurar concretizar o sonho, cada vez mais difícil, de vencer a Volta a Portugal. Na edição passada, foi quarto classificado. Tem na sua equipa bons ciclistas como a promessa Frederico Figueiredo, Daniel Silva ou César Fonte.

 

Aos 40 anos e após 5 vezes no pódio, Rui Sousa quer tentar finalmente vencer a prova  Fonte: tamegasousa.pt
Aos 40 anos e após 5 vezes no pódio, Rui Sousa quer tentar finalmente vencer a prova
Fonte: tamegasousa.pt

Da equipa Louletano temos o líder João Benta, que é um dos ciclistas que mais e melhor ataca no pelotão nacional. Curiosidade para saber se melhora o 20.º lugar alcançado no ano passado. Até poderá ser um dos candidatos à camisola da montanha, veremos.

Nas equipas estrangeiras, destaque, na Caja Rural, para o líder da equipa, José Gonçalves, com um percurso bem à sua medida. Tem Ricardo Vilela (que, no ano passado, terminou fora do top’10, mas continua a ser um corredor com qualidade), Eduard Prades ou o seu gémeo Domingos Gonçalves para ajudarem. Esta prova também irá servir para preparar bem a Vuelta, não só para o José, como igualmente para a própria Caja Rural.

Da Androni temos Franco Pellizotti ou Rodolfo Torres, da Drapac temos Brenden Canty ou Lachlan Norris e da Team Roth temos o português Bruno Pires ou David Belda. Outros possíveis candidatos ao top’10 e a tentarem “marcar” esta Volta a Portugal poderão ser: Heiner Parra (jovem colombiano de grande qualidade da equipa Boyaca Raza), Garikoitz Bravo (líder da equipa da Euskadi), Nikita Stalnov (este jovem cazaque deu luta ao primeiro lugar de José Gonçalves na Volta à Turquia e irá liderar a “equipa B” da Astana), Hernâni Broco (apesar da qualidade de Marque e Antunes, este ciclista de 35 anos, da LA, tem qualidade e já a demonstrou em várias outras edições da nossa Volta, sendo que, no ano passado, terminou em 9.º lugar na classificação geral) ou Stefan Schumacher (o líder da Christina Jewelry é outro ciclista bastante experiente e que poderá levar um bom resultado para a sua equipa).

José Gonçalves tem nesta edição um excelente percurso para se destacar Fonte: José Gonçalves
José Gonçalves tem nesta edição um excelente percurso para se destacar
Fonte: José Gonçalves

Em termos de sprints ou para chegadas ao sprint, os ciclistas que mais se destacam são: Davide Vigano (o italiano da Androni, que venceu uma etapa na edição anterior e, em 2014, foi o vencedor da camisola verde) ou Francesco Gavazzi (também da Androni – equipa que apresenta duas excelentes opções para as poucas chegadas ao sprint, ainda assim, Gavazzi também é um ciclista que consegue andar bem em média montanha), Samuel Caldeira (W52-FC Porto), David de la Fuente (Sporting-Tavira) ou Jesus Ezquerra (também do Sporting-Tavira, sendo que nenhum dos dois é um puro sprinter, mas são ambos ciclistas rápidos neste tipo de chegadas e qualquer um dos dois poderá surpreender) Filipe Cardoso (Efapel), Andrea Pasqualon (Team Roth), Yannis Yssaad (Armée de Terre), Vicente de Mateos (Louletano), César Fonte (Rádio Popular-Boavista) ou Eduard Prades (Caja Rural).

Após isto, está, então, tudo pronto para o começo da Volta a Portugal 2016. Se conseguirem, tentem apoiar os ciclistas na estrada (com a presença de Sporting e Porto, será interessante perceber o possível aumento de apoiantes) e mostrar que em Portugal também se sabe apreciar uma modalidade como o ciclismo. Comece a festa, rolem as bicicletas por essas estradas afora e siga com a nossa volta, a Grandíssima!

Foto de Capa: pedais.pt

Nuno Raimundo

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