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Vince McMahon, a carreira de um magnata sem igual #2

Diogo Valente Vieira · 9 min

Vince McMahon, a carreira de um magnata sem igual #2
Foto: WWE

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A segunda parte de uma retrospetiva da jornada sem paralelos do fundador da World Wrestling Entertainment.

UMA MUDANÇA DE ATITUDE

Em 1997, Vince McMahon respondeu ao grande sucesso da WCW ao levar a WWF para uma direção diferente, com personagens mais realistas e histórias mais ousadas. Estrelas em ascensão incluíam o grupo D-Generation X (composto por Shawn Michaels, Triple H, Rick Rude, X-Pac, Road Dogg, Billy Gunn e Chyna) e Stone Cold Steve Austin, cuja popularidade começou com a sua vitória no seu King of the Ring e o famoso discurso “Austin 3:16”.

McMahon apercebeu-se de uma mudança drástica no wrestling profissional, caracterizada por uma base de fãs mais radical e cínica. Como tal, McMahon redirecionou as histórias para um modelo mais orientado para os adultos. O conceito ficou conhecido como “WWF Attitude”, cujo início ocorreu a 15 de dezembro de 1997, com Vince McMahon a prometer ao público do «Raw Is War» uma “campanha mais inovadora e contemporânea”, que aconselharia a discrição dos pais para um público mais jovem.

Contudo, foi a conclusão da rivalidade pelo título mundial da WWF entre Bret Hart e Shawn Michaels que verdadeiramente iniciou uma mudança de paradigma para a empresa e o seu magnata. Pela primeira vez um conflito nos bastidores foi levado aos holofotes, com ambos os lutadores a realizarem entrevistas onde mencionavam divergências pessoais entre os dois.

No Survivor Series desse mesmo ano, McMahon ordenou que o árbitro concedesse a vitória e o título a Michaels como se Hart tivesse desistido. Enquanto Hart foi para a WCW, McMahon foi extremamente criticado pelos media, lutadores e fãs um pouco por todo o país.Vince McMahon acabaria por usar a controvérsia em torno do famoso Montreal Screwjob para criar a sua própria personagem, uma caricatura de si mesmo chamada de “Mr. McMahon”, um corrupto, egoísta e manipulador chefe fixado em destruir a vida de empregados desobedientes. McMahon, que, durante anos, escondeu a sua verdadeira posição de poder no seio da empresa e que era conhecido principalmente como comentador, envolveu-se em histórias da WWF, começando uma rivalidade lendária com “Stone Cold” Steve Austin, que desafiou a sua autoridade.

Após a saída de Hart, a empresa implementou um forte impulso para o estrelato do anti-herói, cuja popularidade estava a aumentar cada vez mais e era semelhante à ascensão meteórica de Hulk Hogan na década de 1980.  Essa rivalidade seria muito importante para o regresso da organização à proeminência. No final do ano, outros novos talentos começaram a surgir: The Rock, Triple H, Mick Foley e Kane fortaleceram o panorama principal da WWF, enquanto grupos como D-Generation X e Nation of Domination ajudaram na luta contra a empresa rival, WCW.

Como resultado, a WWF de repente voltou a estar no centro das atenções da cultura pop nacional, atraindo milhões de espectadores para suas transmissões semanais do «Monday Night Raw», que se classificou entre os programas de maior audiência na televisão a cabo no final da década de 1990. Incorporando uma linguagem mais agressiva, agressões gráficas e estipulações controversas, a rivalidade entre Austin e Mr. McMahon foi a história central da Attitude Era, com violência e corrupção.

Para além disto, McMahon permaneceu ativo no ringue, participando em outras rivalidades com The Rock (o único lutador com a mesma popularidade de Steve Austin), Mick Foley e Undertaker, juntamente com alianças forjadas com Triple H e os D-Generation X (conhecido como a McMahon-Helmsley Era).

Mais tarde, o poderoso empresário saiu vitorioso contra Ted Turner e a World Championship Wrestling (WCW) nas «Monday Night Wars» após uma perda inicial de audiências de 84 semanas para a WCW. A 23 de março de 2001, Vince adquiriu todas as ações da WCW, extinguindo assim a sua competição direta.

A WrestleMania X-Seven é considerada o último dia da “Attitude Era”. Com a WCW comprada pela WWF e a ECW tendo sido incorporada à organização – com o dono da ECW, Paul Heyman, a trabalhar como comentador, a WWF tornou-se na única pempresa de wrestling profissional nos Estados Unidos, com um produto de nível mundial.

Durante a história da Invasion, Shane McMahon (em kayfabe) adquiriu a World Championship Wrestling (WCW) em abril de 2001 e membros da WCW começaram a invadir a WWF. Pela primeira vez desde as «Monday Night Wars», a compra da WCW pela WWF tornou possível uma grande disputa interpromocional americana, mas esta invasão acabou por ser uma decepção para muitos fãs.

Uma das principais razões para esta desilusão foi o facto de que muitas das grandes estrelas da WCW ainda estavam sob contrato com a antiga empresa-mãe da WCW, AOL Time Warner, em vez da própria WCW, e os seus contratos não foram incluídos na compra da empresa. Esses lutadores optaram por ficar de fora dos ringues durante a duração dos seus contratos e serem apoiados financeiramente pela AOL Time Warner, em vez de trabalhar para a WWF por um salário mais barato.

A TRANSIÇÃO PARA A “RUTHLESS AGGRESSION ERA” E AINDA MAIS ESCÂNDALOS

Em 2002, a World Wrestling Federation perdeu um processo iniciado pela World Wildlife Fund relativamente à marca WWF. A World Wrestling Federation foi forçada a mudar de nome e, a 6 de maio de 2002, a empresa passou a ser reconhecida oficialmente por World Wrestling Entertainment Inc (WWE).

Com o fim das «Monday Night Wars», a WWE foi forçada a avaliar os desafios que surgiram com a aquisição da WCW e a saída de lutadores renomados como “Stone Cold” Steve Austin e The Rock, além de tomar a decisão ousada de dividir o sua plantel de atletas entre duas marcas distintas, Raw e SmackDown.

À semelhança do ocorrido com a transição para a “New Generation Era”, a popularidade do wrestling profissional voltou a diminuir. Em resposta, a empresa introduziu a “Ruthless Aggression Era” a 24 de junho de 2002, um período que ainda apresentava muitos elementos semelhantes ao seu antecessor, a “Attitude Era”, incluindo os níveis de violência gráfica, mas em que também havia menos conteúdo politicamente incorreto e um ênfase adicional nos aspetos técnicos da luta livre.

Consequentemente, à medida que a organização embarcava numa nova fase, a criação de novos conceitos inovadores como Elimination Chamber, Money in The Bank e Taboo Tuesday revigoraram a programação da WWE.

Para complementar, os tempos iniciais do sistema de desenvolvimento da WWE na OVW, juntamente com outros experimentos não convencionais, como o WWE Tough Enough, deram a conhecer ao fãs  uma nova geração de estrelas liderada por Brock Lesnar, John Cena, Batista, Randy Orton e The Miz.

Esta era ficou simultaneamente marcada pelo regresso de um velho conhecido que foi presença assídua durante a “New Generation Era” e a “Attitude Era”. Após um hiato de quatro anos do ringue devido a uma cirurgia nas costas, Shawn Michaels voltou à WWE para escrever um novo final para a sua lendária carreira.

Todos estes lutadores, novos e veteranos, acabaram por ter rivalidades duradouras com Vince McMahon, o que lhes permitiu acimentar a sua posição de membros icónicos na história da empresa. Infelizmente, este nova direção em que o empresário colocou a sua organização de entretenimento desportivo foi afetada pela incosistência na qualidade do produto e por escândalos que danificaram o prestígio da WWE.

A 1 de fevereiro de 2006, McMahon foi acusado de assédio sexual por uma trabalhadora num bar d em Boca Raton, Flórida. A princípio, a acusação parecia não ter fundamento porque McMahon estava em Miami para o Royal Rumble de 2006 na época. Logo foi esclarecido que o suposto incidente foi relatado à polícia no dia do Rumble, mas na verdade ocorreu no dia anterior. A 27 de março, uma estação de televisão da Flórida informou que nenhuma acusação seria feita contra McMahon como resultado da investigação.

Contudo, o pior ainda estaria por vir, ainda que não estivesse diretamente relacionado com o proprietário da World Wrestling Entertainment. Durante um período de três dias, de 22 a 24 de junho de 2007, Chris Benoit, um lutador profissional canadiense de 40 anos empregado pela WWE e com residência em Fayetteville, Geórgia, assassinou a sua esposa Nancy e o seu filho de 7 anos, Daniel, antes de se enforcar.

Desde o suicídio de Benoit, inúmeras explicações para as suas ações foram propostas, incluindo encefalopatia traumática crônica grave (ETC), uso de esteróides e transtorno causado pelo uso de álcool. O incidente levou a uma investigação federal sobre o uso indevido de esteróides no wrestling profissional.

O antigo lutador Christopher Nowinski afirmou que Benoit pode ter sofrido traumatismos cranianos repetidos e não tratados ao longo ae sua carreira enquanto atleta, provocando  um estado mental instável. O nome de Benoit foi apagado dos registos da empresa, juntamente com as suas conquistas, mas os danos à reputação da WWE já haviam sido causados.

O FIM DA LINHA NA “PG ERA”

Em 2008, a WWE entrou na “PG Era”, um período em que se apresentou um conteúdo caracterizado pelo politicamente correto e que afastou cada mais fãs da empresa, para benefício de organizações como a Ring of Honor (ROH) e a New Japan Pro Wrestling (NJPW). McMahon também passou a ser uma voz mais ativa na direção criativa da empresa, abondonando progressivamente a sua atividade no ringue.

As suas aparições tornaram-se cada vez mais esporádicas, com exceção para a participação parcial na rivalidade entre CM Punk e John Cena (2011 – 2013); a aliança com Triple H e Stephanie McMahon para formar a Authority (2013 – 2015) e os desentendimentos com Roman Reigns e Shane McMahon (2015 – 2018).

Em 2019, a All Elite Wrestling de Tony Khan (mais conhecida como AEW) surgiu como a segunda maior empresa de wrestling profissional no mercado depois da WWE, originando uma competição direta que dura até hoje.

UM OPORTUNISTA SEM ESCRÚPULOS OU UM GÉNIO INCOMPREENDIDO?

No final de contas, Vince esteve no comando da organização que ajudou a fundar durante 42 anos, tendo vencido um combate de Royal Rumble em 1999, para além da conquista do Título Mundial da WWF em 2000 e do Título Mundial da ECW em 2007.

Certamente que McMahon é uma figura que divide opiniões. Por um lado, muitos lembram-se dos confrontos com Steve Austin (merecedores do prémio de rivalidade do ano em 1998 e 1999); da luta No Holds Barred na WrestleMania 22 contra Shawn Michaels (considerada o combate do ano em 2006) ou até mesmo as rivalidades com Ric Flair e Hulk Hogan durante os primórdios da “Ruthless Aggression Era”.

Em oposição, o tratamento injusto e consequente saída para a AEW de lutadores como Cesaro; Aleister Black; Keith Lee e Dean Ambrose provocou a fúria de uma base de fãs apaixonante e modernizada que procura histórias mais cativantes, longe do politicamente correto que contaminou a WWE durante a “PG Era”. Isto sem referir as diversas controvérsias com a justiça em que Vince se envolveu nos últimos anos.

Para o bem e para o mal, resta agradecer o contributo do homem que proporcionou entretenimento constante durante quatro décadas. Para Triple H e Stephanie McMahon, fica a missão de superar o legado deixado pelo seu antecessor.

Foto de Capa: WWE

Diogo Valente Vieira

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