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Nem a pandemia deteve o Imparável Samurai | Saltos de Esqui

Diogo Rodrigues · 11 min

Foto: FIS Ski Jumping

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Era após a estreia do austríaco Jan Hoerl na galeria de vencedores na Taça do Mundo de Saltos de Esqui, feito esse obtido em Wisla na Polónia, que os destemidos “homens pássaro” voltavam à ação. O local para mais um fim-de-semana de emoções fortes seria a cidade alemã de Klingenthal.

A estrutura que acolheria o certame seria a moderníssima Vogtland Arena, um trampolim que tem a particularidade de ter uma rampa mais curta, o que leva a que o impacto aquando da aterragem seja mais suave, facto pelo qual serve de base de treino para algumas das seleções mais renomadas da modalidade.

O trampolim era ligeiramente maior que o até agora enfrentado pelos atletas na presente edição do campeonato, visto que estávamos em presença de um K140 que via o K-Point estar localizado aos 125 metros, sendo que a melhor marca aqui voada datava de 2011 e era pertença do já retirado Michael Uhrmann da Alemanha que realizara 147.5 metros.

De referir que o “cardápio” a ser servido durante os três dias de competição incluiria: a qualificação para a prova individual de sábado, a respetiva competição e ainda mais uma qualificação realizada domingo, instantes antes de novo apronto individual.

Realce-se ainda dois fatores que poderiam influir com o decorrer do evento e posterior resultado: primeiramente e à semelhança do ocorrido em outros eventos desportivos, devido ao agravamento da situação pandémica no país, as bancadas estariam despidas, algo que também parece vir a ser uma realidade durante o Torneio dos Quatro Trampolins.

Em segundo lugar, as baixas temperaturas sentidas que poderiam dar origem a uma acumulação excessiva de neve nas calhas do magnífico recinto.

De saudar o regresso à atividade do “samurai”, Ryoyu Kubayashi, que cumprira um período de 15 dias de quarentena após contrair infeção de COVID-19 depois de conquistar o triunfo no primeiro dia de ação em solo finlandês.

Tudo arrancaria na sexta-feira, dia em que 62 participantes de 19 nações tentariam carimbar de forma segura e sem sobressaltos a presença na prova  a “doer” do dia seguinte.

Numa ronda que viu os registos serem realizados do portão 15 e em que o vento, ora atribuindo penalizações ora bonificações, nunca foi fator perturbador do normal funcionamento da disputa.

Quem ficaria com a sua conta bancária um pouquinho mais recheada, visto receber um cheque de 3.000 francos suíços, qualquer coisa como pouco mais de 2.040 euros, seria Ryoyu Kubayashi após voar uma mega distância de 133m, algo que ia dando pistas abonatórias quanto à forma por este patenteada.

O segundo melhor voo ia pertencendo ao caseiro e líder do campeonato Karl Geiger que anotava menos dois metros em relação à marca do atleta nipónico. Apostado em voltar aos resultados de excelência  após ter deixado a desejar na competição de “casa” tínhamos Kamil Stoch, campeão polaco que assinaria o terceiro melhor registo do dia, 130m de elevada nota artística!

O quarto lugar seria conseguido por um inspirado suíço Killian Peier que averbara 129.5m, meio metro mais que o campeão olímpico em trampolim normal, Andreas Wellinger que conseguia desta forma uma das melhores atuações da temporada, que, no entanto, havia que ser confirmada nos dias seguintes.

Ainda a bom nível, ostentando a sexta melhor pontuação desta ronda preambular ficaria o regressado helvético de 40 anos, Simon Ammann que registava 131m, isto após não ter marcado presença na tripla ronda de Wisla. Nota ainda para os germânicos Stephan Leyhe e Pius Paschke e para os austríacos Stephan Kraft e Daniel Huber dentro dos dez melhores, com o mais jovem a “perder gás” depois de um excelente arranque de temporada.

Halvor Egner Granerud seria apenas 11.º classificado, ele que tentaria pôr fim a um longo jejum de três provas sem pontuar. Piotr Zyla e Markus Eisenbichler respetivamente 12.º e 13.º não iam assustando a concorrência à semelhança de Jan Hoerl, apenas com o 32º salto mais distante da ronda, com Anze Lanisek a posicionar-se em 40.º recorrendo a serviços mais que mínimos!

Anders Fannemel daria sequência a uma temporada desastrosa, não conseguindo finalizar entre os melhores 50 contrariamente ao efetuado por Sergey Tkachenko, atleta do Cazaquistão que conseguiria pela primeira vez ultrapassar uma qualificação na presente temporada ou Alessandro Batby, francês, que apenas na segunda prova em que participava na Taça do Mundo de Saltos de Esqui se apuraria para a prova de sábado, algo replicado pelo inconstante búlgaro Vladimir Zografsky.

De resto, todos os saltadores de elite com melhores ou piores atuações estariam apurados para o sexto evento individual do campeonato.

A bela, gelada e branquinha Klingenthal era palco para uma contenda que se esperava renhida, emocionante e de desfecho imprevisível, visto que nas provas até então disputadas nenhum dos contendores havia sido capaz de repetir a subida ao degrau mais alto do pódio!

Com Karl Geiger a ter por missão defender o colete de líder da geral e com as condições a serem idênticas às vislumbradas no dia anterior, quem havia somado uma pontuação mais expressiva, concluídos os primeiros 50 saltos levados a cabo do portão 18 seria o “baixinho” Kraft, com o mais renomado dos atletas do país do esqui a contabilizar 138m.

Já o veterano de 36 anos Manuel Fettner, seu compatriota, ia estando a 6.4 pontos do chefe de fila, com o surfista a realizar uma marca de 135.5m, um metro menos face a Ryoyu Kubayashi que ia fechando o pódio. Ainda dentro dos cinco melhores registos iam figurando os nomes de Kamil Stoch, com o detentor dos Quatro Trampolins a assinar 134m e Halvor Egner Granerud, quinto com 137m.

Também com ambições a medalhas, dadas as escassas diferenças que os separavam desse objetivo, estavam dois nomes de vulto dos bávaros: Eisenbichler ia segurando o sexto posto anotando um salto de 132.5m seguido por Geiger que fazia menos meio metro.

Já mais longe do pódio iam militando Lindvik em oitavo para a Noruega, Leyhe em nono para os anfitriões enquanto que Jan Hoerl era décimo colocado para os austríacos numa luta que não ia defraudando as espectativas quanto aos lugares de cima da tabela.

A registar os resultados pouco moralizadores de: Robert Johanson, com o “bigode viking” a ser apenas 11.º classificado, Pius Paschke apenas 15.º ou para o caseiro Wellinger que ia desiludindo em relação ao realizado na qualificação quedando-se pelo posto 17.

Contrariamente Ammann que demonstrava que a pausa de uma semana lhe havia trazido benefícios ao garantir mais uma presença numa ronda final que veria Anze Lanisek e Daniel Andre-Tande respetivamente 28.º e 26.º colocados ficarem com remotas possibilidades em fechar num lugar condizente com o seu real valor.

Quem abandonaria apenas ao cabo de um salto de esqui seriam nomes como os do russo Danil Sadreev, que o fazia pela primeira ocasião na presente temporada, o do esloveno Lovro Kos ou do seu compatriota Domen Prevc, como  baixas mais importantes a dizerem adeus a uma segunda ronda que prometia uma acérrima luta pelo triunfo!

Com a tónica do equilíbrio a manter-se inalterada, a fase inicial do segundo tramo de evento, em que o vento ia ajudando bastante à qualidade das marcas realizadas, era marcada por dois saltos bem distantes: o de Anze Lanisek, 130m, que o fariam ascender até à 20.ª posição e para o registo de Andreas Wellinger, com o atleta de Ruhpolding a voar impressionantes 139m que o fariam “trepar” até ao sexto posto, o seu melhor desempenho após ter colecionado incontáveis frustrações nos tempos mais recentes.

Contudo, seria – e após um segundo salto no qual lhe bastou gerir a vantagem de cerca de dez pontos face a Granerud, rubricando 130m – que Stephan Kraft, ex-vencedor por duas vezes da Taça do Mundo de Saltos de Esqui e por uma do Torneio dos Quatro trampolins, quem arrecadaria a 22.ª vitória de uma gloriosa carreira.

O austríaco teria a companhia no pódio de mais dois “monstros” deste desporto: Granerud que faria 137m na segunda tentativa somando a prata e de Stoch que com 133m assinava o primeiro pódio da época em mais de 40 rubricados ao longo da carreira.

A fechar o top cinco Markus Eisenbichler e Karl Geiger, sendo que Eisi faria um segundo voo de 137m, ao passo que o líder na corrida ao grande globo de cristal averbaria menos dois metros, eles que seriam respetivamente quarto e quinto colocados.

Ryoyu Kubayashi dava boas indicações no pós COVID-19 ao conquistar uma saborosa sétima posição. A fechar os dez melhores desta que era a primeira de duas provas individuais do fim-de-semana ficariam: Robert Johanson, Marius Lindvik e Jan Hoerl. Dececionando , bem longe dos postos cimeiros, terminariam Piotr Zyla e Daniel Andre-Tande, que não revelavam capacidade para corresponder às espectativas neles depositadas.

No entanto, o maior “flop” desta segunda ronda era mesmo Manuel Fettner, que quem sabe acusando a pressão, deitaria tudo a perder com um segundo salto sob o K-Point, falhando inclusive o top 15. Agora já todos pensavam no dia seguinte no qual teriam de cumprir três saltos de boa valia!

Com o dia a iniciar bem cedo, quem arrecadaria a vitória na qualificação para a prova a decorrer horas mais tarde era o nipónico Ryoyu Kubayashi realizando 137m. A vice-liderança, diga-se bastante, surpreendente estava na posse do suíço Killian Peier que totalizava 135m, menos um que o líder da geral Karl Geiger mais penalizado pelas condições das quais dispusera face ao rival helvético.

A fechar os cinco melhores registos nota para os germânicos: Eisenbichler com 132m e para o militar Stephan Leyhe, com o número três dos alemães no decurso da temporada  vigente a ficar-se pelos 133m. Fora da prova, embora por motivos diferentes, ficariam o norueguês Anders Fannemel que registaria um salto de 105.5m e Kamil Stoch que se vira afastado do evento a contas com uma crise severa de sinusite, algo que após diagnóstico médico se revelou motivo para a ausência do atual detentor da “águia dourada”.

No polo oposto, sendo enormes surpresas ao obterem lugares de qualificação tínhamos Dean Decker, Norte-americano que conseguia à justa, apenas com recurso a 113.5m, passaporte para a primeira competição por ele disputada em todo o campeonato até ao momento, o cazaque Sergey Tkachenko  e o turco Fatih Arda Ipcioglu que fazia história pela terceira vez , para um país ainda muito inexperiente nestas andanças.

Com o portão 18 a ser o escolhido pela organização, era deste modo que decorreria uma ronda 1, em que a acumulação de neve nas calhas do trampolim deixaria os saltadores em grandes dificuldades para rubricarem marcas afirmativas. Quem conseguiria debelar da melhor forma esses constrangimentos seria Ryoyu Kubayashi somando 129.5m. A escassos pontos, averbando menos metro e meio estava Halvor Egner Granerud, seguido pelo compatriota Daniel Andre-Tande que efetuara 130m.

Ainda dentro dos cinco melhores iam constando os nomes de: Philipp Aschenwald e Robert Johanson, austríaco e norueguês, respetivamente quarto e quinto posicionados que fabricavam um salto “fotocópia”, 127m. No top dez destaque para Marius Lindvik em sexto, Constantin Schmid  sétimo, Junshiro Kubayashi oitavo, Cene Prevc em nono, com o soviético Danil Sadreev a fechar o lote.

Numa ronda que via alguns atletas ficarem bem aquém do esperado Anze Lanisek ocupava apenas o posto 18 da tabela de saltos, Kraft era apenas 24.º colocado enquanto que Geiger conseguia “à pele” a qualificação para a derradeira ronda, anotando 117m que lhe valiam o 29.º registo.

Fora do momento solene estariam: Peter Prevc e Timi Zajc, ambos eslovenos que contariam com a companhia de Eisenbichler com um apronto para esquecer de somente 115.5m, que poderia fazer com que a distância para a frente do Sr. Polícia disparasse para uma margem já significativa.

Após uma primeira ronda bastante descaraterizada quanto à qualidade das marcas rubricadas, a organização optaria por aumentar o portão de saída até ao 22, algo que resultaria em pleno, pois a qualidade, valia e grandeza dos saltos aumentariam e de que forma!

Quem arrecadaria o ouro, provando que os efeitos da COVID-19 em pessoas vacinadas podem ser bem menos nocivos foi Ryoyu Kubayashi com um segundo salto de 139m. A prata ficaria nos esquis de Daniel Andre-Tande, finalmente a brindar os fãs com dois registos regulares, o segundo de 132.5m, com o compatriota Lindvik a ser bronze  assinalando 126.5m na segunda atuação.

Aliás, este seria um dia grande para a Noruega visto “intrometer” cinco saltadores entre os seis melhores, dado que Johanson concluiria em quarto fazendo 139.5m e Granerud voltaria a atuar a bom nível fechando em quinto posto com 132m, valor atingido na segunda aparição.

Quem levaria o melhor resultado da temporada após este derradeiro dia aqui em Klingenthal eram: Constantin Schmid, oitavo classificado e o austríaco Phillipp Aschenwald que embora “caindo” em termos qualitativos na sua segunda tentativa ficaria em décimo. Quem perdia muitos pontos era o líder Karl Geiger, visto ter ficado “afundado” numa modestíssima 26.ª posição, exibição repetida por Lanisek e Kraft, que também ficaram bem para lá do top 15.

Tudo contado quanto a mais um fim-de-semana competitivo. Agora a Taça do Mundo de Saltos de Esqui dirigir-se-á até à localidade suíça de Engelberg, onde decorrerão duas etapas individuais naquela que será a derradeira paragem antes da pausa natalícia!

Quem chegará na dianteira será o germânico Karl Geiger contabilizando 412 pontos, em segundo encontra-se Ryoyu Kubayashi totalizando 316 e em terceiro vai estando Stephan Kraft com 311 pontos averbados.

Fique bem e fique na companhia do seu BnR, a casa dos Saltos de Esqui e dos Desportos de Inverno!

A FIGURA

Ryoyu Kubayashi – O atleta de 25 anos parece ter aproveitado em pleno a pausa forçada da competição voltando com a mesma cadência que patenteava até ao momento em que contraiu a infeção.

Primeiro asiático a conquistar o grande globo de cristal Ryoyu parece ser, a par de Geiger o grande favorito para uma eventual reconquista da “águia dourada”, pois a forma , essa parece estar melhor que nunca! Além do mais tornou-se deste modo o primeiro praticante a bisar no decurso da presente temporada.

 

A DESILUSÃO

Anze Lanisek – O esloveno que rubricou a primeira vitória da carreira, já nesta época, viu desde então os seus resultados caírem abruptamente.

A falta de consistência é um dos principais fatores para essa perda súbita de qualidade, visto não conseguir assinar dois saltos de valia assinalável!

Anze poderá tentar em solo helvético recuperar alguma da confiança perdida, pois a arte dos grandes não é chegar à boa forma, mas sim mantê-la  e se possível aprimorá-la.

Foto de capa: FIS Ski Jumping
Diogo Rodrigues

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