cartaaberta

Caro Schumacher,

Permite-me que cometa a ousadia de te deixar umas palavras. Sendo um perfeito leigo no mundo dos automóveis, sempre procurei, desde cedo, entender o verdadeiro motivo pelo qual muitos aficionados olham para esta modalidade com olhos apaixonados. O som dos motores, as ultrapassagens, as colisões, o passar a meta… Em criança, tudo me impressionava no mundo da Fórmula 1. As minhas manhãs de domingo eram passadas em frente à TV a ver e a tentar perceber tudo aquilo que fascinava os amantes desta modalidade. Lembro-me de que não conhecia os pilotos, mas, no início, sempre que via as corridas, havia um sujeito que me intrigava. O seu uniforme era sempre tingido de vermelho e era o mais rápido de todos. Tanto me intrigou que procurei saber e interessar-me mais por ele e por aquilo que fazia nas pistas de corrida. Uma rápida intervenção do meu pai à minha jovem cultura fez-me perceber que essa pessoa que desconhecia era tão-somente o melhor piloto de sempre. Falo, claro, de ti, Michael.

Conseguiste fazer com que alguém que mal sabe distinguir um Mercedes de um BMW se interessasse por uma modalidade de carros. Contigo descobri o que significava a Ferrari para a F1. Vi o que era dominar um desporto com 7 títulos de campeão do mundo. Encontrei também novas formas de encarar uma competição, uma rivalidade e, acima de tudo, uma amizade. Mais do que um grande vencedor, és um competidor que sempre valorizou a lealdade e aqueles que contigo lutam por um lugar entre os melhores. Impossível esquecer os teus míticos duelos com Mika Häkkinen, em que quase sempre saías a ganhar.

Schumacher e Häkkinen -  rivais e amigos Fonte: tz.de
Häkkinen e Schumacher – Uma amizade mais forte do que qualquer rivalidade
Fonte: tz.de

Tu revolucionaste a Fórmula 1 e foste um verdadeiro embaixador de uma competição que cada vez mais se preocupa com o lucro e em fazer grandes prémios em regiões de interesses como o Dubai, e menos com os amantes da modalidade. Sabes tão bem como eu que antes é que ganhavam os melhores. Hoje ganham os que estão mais apetrechados nos motores. Quando decidiste sair e dar oportunidades a outros, deves saber que parte da Fórmula 1 morreu. Em 2010, quando tentaste voltar, já era tarde demais. Aquilo já não era o mesmo. Levaste o encanto e a magia da competição contigo. Tudo aquilo que antes parecia ser apenas uma corrida de carros passou a ser mais adaptado a uma corrida de interesses e de fins publicitários. Os tempos de Häkkinen, Irvine, Coulthard, Montoya, Villeneuve ou do teu irmão, Ralf, acabaram. Não voltarão, nem tão pouco conseguiremos restaurar alguma da emoção antiga que tu e todos eles trouxeram para a Fórmula 1. No entanto, todos nós guardamos a recordação desses bons tempos de competição. Com saudade, mas também muito orgulho pelos fãs que conseguiram conquistar.

És um vencedor. Sempre lutaste por fazer mais e melhor. Nunca desististe e quiseste sempre vencer. E é isso que quero que continues a fazer. Desde 29 de dezembro de 2013, que entraste numa nova corrida. Esta bem mais complicada e dolorosa. Para ti, para a tua família e para os teus fãs, que, como eu, torcem para que voltes a vencer. Mais do que ninguém, tu sabes que és capaz. Em 306 corridas na Fórmula 1, ganhaste 91 provas, fizeste 1566 pontos e garantiste 155 pódios. Agora tens a 92ª corrida para ganhar. Esta é importante e quero que a venças. Não só por mim, mas por todos aqueles que começaram a olhar para ti como um exemplo. Força, Schumi!

Faz-me um favor: só desta vez, não tentes superar o relógio. Não tens de cravar o melhor tempo na corrida. Tens de tomar todo o tempo de que precisas. Vai com calma. Mika Häkkinen” – Do teu rival e amigo de sempre.

Atenciosamente,

Mário Cagica Oliveira

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